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Curto-Circuito em Tons de Ouro

O barulho no corredor dos armários do bloco B parecia uma orquestra de pura humilhação alheia.

Till estava a meio passo de cometer um crime hediondo. Prensado contra a fileira de metal cinza, ele fuzilava Ivan com os olhos verdes faiscando de ódio, enquanto o moreno girava um pirulito de framboesa entre os dentes, com os braços apoiados na porta do armário logo acima da cabeça do rebelde, bloqueando qualquer rota de fuga.

— Qual é, Tillzinho? Ficou bravinho só porque eu falei que o teu corte de cabelo parece uma calopsita que tomou choque? — Ivan provocava, inclinando-se com aquele sorriso irritante e sádico, aproximando o rosto devagar até quase encostar o nariz pálido na bochecha do outro.

— Tira essa cara de deboche de perto de mim, Ivan, antes que eu arranque teus dentes no soco, caralho! — rosnou Till, com o pescoço já vermelho de puro estresse, tentando empurrar o ombro de Ivan sem sucesso.

A um metro dali, a atmosfera conseguia ser ainda mais caótica, mas por motivos completamente diferentes. Hyuna estava encostada na lixeira de metal, rindo baixo enquanto Luka a encurralava com uma postura surpreendentemente ousada. O loiro segurava a alça da mochila dela com uma das mãos e apoiava a outra na parede, com o blazer impecavelmente alinhado e o rosto a menos de cinco centímetros do dela. Os dois sussurravam coisas inaudíveis, trocando olhares tão carregados que parecia que iam se engolir vivo ali mesmo, no meio de todo mundo.

E, bem no meio desse fogo cruzado de puro constrangimento adolescente, Sua permanecia sentada na beirada de um banco de concreto, segurando um livro grosso de literatura russa na altura dos olhos. Ela tentava com todas as forças focar nas letras miúdas, mas o cérebro dela parecia uma chapa quente. Segurar vela para dois casais em potencial ao mesmo tempo era o purgatório particular que o universo tinha reservado para sua terça-feira.

O que Sua não sabia, no entanto, era que a vinte metros dali, encostada no pilar de azulejos perto das escadas, Mizi não tirava os olhos dela.

Mizi estava com uma lata de Monster branco aberta em uma das mãos, o rabo de cavalo rosa e azul caindo de lado no ombro e o último botão da camisa social aberto, exibindo a clavícula pálida. Ao lado dela, Diana reclamava sobre o trabalho de história, enquanto Anne ajeitava a saia plissada e Nuxy roía as unhas postiças.

Mizi mal ouvia uma palavra do que as amigas falavam. O olhar dourado dela estava completamente cravado na nuca de Sua, na franja fina que balançava de leve quando a garota virava a página do livro, no jeito quieto e quase invisível como ela existia no mundo. Se Sua tivesse erguido a cabeça por um mísero segundo, teria flagrado o descaramento com que estava sendo secada — e provavelmente teria secado de volta.

De repente, Sua fechou o livro com um estalo suave, colocou-o sob o braço e se levantou, desviando do quase-beijo de Luka e Hyuna para caminhar em direção ao corredor dos banheiros femininos.

Mizi bateu o olho na silhueta miúda se afastando e o cérebro dela deu um estalo.

— Já volto, gente — soltou Mizi, interrompendo Diana no meio de uma frase sobre a Segunda Guerra Mundial.

— Vai aonde, doida? — perguntou Diana, franzindo a testa.

— Mijo — mentiu Mizi na cara mais lavada do mundo, jogando a lata vazia no lixo e disparando a passos compridos, sem dar tempo para as meninas sequer notarem quem tinha entrado naquela mesma porta segundos antes.

***

O banheiro feminino do bloco B estava silencioso, com aquele cheiro característico de desinfetante de pinho e água sanitária. A luz branca das lâmpadas tubulares zumbia no teto.

Sua estava parada diante do espelho manchado, apoiando as duas mãos na borda de louça da pia enquanto respirava fundo, tentando se recuperar da vergonha alheia do corredor. Ela abriu a torneira, molhou as pontas dos dedos e passou na nuca fria.

A porta de metal bateu com um eco oco.

Sua ergueu os olhos roxos para o reflexo e quase engoliu a própria língua.

