Vnc
O Peso da Medalha e o Valor do Cuidado
A rotina de Cecilia havia mudado drasticamente em apenas uma semana. Onde antes havia treinos intensos de handebol e discussões acaloradas no fundo da sala, agora havia uma calmaria estranha, preenchida pelo som rítmico das muletas de Vinicius batendo no chão de lajota do Colégio J.C. O Interclasse continuava a todo vapor para as outras turmas, mas para o 3º JC, o clima era de uma estranha solidariedade.
Cecilia estava sentada na arquibancada do ginásio, observando o jogo do 1º TA contra o 2º MT. Ela deveria estar focada na tática dos calouros, mas seus olhos sempre desviavam para o degrau abaixo, onde Vinicius estava sentado com a perna imobilizada esticada, cercado por garrafas de água e cadernos.
— Você está me encarando de novo, Ceci — disse Vinicius, sem se virar, mas com aquele tom de voz que denunciava o sorriso presunçoso.
— Eu estou vigiando para ver se você não faz nenhuma besteira — ela rebateu prontamente, embora sentisse as bochechas esquentarem. — O médico disse repouso, e ficar subindo e descendo arquibancada não parece repouso para mim.
Vinicius girou o corpo com cuidado, apoiando-se nos cotovelos para olhar para ela. O sol que entrava pelas frestas do telhado do ginásio iluminava seus olhos, tornando-os de um castanho mais claro, quase cor de mel.
— Eu precisava sair de casa. Meus pais estão me tratando como se eu fosse um cristal de cem anos. Se eu ficar mais um dia olhando para o teto do meu quarto, eu vou esquecer como se fala com seres humanos.
— Bem, pelo menos o seu silêncio seria um descanso para os meus ouvidos — Cecilia brincou, mas logo desceu um degrau para se sentar ao lado dele. — Como foi a fisioterapia hoje cedo?
— Dolorosa — ele admitiu, a expressão suavizando para algo mais vulnerável. — O fisioterapeuta disse que a ruptura não foi total, o que é um milagre, mas a recuperação vai ser lenta. Ele me proibiu de chutar até uma bola de papel por três meses.
Cecilia sentiu uma pontada de compaixão. Ela sabia o que o esporte significava para ele. Mais do que popularidade, era onde Vinicius extravasava sua energia.
— Três meses passam rápido, Vini. E eu prometi que ia te ajudar com a matéria, lembra? Se você focar nos estudos agora, vai ter o verão inteiro livre para se recuperar sem se preocupar com o vestibular.
Vinicius suspirou, olhando para a quadra onde os meninos do primeiro ano corriam desesperadamente atrás da bola.
— É difícil ver todo mundo jogando e ficar aqui parado. Sinto que deixei a sala na mão. A gente tinha chance de levar o troféu de futebol este ano.
— A sala não pensa assim — Cecilia disse, colocando a mão sobre o ombro dele de forma hesitante, mas firme. — Todo mundo viu o que aconteceu. Aquele zagueiro do 2º MS foi um animal. Ninguém te culpa por ter se machucado. Na verdade, eles estão usando isso como motivação para o vôlei.
— Falando em vôlei... — Vinicius a encarou seriamente. — Você joga hoje as quartas de final, não é? Contra o 2º MC.
— Sim. Elas são altas e o saque da capitã delas é um veneno.
— Eu vou estar lá. Na primeira fileira.
— Nem pensar! — Cecilia exclamou, arregalando os olhos. — O jogo de vôlei feminino é um caos, as bolas voam para todo lado. Se uma bola atingir sua perna, você volta direto para a mesa de cirurgia.
— Eu levo um escudo, então — ele riu, mas parou ao ver que ela não estava achando graça. — Ceci, eu quero te ver jogar. De verdade. Você passou a semana cuidando de mim, me trazendo resumo, me ajudando com as muletas... Deixa eu ser seu torcedor pelo menos uma vez.
Cecilia mordeu o lábio inferior, uma mania que ela tinha sempre que estava indecisa. O gelo que ela mantinha em relação a ele tinha derretido tanto que ela mal reconhecia a si mesma. Onde estava a garota que jurou nunca mais dar corda para o "Vinicius idiota"?
— Tudo bem — ela cedeu, suspirando. — Mas você vai ficar no canto mais protegido da quadra, perto do banco de reservas. E se eu vir você tentando se levantar para comemorar um ponto, eu mesma te dou uma rasteira na perna boa.
— É justo — ele sorriu, estendendo a mão para um "high five" que ela retribuiu com um revirar de olhos carinhoso.
O jogo de vôlei começou às duas da tarde. O ginásio estava abafado, e o som dos tênis rangendo no chão de madeira polida ecoava como tiros. Cecilia começou no banco, como de costume, mas sua mente estava em alerta máximo. Ela olhava para o canto da quadra e via Vinicius sentado em uma cadeira de plástico que o professor de educação física gentilmente cedeu. Ele segurava um cartaz improvisado, feito com uma folha de cartolina amassada, onde se lia em letras garrafais: "VAI CECI!".
— Ele é tão brega — Mariana sussurrou ao lado dela no banco de reservas, rindo. — Mas é um brega fofo. Admite, Ceci.
— Ele é um perigo para a própria saúde, isso sim — Cecilia respondeu, tentando esconder o sorriso atrás da toalha.
O jogo estava difícil. O 2º MC venceu o primeiro set por 25 a 22. No segundo set, a levantadora titular do 3º JC torceu o dedo em uma defesa, e a treinadora olhou para o banco.
