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Vnc

Entre Muletas, Videogames e o Que Ficou por Dizer

O sábado à tarde chegou com aquele silêncio típico de subúrbio, onde o único som era o das cigarras e o de algum vizinho distante lavando o carro. Para Cecilia, no entanto, o silêncio em seu quarto era ensurdecedor. Ela estava parada em frente ao espelho, trocando de camiseta pela quarta vez.

— É apenas uma tarde de videogame, Cecilia. Controle-se — murmurou para si mesma, ajustando uma blusa de algodão simples e prendendo o cabelo em um rabo de cavalo alto.

Ela pegou a mochila, onde o seu controle de PlayStation, cuidadosamente envolvido em uma flanela, repousava como uma relíquia. A promessa feita no ginásio, logo após a vitória no vôlei, ecoava em sua mente. O beijo — aquele selinho rápido, mas carregado de significados — mudara a gravidade das coisas. Ela não era mais apenas a colega de sala teimosa; ela era a garota que atravessara o campo para socorrê-lo.

Ao chegar na casa de Vinicius, foi recebida pela mãe dele, dona Sandra, que tinha um sorriso cúmplice no rosto.

— Pode subir, Cecilia. Ele está no quarto, tentando lutar contra o tédio. Obrigada por vir, ele tem estado um pouco impaciente com essa bota ortopédica.

Cecilia subiu as escadas, o coração batendo contra as costelas como uma bola de handebol em dia de final. Ela bateu na porta entreaberta e entrou.

O quarto de Vinicius era exatamente como ela imaginava: pôsteres de times de futebol, algumas medalhas penduradas no canto do espelho e um cheiro suave de perfume masculino misturado com... pomada de arnica. Ele estava sentado no meio da cama, cercado por travesseiros, com a perna imobilizada devidamente elevada.

— A enfermeira chegou? — Vinicius perguntou, abrindo um sorriso largo assim que a viu.

— Chegou a sua pior pesadelo nos jogos de luta — Cecilia respondeu, tentando manter a voz firme enquanto se sentava na beirada da cama. — Como você está?

— Melhor agora. Sério, o repouso é um castigo para quem está acostumado a correr dez quilômetros por dia. Mas meus pais estão me mimando. Ganhei até sorvete no café da manhã hoje.

Cecilia riu e tirou o controle da mochila, exibindo-o como uma arma.

— Trouxe meu próprio equipamento. Não quero desculpas quando eu acabar com a sua raça no FIFA ou no Mortal Kombat.

— Atrevida — ele disse, pegando o controle dele que estava sobre o criado-mudo. — Vamos ver se esse seu talento no vôlei se traduz para os polegares.

Eles começaram a jogar. Nas primeiras duas partidas, o ambiente era de pura provocação. Eles gritavam, reclamavam de "gol roubado" e faziam piadas sobre a coordenação motora um do outro. Por um momento, parecia que tinham voltado ao oitavo ano, mas sem a parte da maldade. Era uma competitividade leve, uma dança de dedos e risadas que preenchia o quarto.

— Não! Isso foi falta! — Cecilia protestou, largando o controle no colo após Vinicius marcar um gol de falta nos acréscimos.

— Chora mais, Ceci! O juiz é quem manda — Vinicius comemorou, jogando as mãos para o alto, mas logo fazendo uma careta quando o movimento brusco repuxou o tornozelo.

— Ei, cuidado! — Cecilia largou o controle e se inclinou para frente, as mãos pairando sobre a perna dele, preocupada. — Você não pode se mexer assim, idiota.

— Eu estou bem, juro. Foi só um susto — ele disse, a voz baixando de tom conforme a proximidade entre eles aumentava.

A luz do sol começava a cair, pintando o quarto de tons alaranjados. O silêncio que se seguiu à agitação do jogo era diferente. Era denso, carregado daquela eletricidade que surge quando duas pessoas percebem que a brincadeira é apenas uma fachada para algo muito mais profundo.

Cecilia não se afastou. Ela permaneceu ali, perto o suficiente para ver as pequenas sardas no nariz de Vinicius e a forma como o cabelo dele estava bagunçado pelo contato com o travesseiro.

— Por que você mudou tanto, Vini? — ela perguntou, a voz quase um sussurro. — No oitavo ano, você parecia ter prazer em me ver brava.

Vinicius suspirou, deixando o controle de lado. Ele olhou para as próprias mãos por um momento antes de encontrar os olhos dela.

— Eu era um imbecil, Ceci. Não tem outra explicação além da imaturidade. Eu via que você era melhor que eu em quase tudo — nos estudos, nos esportes, na determinação. Eu não sabia lidar com o fato de que a garota que eu gostava me intimidava. Então, eu tentava te diminuir para me sentir maior.

— Funcionou — ela disse, com uma ponta de mágoa ainda presente. — Eu me senti minúscula por muito tempo.

