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Vnc

Entre Curativos e Confissões

A segunda-feira após o incidente no campo de futebol tinha um gosto agridoce para os alunos do 3º JC. O corredor do colégio estava menos barulhento do que o normal, talvez pelo cansaço acumulado de uma semana de competições intensas, ou talvez pelo choque de ver o capitão do time de futebol ser levado por uma ambulância.

Cecilia caminhava em direção à sala de aula, sentindo o peso da mochila em um ombro e o peso de seus próprios pensamentos no outro. Ela não tinha dormido bem. Toda vez que fechava os olhos, ouvia o estalo seco do tornozelo de Vinicius e via a expressão de agonia dele. Ela parou em frente à porta da sala, respirando fundo. Sabia que, a partir daquele momento, nada seria como antes. A barreira que ela construiu com tanto esmero durante quatro anos tinha ruído em questão de segundos no gramado sintético.

Ao entrar, seus olhos buscaram automaticamente a última fileira. Lá estava ele. Vinicius estava com a perna esticada, apoiada em uma cadeira extra, envolta em uma bota ortopédica robusta. Ele usava muletas encostadas na parede e parecia visivelmente desconfortável no espaço apertado da carteira escolar.

— Olha só quem resolveu aparecer — disse Mariana, surgindo ao lado de Cecilia e dando um cutucão em sua costela. — O herói da tragédia e a enfermeira dedicada.

— Cala a boca, Mari — Cecilia resmungou, embora não houvesse nenhuma agressividade real em sua voz. — Eu só fiz o que qualquer pessoa faria.

— Sei. "Qualquer pessoa" não pularia a grade e acompanharia o cara até o hospital perdendo o próprio jogo de handebol — ironizou a amiga, sorrindo. — Vai lá falar com ele. Ele não tirou os olhos da porta desde que o sinal bateu.

Cecilia sentiu o rosto esquentar e, sem responder, caminhou até o fundo da sala. Vinicius a viu se aproximar e um sorriso imediato iluminou seu rosto, apagando as marcas de cansaço e dor que ainda persistiam em seus olhos.

— Bom dia, Ceci — disse ele, a voz um pouco rouca.

— Bom dia, Vini — ela respondeu, parando ao lado da mesa dele. Ela olhou para a bota ortopédica. — Como você está se sentindo hoje? A dor diminuiu?

— Um pouco. Os remédios são fortes, me deixam meio grogue, mas pelo menos não sinto que meu pé está sendo esmagado por um caminhão o tempo todo — ele tentou brincar, mas logo soltou um suspiro. — O médico disse que vou ficar pelo menos dois meses parado. Tchau, vôlei. Tchau, handebol. Tchau, tudo.

Cecilia sentiu uma pontada de aperto no peito. Ela sabia o quanto ele amava os esportes, especialmente no último ano, onde cada jogo era uma despedida.

— Sinto muito, de verdade — ela disse, puxando uma cadeira para se sentar perto dele antes que o professor chegasse. — Mas olha pelo lado positivo: pelo menos agora você vai ter tempo de estudar para a prova de física, já que não vai poder ficar correndo por aí feito um maluco.

Vinicius soltou uma risada curta e balançou a cabeça.

— Você não perde a chance, não é? A trégua mal começou e você já está me chamando de maluco.

— É uma trégua, Vinicius, não uma mudança de personalidade — ela rebateu, mas seus olhos suavizaram. — Eu trouxe os resumos da matéria que você perdeu na sexta. Estão aqui.

Ela estendeu algumas folhas de caderno organizadas com uma caligrafia impecável. Vinicius pegou os papéis, mas sua mão propositalmente roçou na dela, segurando seus dedos por um segundo a mais do que o necessário.

— Obrigado, Ceci. Por tudo. Pelo que fez no hospital também. Meus pais ficaram impressionados com o quanto você foi... — ele hesitou, procurando a palavra — ...decidida. Minha mãe até perguntou se você era minha namorada.

