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Violence

O Lamento do Aço e a Máscara de Carne

O silêncio da madrugada foi estraçalhado por um som que não pertencia à natureza. Não era o uivo do vento nem o relincho inquieto dos cavalos. Era um grito. Um som agudo, úmido e carregado de uma agonia tão pura que parecia vibrar nas paredes de madeira da casa.

Till saltou da cama, o coração martelando contra as costelas como um animal enjaulado. A escuridão no quarto era absoluta, uma massa negra que parecia sufocá-lo. Ele esticou a mão para o interruptor, clicando-o repetidamente, mas a luz não veio.

— Droga... — resmungou, a voz falhando.

No corredor, o caos começou a se instalar. O som de passos apressados e respirações curtas ecoava. Uma luz trêmula surgiu no fim do corredor: Luka vinha com uma vela em punho, as sombras dançando grotescamente em seu rosto pálido.

— Vocês ouviram isso? — perguntou Luka, a voz tremendo tanto quanto a chama que carregava.

Aos poucos, o grupo se reuniu na sala. Hyuna abraçava os próprios braços, os olhos azuis arregalados. Acorn mantinha Sua colada ao seu corpo, uma mão protetora sobre o ombro da garota, que parecia mais pálida do que o normal, os olhos roxos fixos no vazio.

— Cadê a Mizi? E o Ivan? — a pergunta de Till cortou o ar como uma lâmina.

Luka olhou ao redor, o pânico começando a brilhar em seus olhos amarelos.

— Eu não sei. Eu achei que eles já estivessem aqui.

— A gente tem que ir lá fora — disse Acorn, tentando soar corajoso, embora seus joelhos estivessem bambos. — Aquele grito veio da direção do celeiro. Pode ter sido o Silas.

— Ou pode ser uma armadilha — rebateu Till, mas ele já estava se movendo em direção à porta principal. O pensamento de Mizi sozinha naquela escuridão era pior do que qualquer medo que ele pudesse sentir.

Eles saíram em grupo, espremidos uns contra os outros. O ar da noite estava gélido, carregado com um cheiro metálico que Till não conseguiu identificar de imediato. A lanterna do celular de Luka cortava a névoa, iluminando o caminho de terra até a estrutura imensa e escura do celeiro.

A porta do celeiro estava entreaberta, balançando levemente com um rangido metálico. Quando entraram, o cheiro de sangue os atingiu como uma bofetada física.

Luka direcionou a luz para o chão.

Hyuna soltou um soluço sufocado e desviou o rosto. Silas estava caído sobre um monte de feno ensanguentado. O cenário era de uma carnificina indescritível. Um de seus braços fora arrancado na altura do ombro, deixando uma ferida aberta e irregular, como se tivesse sido mastigado por uma máquina. Mas o pior eram os olhos. Onde deveriam estar as pupilas opacas do caseiro, havia apenas buracos vazios e vermelhos, escorrendo sobre as bochechas grisalhas.

— Meu Deus... meu Deus... — soluçava Acorn, puxando Sua para longe da cena.

— A gente tem que ir embora! Agora! — gritou Till, agarrando o braço de Luka. — Pro carro! Agora!

Eles correram. O pânico era um motor cego. Os pés batiam no cascalho, a respiração queimando nos pulmões. Quando chegaram à van alugada, Luka tentou abrir a porta do motorista com mãos trêmulas.

— Onde eles estão?! Mizi! Ivan! — Hyuna gritava para a floresta, mas apenas o eco de sua própria voz respondia.

Foi então que o som começou.

Um ronco mecânico, gutural e violento, rasgou o silêncio da fazenda. *Vrum-vrum-vrummm!*

Das sombras atrás do celeiro, uma figura emergiu. Era alta, vestindo roupas de trabalho pesadas, tão manchadas de sangue que o tecido parecia preto e rígido. O rosto estava coberto por uma máscara feita de couro cru ou talvez algo pior, com costuras grosseiras que davam a impressão de um sorriso eterno e macabro. Nas mãos, ele empunhava uma motosserra, a corrente girando em uma velocidade frenética, cuspindo fumaça e faíscas no escuro.

— Entra no carro! Entra no carro! — berrou Till, empurrando Hyuna para dentro.

Luka girou a chave. O motor tossiu. *Eng-eng-eng...* Mas não ligou.

— Vai, Luka! Liga essa droga! — gritou Acorn do banco de trás, protegendo a cabeça de Sua.

Luka tentou de novo. Nada. O homem da máscara continuava avançando, passos lentos e deliberados, a motosserra rugindo cada vez mais perto.

— Os fios! — gritou Till, apontando para o capô que estava levemente entreaberto, algo que eles não notaram na pressa. — Alguém cortou os fios da ignição!

O pânico atingiu o ápice. Com o assassino a poucos metros, o carro era uma armadilha de metal.

— Pra casa! Voltem pra casa! — Luka comandou, e o grupo saltou do veículo, correndo desesperadamente de volta para a varanda.

Eles entraram tropeçando, e Luka trancou a porta principal, empurrando um móvel pesado contra ela. O som da motosserra parou subitamente lá fora, deixando um silêncio ainda mais aterrorizante.

— Mizi... o Ivan... — Hyuna caiu de joelhos no chão da sala, soluçando. — Eles ficaram lá fora. Aquele monstro pegou eles.

Till socou a parede, a raiva mascarando o terror que sentia.

— A gente não pode ficar aqui parados! Temos que procurá-los!

— Com o quê, Till? — Sua falou pela primeira vez, sua voz fria e cortante como gelo. — Ele tem uma motosserra. Nós temos velas e medo.

