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Gelo Fino e Sangue Quente

O retorno de Luka à Pine Academy foi marcado pelo cheiro costumeiro de desinfetante barato misturado com a umidade pós-chuva típica das manhãs de terça-feira. Usando seu inseparável blazer preto impecavelmente alinhado e empurrando a armação dos óculos pelo nariz a cada três minutos, ele mal teve tempo de abrir a porta do seu armário antes de ser cercado.

— Você perdeu o maior evento canônico deste colégio, quatro-olhos — disparou Ivan, encostando o ombro na fileira de metal com um pirulito de cereja já girando entre os lábios. Os olhos pretos dele brilhavam com aquele prazer sádico de quem guarda a melhor fofoca do ano. — Simplesmente a garota do grupinho da Mizi veio se declarar pra mim em público. Com direito a plateia e tudo.

Luka ergueu uma sobrancelha loira, guardando um livro de cálculo na prateleira superior.

— E você fez o quê? Aceitou pra ver se para de encher o nosso saco?

— Melhor. — Ivan deu uma piscadela teatral. — Eu dei um toco com declaração pública de homossexualidade. O Till quase teve um derrame na hora, juro por Deus. Ficou mais vermelho do que pimentão em promoção.

— Vai se foder, Ivan! — rosnou Till da ponta do corredor, fuzilando o amigo com os olhos verdes. O cabelo cinza estava ainda mais espetado do que de costume, e ele usava a jaqueta jeans com os punhos arregaçados, exalando pura irritação. — Você é um sem-noção do caralho! Ninguém precisava ouvir você berrando que curte homem no meio do pátio!

— Ué, a menina merecia a verdade! — rebateu Ivan, rindo alto enquanto Till bufava e virava a cara para o outro lado.

Hyuna, encostada no armário ao lado, soltou uma risada nasalada, embora seus olhos azuis estivessem mais atentos à garota quieta ao seu lado.

— O problema nem foi o fora, Luka — disse Hyuna, cruzando os braços e deixando a saia curta balançar levemente ao mudar de postura. — Foi o surto que veio depois. A Mizi simplesmente jantou a Sua viva de graça. Do nada.

Luka parou a mão na porta do armário, surpreso. Ele olhou para Sua, que permanecia encostada na parede de tijolos, a cabeça baixa, os cabelos pretos curtos cobrindo parte do rosto pálido. A gravata estava milimetricamente alinhada e as mãos seguravam a alça da mochila com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.

— Sério? — Luka franziu o cenho, ajustando os óculos. — A Mizi? Ela nunca fala com ninguém de fora daquele grupinho dela.

— Pois é, mas ontem resolveu latir — comentou Till, a voz saindo com um peso estranho, um misto amargo de revolta e desilusão. Por dentro, a cabeça dele ainda estava uma confusão fodida. Passara meses achando Mizi a garota mais perfeita da Pine Academy, desenhando mentalmente desculpas para puxar assunto, para no final descobrir que a garota tinha a delicadeza de uma serra elétrica. — Foi escrota pra caralho.

Sua não disse uma palavra. Apenas manteve o olhar fixo no chão de linóleo gasto, sentindo o estômago apertar só de ouvir o nome ecoando no corredor.

Enquanto isso, a dois blocos de distância, a dinâmica no círculo de Mizi estava curiosamente desfalcada.

Anne e Nuxy tinham faltado. As duas tinham combinado na noite anterior de matar o dia inteiro para maratonar séries bobas e comer besteira no quarto de Anne, aproveitando que a mãe dela estava viajando a trabalho. Isso deixava apenas Diana e Mizi para enfrentar a tortura de duas aulas seguidas de física e uma de língua estrangeira.

— Eu vou morrer — gemeu Mizi, arrastando os pés para fora da sala de aula quando o sinal do intervalo finalmente soou.

Ela estava com os cabelos cor-de-rosa e azuis presos num rabo de cavalo torto, os dois últimos botões da camisa social abertos e a gravata preta jogada no bolso da saia de qualquer jeito. O olhar dourado dela exalava pura sonolência e ódio contra a humanidade.

— Você não vai morrer, para de drama — rebateu Diana, ajeitando as mechas verde-azuladas com a mão livre enquanto segurava firme o pulso de Mizi, impedindo-a fisicamente de dar um único passo na direção das máquinas de autosserviço.

