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Wandinha x Tyler

O Beijo da Lâmina e a Promessa do Sangue

A cripta dos Crackstone exalava o perfume nostálgico de morte e calcário úmido. Wandinha Addams sempre apreciou aquele local; havia uma honestidade brutal naquelas paredes de pedra que o resto de Jericho, com suas fachadas coloridas e sorrisos de plástico, jamais poderia replicar. Ela ajustou as luvas de couro preto, sentindo o peso familiar dos punhais escondidos em suas botas e o frasco de veneno de belladona seguro em seu cinto.

Ela não estava sozinha. As sombras nos cantos da cripta pareciam se alongar, e o ar ficou subitamente carregado com o cheiro de ozônio e café.

— Se você pretende me atacar pelas costas, Tyler, sugiro que mire na quarta vértebra cervical. É o caminho mais rápido para a paralisia — disse Wandinha, sem se mover.

— E perder a chance de ver a expressão no seu rosto? Jamais — a voz de Tyler surgiu de trás de um sarcófago de mármore.

Ele emergiu da escuridão. Não usava mais o uniforme de barista, mas sim roupas escuras e desgastadas que facilitavam o movimento. Seus olhos, no entanto, eram o que mais chamava a atenção. Eles brilhavam com uma luminescência âmbar residual, um sinal de que o Hyde estava logo abaixo da superfície, arranhando as paredes de sua consciência para sair.

— Você trouxe o que prometeu ou este é apenas um pretexto elaborado para tentarmos nos matar novamente? — Wandinha virou-se, cruzando os braços sobre o peito.

Tyler sorriu, e o gesto enviou uma faísca de eletricidade indesejada pelos nervos de Wandinha. Ele jogou um mapa enrolado sobre o altar de pedra.

— Os ocultistas não são apenas fanáticos locais. Eles se autodenominam "A Ordem do Sangue Puro". Acreditam que o legado de Crackstone foi desperdiçado por amadores. Eles querem usar o sangue de um Addams e a força de um Hyde para abrir um portal que nem Goody Addams conseguiria selar.

Wandinha aproximou-se do mapa, seus olhos percorrendo as marcações em vermelho. Eram pontos estratégicos na floresta que cercava Nevermore.

— Um ritual de convergência — murmurou ela. — Tolo e perigoso. Eles vão acabar incinerando a si mesmos antes de conseguirem qualquer coisa.

— Talvez — disse Tyler, dando um passo para mais perto. — Mas eles têm uma relíquia. Uma adaga feita de osso de monstro que, segundo os boatos, pode subjugar a vontade de um Hyde. Se eles me pegarem, Wandinha, eu não serei mais um agente livre. Serei o cão de guarda deles. E você será o sacrifício.

Wandinha ergueu o olhar, encontrando os olhos dele. A proximidade era perturbadora. Ela podia sentir o calor que emanava dele, um contraste violento com sua própria temperatura corporal, que ela gostava de manter próxima à de um cadáver.

— Você fala de si mesmo como se fosse uma vítima — disse ela, sua voz um sussurro gélido. — Mas nós dois sabemos que você adora a violência. O Hyde não é uma maldição, Tyler. É a sua verdade.

Tyler inclinou a cabeça, o cabelo caindo sobre a cicatriz em sua têmpora.

— E você, Wandinha? Qual é a sua verdade? Você finge que não sente nada, mas correu até aqui no meio da noite para encontrar o monstro que tentou te matar. Isso é ódio ou é necessidade?

— É eficiência — rebateu ela. — Prefiro lidar com o monstro que conheço do que com fanáticos que não sabem a diferença entre um ritual e um suicídio coletivo.

Tyler riu, um som rouco que ecoou nas abóbadas da cripta. Ele estendeu a mão e, desta vez, não parou no ar. Seus dedos roçaram levemente o contorno da mandíbula de Wandinha. Ela não recuou, mas sua mão desceu silenciosamente para o cabo da faca em sua cintura.

— Você é tão fria — sussurrou ele. — Às vezes eu me pergunto se seu sangue é feito de gelo ou se você só precisa de alguém que saiba como quebrá-lo.

— Se tentar me beijar, eu garanto que o único fluido que sairá de você será o seu sangue, e ele não estará congelado — avisou ela, os olhos fixos nos dele.

Tyler retirou a mão, mas não se afastou. O clima entre eles era uma mistura tóxica de desejo reprimido e ameaça letal.

— Não vim aqui para romance, Wandinha. Pelo menos não do tipo que as pessoas normais entendem. — Ele apontou para o mapa. — O acampamento deles fica no Vale das Sombras, a dois quilômetros daqui. Eles vão começar o ritual quando a lua atingir o zênite.

— Então estamos perdendo tempo com sua loquacidade desnecessária — disse ela, guardando o mapa. — Mãozinha está vigiando o perímetro externo. Vamos.