— Cecilia! Entra no lugar da Bia. Preciso de precisão no passe agora, vamos!
O coração de Cecilia disparou. Ela se levantou, tirou o agasalho e correu para a linha de fundo. Antes de se posicionar, seus olhos buscaram os de Vinicius. Ele não estava gritando como os outros; ele apenas assentiu com a cabeça, um gesto de confiança silenciosa que valia mais do que mil gritos.
Ela jogou como nunca. Cada recepção era feita com a alma, cada levantamento era milimétrico. O 3º JC empatou o jogo, levando a decisão para o tie-break. No último ponto, após um rali exaustivo, a bola sobrou alta para Cecilia na rede. Ela não era a atacante mais forte, mas naquele momento, ela sentiu uma energia que vinha daquela cadeira de plástico no canto da quadra. Ela saltou e explorou o bloqueio adversário com inteligência. A bola bateu na mão da defensora e saiu.
Ponto. Jogo. Vitória.
A sala explodiu em comemoração. Cecilia foi abraçada pelas colegas, mas assim que conseguiu se desvencilhar, correu em direção a Vinicius. Ele estava tentando se equilibrar nas muletas, com o rosto iluminado de alegria.
— Você foi incrível! — ele exclamou quando ela parou na frente dele, ofegante e suada. — Aquele último ponto foi de mestre.
— Eu disse para você não se levantar! — ela brigou, mas o brilho nos olhos dela entregava a felicidade.
— Eu não consegui evitar. Foi emocionante demais.
O clima de festa foi interrompido quando um grupo de alunos do 2º MS passou por eles, incluindo o jogador que havia machucado Vinicius na semifinal do futebol. O garoto, chamado Rodrigo, parou e olhou para a perna imobilizada de Vinicius com um sorriso desdenhoso.
— Olha só, a líder de torcida ganhou um joguinho — Rodrigo comentou, olhando para Cecilia. — Pena que o namorado vai passar o resto do ano sendo carregado no colo.
Vinicius fechou a expressão, apertando as muletas com força. Cecilia sentiu a raiva borbulhar, mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Vinicius falou primeiro, com uma calma que surpreendeu a todos.
— Eu posso estar de muletas por uns meses, Rodrigo. Mas eu saio desse Interclasse com a consciência limpa e com as pessoas que gostam de mim ao meu lado. Já você... vai ser lembrado como o cara que precisou apelar para a violência porque não conseguia ganhar na bola. Quem é que realmente perdeu aqui?
Rodrigo abriu a boca para retrucar, mas o silêncio dos seus próprios colegas de time, que pareciam envergonhados pela atitude dele, o fez desistir. Ele virou as costas e saiu, bufando.
Cecilia olhou para Vinicius, impressionada.
— Uau. Essa foi... a coisa mais madura que eu já vi você fazer.
— Eu andei pensando muito nessa última semana, Ceci — ele disse, voltando a olhar para ela. — Sobre como eu agia, sobre como eu queria sempre ser o "destaque". Mas estar aqui sentado, vendo você brilhar e percebendo que eu fico mais feliz com a sua vitória do que com as minhas... isso mudou as coisas para mim.
Cecilia sentiu um nó na garganta. Ela se aproximou mais dele, ignorando o suor e o barulho ao redor.
— Vinicius, eu... eu sinto muito por ter sido tão dura com você por tanto tempo. Eu usei o que aconteceu no oitavo ano como um escudo porque eu tinha medo de me machucar de novo. Mas ver você hoje, defendendo a gente e sendo esse cara... eu acho que a teimosa aqui fui eu.
Vinicius soltou uma das muletas, apoiando-se na cadeira para manter o equilíbrio, e usou a mão livre para tocar o rosto de Cecilia.
— A gente está quite, então?
— Estamos quites — ela sussurrou.
Eles estavam em um ginásio barulhento, cercados por adolescentes gritando e o cheiro de suor e borracha queimada, mas para Cecilia, parecia que o tempo havia parado. Ela se inclinou e, desta vez, não foi um beijo na bochecha. Foi um beijo calmo, um selinho que selava não apenas uma trégua, mas o início de algo que ambos queriam há muito tempo, mas não sabiam como pedir.
Quando se afastaram, Mariana estava a poucos metros, fingindo que não estava olhando, mas com um polegar levantado para Cecilia.
— Então — começou Vinicius, com o rosto levemente corado —, isso significa que você ainda vai na minha casa jogar videogame no sábado?
Cecilia riu, limpando uma lágrima de emoção que insistia em cair.
— Vou. Mas eu vou levar o meu próprio controle. Não confio em você para não me dar um "bugado" só para ganhar.
— Ei! Eu sou um homem de honra agora, esqueceu? — ele brincou, enquanto ela o ajudava a se posicionar novamente nas muletas para saírem do ginásio.
Enquanto caminhavam em direção à saída, Cecilia percebeu que o Interclasse não era sobre quem ganhava mais medalhas ou quem marcava mais gols. Para o 3º JC, e especialmente para eles dois, aquela semana tinha sido sobre cura. Curar ligamentos rompidos, curar mágoas do passado e, acima de tudo, descobrir que às vezes é preciso perder o equilíbrio para encontrar alguém disposto a te segurar.
O sol da tarde brilhava lá fora, prometendo um final de ano intenso e cheio de desafios, mas Cecilia não tinha mais medo. Com a mão entrelaçada na de Vinicius — ou o máximo que as muletas permitiam —, ela sabia que, independentemente do que acontecesse no vestibular ou na vida adulta que batia à porta, eles estavam no mesmo time agora. E esse era o único título que realmente importava.