Mizi entrou com passos lentos, enfiando as mãos nos bolsos da saia curta, com aquela postura desleixada e naturalmente magnética. Os olhos dourados encontraram os de Sua pelo vidro do espelho e um sorrisinho discreto, quase imperceptível, puxou o canto de seus lábios.

— E aí — soltou Mizi com a maior calma do planeta, parando na pia ao lado e abrindo a torneira só para disfarçar. — O corredor lá fora tá parecendo um hospício hoje, né? O Till parecia que ia espancar o seu irmão a qualquer momento.

Era para ser uma conversa boba. Uma amenidade normal de colégio.

Mas, na cabeça de Sua, as palavras de Hyuna do dia anterior ecoaram como uma explosão de artilharia pesada: *Ela tava dando em cima de você, sua mula! Ela tá na sua, caralho!*

O peito de Sua travou na mesma hora.

O ar sumiu da garganta dela com uma rapidez aterrorizante. O estômago despencou em um poço sem fundo. *Ela tá aqui. Ela veio atrás de mim. Puta que pariu, ela tá na minha cola. Ela quer alguma coisa e eu vou foder tudo, eu sou esquisita, eu não sei falar com ela, ela é bonita demais, ela me odeia, não, ela não me odeia, mas vai odiar se eu abrir a boca...*

A espiral de pensamentos negativos colapsou dentro do crânio de Sua em menos de três segundos.

A respiração da garota menor começou a falhar, saindo em golfadas curtas e sibilantes. Os ombros dela subiram até as orelhas, e as mãos finas agarraram a beirada da pia com tanta força que as pontas dos dedos ficaram brancas como cera. Ela começou a hiperventilar, o peito subindo e descendo em espasmos desesperados enquanto os olhos roxos arregalados encaravam o ralo de metal, incapazes de focar em qualquer coisa.

Mizi desligou a torneira no mesmo milésimo de segundo. A postura relaxada se desfez num sobressalto de pura preocupação.

— Ei... Sua? — Mizi deu um passo rápido para o lado, tocando levemente no ombro trêmulo da menor. — O que foi? O que você tá sentindo? Respira, calma!

O som da voz de Mizi só piorou as coisas. Na mente em pane de Sua, a proximidade física parecia um choque de alta voltagem. Ela tentou puxar o ar, mas o oxigênio simplesmente não chegava aos pulmões; lágrimas involuntárias de pura ansiedade e desespero começaram a queimar e transbordar pelos cantos dos olhos roxos.

Mizi entrou em pânico interno. Vendo Sua se encolher daquele jeito, tremendo dos pés à cabeça e lutando para respirar, a mente da mais alta foi direto para a pior conclusão possível.

*Ela tá com medo de mim.*

A lembrança de todas as grosserias, dos xingamentos, do choro do dia anterior atingiu Mizi como um soco na boca do estômago. O arrependimento queimou em sua garganta como bile.

— Ei, olha pra mim, por favor! — pediu Mizi, a voz afinando de angústia enquanto segurava os braços finos de Sua, tentando trazê-la de volta. — Desculpa, tá? Desculpa por tudo que eu já fiz com você! Eu juro por Deus que eu não vou te fazer mal nenhum, Sua! Me perdoa por ter sido tão nojenta com você naqueles dias, eu fui uma monstra, mas você não precisa ter medo de mim! Eu não vou encostar um dedo em você, eu prometo, caralho, só respira!

Sua tentou falar. Abriu a boca trêmula para dizer que *não era isso*, que ela não tinha medo de levar uma surra, que o problema era justamente o fato de estar apaixonada até os ossos e ser uma covarde disfuncional. Mas a garganta dela estava completamente fechada, emitindo apenas um som rouco e sufocado de desespero.

Ao ver a tentativa frustrada e a garota afundando ainda mais na crise, Mizi parou de falar bobagem.

Num movimento firme e sem hesitação, a garota mais alta deu um passo à frente, envolveu a cintura e as costas de Sua com os braços compridos e a puxou contra o próprio peito em um abraço esmagador.

Sua travou por um segundo com o impacto, mas Mizi não soltou. Pelo contrário: Mizi inclinou a cabeça para a frente e afundou o rosto no espaço quente entre o queixo e o pescoço de Sua, as mechas rosa e azuis caindo como uma cortina sobre os ombros das duas.

