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Entre o Ranço e o Frio na Barriga
A segunda-feira seguinte começou com uma neblina fria cobrindo os campos de atletismo da Pine Academy, mas, para Sua, parecia que a temperatura dentro do prédio estava batendo recordes negativos.
Ela estava encostada na mureta do pátio coberto, com os braços cruzados sobre o peito e uma das pernas balançando sem parar num ritmo espasmódico de puro desespero. Seus olhos roxos estavam vidrados na entrada do refeitório, arregalados como se ela estivesse prestes a ser executada em praça pública.
— Para com isso, Sua, pelo amor de Deus — disse Hyuna, encostada ao lado dela, dando uma risadinha gostosa enquanto mordia uma maçã. — Você tá parecendo uma britadeira humana. Vai abrir um buraco no chão.
— Hyuna, você não tá entendendo — murmurou Sua, a voz tão baixa e tensa que quase não passava pelos dentes cerrados. — Ela disse que queria falar comigo a sós. "A sós", Hyuna. Aquela garota arrastou o primo pelo couro cabeludo e prensou a ex na parede de tijolos até quase quebrar as costelas dela. E se ela me puxar prum canto pra me bater? E se ela me espancar atrás do ginásio?!
Hyuna quase engasgou com o pedaço da maçã, curvando-se para a frente enquanto soltava uma gargalhada alta e sem pudor.
— Te bater?! A Mizi?! — Hyuna limpou o canto da boca com as costas da mão, ainda rindo da cara de pavor da amiga. — Sua, pelo amor de Deus, ela mal consegue manter a postura em pé de tanto sono e energético, mulher! Ela não vai te bater. Se quisesse te quebrar na porrada, ela já tinha quebrado você naquele dia.
— Você não sabe! — Sua puxou o tecido da própria saia preta com força, a respiração curta. — Uma semana inteira, Hyuna. Uma semana inteira sem ela falar um "a" comigo. Ela passou os últimos dias me ignorando igual um fantasma. Eu passei o fim de semana inteiro tendo pesadelo com ela me jogando dentro de uma lixeira!
A poucos metros dali, encostado em um pilar de concreto e com os fones de ouvido repousando no pescoço, Luka terminava de revisar um resumo de biologia molecular. Ele ergueu os olhos amarelos por trás da armação fina dos óculos, notando a risada escandalosa de Hyuna e a postura em pânico de Sua.
— Do que vocês duas estão falando aí? — perguntou ele em tom calmo, ajeitando a mochila nas costas.
— Nada que te interesse, quatro-olhos! Coisa de menina! — Hyuna respondeu de volta, piscando com um sorriso charmoso que fez Luka arquear uma sobrancelha e desviar o olhar com um meio-sorriso discreto, voltando para suas anotações sem insistir.
Luka não fazia a menor ideia do furacão interno de Sua. Na verdade, ninguém do colégio sabia, muito menos Ivan e Till. E, para a sorte de Sua, os dois garotos tinham faltado naquele dia: Ivan mandara uma mensagem no grupo às seis da manhã dizendo que tinha zerado um jogo durante a madrugada e não acordaria nem sob ameaça de morte, enquanto Till simplesmente inventara uma desculpa esfarrapada de dor de garganta para matar aula e tocar guitarra no quarto. Pelo menos Sua não teria o irmão fazendo piadas ácidas sobre sua cara de velório.
Do outro lado do pátio, o ambiente entre as garotas de cabelo colorido estava surpreendentemente calmo.
Mizi estava sentada em um banco de madeira com uma lata de Monster branco já aberta na mão esquerda, usando a saia curta do uniforme e a camisa desabotoada na gola. A gravata pendia frouxa, como de costume. Ao lado dela, Diana terminava de passar uma pomada cicatrizante no arranhão da mão — a única lembrança física da briga da semana anterior —, enquanto Nuxy e Anne dividiam um pacote de biscoitos recheados.
