Wandinha x Tyler
O Labirinto de Vidro e Cicatrizes
A chuva que caía sobre Jericho naquela noite não era a melodia suave que Wandinha costumava apreciar. Era uma tempestade violenta, barulhenta e caótica, que lavava as ruas com uma fúria que parecia querer apagar a própria existência da cidade. No entanto, Wandinha sabia que certas manchas não saíam com água, não importa o quão ácida ela fosse.
Ela estava em seu quarto, o silêncio sendo interrompido apenas pelo som rítmico de Mãozinha jogando paciência na cama de Enid, que felizmente tinha ido passar o fim de semana com sua alcateia. Wandinha estava inquieta. Seus olhos focavam na página em branco da máquina de escrever, mas sua mente estava a quilômetros dali, em um apartamento decrépito acima de uma garagem de barcos.
Tyler não aparecia há três dias. Após o confronto com a Ordem, ele havia se tornado um espectro ainda mais evasivo do que o habitual. E, embora Wandinha detestasse admitir, o silêncio dele era mais barulhento do que seus jogos mentais.
— Mãozinha, pegue a maleta médica — ordenou ela, levantando-se abruptamente. — E o meu guarda-chuva preto. O de ponta afiada.
Mãozinha gesticulou, questionando se ela realmente pretendia sair naquela tempestade.
— O instinto de preservação é para os fracos, Mãozinha. E eu tenho a nítida impressão de que o Hyde decidiu testar os limites da própria anatomia.
A caminhada até o esconderijo de Tyler foi uma provação de lama e vento. Quando ela finalmente chegou à porta de madeira descascada, não bateu. Wandinha nunca pedia permissão para entrar em lugares onde a tragédia estava sendo cultivada. Ela simplesmente girou a maçaneta e entrou.
O cheiro a atingiu antes mesmo que ela pudesse processar a imagem. Era o cheiro metálico de sangue fresco, misturado com o aroma de mofo e a pungência do álcool barato.
Tyler estava sentado no chão, encostado na lateral de uma cama desfeita. A luz fraca de uma lâmpada pendurada no teto oscilava, criando sombras grotescas nas paredes. Ele estava sem camisa, e Wandinha sentiu um aperto gélido no peito ao ver o estado de seus braços e abdômen. Não eram feridas de batalha. Eram cortes precisos, lineares, profundos demais para serem acidentais.
Ele segurava um pedaço de vidro quebrado de uma garrafa de uísque. Sua mão tremia, e o sangue escorria por seus dedos, manchando o carpete já imundo.
— Você está atrasada para a autópsia — disse Tyler, sem levantar a cabeça. Sua voz estava rouca, desprovida da sedução perigosa que ele costumava usar como armadura. — Eu ainda não terminei de me desmontar.
Wandinha caminhou até ele com passos lentos e deliberados. Ela se ajoelhou à sua frente, ignorando o sangue que sujava sua saia preta.
— Se o seu objetivo era o suicídio, Tyler, sua técnica é deplorável — disse ela, sua voz mantendo a neutralidade gélida, embora seus olhos observassem cada detalhe da carne exposta. — Você está apenas prolongando a agonia. É uma forma muito ineficiente de deixar este mundo.
Tyler finalmente ergueu o olhar. Seus olhos estavam fundos, rodeados por olheiras escuras, e não havia sinal do Hyde neles. Havia apenas uma dor humana, crua e insuportável.
— Não quero morrer, Wandinha — sussurrou ele, e o pedaço de vidro caiu de sua mão, tilintando no chão. — Eu só queria parar de lembrar.
— Lembrar do quê? — perguntou ela, pegando a maleta que Mãozinha lhe entregou. — Da sua incompetência como barista ou do fato de que você é um predador por natureza?
Tyler soltou uma risada seca que terminou em um gemido de dor.
— De você. De como foi fácil te enganar. De como eu gostei de ver a traição nos seus olhos quando você descobriu quem eu era. — Ele fechou os olhos com força. — Cada vez que eu fecho os olhos, eu vejo o dia na floresta. Eu sinto o gosto do seu sangue... e isso me dá nojo. Não de você. De mim.
