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Açúcar, Gelo e Ranço Gratuito

O intervalo da Pine Academy era sempre um zoológico humano. Alunos se amontoavam nos bancos de concreto do pátio interno, alguns colados nas telas dos celulares, outros rindo alto enquanto dividiam salgadinhos baratos ou se empurravam perto dos armários. O sol do meio-dia batia fraco contra as janelas altas, mas o calor dentro do prédio já começava a pesar.

— Isso é uma péssima ideia — avisou Mizi pela quinta vez, cruzando os braços compridos sobre o peito e bufando. A gravata preta pendia torta e solta na gola aberta da camisa branca, e o cabelo rosa com pontas azuis caía desgrenhado sobre os ombros. — Se ele falar não, você vai ter que olhar pra cara dele no corredor até novembro. Pensa direito, caralho.

— Deixa a menina, Mizi! — rebateu Anne, dando um empurrãozinho de leve no ombro de Nuxy. Anne estava impecável, a saia no comprimento certinho e a postura calma. — O Ivan é de boa. No pior dos casos ele só vai rir e agradecer. Melhor tirar isso do peito do que ficar secando o menino nos treinos de futebol igual uma stalker.

— Eu acho meio termo — Diana deu de ombros, mascando um chiclete com desdém e ajeitando a alça da mochila nas costas. Os cabelos verde-azulados caíam em ondas sobre os ombros. — Se levar um toco, pelo menos para de encher nosso saco falando daquele corte de cabelo idiota dele.

— Vocês não tão ajudando meu nervosismo! — chiou Nuxy, arrumando o blazer preto pela milésima vez e quase roendo as unhas postiças. — Ele tá ali. Tá sem o loiro dos óculos hoje, só tá ele, a irmã, o garoto de cabelo cinza e a Hyuna. É agora ou nunca.

Antes que Mizi pudesse segurá-la pelo colarinho para impedir a humilhação pública iminente, Nuxy marchou a passos duros em direção ao pilar central do pátio. Mizi revirou os olhos dourados até o teto, soltou um palavrão baixinho e foi atrás, flanqueada por Anne e Diana. Não ia deixar a amiga passar vergonha sozinha, por mais burra que achasse a atitude.

Perto do pilar, o grupo parecia em seu próprio mundo. Luka realmente não tinha ido à aula naquele dia — diziam que pegara uma virose qualquer —, então restavam apenas os quatro. Till estava encostado na parede de tijolos aparentes com os braços cruzados, a jaqueta amassada e a expressão azeda de quem preferia estar engolindo arame farpado a ficar ali ouvindo Ivan. Ivan, por sua vez, segurava um pirulito vermelho entre os lábios, falando pelos cotovelos enquanto Sua folheava um livro grosso em silêncio absoluto. Hyuna ria encostada na lixeira de metal, a saia curta balançando conforme ela gesticulava.

— ...e aí eu falei pro treinador que se ele quisesse alguém pra correr até vomitar, era melhor escalar o Till — Ivan dizia, provocando com aquele sorrisinho de canto.

— Vai se foder, Ivan, eu não corri porque aquela porra daquele treino não serve pra nada — Till rosnou de volta, fuzilando o amigo com os olhos verdes.

— Com licença... oi, gente. Desculpa atrapalhar.

A voz trêmula de Nuxy cortou a conversa. Os quatro se viraram quase em sincronia.

No exato segundo em que o quarteto olhou na direção das meninas, Till travou. Seus olhos verdes se arregalaram um milímetro antes de descerem abruptamente para o chão; Mizi estava logo atrás de Nuxy. A presença dela preenchia todo o campo de visão dele como um choque elétrico. O garoto fechou a cara ainda mais, enfiando as mãos fundo nos bolsos da calça social para esconder os nós dos dedos brancos de pura tensão.

Mizi, por outro lado, sequer olhou para Till. Na verdade, mal olhou para Ivan. Seus olhos passaram de raspão pela silhueta miúda de Sua, e um gosto amargo e ácido subiu instantaneamente pela sua garganta, fazendo seu estômago revirar. O simples fato de estar a menos de dois metros da garota de cabelo curto já a deixava com os nervos em frangalhos.

Sem paciência para ficar ali parada assistindo a declaração, Mizi bateu o olho na máquina de refrigerante encostada na parede logo ao lado.

— Já volto — murmurou ela, tirando duas moedas do bolso da saia e se afastando com passos lentos e desleixados, ignorando completamente os olhares alheios.