As coisas tinham mudado drasticamente entre elas no sábado anterior. Mizi, sentindo o peso sufocante de quase ter sido arrastada de volta para o seu pior trauma, desabara em lágrimas na casa de Diana. Com o apoio da amiga de cabelos verde-azulados, ela finalmente contara tudo para Nuxy e Anne: sua sexualidade, o relacionamento abusivo que tivera com Roxanne no ano anterior, as chantagens, a mudança desesperada de cidade e o pânico de ser exposta.
O resultado fora imediato. Nuxy chorara de ódio, praguejando até a quinta geração da família de Roxanne, enquanto Anne quase quebrara um copo de vidro na mesa de tanta raiva por não ter percebido o sofrimento da amiga antes. O grupinho de quatro agora funcionava como uma barreira intransponível.
Roxanne, por sua vez, parecia ter entendido o recado. Depois de ter sentido a mão de Mizi em sua garganta e ouvido a promessa de destruição mútua, a loira recuara. Havia arranjado amizade com umas garotas fúteis do segundo ano e mantinha uma distância segura de pelo menos dez metros de Mizi em qualquer lugar da Pine Academy, fingindo que a ex-namorada sequer existia.
O sinal para o início do intervalo soou estridente pelo pátio.
— Bom, eu vou lá na cantina comprar um salgado antes que acabe a torta de frango — anunciou Diana, guardando a pomada na bolsa. — Vocês vêm?
— Eu vou! Tô morrendo de fome — Nuxy pulou do banco na mesma hora, ajeitando o blazer preto.
— Eu vou com vocês — disse Anne, levantando-se logo em seguida.
Mizi deu um último gole no energético, sentindo a acidez estalar na garganta, e balançou a cabeça de leve.
— Vão indo na frente — disse ela, a voz um pouco mais rouca que o normal. — Eu vou falar com a garota agora.
Nuxy parou o passo no mesmo segundo, virando-se com os olhos arregalados e apontando o dedo indicador na direção do nariz de Mizi.
— Mizi, pelo amor de Jesus Cristo na cruz, não vai latir pra menina de novo! — ralhou Nuxy, a voz afinando de preocupação. — A Sua é na dela, quietinha, já passou por humilhação demais por causa da sua falta de terapia! Se você abrir essa boca pra falar que ela parece um zumbi ambulante de novo, eu juro por Deus que eu mesma te enfio a porrada!
Mizi revirou os olhos dourados até o teto, estalando a língua com irritação, mas sem a frieza cortante de antes.
— Cala essa boca, Nuxy. Não é nada disso, caralho. Eu só vou... conversar. Coisa de gente normal. Me deixa em paz.
Diana soltou uma risadinha nasalada e puxou Nuxy pela gola do blazer.
— Deixa a maluca ir, Nuxy. Anda, vamos comprar a comida.
Mizi esperou as três se afastarem em direção à fila da cantina. Ela respirou fundo, amassou a lata de alumínio vazia entre os dedos longos e jogou-a com precisão na lixeira mais próxima. Sentia uma pontada estranha no peito, uma mistura desconfortável de culpa acumulada e algo elétrico que ela não sabia nomear. Enfiou as mãos nos bolsos da saia e começou a andar a passos lentos e desleixados em direção ao canto do pátio coberto.
Lá perto, Sua já tinha relaxado os ombros. Ela vira o sinal tocar, vira a movimentação começar e concluíra que o pior já passara.
*Ela esqueceu*, pensou Sua, sentindo um alívio monumental inundar seus ossos. *Graças a Deus. Uma semana depois, ela com certeza nem lembra que falou aquilo.*
Com o coração voltando a bater no ritmo correto, Sua pegou seu caderno de capa dura sobre os joelhos e abriu na última folha em branco. Com os fones de ouvido tocando uma música instrumental suave e Hyuna e Luka engatando uma conversa animada sobre uma série nova a dois passos de distância, Sua começou a desenhar.