Eles saíram da cripta em silêncio, duas sombras movendo-se através da névoa. A floresta parecia respirar com eles, os galhos das árvores rangendo como ossos velhos sob o vento de outono. Wandinha liderava o caminho, sua mente processando cada variável, cada possível armadilha. Tyler a seguia de perto, seus sentidos aguçados captando sons que um humano comum jamais ouviria.

— Eles estão perto — sussurrou Tyler, parando abruptamente. Suas mãos começaram a tremer levemente, as unhas se alongando. — Eu sinto o cheiro... incenso de mirra e sangue fresco.

— Controle-se, Galpin — ordenou Wandinha. — Se você se transformar agora, perderemos o elemento surpresa.

— É difícil — rosnou ele, os olhos tornando-se completamente amarelos. — A presença daquela adaga... ela me chama. É como um gancho na minha base craniana.

Wandinha aproximou-se e, em um gesto que surpreendeu a ambos, segurou o rosto dele com as duas mãos. Sua pele estava gelada contra a febre dele.

— Olhe para mim — disse ela, a autoridade em sua voz cortando o nevoeiro mental dele. — Você não é um servo. Você me disse que o que sobrou em você é seu. Então prove. Não deixe que um pedaço de osso antigo dite quem você deve matar.

Tyler arquejou, focando na escuridão profunda dos olhos de Wandinha. O tremor em suas mãos diminuiu, e a transformação recuou, deixando-o apenas com a respiração ofegante.

— Você tem um jeito muito estranho de dar apoio moral — disse ele, tentando recuperar o tom sarcástico, embora sua voz estivesse trêmula.

— Eu não dou apoio moral. Eu dou ordens — respondeu ela, soltando-o e voltando a caminhar.

Eles chegaram a uma clareira oculta por espinheiros densos. No centro, cerca de doze figuras em mantos vermelhos circulavam uma fogueira que ardia com chamas esverdeadas. No centro do círculo, sobre um altar de pedra bruta, estava a adaga de osso. Ela pulsava com uma luz doentia.

— Ocultistas de baixo nível — observou Wandinha, escondida atrás de um carvalho centenário. — Mas a relíquia é autêntica. Posso sentir a necroenergia daqui.

— Eu cuido dos guardas nas árvores — sussurrou Tyler, os músculos de suas costas já se tensionando. — Você vai pelo centro.

— Tente não comer ninguém — disse Wandinha. — O sangue deles provavelmente é cheio de conservantes e mediocridade.

Tyler deu um sorriso predatório e desapareceu nas copas das árvores com uma agilidade sobre-humana. Wandinha esperou por três batimentos cardíacos. Então, ela emergiu da escuridão como um espectro vingativo.

— A interrupção de rituais sagrados é uma das minhas atividades favoritas — anunciou ela, sua voz projetando-se pela clareira. — Especialmente quando os participantes se vestem como cortinas de teatro baratas.

Os ocultistas pararam, voltando suas atenções para a pequena figura em preto. O líder, um homem alto com uma máscara de ferro, deu um passo à frente.

— Wandinha Addams. O sangue que precisamos veio até nós por vontade própria. Matem-na, mas deixem o coração intacto.

— Um erro clássico de vilão — comentou Wandinha, sacando dois punhais. — Falar demais enquanto deveria estar atacando.

O combate começou em um borrão de movimento. Wandinha era uma bailarina da destruição, esquivando-se de lâminas e disparos de energia com uma precisão matemática. Ela não apenas lutava; ela dissecava seus oponentes. Um corte no tendão de Aquiles aqui, um golpe no plexo solar ali.

Do alto, um rugido gutural rasgou a noite. O Hyde desceu como um meteoro de fúria. Tyler, em sua forma monstruosa, era um turbilhão de garras e dentes. Ele não apenas incapacitava; ele destruía. O som de ossos quebrando e gritos de terror preencheu a clareira.

No entanto, o líder da Ordem não parecia perturbado. Ele correu para o altar e agarrou a adaga de osso.

— Hyde! — gritou ele, erguendo a relíquia. — Pelos ossos do Criador e pelo sangue da Terra, eu o comando! Ajoelhe-se e destrua a bruxa!

Tyler parou no meio de um ataque, seu corpo travando em uma posição antinatural. Ele soltou um grito de agonia, a forma de monstro oscilando entre a carne humana e a besta. Ele caiu de joelhos, as garras cavando a terra.

— Não... — rosnou ele, lutando contra a influência da adaga.

O líder riu, aproximando-se de Tyler com a adaga brilhando intensamente.

— Você é apenas uma ferramenta, besta. E agora, você vai rasgar o peito da sua preciosa Addams.

Wandinha viu a cena e soube que a força bruta não funcionaria. Ela enfiou a mão no bolso e tirou um pequeno frasco de pó preto — uma mistura de pólvora e cinzas de um ancestral piromaníaco.

— Tyler! — gritou ela, correndo em direção ao altar.

O Hyde virou a cabeça para ela, seus olhos injetados de sangue. A vontade da adaga estava vencendo. Ele rosnou, preparando-se para saltar sobre ela.