Nuxy engoliu em seco, sentindo o peso dos olhares de Hyuna, Ivan e Sua sobre si.

— É... Ivan, então... — começou Nuxy, a voz afinando uma oitava. — Faz um tempinho que eu queria falar com você. Tipo, a gente não é super próximo nem nada, mas eu sempre te vejo nos corredores e no treino... e eu acho você incrível pra caralho, muito bonito, e eu meio que... gosto de você. Bastante. Aí eu queria saber se você... sei lá, não queria sair qualquer dia desses?

O silêncio que se seguiu pareceu durar um século.

Hyuna franziu as sobrancelhas com uma expressão surpresa e divertida ao mesmo tempo. Sua manteve o rosto sereno, fechando o livro devagar sobre as pernas. Ivan tirou o pirulito da boca, os olhos pretos piscando algumas vezes, claramente processando as palavras com um misto de espanto genuíno e uma ponta de choque. Till continuava olhando pro chão como se a resposta para o sentido da vida estivesse desenhada na cerâmica gasta.

Foi exatamente nesse instante que um estalo alto e metálico ecoou pelo círculo:

*TSSSK-CRACK.*

Mizi acabara de puxar o lacre da lata de Monster branco, o gás escapando em um chiado seco. Ela voltou caminhando devagar, dando um gole longo no energético gelado antes de parar ao lado de Anne, encarando a cena com uma sobrancelha arqueada e o mais puro desdém estampado no rosto.

O barulho da lata pareceu finalmente acordar Ivan do transe.

Ele soltou uma risada baixa e anasalada, coçando a nuca com a mão livre enquanto guardava o pirulito de volta entre os dentes por um segundo. Ele não parecia zombeteiro dessa vez, apenas desconcertado de um jeito descontraído.

— Caraca... — Ivan soltou o ar pelos dentes, encarando Nuxy com simpatia. — Olha, de verdade mesmo, obrigado. Fico lisonjeado pra caramba, você é mó bonita e gente boa. Mas... não vai rolar, não.

Nuxy murchou os ombros na hora, o rosto queimando num tom escarlate humilhante.

— Ah... — murmurou ela. — Tudo bem...

— Não, relaxa, não é você, juro por Deus — Ivan riu de novo, dando de ombros com uma naturalidade desconcertante. — É que... eu curto a outra calçada, tá ligada? Gosto de homem. Sou gay.

O impacto da frase caiu sobre o grupo como uma bomba relógio.

Diana engasgou com o chiclete, soltando uma gargalhada abafada que parecia mais um espirro. Mizi quase cuspiu o gole de energético que estava na boca, engolindo a seco enquanto os olhos dourados se arregalavam na direção dele.

— Puta que pariu — Diana riu na cara dura, dando uma cotovelada sem dó na costela de Nuxy. — Tomou um toco com certificado e laudo médico! Eu avisei, caralho!

— Diana, cala a boca! — Anne repreendeu em um sussurro aflito, mas até ela estava com a boca aberta em puro choque. Ela olhou para Ivan, estreitando os olhos pretos. — Espera aí... você tá falando sério? Não parece nada... tipo, você nunca...

— Quer que eu use o quê, uma tiara de glitter e uma placa na testa escrito "eu beijo rapazes"? — Ivan zombou, recuperando totalmente a postura provocadora habitual, abrindo aquele sorriso sarcástico que fazia qualquer um querer dar um soco nele. — Sou gay ué, fazer o quê. A genética da minha família é boa, mas o meu gosto é pra caras.

Till, que até então estava em silêncio tentando ignorar o universo, deu um pulo assustado, o rosto ficando vermelho da raiz dos cabelos até o pescoço.

— Ivan, fecha essa tua boca, seu idiota! — Till explodiu, quase tropeçando nos próprios pés de tanta raiva e constrangimento, embora ninguém ali soubesse exatamente por que ele estava tão absurdamente afetado com a revelação. — Precisava explanar essa merda desse jeito?!

— Ué, ela perguntou, eu respondi! Quer que eu minta pro coração da moça, Till? — Ivan rebateu, rindo da cara de desespero do amigo e achando uma graça infinita naquilo.

Nuxy parecia pronta para cavar um buraco no chão com as próprias unhas e se enterrar até o final do ano letivo. Mizi, ao lado dela, continuava encarando os próprios sapatos pretos, sentindo a veia da têmpora pulsar. Ela não queria olhar para o lado. Não queria nem ver a sombra da franja de Sua. A presença da garota ao lado de Ivan estava tornando o ar irrespirável.

