Violence
O Despertar da Carne e o Silêncio do Pasto
A luz da manhã na fazenda não era suave; era implacável. O sol atravessava as frestas das cortinas pesadas, revelando a poeira dançando no ar estagnado da casa velha. O cheiro de café passado e madeira úmida começou a serpentear pelos corredores, cortesia de Luka, que fora o primeiro a levantar. Ele sempre fora o mais responsável do grupo, o tipo de nerd que, apesar da beleza evidente e da altura, preferia organizar o cronograma a se jogar no caos.
Na cozinha, o clima era de uma preguiça coletiva. Ivan estava debruçado sobre a mesa de madeira rústica, batendo o celular contra a palma da mão com uma expressão de puro desespero.
— Isso é um crime contra os direitos humanos — resmungou Ivan, o cabelo preto social levemente bagunçado. — Nem um "pauzinho" de sinal. Eu estou isolado do mundo. Se eu morrer aqui, ninguém vai nem conseguir postar um tributo no meu perfil.
— Se você morrer, Ivan, vai ser de abstinência de internet, e eu vou rir no seu funeral — rebateu Till, entrando na cozinha. Ele vestia uma regata preta que deixava à mostra os braços finos, mas definidos, e seus olhos verdes ainda estavam pesados de sono.
— Você é tão ranzinza, Till. Por isso ninguém te ama — Ivan sorriu, aquele sorriso felino e irritante que ele reservava apenas para o "amigo". Ele pegou um pedaço de pão doce e jogou em direção ao outro. — Come aí, quem sabe o açúcar adoça esse seu humor de bosta.
— Vai se ferrar — Till pegou o pão no ar e deu uma mordida agressiva, sentando-se o mais longe possível de Ivan, embora seus olhos estivessem constantemente voltados para a direção do corredor, esperando por uma certa cabeleira rosa.
Luka, que estava terminando de preparar o café, olhou para os dois com um suspiro.
— Parem de brigar por cinco minutos. Hoje o dia vai ser bom. Eu limpei a piscina ontem à noite e vou preparar um churrasco no quiosque. Vamos aproveitar que o Silas disse que ia para a cidade comprar suprimentos e estamos sozinhos.
A ideia da piscina animou o grupo. Pouco tempo depois, o som de risadas e o baque da água começaram a ecoar pela propriedade. Hyuna já estava dentro da água, seu cabelo marrom flutuando ao redor dela como uma aura. Ela nadava com uma energia contagiante, jogando água para fora e provocando os outros.
— Vamos, Sua! Deixa de ser gótica por um segundo e entra aqui! A água está perfeita! — gritou Hyuna, balançando os braços.
Sua estava na beira da piscina, usando um vestido leve por cima do biquíni roxo. Ela segurava um livro, seus olhos violetas observando a superfície da água com uma melancolia profunda. Ela gostava do silêncio, mas a presença constante de Acorn ao seu lado tornava o silêncio barulhento.
— Eu estou bem aqui, Hyuna — respondeu Sua, com sua voz baixa e monocórdica.
— Ah, não está não! — Acorn surgiu atrás dela, com um sorriso largo e cheio de energia. Antes que Sua pudesse protestar, ele a envolveu pela cintura e, com um impulso, pulou na água levando-a junto.
O impacto da água fria fez Sua perder o fôlego por um segundo. Quando emergiu, tossindo levemente, Acorn estava lá, abraçando-a com força, o rosto pardo radiante de felicidade.
— Viu? Não é tão ruim! — ele disse, colando sua testa na dela. — Eu cuido de você, Sua.
Sua sentiu um aperto no peito que não tinha nada a ver com o frio da água. Ela se sentia sufocada pelo amor dele, uma pressão constante de ter que retribuir algo que ela simplesmente não possuía na mesma intensidade. Ela apenas assentiu, deixando-se ser carregada por ele na parte rasa, enquanto Ivan, deitado em uma espreguiçadeira com óculos escuros, observava a cena com um desprezo silencioso.