— Diana, me solta, caralho — resmungou a mais alta, tentando se desvencilhar sem sucesso. — Eu preciso de um Monster branco. Minha pressão tá no chão. Se eu não colocar taurina nas veias agora, eu desmaio no meio do corredor e processo a escola.

— Nem fodendo — Diana manteve a pegada de ferro, puxando Mizi para longe das máquinas. — Você tomou três latas ontem. Três! Teu coração vai explodir antes do baile de formatura, porra. Você vai beber água igual gente normal ou vai ficar chupando bala de menta. Escolhe.

— Você é uma ditadora de merda — Mizi bufou, revirando os olhos com desdém, mas cedeu, enfiando as mãos compridas nos bolsos da saia e andando a passos pesados ao lado da amiga.

O corredor central estava lotado de alunos se empurrando para chegar ao refeitório. Diana continuava reclamando sobre o professor de física e como as provas dele deveriam ser consideradas crime contra os direitos humanos, enquanto Mizi apenas murmurava respostas monossilábicas, lutando contra a dor de cabeça que começava a latejar atrás dos olhos.

Foi no cruzamento entre o corredor do laboratório de ciências e a biblioteca que o acidente aconteceu.

Mizi estava distraída olhando para o chão, com a guarda baixa pelo cansaço, quando colidiu de frente contra alguém que vinha saindo apressada da biblioteca.

O impacto não foi forte, mas fez as duas recuarem um passo. Uma pasta de plástico transparente com folhas de sulfite escapou dos braços da outra pessoa, caindo no chão com um estalo seco.

Por puro reflexo e pela boa educação que raramente admitia ter, Mizi abriu a boca para se desculpar:

— Ei, desculpa, eu tava distra—

As palavras morreram na garganta.

O ar pareceu congelar em volta de Mizi no exato milésimo de segundo em que seus olhos dourados focaram na garota à sua frente.

Cabelos pretos cortados na altura do queixo. Pele alva. Olhos roxos, profundos e melancólicos.

Sua.

A transformação na expressão de Mizi foi instantânea e assustadora. A boca entreaberta pelo pedido de desculpas se fechou com força; a mandíbula travou, os olhos semicerraram em puro veneno e todo o rosto dela azedou de uma maneira tão visível que Diana, ao lado, deu um sobressalto.

Ao ver a reação brutal de Mizi, Sua encolheu os ombros na mesma hora.

A mágoa e a tristeza transpareceram no rosto da garota pálida como uma ferida aberta. Sua deu um passo involuntário para trás, as mãos finas descendo em um movimento trêmulo e ansioso para amassar o tecido da própria saia ao lado das coxas. Ela baixou a cabeça, o olhar fugindo em pânico, esperando o massacre verbal que tinha certeza de que viria. Nuxy e Diana tinham deixado claro ontem: Mizi a odiava. Odiava com todas as forças.

— D-desculpa... — murmurou Sua, a voz tão baixa e frágil que quase se perdeu no ruído ao redor. — Eu... não vi você.

Mizi abriu a boca para disparar. Queria rasgá-la em trinta pedaços com o sarcasmo mais corrosivo que conseguisse encontrar no fundo do estômago. Queria mandar ela parar de respirar o mesmo oxigênio, perguntar se ela era cega além de muda, despejar todo aquele ranço visceral e inexplicável que fazia seu sangue ferver.

Mas, de repente, as palavras não saíram.

Mizi viu as mãos de Sua tremendo contra a saia. Viu o jeito como a garota parecia fisicamente menor, como se estivesse encolhida esperando um tapa, os olhos roxos brilhando com uma tristeza genuína, quase suplicante.

*Puta merda... eu sou um monstro?*

O pensamento cruzou a mente de Mizi como uma chicotada gelada. Ela não queria sentir aquilo. Ela odiava Sua, caralho! Odiava aquela pose de santa, odiava aquele silêncio todo, odiava tudo nela! Mas olhar para aquela garota acuada daquele jeito fez algo estranho e desconfortável remexer no fundo do peito de Mizi, uma sensação intrusiva de covardia que ela odiou sentir.

Ao lado, Diana já estava quase se jogando na frente de Mizi, esticando as mãos em pânico para puxar a amiga pelo braço antes que voasse no pescoço de Sua.

— Mizi, calma— começou Diana, tensa.

Mizi cerrou os punhos dentro dos bolsos da saia. Ela não podia simplesmente voltar atrás e ser boazinha; o orgulho não permitia, e a acidez ainda queimava em sua língua. Mas, pela primeira vez na vida, ela não conseguiu ser o veneno puro que costumava ser.