Foi quando Sua deu um passo à frente.

A garota de cabelos pretos curtos olhou para Nuxy com aqueles olhos roxos profundos, a expressão impassível, mas com uma voz surpreendentemente mansa e calma, sem o tom de piada dos outros.

— Não precisa ficar com vergonha, Nuxy — disse Sua, a voz baixa cortando o barulho das risadas de Ivan e Diana. — O Ivan é um idiota pra falar as coisas, mas ele não falou por maldade. Foi corajoso da sua parte.

Deveria ter sido uma frase reconfortante. Qualquer pessoa normal teria aceitado o gesto com um sorriso sem graça e ido embora.

Mas Mizi não era qualquer pessoa.

No instante em que as palavras saíram da boca de Sua, Mizi ergueu a cabeça num solavanco. Os olhos dourados faiscaram com uma frieza cortante, o veneno escorrendo tão nítido na sua postura que fez o ar ao redor esfriar de repente.

— E por acaso alguém te perguntou alguma coisa? — disparou Mizi, a voz ácida e pontiaguda como uma lâmina batendo contra vidro.

Sua piscou, surpresa, recuando meio centímetro.

— Ninguém aqui pediu teu consolo de caridade, Sua — continuou Mizi, o tom de desprezo puro fazendo as sobrancelhas de Hyuna se erguerem na hora. — Guarda essa tua simpatia falsa pra você mesma, que ninguém precisa de lição de moral de quem parece um zumbi ambulante.

Com isso, Mizi virou as costas com tanta violência que as pontas azuis do seu cabelo chicotearam o ar. Ela nem olhou para trás, apertando a lata de Monster na mão enquanto marchava a passos largos em direção ao corredor dos armários, pisando duro.

— Mizi, espera aí! — Anne gritou, lançando um olhar de desespero constrangido para o grupo antes de sair correndo atrás da garota alta.

Nuxy e Diana ficaram para trás, paralisadas pelo choque do ataque repentino. Nuxy puxou o ar, o constrangimento do fora sendo atropelado pelo pânico da grosseria gratuita da amiga.

— Gente... pelo amor de Deus, me desculpa! — Nuxy falou rápido, juntando as mãos em sinal de súplica, olhando aterrorizada para Sua. — A Mizi... ela não vai muito com a tua cara, Sua, mas juro que a gente não faz a menor ideia do porquê! Ela é meio maluca às vezes, não liga pra ela, sério!

— É, a menina acordou com o capeta no corpo hoje — Diana completou, dando uma risadinha nervosa e puxando Nuxy pelo braço. — Foi mal aí pelo show. Valeu pela sinceridade, Ivan. A gente se vê!

As duas praticamente correram pelo pátio, sumindo na curva do corredor no encalço de Mizi.

O silêncio que sobrou entre os quatro foi pesado.

Till estava estático, a boca entreaberta, olhando para a direção em que Mizi tinha desaparecido. Ele estava com a cabeça dando nós. Aquela garota... aquela deusa inalcançável por quem ele vinha suspirando há meses pelos cantos... tinha acabado de ser a pessoa mais escrota e sem coração que ele já tinha visto em ação.

— Caralho... — soltou Till, passando a mão pelos cabelos cinzas bagunçados, a voz rouca de puro choque. — Que porra de garota surtada foi essa? Ela é uma escrota do caralho!

— É... um pouquinho agressiva demais, talvez — Ivan comentou, embora não parecesse nem um pouco ofendido, apenas genuinamente fascinado pela falta de filtro da garota. Ele mordeu o pirulito, partindo o doce com um *clec* sonoro. — Mas pelo menos tem personalidade. Gostei do estilo dela, mó marrenta.

— Cala a boca, Ivan! Ela tratou a sua irmã igual lixo sem motivo nenhum! — Till rebateu, indignado, olhando para Ivan como se ele fosse um lunático.

Hyuna, no entanto, não estava prestando atenção nos garotos. Seus olhos azuis foram direto para Sua.

Sua continuava parada no mesmo lugar. A cabeça estava ligeiramente baixa, os olhos roxos fixos na ponta dos próprios sapatos. Os dedos pálidos apertavam com tanta força a lateral do livro de capa dura que a ponta das unhas estava quase rasgando a lombada. Ela não dizia uma palavra. O rosto mantinha aquela máscara melancólica e fria de sempre, mas Hyuna conseguia ver o tremor quase imperceptível na respiração dela. Aquilo tinha doído. Tinha doído muito mais do que qualquer um ali poderia sequer imaginar.