— Shhh... tá tudo bem — murmurou Mizi, com os lábios quase roçando na pele pálida do pescoço de Sua, a voz saindo baixa, rouca, incrivelmente mansa e reconfortante, sem um pingo de acidez. — Eu tô aqui. Ninguém vai te machucar. Puxa o ar devagarzinho... Isso. Solta. Pensa em qualquer merda idiota, pensa no meu cabelo ridículo, pensa no estúpido do Till... Só respira comigo, Sua. Devagar.

O calor do corpo de Mizi era absurdo. O cheiro cítrico e doce que emanava da pele dela, misturado à vibração grave da voz contra a jugular de Sua, agiu como um sedativo poderoso. Aos poucos, sentindo os batimentos cardíacos fortes e ritmados de Mizi contra a sua própria caixa torácica, o chiado no peito de Sua começou a diminuir.

O oxigênio voltou. A visão clareou. O tremor nas pernas abrandou.

E foi exatamente aí que a ficha caiu com força total.

*Puta que me pariu.*

Sua se deu conta de onde estava: colada no corpo de Mizi, sendo apertada com uma intimidade brutal no banheiro da escola, sentindo a respiração morna da garota mais bonita do colégio soprando direto no seu pescoço.

O choque foi tão violento que o corpo de Sua reagiu por reflexo puro: ela espalmou as duas mãos no peito de Mizi e empurrou a garota mais alta para trás com força.

Mizi deu dois passos em falso para trás com o empurrão inesperado, quase batendo a bunda na pia. Ela piscou os olhos dourados, mas não demonstrou a menor raiva ou irritação. Apenas ajeitou a gola da camisa e encarou a menor com um olhar atento e sincero.

— Tá melhor? — perguntou Mizi, o tom tão calmo que parecia que nada demais tinha acontecido.

Sua sentiu o sangue subir para as orelhas em uma velocidade estratosférica. Ela limpou o rosto às pressas com a manga da blusa social branca, arrumando a gravata torta em pânico.

— T-tô... — murmurou Sua, a voz ainda trêmula e rouca de choro. Ela baixou a cabeça, incapaz de sustentar o olhar. — Desculpa. Desculpa por... você ter que ver essa esquisitice. Eu sou ridícula.

Mizi franziu as sobrancelhas na mesma hora, estalando a língua com desdém.

— Cala essa boca. Não tem nada de esquisitice nisso aí. Ansiedade é uma bosta, eu sei como é — disse Mizi, dando um passo cauteloso na direção dela, com as mãos soltas ao lado do corpo para não assustá-la. — Mas... por que deu isso do nada? Foi alguma coisa que eu falei?

Sua engoliu a seco. O nó em sua garganta não permitia que ela dissesse a verdade: *Deu isso porque você é a garota dos meus sonhos e eu tenho pavor de você descobrir o quanto eu sou sem graça e enjoar de mim.*

— Não... — mentiu Sua, encarando a ponta dos próprios sapatos pretos. — Não foi nada. Coisa minha.

Mizi estreitou os olhos por dois segundos, lendo a postura acuada da garota. Ela era perspicaz o suficiente para sacar que tinha caroço naquele angu, mas não era idiota de forçar a barra logo depois de um ataque de pânico.

— Tá bom. Esquece essa merda então — Mizi deu de ombros, passando a mão pelos cabelos rosa e azuis com naturalidade e soltando um suspiro relaxado. — Olha só: o sinal ainda vai demorar uns dez minutos pra tocar. Você ia ficar lá aguentando aquele show de horrores do seu irmão e o quase-beijo nojento da Hyuna com o quatro-olhos?

Sua soltou uma risadinha nasalada e fraca, o clima pesado finalmente evaporando.

— Não tava aguentando mais, na verdade.

— Pois é. Então vem comigo — Mizi virou-se em direção à porta e fez um sinal com a cabeça, esperando por ela. — Vamos andar por aí até dar a hora. O ar lá fora tá menos pesado que essa privada aqui.

Sua hesitou por meio segundo, mas a ideia de ficar perto de Mizi falava infinitamente mais alto do que o medo. Ela assentiu com a cabeça, ajeitou a pasta sob o braço e seguiu a garota mais alta para fora do banheiro.

Os minutos seguintes foram estranhamente pacíficos. As duas caminhavam lado a lado pelo corredor amplo do terceiro ano, mantendo uma distância segura de um palmo entre os ombros. Mizi falava sobre o quanto odiava o professor de matemática, soltando palavrões bem colocados e arrancando sorrisos tímidos de Sua, que respondia com comentários pontuais e secos sobre as matérias que preferia.