A ponta do grafite 4B deslizava no papel com suavidade. Ela não estava desenhando o corpo ou o cabelo dessa vez; desenhava apenas os olhos. Aqueles olhos afiados, quase felinos, que tinham a cor de ouro líquido sob a luz fluorescente da escola. Para Sua, os olhos de Mizi eram a coisa mais bonita e assustadora que a arte já tentara capturar.
— Ei.
A voz veio de cima, tão de repente que pareceu um trovão dentro do crânio de Sua.
A garota deu um pulo tão violento no banco que o caderno quase voou de suas mãos. O lápis rolou pelo chão de cimento. Sua prendeu a respiração, o sangue fugindo instantaneamente de suas bochechas enquanto ela erguia a cabeça em puro choque.
Mizi estava parada bem na frente dela, alta, com o cabelo rosa e azul caindo desalinhado sobre os ombros e as mãos enfiadas nos bolsos da saia.
Em um milésimo de segundo, Sua virou o rosto em pânico procurando por apoio, mas seus olhos bateram no vazio.
Hyuna já estava a cinco metros de distância, puxando Luka pelo braço com uma pressa repentina. Ao perceber o olhar desesperado de Sua, Hyuna apenas virou o rosto para trás e exibiu o sorriso mais cínico, sapeca e conspiratório que um ser humano já fora capaz de colocar no rosto, balançando os dedos em um tchauzinho debochado antes de sumir no meio da multidão.
*Traidora*, pensou Sua, sentindo a alma abandonar o corpo. *Desgraçada.*
Mizi olhou para o espaço vazio ao lado de Sua no banco de madeira.
— Posso sentar? — perguntou Mizi, o tom surpreendentemente neutro.
Sua engoliu a seco, sentindo a garganta arranhar. Apenas assentiu com a cabeça num movimento rígido, recolhendo as pernas para o lado e fechando o caderno de desenho com tanta pressa que quase dobrou as pontas das folhas.
Mizi sentou-se. Ela esticou as pernas compridas para a frente, cruzando os tornozelos e apoiando os cotovelos nos joelhos. Havia um silêncio pesado entre as duas, quebrado apenas pela gritaria distante dos outros alunos. O cheiro cítrico e fresco de Mizi invadiu os sentidos de Sua, fazendo o estômago da garota menor dar voltas completas.
— Eu vim pedir desculpas direito — soltou Mizi de repente, sem rodeios, mantendo os olhos dourados fixos na quadra vazia à frente.
Sua piscou, surpresa, os dedos congelados sobre a capa do caderno.
— O quê?
Mizi soltou um suspiro pesado, passando a mão pela nuca com evidente desconforto.
— Naquele dia... na quarta-feira passada, eu tava um caco. A Roxanne apareceu e a minha cabeça virou uma bosta completa. E aí a Nuxy me puxou pela orelha igual uma louca e eu fiquei com raiva, mas... — Mizi hesitou, os dentes cravando no lábio inferior por um segundo antes de virar o rosto devagar na direção de Sua. — Aquele pedido de desculpas pareceu forçado pra caralho. Porque a Roxy mandou. E eu odiei aquilo.
Sua permaneceu imóvel, os olhos roxos atentos a cada microexpressão da garota mais alta.
— Você nunca me fez nada, Sua — continuou Mizi, a voz saindo baixa, firme e despida de qualquer veneno. — Nada mesmo. Eu fui uma escrota completa com você desde o começo das aulas. Fui grossa na frente dos seus amigos, xinguei você de graça naquele dia do corredor... E eu nem sei por que caralhos eu fiz aquilo. Acho que eu só sou uma idiota sem paciência mesmo. Uma babaca mimada, como a Diana vive dizendo.
Uma risada muito fraca, quase inaudível, escapou dos lábios de Sua antes que ela pudesse conter.
Mizi ergueu uma sobrancelha, surpresa com a reação.
— O que foi? — perguntou Mizi.
— Nada — Sua baixou a cabeça, sentindo uma quentura estranha subir pelas maçãs do rosto. — É que a Hyuna disse exatamente a mesma coisa. Que você era uma babaca mimada que precisava de limites.
