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Vida dupla

Sombras de um Passado Presente

A manhã na mansão Cabello possuía um peso que nem mesmo o aroma de café recém-passado conseguia aliviar. Ester estava sentada no escritório de Alejandro, revisando planilhas de gastos que faziam seu estômago revirar. Rafaela não era apenas uma esposa abusiva; ela era uma parasita financeira de proporções catastróficas. Cada cheque assinado por Camila, sob a falsa promessa de "mudança", havia sido drenado em cassinos clandestinos, hotéis de luxo para amantes e joias que nunca chegaram ao pescoço da esposa.

— Você está pálida — a voz de Dinah Jane cortou o silêncio, fazendo Ester sobressaltar-se. A amiga de Camila estava encostada no batente da porta, com os braços cruzados e um olhar que parecia ler a alma de Ester.

— Só estou concentrada, Dinah — Ester respondeu, tentando manter a voz firme e ríspida que Rafaela usaria, embora a gentileza em seus olhos a traísse constantemente.

— Engraçado — Dinah caminhou até a mesa, batendo os dedos no tampo de madeira. — A Rafaela que eu conheço não sabe a diferença entre um balanço patrimonial e um cardápio de restaurante. E agora, de repente, você está aqui agindo como se fosse a CEO do ano. O que houve? Bateu a cabeça e acordou com um cérebro?

Ester fechou a pasta com força, encarando Dinah.

— Talvez eu tenha percebido que o dinheiro da Camila não é infinito. Se eu não cuidar disso, não sobrará nada para ninguém.

— Ou talvez você esteja apenas limpando o rastro para dar um golpe maior — Dinah sibilou, inclinando-se sobre a mesa. — Eu vi como você olhou para a Camila ontem à noite. Não foi o olhar de quem quer bater ou humilhar. Foi o olhar de quem quer proteger. E isso, vindo de você, é a coisa mais assustadora que já presenciei.

Antes que Ester pudesse responder, Camila entrou na sala. Ela usava um vestido leve, de cor creme, que realçava sua pele bronzeada. Seus olhos ainda estavam um pouco inchados, mas havia uma luz neles que Dinah não via há meses.

— Rafa? — Camila chamou baixinho, ignorando a tensão entre as duas. — Você... você prometeu que me ajudaria com as câmeras novas hoje.

Ester sentiu o coração derreter. Ela não entendia nada de fotografia técnica, mas entendia de luz, de perspectiva e, principalmente, de como fazer Camila sorrir.

— Claro, pequena. Só preciso terminar esses relatórios para o seu pai.

Dinah soltou uma risada sarcástica e saiu da sala, mas não antes de lançar um olhar de aviso para Ester. Quando ficaram sozinhas, Camila aproximou-se timidamente, sentando-se no colo de Ester, um gesto que Rafaela normalmente repeliria com grosseria. Ester, no entanto, envolveu a cintura de Camila com os braços, sentindo a fragilidade e a doçura da mulher em seus braços.

— Você está sendo tão boa comigo — sussurrou Camila, escondendo o rosto no pescoço de Ester. — Eu sinto que estou vivendo um sonho, mas tenho tanto medo de acordar e você ser... você de novo.

— Eu não vou voltar a ser aquela pessoa, Camila — Ester disse, e pela primeira vez, não era uma mentira de disfarce. Era uma promessa de alma. — Eu juro por tudo que é mais sagrado.

Enquanto isso, a quilômetros dali, em uma suíte de luxo nas Bahamas, a verdadeira Rafaela brindava com champanhe caro. Ao seu lado, duas mulheres riam de suas piadas cruéis.

— E a sua esposa? — perguntou uma delas, uma loira de lábios carnudos. — Não vai sentir sua falta?

— Aquela idiota? — Rafaela soltou uma gargalhada ruidosa. — Ela deve estar em casa chorando e assinando mais cheques para a "minha irmã" cuidar dela. Ester é uma tonta, sempre foi a certinha da família. Ela vai fazer o trabalho sujo, manter o velho Alejandro calmo, e quando eu voltar, eu apenas retomo meu lugar e curto os lucros.

Rafaela pegou o celular e viu as notificações de transações bancárias. Tudo parecia em ordem, exceto por uma coisa: não havia novos saques de alto valor.

— Que estranho — murmurou Rafaela para si mesma. — Ester deveria estar gastando como se não houvesse amanhã para manter o disfarce. O que aquela imbecil está planejando?

De volta à mansão, a tarde caiu de forma preguiçosa. Ester passou horas no jardim com Camila, ouvindo-a falar sobre sua paixão por capturar momentos que ninguém mais notava. Ester, com sua inteligência lógica, começou a sugerir formas de Camila organizar sua própria galeria, falando sobre investimentos e marketing de arte.

— Você fala como se realmente acreditasse no meu talento — disse Camila, parando de ajustar a lente para olhar fundo nos olhos de Ester.

— Eu acredito. Você é brilhante, Camila. Só precisa de alguém que não tente apagar a sua luz.