Cecilia sentiu o coração dar um solavanco e tentou desviar o olhar, mas Vinicius não permitiu, mantendo o contato visual.

— E o que você respondeu? — perguntou ela, quase em um sussurro.

— Eu disse que estava trabalhando nisso. Que precisava recuperar o tempo perdido e provar para a garota mais teimosa do mundo que eu não sou mais aquele moleque idiota do oitavo ano.

— Você é muito convencido — ela disse, finalmente retirando a mão, mas com um sorriso brincando nos lábios. — Mas admito que o esforço está sendo notado.

O restante da manhã passou em um borrão de fórmulas químicas e debates literários, mas a tensão entre os dois era palpável para qualquer um que olhasse para o fundo da sala. No intervalo, a dinâmica mudou. Como Vinicius não podia se locomover facilmente, Cecilia se viu naturalmente assumindo o papel de sua guardiã.

— Eu busco o lanche para você — ela anunciou quando o sinal tocou. — O que você quer?

— Qualquer coisa que não tenha gosto de hospital — ele pediu, fazendo um sinal de positivo. — E uma Coca gelada, se não for pedir muito.

Enquanto Cecilia estava na fila da cantina, ela foi abordada por alguns jogadores do 2º MS, o time responsável pela lesão de Vinicius. O clima no colégio ainda estava tenso entre as séries.

— E aí, Cecilia? — disse um dos garotos, com um tom de deboche. — Como está o "craque"? Ouvi dizer que ele vai ter que assistir o resto do Interclasse de camarote, com o pé para cima.

Cecilia se virou lentamente. A raiva que ela costumava direcionar a Vinicius agora tinha um novo alvo, muito mais merecido.

— Ele está bem melhor do que vocês, que precisaram de uma falta criminosa para conseguir parar ele em campo — ela retrucou, a voz fria e cortante. — E se eu fosse você, não ficaria rindo. O diretor ainda está decidindo a suspensão de quem deu o carrinho.

— Ih, olha só! A defensora do namoradinho — o garoto riu, mas recuou um passo diante do olhar furioso dela.

— Ele não é meu namorado — ela disse, dando um passo à frente —, mas ele é meu amigo. E se algum de vocês chegar perto dele para fazer gracinha com a lesão, eu juro que o próximo a ir para o hospital não vai ser por causa de futebol. Entendido?

Ela não esperou resposta. Pegou o lanche e saiu da cantina com a cabeça erguida, sentindo a adrenalina correr pelas veias. Quando voltou para a sala, encontrou Vinicius conversando com alguns colegas, mas ele imediatamente se voltou para ela quando a viu entrar.

— Você demorou. A fila estava muito grande? — ele perguntou, pegando o sanduíche que ela lhe estendeu.

— Tive que dar uma "palestra" sobre boas maneiras para uns garotos do segundo ano — ela respondeu, sentando-se na mesa dele.

Vinicius parou de desembalar o lanche e a encarou com curiosidade.

— Você me defendeu?

— Eles estavam sendo idiotas, Vini. Alguém precisava colocar eles no lugar.

Vinicius sorriu, um sorriso largo e genuíno que fez Cecilia se sentir pequena sob seu olhar.

— Sabe, Ceci... eu prefiro mil vezes essa sua versão protetora do que aquela que queria me ver no fundo de um poço.

— Não se acostuma — ela avisou, mas não conseguiu evitar o riso. — Eu ainda lembro de todas as piadinhas sobre o meu saque no vôlei.

— Eu sei. E eu vou passar o resto da vida me desculpando por elas se for preciso — ele disse, com uma seriedade que a pegou de surpresa. — Eu era inseguro e achava que, se eu te zoasse, ninguém perceberia o quanto eu estava a fim de você. Lógica de moleque, eu sei. Foi a coisa mais estúpida que já fiz.