Mizi soltou um riso curto, um som rouco e genuíno que fez o coração de Sua falhar uma batida inteira.
— É, a sua amiga não tá errada, não — admitiu Mizi, balançando a cabeça. — Mas é sério. Eu não devia ter feito você chorar. Me senti a pior pessoa do mundo quando vi aquela lágrima cair. De verdade. Desculpa por tudo aquilo.
Sua olhou para as próprias mãos pousadas no colo. O nó de angústia que estivera cravado em seu peito nos últimos dias finalmente se desfez, deixando em seu lugar um calor calmo e suave.
— Tá tudo bem, Mizi — respondeu Sua com sinceridade, a voz melodiosa e tranquila de sempre. — Eu já tinha desculpado antes. Mas... obrigada por vir falar comigo. De verdade.
Foi nesse exato momento que algo mudou.
Mizi inclinou a cabeça para o lado, observando Sua de perto. Realmente de perto.
Ali, a menos de meio metro de distância, sob a luz fraca da manhã nublada, Sua não parecia aquela "sonsa misteriosa" que a irritava nos corredores. A pele dela era assustadoramente branca e limpa; a franja fina caía com uma delicadeza absurda sobre os olhos roxos profundos, e os lábios finos tinham uma curva melancólica e suave.
De repente, um arrepio violento correu pela espinha de Mizi.
Um frio repentino, como uma revoada de asas de inseto, atingiu em cheio o fundo de seu estômago. O ar pareceu ficar mais rarefeito em volta das duas. Mizi sentiu a pele na parte de trás do pescoço esquentar de repente, uma queimação súbita que subiu até a base da nuca. Seu rosto não ficou vermelho — ela não era de corar com facilidade —, mas o impacto físico daquela sensação fez seus músculos travarem.
*Que porra é essa?*, pensou Mizi, sentindo o pulso acelerar.
A engrenagem em sua cabeça rodou com uma rapidez brutal. Toda aquela raiva acumulada... aquele incômodo que sentia toda vez que Sua passava... a necessidade obsessiva de reparar em como a garota andava, no que ela vestia, no jeito que ela falava pouco...
*Caralho...* O pensamento atingiu Mizi como uma tijolada na testa. *Eu nunca odiei essa menina. Eu nunca tive ranço.*
Ela simplesmente nunca tinha sentido atração por alguém de forma tão silenciosa e invasiva, e seu cérebro, acostumado ao caos e à agressividade, transformara aquele magnetismo inexplicável em veneno de defesa. Ela não queria que Sua sumisse do mapa; ela só não aguentava o fato de não conseguir tirar os olhos dela.
Mizi era uma garota direta. Sempre fora. Não sabia enrolar, não sabia mascarar sentimentos quando eles finalmente ficavam claros em sua mente.
Ela piscou duas vezes, recuperando a postura, embora a pontinha superior de suas orelhas tivesse ganhado um tom sutilmente rosado.
— Ô, Sua — chamou Mizi, sem desviar o olhar dourado.
— Sim?
— Você gosta de garotas?
A pergunta caiu no banco como uma pedra jogada em um lago calmo.
Sua arregalou os olhos roxos, completamente pega no contrapé. Ela encarou Mizi, o cérebro tentando processar a aleatoriedade da pergunta. Por que cargas d'água Mizi estava perguntando aquilo? Seria algum teste? Alguma curiosidade idiota porque todo mundo agora sabia sobre Roxanne?
Sem entender a intenção por trás das palavras, Sua apenas respondeu com a honestidade crua de sempre:
— Gosto.
Mizi soltou um "hum" abafado, notando a expressão de pura confusão no rosto da mais baixa. Ficou claro que Sua não tinha pescado absolutamente nada da mudança de clima. Para Sua, era apenas uma conversa casual sobre gostos.
Mizi respirou fundo, apoiando o queixo na palma da mão e mantendo os olhos cravados nos de Sua com uma intensidade nova, descarada.