Camila deixou a câmera de lado e selou seus lábios aos de Ester. O beijo não tinha a urgência bruta de Rafaela; era um convite, uma exploração de ternura. Ester sentiu o desejo crescer, uma conexão que ia muito além do físico. Ela sentia que estava se fundindo àquela mulher, e a ideia de que teria que partir em breve a rasgava por dentro.

À noite, o jantar foi surpreendentemente calmo. Alejandro até permitiu que Ester comentasse sobre a nova aquisição de papel de imprensa da empresa. A inteligência de Ester era tão evidente que Alejandro começou a se perguntar se ele havia subestimado a nora por puro preconceito.

No entanto, a paz foi interrompida quando o telefone da casa tocou. O mordomo atendeu e, com uma expressão confusa, levou o aparelho sem fio até Ester.

— É para a senhora, Dona Rafaela. Uma mulher chamada Verônica. Diz que é urgente.

Ester sentiu o sangue gelar. Verônica era o nome que aparecia em várias mensagens de texto no celular de Rafaela, sempre acompanhado de ameaças de contar tudo a Camila se não recebesse dinheiro.

— Eu atendo no escritório — Ester disse, levantando-se rapidamente.

Ela fechou a porta e atendeu com a voz mais rouca que conseguiu simular.

— O que você quer, Verônica?

— Não me venha com essa, Rafaela! — a voz do outro lado era estridente. — Eu sei que você está em Miami. Eu vi você no parque hoje com a sua "esposinha". Você me prometeu que íamos fugir com o dinheiro do velho. Cadê a minha parte? Ou você me encontra agora no porto, ou eu vou bater na porta dessa mansão e mostrar as fotos que eu tenho de nós duas para a Camila.

Ester respirou fundo. Ela não podia deixar que Verônica destruísse o pouco de paz que Camila havia conquistado.

— Me encontre no porto em uma hora. Eu levarei o que você quer.

Ester desligou e sentiu as mãos tremerem. Ela não tinha o dinheiro de Rafaela — a irmã levara quase tudo. Ela precisava de um plano, e precisava rápido. Ela pegou um dos relógios caros de Rafaela e algumas joias que estavam no cofre, rezando para que fosse o suficiente para calar a mulher.

Ao sair, ela encontrou Camila no corredor.

— Você vai sair? — perguntou Camila, a preocupação estampada no rosto.

— É apenas um assunto de trabalho, Camila. Um fornecedor difícil. Eu volto logo.

— Rafa... — Camila segurou seu braço. — Tome cuidado. Você parece... assustada.

— Eu estou bem, pequena. Vá descansar.

Ester dirigiu o carro de luxo até as docas, o coração martelando contra as costelas. O porto de Miami à noite era um lugar de sombras e perigos. Ela estacionou perto de um armazém abandonado, onde uma mulher loira e de roupas vulgares a esperava, encostada em um poste de luz.

— Finalmente! — disse Verônica, aproximando-se com um sorriso de escárnio. — Onde está o dinheiro?

Ester desceu do carro, mantendo a postura firme.

— Eu não tenho o dinheiro em espécie agora. Mas tenho isso — ela estendeu a pequena sacola com as joias e o relógio. — Isso vale mais do que você me pediu. Pegue e suma da vida da Camila.

Verônica pegou a sacola, examinando as peças com ganância.

— Joias? Você está ficando sentimental, Rafaela? Ou será que a sua irmãzinha Ester te ensinou a ser caridosa?

Ester paralisou. O ar pareceu sumir de seus pulmões.

— Do que você está falando?

Verônica soltou uma gargalhada sombria.

— Você acha que eu sou burra? Eu conheço a Rafaela há anos. Eu sei que ela tem uma gêmea. E eu sei que ela planejava uma "troca" para tirar férias. Eu só não achei que você seria tão convincente, Ester.

Ester deu um passo à frente, a voz agora baixa e perigosa.

— Se você sabe quem eu sou, sabe que eu não tenho nada a perder. Se você se aproximar da Camila, eu juro que acabo com você.

— Com que mãos? — provocou Verônica. — As mãos da santa Ester? Você não tem coragem de machucar uma mosca. Mas a Rafaela... ela tem. E ela vai adorar saber que você está tentando me subornar com as joias dela.

Nesse momento, um flash de luz cortou a escuridão. Ester e Verônica olharam para o lado e viram um vulto correndo entre os contêineres.

— Quem está aí? — gritou Verônica.

Ester correu na direção do vulto, mas o que encontrou a deixou de joelhos. No chão, caída entre as sombras, estava uma câmera fotográfica. A câmera de Camila.

Ester pegou o equipamento com as mãos trêmulas. Ela olhou para a tela digital. Havia fotos dela com Verônica. Fotos do suborno. E a última foto era o rosto de Ester, capturado de perto, com uma expressão de desespero que não pertencia a Rafaela.

Camila vira tudo. Ela a seguira.