— Eu sei. E eu daria qualquer coisa para voltar no tempo e dar um soco no meu eu de treze anos — ele estendeu a mão e tocou a ponta dos dedos de Cecilia. — Quando o ensino médio começou e eu vi você se afastando cada vez mais, criando essa muralha de gelo... eu percebi que tinha perdido a única pessoa que realmente importava. Tentar me desculpar esse ano não foi só pelo Interclasse. Foi porque eu não queria sair da escola e te perder para sempre.

Cecilia sentiu o coração derreter. Toda a resistência que ela cultivou, todas as vezes que ensaiou respostas atravessadas no chuveiro, tudo parecia irrelevante diante daquela confissão.

— Eu nunca parei de gostar de você — ela admitiu, sentindo o peso daquelas palavras saindo de seu peito. — Era por isso que doía tanto. Se eu não me importasse, suas piadas não teriam tido efeito. Eu te odiava porque era mais fácil do que aceitar que eu ainda sentia algo por alguém que me tratava mal.

Vinicius puxou a mão dela, entrelaçando seus dedos.

— Eu nunca mais vou te tratar mal, Ceci. Eu prometo. Pode ser que eu ainda seja um pouco convencido às vezes, e eu definitivamente vou continuar tentando te ganhar no videogame, mas... eu vou cuidar de você. Como você cuidou de mim naquele campo.

Cecilia deu um sorriso triste, olhando para a bota ortopédica dele.

— Você se machucou feio por causa de uma bobeira. O Interclasse nem era tão importante assim.

— Para mim foi — ele retrucou. — Se eu não tivesse caído naquele gramado, você ainda estaria me tratando com gelo. De certa forma, aquele zagueiro do 2º MS me fez um favor. Doeu pra caramba, mas valeu a pena.

— Não diga bobagens. Eu preferia ter feito as pazes com você sem você precisar de uma cirurgia e meses de fisioterapia — ela disse, aproximando-se ainda mais.

— Valeu a pena porque agora você está aqui — ele disse, a voz carregada de sinceridade. — No meu quarto, de mãos dadas comigo, e sem querer me matar.

Cecilia soltou uma risada curta e, movida por um impulso que não sentia necessidade de controlar, envolveu o pescoço dele em um abraço cuidadoso. Vinicius a puxou para mais perto, escondendo o rosto na curva do pescoço dela, respirando o cheiro de shampoo de frutas que ela sempre usava.

— Eu fiquei com tanto medo, Vini — ela confessou contra o ombro dele. — Quando ouvi o estalo... eu achei que algo muito pior tivesse acontecido.

— Eu estou aqui, Ceci. Inteiro. Bom, quase inteiro — ele brincou, sentindo-a rir contra ele.

Eles se afastaram apenas o suficiente para se olharem. O quarto agora estava na penumbra, mas a conexão entre eles brilhava mais do que qualquer luz. Vinicius levou a mão à nuca de Cecilia, trazendo-a para um beijo que não tinha nada de apressado ou acidental como o do ginásio. Era um beijo de reencontro, de perdão e de promessa.

Quando se separaram, ambos estavam um pouco sem fôlego.

— Então... — Vinicius começou, com um brilho travesso nos olhos — ...isso significa que eu sou seu namorado agora ou eu ainda preciso de uma autorização formal da capitã do time de vôlei?

Cecilia revirou os olhos, mas não conseguiu apagar o sorriso.

— Você ainda está em período de experiência, Vinicius. Vamos ver como você se comporta na fisioterapia. Se você reclamar demais, eu posso reconsiderar.

— Eu vou ser o paciente mais obediente da história da medicina — ele prometeu, rindo.

Eles passaram o resto da tarde conversando sobre o futuro. Falaram sobre a faculdade, sobre o medo do vestibular e sobre como seria o último semestre na escola. Não havia mais barreiras, não havia mais o "ele disse, ela disse" que os assombrou por anos.

— Sabe o que é o mais engraçado? — Cecilia perguntou, deitada ao lado dele na cama, com a cabeça apoiada no ombro dele enquanto assistiam a um filme qualquer na TV.

— O quê?

— A gente passou o Interclasse inteiro brigando para ver quem era a melhor sala, quem era o melhor atleta... e no fim, a maior vitória foi a gente ter parado de lutar um contra o outro.

Vinicius beijou o topo da cabeça dela.

— O 3º JC pode não ter levado todos os troféus, mas eu com certeza ganhei o melhor prêmio.

— Cafona — ela murmurou, mas se aconchegou ainda mais nele.

Lá fora, a noite caiu sobre a cidade, mas dentro daquele quarto, o clima era de um novo amanhecer. A teimosia de Cecilia e o arrependimento de Vinicius tinham finalmente encontrado um terreno comum. Eles sabiam que o caminho da recuperação seria longo, e que o ensino médio estava chegando ao fim, mas pela primeira vez em quatro anos, eles não estavam preocupados com o placar final. Eles já tinham ganhado o jogo.