— A gente podia se aproximar mais, né? — soltou Mizi com a maior naturalidade do mundo, dando um meio-sorriso de canto de boca. — Você parece ser bem mais legal do que eu achei que fosse. Podia colar com a gente qualquer hora dessas.
Por dentro, o universo de Sua colapsou em um milhão de partículas brilhantes. As sirenes de emergência em sua cabeça berravam em decibéis ensurdecedores. A garota de cabelo rosa, a deusa inalcançável por quem ela passara noites em claro desenhando traços proibidos, estava ali... pedindo para serem próximas.
Com todo o resquício de autocontrole que lhe restava na vida, Sua manteve a máscara impassível. Não deu um sorriso largo, não gritou, não desmaiou. Apenas assentiu de leve, como se estivesse combinando um trabalho de química.
— Claro — respondeu Sua, a voz milagrosamente estável. — Pode ser.
Mizi abriu um sorriso um pouco mais amplo, satisfeita com a resposta, e se levantou do banco com a flexibilidade de quem estava relaxada.
— Fechou então. Eu tenho que ir achar a Diana antes que ela coma a minha parte do lanche. A gente se vê por aí, Sua.
— Tchau, Mizi.
Mizi virou as costas e começou a andar pelo pátio com passos largos, as pontas azuis do cabelo balançando ao vento, deixando para trás um rastro de eletricidade que Sua ainda podia sentir no ar.
Sua ficou estática no banco de madeira por exatamente cinco minutos, sem mover um único músculo, mal piscando.
— E AÍ?!
A voz estridente de Hyuna ecoou quando ela surgiu do nada, sentando-se de supetão ao lado de Sua no banco e empurrando o ombro da amiga com empolgação. Luka não estava mais com ela; tinha ido para a biblioteca.
— Desembucha, Sua! O que foi aquilo?! Ela te xingou de novo?! Se ela tiver falado alguma merda eu vou lá agora—
— Ela pediu desculpas — interrompeu Sua, a voz saindo num tom monocórdico, quase anestesiado. — Pediu desculpas de verdade. Disse que foi idiota.
Hyuna franziu a testa, surpresa, mas com um brilho animado nos olhos.
— Sério? Caraca, finalmente aquela garota tomou vergonha na cara! E depois? Vocês ficaram conversando um tempão!
— Ela... me perguntou se eu gosto de garotas — Sua continuava encarando o nada, com os dedos cravados na capa do caderno. — Eu disse que sim. Aí ela perguntou se a gente não podia se aproximar mais, porque ela me acha legal.
O silêncio reinou por três segundos inteiros antes de Hyuna explodir em uma gargalhada histérica, batendo a mão na própria coxa.
— PUTA QUE PARIU, SUA! — gritou Hyuna, rindo tanto que quase caiu do banco. — Você percebeu, né?! Me diz que você não é tão lerda assim!
Sua franziu o cenho, confusa e levemente assustada com o escândalo.
— Percebi o quê, Hyuna? Do que você tá falando?
— Ela tava dando em cima de você, sua mula! — berrou Hyuna em um sussurro empolgado, segurando os ombros de Sua e chacoalhando-a. — A Mizi tava flertando com você na cara dura! Chegou, pediu desculpa, jogou um verde sobre você gostar de mulher e já mandou um "vamos se aproximar"! Ela tá na sua, caralho!
A ficha não caiu devagar; ela despencou como uma bigorna de dez toneladas na cabeça de Sua.
*Dando em cima de mim?*
No primeiro segundo, uma onda avassaladora de euforia e pura felicidade inundou o peito de Sua, fazendo o sangue ferver de um jeito que ela nunca experimentara. Mizi... interessada nela?
Mas, no segundo seguinte, o terror assumiu o controle.
O ar sumiu instantaneamente dos pulmões de Sua.