— O amor é uma doença, não é, Till? — comentou Ivan, sem tirar os óculos.
Till não respondeu. Ele estava sentado na borda da piscina, as pernas balançando na água, mas sua atenção estava totalmente voltada para a porta que dava para a varanda da casa.
Mizi estava saindo.
O tempo pareceu congelar novamente. Ela usava um biquíni preto simples, mas que nela parecia a peça mais luxuosa do mundo. Um short jeans curto e desabotoado deixava as laterais da calcinha do biquíni à mostra, subindo sobre os quadris de pele impecável. Seus cabelos rosa e azul estavam presos em um coque frouxo, e ela carregava um frasco de protetor solar.
— Bom dia, flores do dia — a voz dela, carregada de uma preguiça sedutora, fez até Hyuna parar de nadar por um momento.
Mizi caminhou até onde Till estava e sentou-se ao lado dele, deixando o frasco de protetor sobre o concreto quente.
— Você está ficando vermelho, garoto do rock — ela disse, olhando para os ombros de Till. — Quer ajuda com isso?
Till sentiu a garganta secar. Ele tentou formular uma frase coerente, mas o dourado dos olhos de Mizi parecia queimar mais que o sol.
— Eu... eu estou bem. Acho que já estou acostumado — ele gaguejou, desviando o olhar para a água.
— Não seja bobo — Mizi riu, um som suave que vibrou no peito de Till. Ela abriu o frasco e espalhou um pouco do creme nas mãos, começando a passar nos próprios ombros e colo com movimentos lentos e circulares. — O sol daqui é diferente do da cidade. Ele morde se você não tomar cuidado.
Till observava, hipnotizado, o rastro branco do creme desaparecendo na pele dela. Mizi parecia não ter consciência do efeito que causava, ou talvez tivesse e apenas gostasse de brincar com isso de forma preguiçosa.
— E você? — ela perguntou, inclinando a cabeça para ele. — O que um cara como você faz num lugar desses? Você não parece o tipo que gosta de cheiro de cavalo e mato.
— Eu vim pelos amigos — admitiu Till, finalmente conseguindo encará-la. — E pelo Luka. Mas confesso que o silêncio daqui é... estranho.
— É porque aqui o silêncio fala — Mizi disse, com um brilho enigmático nos olhos dourados. — Meu avô dizia que a terra tem memória. Às vezes, o que a gente ouve como silêncio é só a fazenda guardando segredos.
Enquanto conversavam, o cheiro de carne assada começou a dominar o ar. Luka estava no quiosque, concentrado na churrasqueira, ocasionalmente trocando olhares com Hyuna, que saíra da piscina e agora o ajudava com as travessas de comida. Havia uma tensão palpável entre os dois, um flerte que Luka tentava esconder por trás de sua fachada de "nerd comportado", mas que Hyuna fazia questão de expor com seus comentários assanhados.
A tarde passou em um borrão de calor, comida e risadas forçadas. À medida que o sol começava a descer, o grupo se dividiu para tomar banho. A casa, com seu sistema de encanamento antigo, rangia toda vez que alguém abria o chuveiro.
Quando a noite finalmente caiu, a atmosfera mudou drasticamente. O calor do dia deu lugar a um vento frio que soprava do matagal denso que cercava a propriedade. O grupo se reuniu na varanda, sentados em cadeiras de balanço velhas e bancos de madeira.
Ivan estava quase em posição fetal em um canto.
— Eu juro por tudo que é mais sagrado, se eu não conseguir checar meu e-mail em dez minutos, eu vou começar a morder as pessoas — ele declarou, a palidez de seu rosto acentuada pela luz fraca da varanda.
— Cala a boca, Ivan. Aproveita a natureza — disse Luka, embora ele mesmo parecesse um pouco inquieto, olhando constantemente para a escuridão além da cerca.