Por dentro, contudo, a cabeça de Sua continuava uma confusão desgraçada: *Ela tá andando comigo porque quer se aproximar de verdade ou ela só tá com dó de mim porque achou que eu ia morrer no banheiro? Será que a Hyuna tava certa e ela realmente tá na minha? Não pode ser... ela é daquele jeito com todo mundo, né?*

— Ô, MIZI!

O berro estridente de Diana ecoou pelo saguão central. A garota de cabelos verde-azulados vinha apressada pelo meio dos alunos, agitando uma caneta azul no ar.

— Anda logo, porra! O professor de literatura já tá entrando na sala pra passar a prova surpresa! Se você rodar nessa matéria de novo a sua mãe te deserda!

Mizi parou o passo e soltou um xingamento sujo entre os dentes, revirando os olhos para o teto.

— Caralho... esqueci totalmente dessa merda de prova.

Ela se virou de frente para Sua. O olhar dourado dela brilhava com uma intensidade descarada e tranquila.

— Tenho que ir antes que a Diana tenha um troço — disse Mizi.

E então, sem aviso prévio, sem a menor cerimônia e sem um pingo de vergonha na cara, Mizi deu um passo para a frente, segurou de leve o ombro de Sua e inclinou-se, plantando um beijo estalado, quente e macio bem no meio da bochecha pálida da menor.

— A gente se vê por aí, Sua — despediu-se Mizi com um meio-sorriso ladino, virando as costas num giro fluido e saindo correndo com passos largos em direção à sala de aula, com as pontas azuis do cabelo chicoteando o ar.

Sua estancou no lugar.

O mundo ao redor perdeu completamente a cor, o som e o peso.

O calor residual dos lábios de Mizi na sua bochecha parecia uma queimadura química de pura eletricidade. Em um intervalo de três segundos, a pele alva de Sua ferveu, explodindo em um tom escarlate tão vivo e brilhante que parecia que ela tinha enfiado o rosto dentro de um forno industrial.

As pernas de Sua amoleceram como gelatina derretida.

— Ai, meu Deus... — murmurou ela, sentindo o equilíbrio fugir.

Sem conseguir dar um único passo para a frente, Sua simplesmente se deixou cair sentada no banco de madeira mais próximo, apoiando a testa na palma das mãos trêmulas enquanto o coração dela disparava a duzentos batimentos por minuto. Ela ficou ali, completamente paralisada, até o sinal tocar.

***

Durante as duas últimas aulas, Sua foi um fantasma. Ela não anotou uma única linha no caderno. Quando o sinal final da tarde tocou e os alunos começaram a esvaziar a Pine Academy, o grupo dos cinco se reuniu na calçada do portão de saída.

Ivan vinha com as mãos no bolso, discutindo aos berros com Till sobre uma banda de rock indie que Till jurava que era genial e Ivan dizia que parecia um liquidificador moendo parafusos. Luka caminhava ao lado dos dois, metendo a colher na discussão para defender a parte técnica da música.

Aproveitando que os três garotos estavam viajando na maionese e a alguns passos à frente, Sua puxou a manga da jaqueta de Hyuna com força.

— Hyuna — chamou Sua, a voz saindo num sussurro urgente.

— O que foi, mulher? Tá com essa cara de quem viu o papa de calcinha desde a quarta aula.

Sua olhou para os lados, respirou fundo e soltou tudo de uma vez:

— Eu tive uma crise no banheiro e a Mizi me abraçou enfiando o rosto no meu pescoço pra me acalmar. Depois a gente andou juntas pelo corredor e, quando ela foi fazer a prova, ela me deu um beijo na bochecha na frente de todo mundo e foi embora rindo.

Hyuna parou de andar instantaneamente.

Os olhos azuis da morena se arregalaram a um ponto que pareciam que iam saltar para fora da cabeça. A boca dela abriu em um "O" tão descomunal que ela precisou segurar o próprio queixo com a mão.

— PUTA... QUE... O... PARIU! — Hyuna quase explodiu, pulando na calçada e agarrando os braços de Sua com tanta força que sacudiu a garota inteira. — EU SABIA! CARALHO, EU SOU UM GÊNIO! A GAROTA BEIJOU A TUA CARA, SUA! BEIJOU A TUA CARA! E VOCÊ DIZENDO QUE ERA DÓ! DÓ O CARALHO, ELA QUER É TE PEGAR DE JEITO!