*Não. Não, não, não.* O pensamento veio acompanhado de uma pontada fria no coração. *E se for mentira? E se for uma aposta? E se ela só tiver com pena de mim por causa do choro? E se eu tentar alguma coisa e estragar tudo? Eu sou sem graça, eu sou estranha, eu não falo nada! Ela namorava aquela loira perfeita, ela é a garota mais linda dessa escola, eu vou foder tudo, eu vou passar vergonha, ela vai voltar a me odiar...*
A respiração de Sua ficou curta, pesada, quase um chiado asmático. As mãos pálidas começaram a tremer de forma descontrolada, as unhas cravando no couro do caderno até machucar os dedos. Os olhos roxos se arregalaram em puro pânico, o peito subindo e descendo rápido demais enquanto o mundo ao redor parecia perder o foco e o som.
Hyuna percebeu a mudança na hora. O sorriso brincalhão sumiu do rosto dela, substituído pela postura protetora e experiente de quem já vira aquilo acontecer antes.
— Ei, ei, ei! Sua! Olha pra mim! — Hyuna segurou as duas mãos trêmulas de Sua com firmeza, apertando-os com calor. — Para com isso agora. Respira. Puxa o ar pelo nariz, solta pela boca. Anda.
Sua tentou puxar o ar, soltando um soluço seco.
— E-eu vou estragar tudo, Hyuna... — balbuciou Sua, as lágrimas de ansiedade pinicando os cantos dos olhos. — Ela vai ver como eu sou de verdade e vai se arrepender...
— Cala a boca, porra! Para de ouvir essas vozes estúpidas na sua cabeça! — ordenou Hyuna com doçura e autoridade, puxando o rosto de Sua para que ela a encarasse nos olhos. — Você é incrível, Sua. Você desenha pra caralho, você é linda, você é gente boa pra caralho. Ninguém tá estragando nada. Olha pra mim: respira. Um, dois, três. Puxa. Isso. Solta devagar.
Sua levou quase dois minutos para regularizar o ritmo do peito, o tremor nas mãos diminuindo gradativamente sob o toque firme da amiga.
— Melhor? — perguntou Hyuna baixinho.
— Um pouco... — Sua engoliu em seco, passando a manga do uniforme nos olhos úmidos.
— Ótimo. Agora você vai guardar essa porra desse caderno — Hyuna pegou a pasta plástica e enfiou dentro da mochila de Sua, fechando o zíper com força —, e a gente vai lá na quadra ver o treino horrível de basquete dos calouros. Você vai me ajudar a rir da cara deles até bater o sinal. Chega de pensar em Mizi por hoje, entendeu?
Sua soltou um suspiro exausto, deixando-se ser puxada pelo braço pela melhor amiga, infinitamente grata por tê-la ali.
Enquanto isso, do outro lado do pátio, perto dos armários do bloco A, Mizi tinha acabado de se juntar ao seu grupo.
Diana comia um salgado de frango com desleixo, enquanto Nuxy e Anne tomavam suco de caixinha.
— E aí? — cobrou Diana, limpando uma migalha do canto da boca. — Pediu desculpa ou teve que chamar a ambulância?
— Pedi desculpa — respondeu Mizi, encostando as costas na fileira de metal dos armários e cruzando os braços. A expressão dela estava estranhamente aérea, os olhos dourados fitando a ponta dos próprios tênis.
Nuxy estreitou os olhos, desconfiada.
— Tá... e por que você tá com essa cara de quem engoliu uma borboleta viva?
Mizi mordeu a bochecha por dentro. Ela olhou para Diana, depois para Anne e finalmente para Nuxy. Como as três já sabiam sobre seu passado e sua orientação sexual, não havia mais motivo para guardar segredos. Não com elas.
— Meninas... — começou Mizi, a voz saindo um pouco mais baixa, as pontas das orelhas esquentando de novo. — Eu acho que fiz uma merda gigante nos últimos meses.
— Que novidade — zombou Diana. — Fala logo, porra.