— Sonsa — soltou Mizi, a voz saindo ríspida, mas sem o veneno cortante do dia anterior. — Burra pra caralho. Olha por onde anda da próxima vez.

Sem esperar resposta, Mizi passou por Sua com passos largos e violentos, chutando sem querer uma das folhas caídas no chão e marchando corredor afora como se estivesse fugindo de uma praga.

Diana soltou a respiração que nem sabia que estava segurando, lançou um olhar de desculpas apressado e confuso para Sua e correu para alcançar Mizi.

Sua ficou parada ali.

As palavras tinham sido menos agressivas do que ontem, mas o efeito foi exatamente o mesmo. Cada letra parecia um prego sendo martelado em seu peito. Sonsa. Burra. A garota de olhos roxos se abaixou devagar, recolhendo as folhas soltas com as mãos ainda trêmulas.

— Sua.

A voz firme de Hyuna soou perto. Ela tinha se aproximado sem que Ivan, Luka ou Till — que ainda discutiam sobre futebol alguns metros atrás — percebessem. Hyuna se abaixou rápido, ajudando a recolher os papéis.

— Não liga pra ela — murmurou Hyuna baixinho, olhando nos olhos marejados da amiga e apertando seu pulso com força e carinho. — Ela é uma escrota mimada, Sua. Guarda isso na cabeça: ela não merece uma lágrima sua. Ignora essa garota.

Sua apenas assentiu com um aceno quase imperceptível de cabeça, guardando os desenhos amassados de volta na pasta plástica e engolindo a seco o nó que sufocava sua garganta.

Mais à frente, Diana finalmente alcançou Mizi perto das escadas do segundo andar, agarrando a gola da camisa dela.

— Dá pra você me explicar que porra foi essa?! — cobrou Diana, bufando de irritação. — Caralho, Mizi, qual é a tua com essa menina?! O que foi que a Sua te fez? Ela roubou teu dinheiro? Matou teu cachorro? Fala, porra!

Mizi puxou o braço com força, fuzilando a amiga com os olhos dourados acesos de fúria.

— Ela não fez porra nenhuma! — estourou Mizi, a voz falhando de pura raiva acumulada. — Eu só odeio ela! Não suporto a cara dela, não suporto o jeito que ela anda, não suporto a voz dela de sonsa coitadinha! Dá vontade de vomitar só de olhar! Satisfeita?!

Diana encarou Mizi em silêncio por três segundos, perplexa.

— Você é completamente pirada, sabia? — soltou Diana, balançando a cabeça em reprovação. — Uma maluca de pedra.

Mizi virou as costas e continuou subindo as escadas, sem dizer mais nada, mas com os dentes cravados no lábio inferior até quase sangrar. Ela estava com raiva de Diana, com raiva de Sua, mas, acima de tudo, com raiva de si mesma por não ter tido a coragem de ser cruel até o fim.

***

No final da tarde, o portão principal da Pine Academy estava apinhado de alunos esperando caronas, ônibus ou simplesmente matando tempo antes de voltar para casa.

O grupo dos cinco caminhava junto pela calçada de saída. Ivan vinha jogando uma latinha de refrigerante para cima e pegando de volta, rindo de alguma piada de Luka sobre um professor substituto. Till caminhava ao lado com a cara amarrada de sempre, os fones de ouvido pendurados no pescoço. Hyuna falava ao telefone com a mãe sobre o jantar.

E Sua vinha alguns passos atrás, presa no próprio inferno mental.

Ela mal ouvia a risada do irmão. A mente de Sua repetia a mesma cena em um loop torturante: o olhar de Mizi. Aquele segundo exato em que a expressão bonita e relaxada da garota de cabelo rosa se desfez em nojo absoluto. *Por quê?* A pergunta ardia em sua cabeça como uma queimadura de terceiro grau. O que ela tinha feito para merecer tanto desprezo? Ter nascido? Respirar? Como alguém podia amar tanto uma pessoa que a olhava como se ela fosse um lixo de calçada?

— Ei, gatinha.

A voz masculina, desconhecida e excessivamente melosa quebrou o transe de Sua de forma abrupta.

Ela parou os passos na calçada, erguendo a cabeça assustada.