Till, sentado em um degrau, puxou um rádio antigo de pilha que trouxera. Com um chiado alto, ele sintonizou uma estação que tocava um rock pesado e cru. O som distorcido das guitarras parecia brigar com o som dos grilos e o uivo do vento.
— Isso é bem melhor que o silêncio — murmurou Till, fechando os olhos e balançando a cabeça levemente no ritmo da música.
Mizi estava sentada em uma rede, balançando-se devagar. Ela agora vestia um moletom grande que escondia seu corpo, mas sua presença ainda dominava o espaço. Sua estava sentada ao lado de Acorn, que passava o braço pelos ombros dela, tentando mantê-la aquecida. Ela olhava para o mato, onde as sombras das árvores pareciam se esticar e se mover como dedos longos tentando alcançar a varanda.
— Vocês viram o Silas? — perguntou Hyuna, quebrando o transe do grupo. — Ele ainda não voltou da cidade.
— Ele deve ter ficado por lá. O velho deve ter seus lazeres — respondeu Ivan, sem interesse.
— Ele é estranho — comentou Sua, sua voz quase sumindo no vento. — Os olhos dele... parecem que não têm nada dentro.
— Ele só é um homem do campo, Sua — Luka tentou tranquilizá-la, embora ele mesmo se lembrasse do olhar que Silas dera a Mizi no dia anterior. — Ele cuidou do vovô até o fim. Deve ser apenas o jeito dele.
Após um jantar simples de sobras do churrasco, o cansaço começou a abater o grupo. A adrenalina da chegada e o dia de sol haviam drenado as energias de todos.
— Acho que vou deitar — anunciou Hyuna, espreguiçando-se. — Amanhã a gente podia tentar ir até o celeiro ver os cavalos, o que acham?
— Desde que não tenha cheiro de bosta de cavalo em todo lugar, eu topo — disse Ivan, levantando-se e seguindo-a para dentro.
Aos poucos, a varanda foi ficando vazia. Acorn e Sua foram para o quarto deles, e Luka ficou para trás para apagar as luzes e trancar as portas.
Till permaneceu sentado no degrau por mais alguns minutos, desligando o rádio. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Ele olhou para a piscina, que agora parecia um buraco negro no meio do gramado. Por um segundo, ele teve a impressão de ver um vulto perto do quiosque, algo baixo e robusto que se movia com uma agilidade que não condizia com a idade de Silas.
Ele apertou os olhos, tentando focar na escuridão, mas não havia nada lá. Apenas o balanço das árvores.
— Deve ser o sono — sussurrou para si mesmo.
Ao entrar na casa, ele passou pelo quarto de Mizi. A porta estava entreaberta e ele pôde ver a luz de uma vela acesa sobre a mesa de cabeceira. Mizi estava deitada, o cabelo rosa espalhado pelo travesseiro, já dormindo com aquela expressão serena e preguiçosa.
Till sentiu um aperto estranho no peito, uma mistura de proteção e desejo. Ele fechou a porta dela devagar, tentando não fazer barulho.
O que nenhum deles percebeu, enquanto se acomodavam em seus respectivos quartos, era que Silas não tinha ido para a cidade. No celeiro, escondido entre os fardos de feno e o cheiro acre de animal, o caseiro observava a casa através de uma pequena fresta na madeira. Ele segurava um objeto pesado envolto em um pano oleoso, e seus olhos opacos brilhavam com uma antecipação doentia.
A fazenda estava em silêncio, mas não era o silêncio da paz. Era o silêncio de um predador que espera o momento certo para atacar. E para o grupo de amigos, aquela seria a última noite de tranquilidade antes que o sangue começasse a manchar o solo seco da herança de Luka.
Lá fora, o vento soprou mais forte, e o portão de ferro da entrada rangeu, como se desse as boas-vindas a algo que nunca deveria ter sido despertado.