Wandinha não parou. Ela saltou sobre as costas de um ocultista caído, usou o altar como plataforma e se lançou no ar. No meio do salto, ela jogou o pó preto na fogueira esverdeada.

Uma explosão de luz branca cegante e fumaça tóxica envolveu a clareira. O líder, pego de surpresa, cambaleou, perdendo o foco no ritual.

Foi o segundo de que Wandinha precisava. Ela aterrissou com a agilidade de um gato e, em um movimento fluido, cravou seu punhal de prata na mão do líder que segurava a adaga.

Ele gritou, soltando a relíquia de osso.

Antes que a adaga atingisse o chão, Wandinha a chutou para longe, na direção de Tyler, que estava recuperando o controle.

— Tyler, agora! — ordenou ela.

O Hyde não hesitou. Com um golpe de suas garras maciças, ele partiu a adaga de osso ao meio. Um grito sobrenatural ecoou da relíquia enquanto ela se transformava em pó cinzento. A conexão foi quebrada.

O que se seguiu foi uma limpeza rápida e eficiente. Sem a proteção da adaga, os ocultistas restantes fugiram para a floresta, perseguidos pelas sombras e pelo medo.

A clareira ficou em silêncio novamente, exceto pelo som da respiração pesada de Tyler enquanto ele voltava à forma humana. Ele estava exausto, coberto de fuligem e sangue que não era dele.

Wandinha aproximou-se dele, limpando sua lâmina de prata em um pedaço de pano.

— Você demorou a se libertar — observou ela. — Quase tive que usar o plano B, que envolvia explodir toda a clareira com você nela.

Tyler sentou-se no chão, encostado no altar agora inútil. Ele olhou para ela e soltou uma risada fraca.

— Você é terrível, sabia disso?

— É o que dizem nos meus cartões de aniversário — respondeu ela.

Ele estendeu a mão, e desta vez Wandinha permitiu que ele a segurasse. A pele dele ainda estava quente, mas o tremor havia passado.

— Obrigado — disse ele, a voz séria. — Você poderia ter deixado eles me controlarem e depois me matado. Teria sido mais seguro para você.

— A segurança é o refúgio dos covardes e dos entediados — disse Wandinha, olhando para as mãos unidas. — Além disso, eu ainda não terminei de escrever sua história. Seria um desperdício de papel se você morresse agora.

Tyler puxou-a levemente para mais perto. A distância entre eles era mínima. O cheiro de sangue, fumaça e a estranha conexão que compartilhavam parecia solidificar-se no ar.

— O que acontece agora, Wandinha? — perguntou ele, a voz sedutora e perigosa voltando aos poucos. — Voltamos para Nevermore e fingimos que não somos dois monstros que acabaram de massacrar um culto?

— Eu nunca finjo, Tyler. Eu apenas omito verdades que os outros não têm a capacidade mental de processar — ela inclinou a cabeça, seus olhos focando nos lábios dele por um breve segundo antes de voltar para os olhos. — Você continua sendo um Hyde. E eu continuo sendo uma Addams. O mundo ainda vai tentar nos enjaular.

— Deixe que tentem — disse Tyler, aproximando o rosto do dela. — Contanto que eu tenha você para me manter na linha... ou para me empurrar do precipício.

Wandinha sentiu uma pontada de algo que ela se recusava a chamar de afeto. Era algo mais primitivo. Reconhecimento de espécie.

— Não se acostume com isso — sussurrou ela.

Ela se inclinou e, em vez de um beijo, encostou a testa na dele. Foi um gesto de trégua, de aliança e de uma promessa sombria.

— Temos muito trabalho a fazer — disse ela, afastando-se. — A Ordem do Sangue Puro foi apenas o começo. E Enid vai desconfiar se eu chegar depois do toque de recolher com cheiro de explosivos.

Tyler levantou-se, limpando a poeira das calças.

— Vejo você nas sombras, Wandinha?

— Você sempre vê, Tyler. Você é o único que nunca para de olhar.

Ela virou as costas e começou a caminhar em direção a Nevermore, com Mãozinha saltando para o seu ombro a meio caminho. Tyler ficou na clareira por um momento, observando-a desaparecer na névoa. Ele sabia que ela nunca seria dele, não da forma tradicional. Mas eles estavam ligados por algo muito mais forte do que o amor: eles estavam ligados pela escuridão que ambos carregavam.

E, para Tyler Galpin, isso era mais do que suficiente.

Wandinha, ao entrar nos portões da escola, sentiu o peso do frasco vazio em seu cinto. Ela sabia que a batalha contra a Ordem estava longe de acabar, e que Tyler Galpin era uma arma que poderia disparar em qualquer direção. Mas, enquanto subia as escadas para seu quarto, ela permitiu-se um pequeno e quase imperceptível sorriso.

O tédio, finalmente, havia sido exumado. E a noite estava apenas começando.