Parado bem na frente dela, bloqueando a passagem para o portão externo, estava um garoto alto, com cabelos escuros bem cortados, jaqueta de couro estilosa e calça jeans preta rasgada nos joelhos. Ele claramente não usava o uniforme da Pine Academy e parecia ter uns dezenove ou vinte anos. Tinha um sorriso convencido no rosto e olhos que varriam Sua de cima a baixo com um descaramento revoltante.

— Tava te olhando ali do outro lado da rua — disse o estranho, dando um passo mais perto e ignorando completamente os alunos ao redor. — Você é bonita pra caralho, sabia? Esse estilinho misterioso é um pecado. Tá indo pra onde agora? Não quer colar comigo pra gente tomar alguma coisa?

Alguns alunos pararam para olhar. O garoto era inegavelmente bonito, do tipo que parecia modelo de revista juvenil, e a cena de um quase-adulto charmoso dando em cima da garota melancólica do terceiro ano chamou a atenção de imediato. Um grupinho de garotas do segundo ano cochichava rindo, achando que era algo saído de um filme adolescente clichê.

Sua, no entanto, travou no lugar.

O constrangimento bateu forte, fazendo seu rosto esquentar. Ela não queria aquilo. Sua cabeça estava explodindo de dor por causa de Mizi, seu peito parecia uma ruína, e aquele idiota estava ali parado, invadindo seu espaço pessoal com um sorriso asqueroso.

— Não... com licença — murmurou Sua, tentando dar um passo para o lado para desviar dele.

— Qual é, linda, não seja tímida — o garoto deu outro passo, cortando a frente dela de novo e esticando o braço para tentar tocar na alça da mochila dela. — Eu não mordo, prometo. Só quero bater um papo.

Antes que Sua pudesse recuar mais, antes que Hyuna percebesse a situação e virasse para intervir, e antes que Ivan pudesse soltar a lata de refrigerante para partir a cara do sujeito...

Uma rajada cor-de-rosa surgiu do nada, cortando a multidão como um furacão desgovernado.

— LARGA ELA, SEU FILHO DA PUTA!

O berro ecoou tão alto e ensurdecedor pelo pátio que fez todo mundo congelar no lugar.

Num movimento rápido e violento como o bote de uma cascavel, Mizi avançou, enfiou as duas mãos compridas no cabelo arrumadinho do garoto e puxou com tanta força para baixo que a cabeça dele foi jogada para trás com um estalo dolorido.

— AAAAAARGH! PUTA QUE PARIU! — o cara berrou, dobrando os joelhos em agonia enquanto tentava segurar os pulsos de Mizi para salvar o próprio couro cabeludo.

— O QUE CARALHOS VOCÊ PENSA QUE TÁ FAZENDO AQUI, SEU MERDA?! — Mizi rugia, completamente descontrolada, a cara vermelha de fúria e os olhos dourados faiscando fogo puro. Ela não soltou o cabelo dele nem por um milímetro, puxando-o pela calçada como se estivesse arrastando um saco de lixo rebelde. — EU FALEI PRA VOCÊ ME ESPERAR NO CARRO, SEU DESGRAÇADO! FALEI OU NÃO FALEI?!

— Mizi! Solta, caralho! Tá doendo, porra! — o garoto gritava, quase caindo de quatro no asfalto enquanto era rebocado pela prima ensandecida.

— VOU ARRANCAR ESSA TUA CARA DE PAU NO TAPA! SAFADO DO CARALHO! SE APROVEITANDO DE MENINA NA PORTA DA ESCOLA, SEU VERME NOJENTO! EU VOU CONTAR PRA SUA MÃE E QUEBRAR A TUA MOTO, SEU ARROMBADO!

A cena era surreal. Alunos abriam espaço em choque absoluto enquanto Mizi arrastava o próprio primo — que tinha vindo visitar a família dela e resolvera bancar o conquistador barato na saída da escola — aos puxões de cabelo e pontapés, soltando todos os palavrões imagináveis no dicionário enquanto marchavam em direção ao estacionamento do outro lado da rua.

No portão, o grupo de amigos assistia àquilo com os queixos praticamente caídos no chão.

— Caralho... — murmurou Till, piscando várias vezes, aterrorizado. — Ela é completamente insana. Ela ia matar o cara.

Ivan estava rindo, achando a cena a coisa mais espetacular que já tinha visto na vida. Hyuna soltou um riso nervoso, mas seus olhos foram imediatamente para Sua.

Sua continuava paralisada no mesmo lugar da calçada.