Wandinha parou o que estava fazendo. Ela pegou um pedaço de gaze embebido em antisséptico e pressionou contra o corte mais profundo em seu braço. Tyler estremeceu, mas não se afastou.
— O remorso é uma emoção fútil — disse ela, limpando o ferimento com uma precisão cirúrgica. — Ele não altera o passado e apenas paralisa o presente. Você fez o que foi programado para fazer. Laurel Gates era a mestra, você era o instrumento.
— Mas eu escolhi gostar — rebateu ele, abrindo os olhos e encarando-a com uma intensidade febril. — Eu escolhi cada palavra, cada toque. E agora, cada vez que você me olha, eu me pergunto se você está vendo o homem que te salvou na cripta ou o monstro que quase te estripou.
— Eu vejo os dois — respondeu Wandinha, começando a suturar o ferimento. — E é por isso que você ainda é interessante. A maioria das pessoas é unidimensional em sua mediocridade. Você é um quebra-cabeça de peças quebradas que se recusam a se encaixar.
O silêncio caiu sobre o quarto, preenchido apenas pelo som da chuva no telhado de zinco e pelo suspiro pesado de Tyler a cada vez que a agulha de Wandinha perfurava sua pele. Ele observava as mãos pálidas dela trabalhando, os movimentos firmes e desprovidos de hesitação.
— Por que você está aqui, Wandinha? — perguntou ele após alguns minutos. — Você poderia ter me deixado sangrar. Seria um problema a menos na sua lista.
— Eu detesto desperdício — disse ela, sem desviar os olhos do trabalho. — E eu ainda não decidi qual será o seu destino final. Eu não permito que o destino ou o seu próprio ódio por si mesmo tomem decisões que pertencem a mim.
— Você é tão controladora — comentou Tyler, um rastro do antigo sorriso voltando aos seus lábios, embora estivesse carregado de melancolia.
— Controle é a única coisa que impede o mundo de se tornar um caos absoluto — ela terminou o último ponto e começou a enfaixar o braço dele. — Amanhã voltarei para trocar os curativos. Se você fizer mais um único corte em si mesmo, eu usarei veneno de naja na próxima sutura. Eu garanto que a dor será muito mais memorável do que qualquer lembrança que você esteja tentando apagar.
Tyler olhou para o braço enfaixado e depois para ela.
— Você se importa — disse ele, como se fizesse uma descoberta científica.
Wandinha levantou-se, limpando as mãos e fechando a maleta.
— Não confunda curiosidade clínica com afeto, Tyler. Você é um espécime raro. Eu apenas estou garantindo que o laboratório permaneça intacto.
Ela caminhou até a porta, mas parou antes de sair. A luz da lâmpada oscilante fazia sua pele parecer porcelana antiga.
— E Tyler... — ela virou o rosto levemente de perfil. — Se você quiser se punir, faça isso sendo útil. A Ordem ainda está por aí. Guarde sua sede de sangue para quem realmente merece.
Ela saiu, deixando-o sozinho na penumbra. Mãozinha deu um tapinha de consolo no pé de Tyler antes de seguir sua mestra para a noite chuvosa.
Tyler ficou sentado por um longo tempo, olhando para a porta fechada. O ar no quarto parecia mais leve, embora o cheiro de sangue ainda pairasse. Ele tocou as bandagens, sentindo a firmeza dos pontos de Wandinha. Ela era fria, seca e muitas vezes cruel, mas ela era a única pessoa que não o olhava com pena. E, de alguma forma, isso era o que o mantinha ancorado à realidade.
Nos dias que se seguiram, Wandinha cumpriu sua promessa. Todas as noites, após o toque de recolher em Nevermore, ela escapava pelas sombras e aparecia no apartamento dele.
As visitas eram cercadas de um ritual silencioso. Ela limpava os ferimentos, trocava as gazes e, às vezes, trazia algum chá de ervas amargas que ela afirmava ajudar na regeneração celular, mas que Tyler suspeitava ser apenas uma forma de testar sua tolerância a venenos leves.
Em uma dessas noites, Tyler estava sentado na mesa da cozinha enquanto Wandinha cuidava de um ferimento em seu ombro.
— Você está sendo muito gentil — disse ele, observando-a.