Cecilia sentiu o nó na garganta voltar. Ela sempre soube, lá no fundo, que as provocações dele tinham um fundo de atenção, mas a mágoa tinha sido maior do que a percepção.

— Por que você nunca disse isso antes? — ela perguntou, brincando com a borda do copo de plástico. — Por que esperar eu te odiar por quatro anos?

— Porque eu tinha medo da sua resposta — ele confessou. — E, sendo sincero, eu merecia o seu gelo. Mas ver você correndo para o campo quando eu caí... foi ali que eu percebi que talvez ainda houvesse uma chance. Eu senti que, se você ainda se importava o suficiente para se desesperar por mim, eu não podia mais esconder o que sinto.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Era como se as peças de um quebra-cabeça estivessem finalmente se encaixando. O barulho dos outros alunos no corredor parecia distante.

— Eu também tive medo — Cecilia admitiu, a voz baixa. — Medo de aceitar suas desculpas e você fazer tudo de novo. Medo de gostar de você e ser a "garota boba" outra vez. Mas quando eu vi você no chão... nada disso importou. Eu só queria que você ficasse bem.

Vinicius estendeu a mão e, desta vez, Cecilia não recuou. Ele entrelaçou seus dedos nos dela, um gesto simples que carregava o peso de anos de desencontros.

— A gente pode recomeçar? — ele pediu. — Sem oitavo ano, sem piadas idiotas. Só o Vinicius e a Cecilia, aqui e agora.

Cecilia olhou para as mãos unidas e depois para os olhos dele, que transbordavam sinceridade.

— Podemos — ela respondeu, sentindo um alívio imenso lavar sua alma. — Mas com uma condição.

— Qual? — ele perguntou, pronto para aceitar qualquer coisa.

— Você vai ter que me deixar ganhar no videogame quando eu for te visitar para ver como está sua recuperação. Já que você não pode correr, vamos ver se você é bom com o controle.

Vinicius riu, apertando a mão dela com carinho.

— Fechado. Mas não espere que eu facilite. Minha perna está quebrada, mas meu orgulho de jogador ainda está intacto.

— Veremos — ela disse, sorrindo de volta.

O restante do dia passou com uma leveza que Cecilia não experimentava há muito tempo. No final das aulas, ela ajudou Vinicius a se levantar e a organizar suas muletas. Eles caminharam lentamente pelo pátio, sob os olhares curiosos de toda a escola. O "casal" mais improvável do terceiro ano estava caminhando junto, e não havia sinais de briga.

Na saída, o pai de Vinicius já o esperava com o carro. Antes de entrar, Vinicius parou e se apoiou nas muletas, olhando para Cecilia.

— Amanhã você vai estar aqui? — ele perguntou, com uma pontinha de ansiedade.

— Vou estar. Alguém tem que garantir que você não vai tentar fazer nenhuma manobra radical com essas muletas — ela brincou, aproximando-se dele.

Para a surpresa de Vinicius, Cecilia se inclinou e depositou um beijo suave em sua bochecha, bem perto do canto da boca.

— Até amanhã, Vini.

Ela se afastou com um aceno, deixando-o parado ali, com um sorriso bobo no rosto e o coração acelerado. Vinicius entrou no carro sentindo que, apesar da perna imobilizada e do fim precoce de seu Interclasse, ele nunca tinha se sentido tão vencedor.

Cecilia caminhou para casa sentindo o vento no rosto. A teimosia ainda fazia parte dela, mas agora, ela não servia mais como um escudo contra o que sentia. Pela primeira vez em anos, ela não estava lutando contra si mesma. O Interclasse do 3º JC ficaria marcado na história da escola pelas brigas, pelos jogos e pela lesão dramática, mas para ela, seria lembrado como o momento em que o orgulho finalmente deu lugar ao que realmente importava.

A trégua tinha acabado, mas o que estava começando era infinitamente melhor.