— Fala baixo, sua louca! — sibilou Sua, o rosto queimando de novo enquanto puxava a amiga para continuar andando. — Os meninos vão ouvir!

— Que se foda os meninos, Sua! A deusa da escola tá arriada nos teus quatro pneus!

A comemoração caótica de Hyuna foi interrompida pelo barulho de gritaria e risadas escandalosas que vinha logo atrás, perto dos portões de ferro.

O grupo olhou para trás.

A cena era patética e hilária ao mesmo tempo. Nuxy vinha marchando pela calçada com uma cara de poucos amigos, segurando firmemente a orelha direita de Mizi de novo. Mizi vinha inclinada de lado, soltando uma sequência ininterrupta de palavrões e tentando se soltar com tapas fracos no braço da amiga menor.

— Me solta dessa porra, Nuxy! Eu não sabia que o café era seu, caralho! — berrava Mizi.

— Era meu sim, sua ladra de comida! Você tomou o meu capuccino inteiro e ainda teve a audácia de cuspir a canela! — ralhava Nuxy, puxando com mais força.

Atrás delas, Diana vinha dobrando o corpo de tanto rir, quase engasgando com o ar, enquanto Anne cobria o rosto com as duas mãos, fingindo que não conhecia nenhuma das três para não passar vergonha com os outros alunos que olhavam a cena.

Till balançou a cabeça em pura descrença.

— Aquela garota atrai confusão até dormindo, puta que pariu — comentou o emo, voltando a andar.

Sua, no entanto, olhou para Mizi sendo arrastada aos xingamentos e, pela primeira vez, não sentiu medo nenhum. Apenas um calor gostoso e reconfortante no meio do peito.

***

Já passava das oito da noite quando Sua finalmente terminou o jantar com Ivan e subiu para o quarto.

Ela fechou a porta, jogou a mochila no chão e se atirou de costas na cama, encarando o teto escuro. O dia tinha sido uma montanha-russa emocional tão insana que ela sentia os músculos doloridos. Ela só queria enfiar a cara no travesseiro e gritar para liberar a adrenalina.

*BZZZ.*

A vibração repentina do celular no bolso da saia a fez dar um sobressalto.

Sua puxou o aparelho com preguiça, esperando alguma notificação idiota de grupo de sala ou Ivan pedindo para ela descer e pegar um copo d'água para ele.

Mas, ao acender a tela, o coração de Sua simplesmente parou.

Havia uma mensagem no WhatsApp vinda de um número desconhecido, cuja foto de perfil era uma selfie torta de Mizi fazendo careta enquanto segurava uma lata de Monster.

**Desconhecido:** *A Hyuna me passou teu número depois que eu ameacei jogar a mochila dela no lixo da quadra kkkk*

**Desconhecido:** *E aí, Sua. Tua bochecha já desbotou do vermelho ou você ainda tá parecendo um tomate?*

Sua arregalou os olhos. A respiração dela travou.

*A Hyuna... aquela traidora desgraçada e maravilhosa.*

O surto interno foi tão violento que Sua precisou morder o próprio punho com força para não soltar um berro estridente no quarto silencioso. As pernas dela chutaram o colchão em puro espasmo de euforia.

Com os dedos tremendo incontrolavelmente, ela salvou o contato como "Mizi 🌸" e digitou uma resposta, tentando parecer a pessoa mais calma e descolada da face da Terra:

**Sua:** *Eu não sou um tomate. E a culpa foi sua por fazer aquilo do nada no meio do corredor.*

A resposta veio em menos de dez segundos:

**Mizi 🌸:** *Culpa nada, você merecia depois de quase ter morrido na pia kkkkk Mas falando sério, cê tá bem mesmo? Não passou mal de novo não, né?*

O cuidado por trás da provocação boba derreteu qualquer resquício de insegurança que Sua pudesse ter. Elas começaram a conversar. Falaram sobre o teste de literatura que Mizi com certeza tinha zerado, sobre desenhos, sobre músicas horríveis que Ivan ouvia no último volume e sobre a falta de vergonha na cara de Luka.

Sua dormiu tarde naquela noite, com um sorriso idiota estampado no rosto e o celular colado ao peito.