O coração dela batia tão rápido e tão descompassado que parecia querer rasgar a caixa torácica. Os olhos roxos estavam fixos na esquina por onde Mizi tinha acabado de sumir, arrastando o sujeito. Ela sabia que Mizi não tinha feito aquilo por ela; tinha feito porque o cara era parente dela e estava passando vergonha, ou porque Mizi já estava com ódio acumulado de tudo e de todos. Mas a imagem de Mizi aparecendo como uma tempestade, quebrando o mundo ao redor para tirar aquele idiota de perto... ficou gravada na alma de Sua como ferro em brasa.

***

A noite caiu densa e abafada sobre a cidade.

No quarto do segundo andar da casa de Mizi, o silêncio era quebrado apenas pelo barulho dos passos impacientes da garota.

Ela andava de um lado para o outro do tapete felpudo, vestindo apenas uma camiseta preta três números maior que ela e shorts de pijama. O cabelo rosa estava completamente bagunçado, e ela segurava uma garrafa de água gelada — já que Diana tinha proibido energéticos até a sexta-feira — com tanta força que o plástico estalava.

— Que ódio... — resmungou Mizi sozinha, chutando a lateral da própria cama com força. — Que ódio, caralho!

A cabeça dela era um turbilhão doentio. Ela tinha descascado o primo no caminho para casa, gritado tanto com ele que a garganta ainda ardia, mas não era com ele que ela estava brava.

Ela estava com ódio de si mesma por causa do intervalo.

*Por que eu não xinguei ela direito?*, Mizi pensava, puxando os próprios cabelos em pura frustração. *Por que eu me segurei? Eu odeio aquela garota! Odeio aquele jeito dela! Por que eu travei só porque ela tava com aquela carinha de cachorro sem dono?!*

A lembrança dos olhos roxos de Sua, brilhando com aquela mágoa genuína e silenciosa, teimava em queimar em sua mente. Mizi jogou a garrafa de água na mesa de cabeceira e se jogou de bruços na cama, afundando a cara no travesseiro com um grunhido abafado de fúria, odiando a sensação incômoda de culpa que não conseguia arrancar de dentro do peito.

***

Do outro lado do bairro, a casa dos irmãos estava imersa em uma penumbra quieta.

No andar de baixo, Ivan terminava de colocar os pratos na mesa da cozinha, mastigando distraidamente um pedaço de torta doce que a mãe deles tinha deixado na geladeira antes de sair para o plantão noturno.

— Ô, Sua! — gritou Ivan da cozinha, mas não obteve resposta. — Ô, geladeira ambulante! A comida tá na mesa!

Silêncio absoluto.

Ivan franziu o cenho. Sua nunca se atrasava para comer; ela era metódica até demais com horários. Achando que ela devia estar com os fones de ouvido no volume máximo desenhando alguma coisa boba, ele subiu as escadas de madeira, pisando macio nos degraus.

O corredor do segundo andar estava escuro, iluminado apenas por uma réstia de luz amarela que vazava por debaixo da porta do quarto de Sua.

Ivan se aproximou e, como a porta não fazia barulho por ter as dobradiças bem lubrificadas, girou a maçaneta devagar para empurrá-la com o ombro e soltar alguma piada idiota sobre o jantar.

A porta abriu alguns centímetros sem emitir um único ruído.

As palavras morreram na garganta de Ivan antes mesmo de se formarem.

O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pela lâmpada fraca da luminária de mesa. Sua estava sentada no chão, encostada na lateral da cama, com os joelhos dobrados contra o peito e a testa apoiada neles.

Ela estava chorando.

Não era um choro espalhafatoso de birra; era um pranto silencioso, pesado e dilacerante. Os ombros pequenos de Sua tremiam em espasmos ritmados, e os soluços abafados que escapavam de seus lábios eram abafados contra o tecido da própria calça. No tapete ao lado dela, o caderno de desenho estava aberto de par em par, exibindo os traços repetidos, obsessivos e delicados do mesmo rosto que a fizera em pedaços naquele dia: o perfil de Mizi.

Ivan paralisou no batente da porta.

O sorriso sarcástico sumiu de seu rosto como se nunca tivesse existido. Ele encarou a irmã caçula, sentindo um aperto frio e desconhecido esmagar seu peito. Ivan vivia irritando Sua, vivia zombando da frieza dela e chamando-a de poço de gelo, mas ele nunca, em todos os seus dezoito anos de vida, tinha

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