Ester voltou para casa em transe. O silêncio da mansão era ensurdecedor. Ela subiu as escadas e foi direto para o quarto. A porta estava aberta. Camila estava sentada na cama, envolta em um cobertor, olhando para o nada.

— Camila... — Ester começou, a voz falhando.

— Por que ela te chamou de Ester? — a pergunta de Camila foi um sussurro carregado de uma dor que Ester nunca quis causar.

Ester fechou a porta e caminhou até o centro do quarto. Não havia mais espaço para mentiras. O labirinto de vidro havia se quebrado.

— Porque esse é o meu nome — Ester disse, deixando as lágrimas caírem. — Meu nome é Ester. Eu sou a irmã gêmea da Rafaela.

Camila levantou os olhos, e o que Ester viu não foi apenas ódio, mas uma confusão devastadora.

— Onde ela está? Onde está a minha esposa?

— Ela me chantageou, Camila. Ela me mandou para a cadeia por um crime que eu não cometi e me deu uma escolha: apodrecer lá ou viver a vida dela por algumas semanas enquanto ela viajava com o seu dinheiro.

Camila levantou-se, caminhando até Ester. Ela parou a centímetros de distância, observando cada traço do rosto que ela amava e odiava ao mesmo tempo.

— Então... tudo o que aconteceu... as noites que passamos juntas... o carinho... as conversas sobre fotografia... foi tudo uma mentira? Você estava apenas interpretando um papel?

— Não! — Ester gritou, segurando os ombros de Camila. — O sexo bruto, os insultos, os roubos... aquilo era a Rafaela. O toque suave, o respeito, o amor que eu sinto por você... isso sou eu, Camila! Eu me apaixonei por você no momento em que te vi naquela cama, com medo de mim. Eu queria te salvar.

Camila soltou uma risada histérica, as lágrimas banhando seu rosto.

— Me salvar? Você me enganou! Você entrou na minha cama, você me possuiu usando o rosto da mulher que me destrói todos os dias! Como você pode dizer que isso é amor?

— Eu sei que parece imperdoável — Ester implorou, caindo de joelhos diante de Camila. — Mas eu nunca fui tão eu mesma quanto fui com você. Eu entendo de números, eu entendo de lógica, mas eu nunca entendi o que era sentir o coração bater por outra pessoa até te conhecer. A Rafaela não te merece. Ela te trata como lixo. Eu queria te mostrar que você merece o mundo.

Camila recuou, olhando para Ester como se visse um fantasma.

— Saia daqui — disse Camila, a voz agora fria como gelo.

— Camila, por favor...

— SAIA! — Camila gritou, pegando um vaso de cristal da mesa de cabeceira e atirando-o contra a parede. — Eu não quero ver esse rosto! Eu não quero ver essa mentira!

Ester levantou-se, o coração estraçalhado. Ela caminhou até a porta, mas parou antes de sair.

— Eu vou embora. Mas eu não vou deixar a Rafaela voltar para te machucar. Eu vou acabar com o que ela começou, Camila. Mesmo que você nunca mais queira olhar para mim.

Ester saiu do quarto e encontrou Dinah no corredor. A amiga de Camila tinha ouvido tudo. Ela segurava um taco de golfe, pronta para atacar, mas ao ver o estado de Ester, ela hesitou.

— Então eu estava certa — disse Dinah, a voz baixa. — Você é a gêmea.

— Chame a polícia se quiser, Dinah. Mas antes, me ajude a proteger a Camila. A Rafaela vai voltar, e ela não vai ficar feliz quando descobrir que eu contei a verdade.

Dinah observou Ester por um longo tempo. Ela viu a dor genuína nos olhos da mulher à sua frente.

— Você realmente a ama, não é?

— Com cada fibra do meu ser — Ester respondeu.

— Então vá para o quarto de hóspedes. Amanhã de manhã, vamos decidir o que fazer. Se você tentar fugir ou tocar na Camila de novo, eu mesma te coloco atrás das grades.

Ester assentiu e se retirou. Naquela noite, a mansão Cabello estava dividida. Em um quarto, Camila chorava a perda de um amor que nunca existiu de fato. No outro, Ester planejava como destruir sua própria carne e sangue para salvar a mulher que agora a odiava.

Longe dali, Rafaela recebeu uma mensagem de Verônica.

"O plano falhou. Ester contou tudo. É melhor você voltar logo se quiser salvar sua conta bancária."

Rafaela esmagou a taça de champanhe em sua mão, o vidro cortando sua palma, mas ela não sentiu dor. Apenas uma fúria cega.

— Você quer brincar de ser eu, Ester? — sibilou Rafaela para a escuridão do mar das Bahamas. — Então vamos ver como você lida com a verdadeira Rafaela.

A guerra entre as irmãs havia começado, e Camila Cabello era o prêmio e a maior vítima de um jogo onde os espelhos não apenas refletiam, mas também cortavam profundamente. Ester sabia que seus sete dias de treinamento haviam acabado, e agora, ela teria que lutar pela sua vida e pelo perdão da única mulher que lhe ensinou o significado da palavra "casa".