Hyuna deu um passo à frente e colocou a mão no ombro de Sua, apertando de leve.

— Não liga pra ela, Sua — disse Hyuna com firmeza, lançando um olhar de aviso para Till e Ivan calarem a boca. — Aquela garota só é frustrada. Vamos pra sala antes que o sinal toque.

Sua apenas assentiu com a cabeça, em silêncio absoluto, e começou a andar sem olhar para ninguém.

***

A noite caiu fria e silenciosa na casa dos irmãos. O barulho dos carros passando na avenida distante era o único som que quebrava o marasmo da sala de estar.

Ivan estava jogado no sofá grande de tecido cinza, com as pernas compridas esticadas por cima do encosto de braço. Ele usava uma camiseta preta folgada e mastigava calmamente uma barra de chocolate branco, mudando os canais da televisão sem nenhum interesse real.

Sua estava sentada no tapete, apoiando o caderno de desenho na mesinha de centro. O grafite deslizava pelo papel branco com rapidez, delineando sombras e formas que ela teimava em tentar tirar da cabeça.

— Você desenha muito devagar — soltou Ivan de repente, esticando o pé e cutucando o ombro de Sua com a ponta da meia. — Se eu fosse desenhar essa cadeira aí, já tinha terminado faz meia hora.

— Você não sabe desenhar nem um boneco de palito, Ivan — Sua respondeu sem tirar os olhos do papel, a voz monótona e impassível. — Para de me chutar.

— Não tô te chutando, tô oferecendo feedback artístico — ele deu mais uma mordida no chocolate, rindo pelo nariz. — E você tá com essa cara de velório desde o intervalo. Tá mordidinha porque a menina do cabelo de algodão-doce te deu um esculacho?

Sua parou o lápis no ar por um segundo. A mandíbula dela travou de leve, mas ela não olhou para o irmão.

— Eu não me importo com o que ela disse.

— Aham, sei — zombou Ivan, jogando a embalagem vazia do chocolate na mesinha, bem ao lado do caderno dela, só para irritar. — Você nunca se importa com nada, né? Um poço de gelo. Mas aposto que se eu perguntasse pro Till, ele ia dizer que você quase chorou. Aquele emo é tão dramático quanto você.

Antes que Sua pudesse responder com alguma grosseria merecida, a campainha tocou duas vezes seguidas, com um ritmo enérgico bem característico.

Ivan se levantou preguiçosamente do sofá, arrastando os chinelos pelo piso de madeira até a porta. Ao girar a maçaneta, deu de cara com Hyuna. Ela usava uma jaqueta jeans oversized por cima de um moletom, o cabelo castanho amarrado num coque frouxo e um sorriso descolado no rosto.

— Fala, viado — cumprimentou ela, entrando sem pedir licença como fazia desde que tinham treze anos.

— Olha como fala comigo, mulher, respeito à minha nova fase assumida — Ivan brincou, fechando a porta atrás dela. Ele olhou para o relógio na parede e depois pegou as chaves do bolso da calça de moletom. — Ótimo que você chegou. Eu tô caindo fora. Vou dar um rolê na praça de skate com os caras da rua de trás. A casa é toda de vocês.

— Vê se não arruma briga — Hyuna avisou, tirando os tênis no hall de entrada.

— Eu sou um anjo, você sabe disso — Ivan piscou, acenou com a cabeça para Sua no tapete e saiu, batendo a porta da frente atrás de si.

O silêncio voltou a reinar na sala, mas agora com um peso diferente. Hyuna caminhou até a mesinha de centro e se sentou de pernas cruzadas no tapete, exatamente ao lado de Sua.

Sua não se mexeu. Continuava com o lápis apoiado no papel.

— Vamos pro seu quarto? — sugeriu Hyuna baixinho.

Sua concordou com um aceno quase imperceptível. Ela fechou o caderno com cuidado, pegou o estojo e se levantou, subindo as escadas de madeira em direção ao segundo andar. Hyuna a seguiu de perto.

O quarto de Sua era exatamente o reflexo dela: paredes em um tom cinza-claro, uma estante abarrotada de livros organizados por cor, luzes indiretas e uma mesa de desenho cheia de papéis soltos e potes com lápis graduados. A janela dava para a copa de uma árvore alta, cujas folhas balançavam ao vento noturno.

Sua sentou-se na beirada da cama arrumada, colocando o caderno sobre o colo. Hyuna puxou a cadeira giratória da mesa de estudos e sentou-se ao contrário, apoiando os braços no encosto de madeira e encarando a amiga com aqueles olhos azuis compreensivos.