— Eu acho... — Mizi soltou o ar pelos dentes, cobrindo o rosto com as duas mãos por um segundo de pura vergonha antes de abaixá-las — ...que eu gosto da Sua. O tempo todo. Desde o começo das aulas.
O silêncio que se instalou foi tão profundo que dava para ouvir o mastigar de Diana cessar.
Nuxy arregalou a boca de tal forma que a caixinha de suco quase caiu de suas mãos. Anne paralisou, com os olhos pretos brilhando em choque total.
— PUTA QUE PARIU! — explodiu Diana, soltando uma gargalhada estrondosa que fez dois professores que passavam virarem a cabeça em repreensão. — EU NÃO TÔ OUVINDO ISSO! CARALHO, MIZI!
— Diana, cala a boca! — Mizi sibilou em desespero, puxando a amiga pelo braço. — Não grita, sua louca!
— Eu sabia! — berrou Nuxy em um sussurro eufórico, pulando na ponta dos pés. — Eu sabia que aquele ranço todo não era normal! Ninguém odeia uma pessoa com tanta força só porque ela desenha quieta num canto! Você tava secando a menina, sua safada!
— Eu não tava secando! — protestou Mizi, sentindo a nuca queimar de verdade agora. — Eu só achei que odiava ela! Eu não sabia decifrar essa porra! Toda vez que eu olhava pra ela me dava um troço ruim no peito, mas agora eu vi que era frio na barriga, caralho!
— Que poético, parecendo um ogro descobrindo o amor — zombou Diana, rindo até perder o fôlego.
— Tá, mas e agora? — interveio Anne, com a voz sensata de sempre, embora mantivesse um sorriso enorme e divertido no rosto. — Você falou alguma coisa pra ela?
— Falei — admitiu Mizi, coçando a nuca. — Perguntei se ela gostava de garotas. Ela disse que sim. Aí eu perguntei se a gente podia se aproximar mais.
Nuxy levou as mãos ao coração, fingindo um desmaio dramático.
— Ai, meu Deus, a minha filha tá crescendo...
— Para com essa palhaçada — Mizi resmungou, embora um meio-sorriso involuntário insistisse em puxar o canto de seus lábios. — Eu quero dicas. Eu não sei fazer essa merda de aproximação normal. Na última vez... bem, vocês sabem o desastre que foi a Roxanne. Eu não quero assustar a Sua. Como é que eu faço pra me aproximar dela sem parecer uma maníaca?
Diana cruzou os braços, assumindo uma postura subitamente séria de conselheira de bar.
— Primeiro: nada de se declarar, sua jumenta — instruiu Diana com o indicador erguido. — Nem pense em chegar nela amanhã falando "oi, descobri que te amo, quer namorar comigo?". A garota já é traumatizada com você, ela vai ter um infarto e morrer.
— Com certeza — concordou Anne. — Vai com calma, Mizi. Pede pra sentar perto dela em alguma aula que tiverem juntos. Pede emprestado um lápis, elogia os desenhos dela... Ela ama desenhar, não ama? Mostra que você repara nas coisas que ela faz de verdade, sem ironia.
— Isso! E oferece energético! — sugeriu Nuxy com entusiasmo.
— Não oferece energético não, que nem todo mundo é viciado em taurina igual você — cortou Diana, revirando os olhos. — Oferece uma comida normal, um doce. Seja você mesma, só que... sei lá, uns setenta por cento menos grossa.
Mizi ouviu cada conselho em silêncio, processando tudo com uma atenção que raramente dedicava às aulas da Pine Academy.
Ela olhou por cima do ombro, na direção do pátio externo. Lá longe, caminhando ao lado de Hyuna em direção à quadra, vinha a silhueta pequena de cabelos pretos, com a saia balançando suavemente no ritmo dos passos.
O frio na barriga voltou, firme e inegável, mas, pela primeira vez na vida, Mizi não sentiu a menor vontade de afastar aquela sensação. Pelo contrário: ela queria ver até onde aquele fogo novo e desconhecido seria capaz de queimar.