***

Na manhã de quarta-feira, a névoa fria ainda cobria as escadarias da Pine Academy.

Sua estava parada sozinha perto dos pilares da entrada principal, com a mochila nas costas e as mãos enfiadas nos bolsos do casaco preto, esperando Hyuna chegar para subirem juntas para a primeira aula.

De repente, duas mãos compridas, geladas e macias taparam seus olhos por trás, cortando completamente sua visão.

O cheiro cítrico e fresco de energético atingiu seus sentidos no mesmo instante.

— Adivinha quem é? — uma voz rouca e divertida sussurrou bem perto de sua orelha esquerda.

O coração de Sua deu aquele salto costumeiro, mas um meio-sorriso involuntário puxou seus lábios.

— Deixa eu pensar... — Sua brincou, com a voz mansa. — Uma garota barulhenta que quase perdeu a orelha ontem por causa de um capuccino?

As mãos se soltaram e Mizi deu a volta, parando bem na frente dela com um sorriso largo e descarado. Ela usava a gravata frouxa de sempre, o rabo de cavalo balançando com a brisa da manhã e uma lata de energético já aberta na mão esquerda.

— Fofoqueira você, né? — zombou Mizi, dando um gole na bebida. — A Nuxy é uma psicopata, aquilo ali devia estar internada.

— Você mereceu por ter roubado a comida dela — Sua rebateu de volta, sentindo uma naturalidade nova e deliciosa ao conversar com ela.

— Mereci nada, eu tava com fome — Mizi deu de ombros.

Elas continuaram conversando sobre a lição de casa por alguns minutos, o clima entre as duas fluindo com uma leveza que Sua nunca imaginou ser possível. Mas, no meio de uma frase sobre o professor de biologia, Sua percebeu que algo tinha mudado.

Mizi não estava mais olhando nos olhos dela.

O olhar dourado da garota mais alta tinha descido. Estava cravado, fixo e denso, diretamente nos lábios de Sua.

Sua continuou falando por mais dois segundos, mas foi perdendo o fio da meada. O silêncio caiu entre as duas.

Mizi não disfarçava. Ela inclinava a cabeça de leve, com as sobrancelhas levemente arqueadas, encarando a boca de Sua com uma intensidade que parecia queimar o ar matinal. E então, em um movimento lento e completamente inconsciente de desejo, Mizi cravou os dentes brancos no próprio lábio inferior, mordendo a carne de um jeito que fez todo o sistema nervoso de Sua entrar em curto-circuito instantâneo.

As palavras morreram na garganta de Sua. As bochechas dela ferveram em um milésimo de segundo.

— Mizi...? — chamou Sua, a voz saindo quase como um sussurro trêmulo, tentando quebrar a hipnose. — Por que você tá com essa cara?

O som da voz de Sua pareceu arrancar Mizi de um transe profundo. A garota de cabelo rosa piscou três vezes rápido, o olhar dourado subindo num sobressalto de volta para os olhos roxos da menor. Por um breve segundo, Mizi pareceu levemente desconcertada, mas o sarcasmo habitual veio rápido para salvar a pátria.

— Cara de quê? Eu não tô com cara de nada — desconversou Mizi com a maior cara de pau, estalando a língua e dando outro gole no energético para disfarçar. — Eu só tava pensando que você devia parar de usar esse protetor labial sem graça e comprar um com gosto de morango. Ia combinar muito mais com essa tua cara de santa.

Sua arregalou os olhos, o estômago despencando em uma montanha-russa de pura adrenalina.

Antes que ela pudesse processar o flerte descarado, Mizi esticou o braço comprido, passou a mão ao redor dos ombros estreitos de Sua e a puxou de lado, guiando-a com passos descontraídos para dentro do prédio da escola.

— Anda, vamos entrar antes que o sinal toque — disse Mizi, a voz carregada de um charme arrogante enquanto caminhavam coladas pelo saguão lotado. — E não se faz de desentendida, não, que você entendeu muito bem o que eu quis dizer.

Por fora, Sua manteve a expressão impassível, apenas encarando o chão enquanto caminhava sob o braço da garota mais alta.

Mas, por dentro, ela estava soltando fogos de artifício, pronta para subir pelas paredes de tanta felicidade, torcendo com todas as forças para que aquele ano letivo nunca mais chegasse ao fim.

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