— Gentileza é uma fraqueza que eu não possuo — rebateu ela imediatamente. — Estou apenas sendo pragmática. Um Hyde com infecção generalizada é um aliado inútil.
— Aliado? — Tyler arqueou uma sobrancelha. — Então é isso que somos agora?
Wandinha parou o movimento de suas mãos, ficando a centímetros do rosto dele. O calor da respiração de Tyler contrastava com o ar frio que ela sempre parecia carregar.
— Somos dois indivíduos com interesses mútuos e uma propensão compartilhada para o macabro — disse ela, seus olhos escuros fixos nos dele. — Chame do que quiser.
Tyler estendeu a mão e tocou uma das tranças de Wandinha. Ela não se moveu, o que para ele era um convite silencioso.
— Eu sinto falta de quando as coisas eram simples — sussurrou ele. — De quando eu era apenas o barista que te dava cafés grátis e você era a garota estranha que odiava o mundo.
— Nada nunca foi simples, Tyler. Você estava mentindo e eu estava sendo enganada. A simplicidade é uma ilusão para os tolos. O que temos agora... a verdade nua e sangrenta... é muito mais valioso.
Tyler aproximou-se mais, seus dedos deslizando da trança para o pescoço dela. Ele sentiu o pulso de Wandinha. Estava acelerado.
— Você não tem medo de mim, não é? — perguntou ele.
— Eu não tenho medo do escuro, Tyler. Eu sou o escuro — respondeu ela, sua voz um sussurro que vibrou na alma dele.
Ele inclinou-se, seus lábios quase roçando o ouvido dela.
— Então por que suas mãos tremem quando você toca minhas cicatrizes?
Wandinha afastou-se bruscamente, pegando suas coisas com uma rapidez incomum. Sua expressão era uma máscara de indiferença, mas seus olhos brilhavam com uma irritação que Tyler sabia ser defensiva.
— Minhas mãos não tremem. É uma resposta neurológica ao frio deste apartamento deplorável — disse ela, caminhando para a porta. — Amanhã trarei um ungüento de mandrágora. Tente não morrer até lá.
— Wandinha — chamou ele, antes que ela saísse.
Ela parou, mas não se virou.
— Obrigado por não me deixar esquecer quem eu sou.
Wandinha permaneceu imóvel por um segundo.
— Alguém precisa manter os monstros alimentados, Tyler. Mesmo que seja apenas com ódio e antisséptico.
Ela desapareceu na noite, deixando Tyler com o silêncio e o cheiro de ozônio que ela sempre deixava para trás. Ele olhou para suas mãos, agora limpas e cuidadas. A depressão que o envolvera como um sudário nos últimos dias ainda estava lá, mas não era mais absoluta. Havia uma faísca de algo novo. Algo perigoso e sombrio, que se alimentava da atenção de Wandinha Addams.
Ele sabia que ela nunca diria que se importava. Ela nunca o perdoaria totalmente, e ele nunca deixaria de se culpar. Mas naquela dança de lâminas, sangue e silêncio, eles haviam encontrado uma forma de existir que o resto do mundo jamais entenderia.
Wandinha, caminhando de volta para Nevermore sob a luz da lua, sentia o peso da maleta em sua mão. Ela pensou nos cortes no braço de Tyler e na forma como ele a olhava. Era um quebra-cabeça fascinante, um mistério que ela pretendia resolver, mesmo que isso significasse se queimar no processo.
Afinal, para uma Addams, um pouco de dor era apenas o tempero necessário para uma vida que, de outra forma, seria insuportavelmente comum. E Tyler Galpin era qualquer coisa, menos comum.
Ao chegar em seu quarto, ela encontrou Mãozinha esperando por ela. Ele gesticulou, perguntando como o "paciente" estava.
— Ele sobreviverá — respondeu Wandinha, sentando-se diante de sua máquina de escrever. — Infelizmente para os seus inimigos e, possivelmente, para mim.
Ela começou a digitar. O som das teclas preenchia o quarto, uma sinfonia de metal e propósito. O capítulo sobre o Hyde estava longe de terminar, e Wandinha Addams estava apreciando cada reviravolta sombria da trama.
Afinal, as melhores histórias são aquelas que deixam cicatrizes que nunca fecham completamente. E a história deles estava apenas começando a sangrar.