— Vai — disse Hyuna suavemente. — Desembucha.

Sua soltou um suspiro longo e pesado, os ombros caindo como se um fardo invisível a estivesse esmagando o dia todo. Ela olhou para as próprias mãos pálidas sobre a capa preta do caderno.

— Eu não entendo, Hyuna — a voz de Sua finalmente quebrou, saindo num sussurro dolorido e rouco que ela jamais deixaria Ivan ou Till ouvirem. — Eu juro por tudo que eu não entendo. Eu nunca falei com ela. Nunca encostei um dedo nela, nunca olhei torto, nunca fiz nada contra ela ou as amigas dela.

Hyuna franziu o cenho com pesar, ouvindo com atenção.

— Ela me odeia — Sua continuou, erguendo os olhos roxos, que brilhavam com uma melancolia profunda, quase ferida. — É visceral. Você viu como ela me olhou hoje? Não foi só raiva porque eu me meti na conversa do Ivan. Foi nojo. Ela olhou pra mim como se eu fosse a pior coisa do mundo.

— A Mizi não te odeia, Sua — Hyuna tentou amenizar, a voz calma e firme. — Ela nem te conhece.

— Esse é o ponto! — Sua rebateu com um pouco mais de força, a frustração transbordando. — Ela nem me conhece! Se ela me conhecesse e me achasse chata, antipática, qualquer merda assim, eu até entenderia. Mas ela só... decidiu que não vai com a minha cara. Por quê? O que tem de tão errado em mim pra ela me tratar assim?

Hyuna suspirou, passando a mão pelos cabelos castanhos. Ela conhecia a fama de Mizi pela escola; sabia que a garota de cabelo rosa era daquele tipo imprevisível, que andava em seu próprio ritmo e não dava a mínima para agradar ninguém. Mas também sabia o quanto Sua vinha guardando aquele sentimento no peito há meses, desenhando o perfil de Mizi às escondidas e observando de longe o jeito barulhento e magnético com que ela existia pelos corredores.

— Ela é marrenta, Sua — disse Hyuna com sinceridade. — É daquele tipo de gente que cria uma casca ácida pra ninguém chegar perto. As próprias amigas dela disseram que não sabem de onde saiu essa birra. A Diana e a Nuxy pediram desculpas, não pediram? Isso prova que o problema não é você. É ela. A Mizi é mimada, cabeça-dura e provavelmente só se irrita com você porque você não baba ovo dela igual metade da escola faz.

Sua baixou os olhos novamente, abrindo o caderno devagar.

Ali, na página recém-rabalhada da mesinha lá de baixo, não estava uma cadeira. Estavam os traços fortes do perfil de Mizi, com as mechas compridas caindo soltas e aquela expressão desdenhosa e feroz que ela usara no pátio. Era doloroso de ver, mas Sua não conseguia parar de desenhar.

— Eu queria conseguir não ligar — murmurou Sua, a ponta dos dedos acariciando de leve o grafite no papel. — Queria conseguir olhar pra ela e sentir raiva de volta. Dizer que ela é uma babaca e seguir em frente. Mas... toda vez que ela passa, toda vez que ela abre a boca, mesmo que seja pra cuspir fogo em mim... eu só consigo achar ela a garota mais linda que eu já vi na vida.

Hyuna esticou o braço e cobriu a mão de Sua com a sua, apertando com carinho fraterno.

— Paixão de colégio é uma merda, né? — Hyuna deu um sorrisinho triste, pensando involuntariamente no jeito que Luka a olhava às vezes e na bagunça que sua própria cabeça era. — Mas você tem que se proteger, Sua. Não deixa ela te pisar daquele jeito de novo. Ela é bonita pra caralho, mas não é dona do mundo. Se ela for escrota com você outra vez, você manda ela se foder. Ou eu mesma mando.

Sua soltou uma risadinha fraca, a primeira do dia, e encostou a cabeça no ombro de Hyuna quando a amiga se levantou e sentou ao seu lado na cama.

Lá fora, a brisa fria da noite batia contra o vidro da janela, enquanto no centro da cidade, encostada na mureta de uma loja de conveniência vazia, Mizi jogava outra lata vazia de Monster no lixo, olhando para a rua escura com a mesma sensação inexplicável de incômodo queimando no fundo do peito, incapaz de entender por que diabos a imagem daqueles olhos roxos e magoados continuava perseguindo seus pensamentos mesmo depois de tantas horas.

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