De repente, um barulho veio do andar de cima. Um baque surdo seguido por um arrastar de móveis vindo de um dos quartos.

O grupo congelou. Acorn pegou um atiçador de lareira, a mão tremendo visivelmente.

— Subam devagar — sussurrou Luka.

Eles subiram os degraus de madeira que rangiam a cada movimento. O som vinha do quarto de Mizi. Parados diante da porta, eles trocaram olhares desesperados. Acorn chutou a porta, pronto para golpear, mas o quarto parecia vazio. A janela estava aberta, a cortina balançando suavemente com a brisa noturna.

— Não tem ninguém... — começou Acorn.

De repente, um vulto saiu debaixo da cama com um solavanco.

— Aah! — o grito foi geral.

Era Mizi. Ela bateu a cabeça na estrutura da cama ao sair, soltando um gemido de dor enquanto se encolhia no chão, o rosto banhado em lágrimas e os cabelos rosa bagunçados.

— Mizi! — Luka correu até a irmã, abraçando-a com força.

— Ele... ele estava lá... — Mizi soluçava, a voz aveludada agora quebrada pelo terror. — Eu vi o homem... eu vi a serra... eu tentei correr, mas o Ivan... o Ivan foi para o outro lado, para o celeiro... eu achei que ele tinha morrido! Eu entrei pela janela e me escondi... eu estava com tanto medo!

Till sentiu um alívio tão grande que quase perdeu o equilíbrio. Ela estava viva. Ele se aproximou, querendo tocá-la, mas se conteve, vendo como ela tremia nos braços do irmão.

Mizi escondia o rosto no peito de Luka, seus olhos dourados semicerrados. Por trás das lágrimas e do soluço fingido, um brilho frio e calculista cruzou suas pupilas por um milésimo de segundo. Ninguém vira quando ela, aproveitando a confusão inicial e a escuridão, deslizara até a van e, com uma faca de caça que trouxera escondida em sua mala, cortara os fios com a precisão de um cirurgião antes de voltar para a casa pelo caminho dos fundos.

— E o Ivan? — perguntou Sua, observando Mizi com uma intensidade incomum.

— Eu não sei... ele sumiu na escuridão — mentiu Mizi, a voz trêmula perfeitamente afinada.

Um estrondo violento ecoou na porta da frente. Alguém batia desesperadamente, socando a madeira.

— Abram! Por favor, abram essa droga! — a voz era reconhecível. Era Ivan.

Luka e Till desceram as escadas correndo, seguidos pelos outros. Eles abriram a porta apenas o suficiente para Ivan se jogar para dentro, pálido como um cadáver, as roupas sujas de terra e graxa.

— Tranca! Tranca tudo! — Ivan gritou, encostando-se na parede e tentando recuperar o fôlego.

— O que aconteceu? Você viu o cara? — perguntou Till, segurando-o pelos ombros.

— Eu vi... eu me escondi atrás do tanque de água quando ouvi a serra — disse Ivan, os olhos pretos dilatados. — Ele passou por mim. Ele cheirava a carne podre, Till. Ele ficou rondando o carro por um tempo e depois entrou no mato. Eu achei que ele ia me ouvir respirar.

Ivan olhou para o grupo, seus olhos parando em Sua por um momento. Não havia a habitual provocação ou sarcasmo. Havia apenas o instinto de sobrevivência.

— A gente não pode sair agora — decretou Luka, olhando para o relógio de parede. Eram três da manhã. — Não temos carro, não temos luz e não temos sinal. Se tentarmos ir para a estrada a pé agora, seremos alvos fáceis na escuridão. Ele conhece esse lugar melhor que a gente.

— E se ele entrar aqui? — perguntou Hyuna, abraçada a si mesma.

— Vamos nos trancar na sala principal — sugeriu Acorn. — É o lugar com menos janelas. Vamos juntar os móveis e esperar o sol nascer. Assim que clarear, a gente corre pela estrada principal. São dez quilômetros até a rodovia. Alguém vai passar.

O grupo concordou silenciosamente. O medo era um véu espesso que envolvia a todos. Eles arrastaram sofás e poltronas, criando uma barricada improvisada. Luka manteve a vela acesa no centro do círculo que formaram no chão.

Mizi sentou-se ao lado de Sua, encostando a cabeça no ombro da outra garota. Sua sentiu o corpo de Mizi relaxado demais para alguém que acabara de escapar de um assassino, mas atribuiu isso ao choque.

— Vai ficar tudo bem, não vai? — sussurrou Mizi, sua voz soprando no ouvido de Sua.

Sua não respondeu. Ela olhou para as sombras nas paredes, sentindo que o horror que viram no celeiro era apenas o começo. Ela olhou para Ivan e Till, que vigiavam a porta lateral, e para Luka, que tentava consolar Hyuna. Eles eram amigos, eram um grupo. Mas, naquele isolamento, a confiança parecia algo tão frágil quanto a chama da vela.

Lá fora, a motosserra não rugia mais. O silêncio da fazenda retornara, mas agora era um silêncio preenchido pelo som do sangue de Silas secando no feno e pelo olhar invisível do homem da máscara, que observava a casa de algum ponto na escuridão, esperando que a luz da manhã trouxesse a falsa esperança necessária para o início da verdadeira caçada.

E no centro da sala, Mizi fechou os olhos dourados, um pequeno e imperceptível sorriso brincando em seus lábios enquanto ela ouvia as batidas frenéticas dos corações ao seu redor. A festa estava apenas começando.