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Wandinha x Tyler

O Labirinto de Vidro e a Amnésia do Sangue

O silêncio no dormitório de Nevermore era tão espesso que Wandinha podia ouvir o tique-taque frenético do seu próprio coração, um som que ela normalmente consideraria uma intrusão irritante. Sobre a mesa de madeira escura, entre um frasco de veneno de naja e uma adaga de prata, repousava um pequeno bastão de plástico branco. O veredito estava ali, frio e clínico.

Uma única linha. Negativo.

Wandinha soltou um suspiro que não sabia que estava prendendo. Não era alívio, nem decepção; era uma sensação de ordem sendo restaurada em um universo que, por breves dias, pareceu ter saído dos trilhos. Ela pegou o objeto e o jogou na pequena lixeira de metal com um ruído seco.

— Mãozinha, avise ao Tyler que o "experimento biológico" foi cancelado por falta de reagentes — disse ela, sem olhar para o apêndice que a observava do topo da estante.

Mãozinha gesticulou freneticamente, perguntando se ela não pretendia ir vê-lo pessoalmente.

— Eu irei. Mas não para celebrar a ausência de um herdeiro do caos.

A caminhada até a garagem de barcos foi feita sob uma névoa densa que parecia querer ocultar os pecados de Jericho. Quando Wandinha entrou no apartamento de Tyler, encontrou-o andando de um lado para o outro. Ele parecia ter envelhecido dez anos desde a caverna. Seus olhos estavam fundos, a pele pálida, e suas mãos não paravam de tremer.

— E então? — perguntou ele, a voz falhando. — Wandinha, por favor, me diga.

— Não haverá um pequeno Hyde-Addams destruindo o berçário, Tyler — disse ela, sua voz soando como o gume de uma navalha. — Foi apenas um susto causado pelo estresse e pela ingestão de toxinas ocultistas.

Tyler fechou os olhos e encostou a testa na parede, soltando um suspiro trêmulo.

— Graças a Deus... eu não sabia se conseguiria... eu não sabia como te proteger disso.

— Me proteger? — Wandinha deu um passo à frente, e a temperatura do quarto pareceu cair vários graus. — Você fala como se tivesse algum direito sobre a minha proteção, Tyler. Como se a sua presença na minha vida fosse algo além de um fardo que eu escolhi carregar por curiosidade clínica.

Tyler virou-se, confuso com o tom dela.

— Do que você está falando? Nós passamos por isso juntos. Nós...

— "Nós" não passamos por nada! — explodiu ela, a frieza habitual dando lugar a uma fúria incandescente que ela vinha reprimindo desde que acordara naquela cama dias atrás. — Você é um manipulador, Tyler. Você me enganou desde o primeiro dia na Catavento. Você me usou para chegar ao Crackstone, você tentou me matar na floresta, você assassinou meus colegas e agora, por um erro de julgamento induzido por drogas, você acha que temos algum tipo de vínculo sagrado?

— Wandinha, eu mudei! Eu estou tentando...

— Você não mudou! Você apenas trocou de mestre. Antes era a Laurel, agora você tenta se ancorar em mim porque não suporta a própria insignificância sem alguém para te dar ordens. Você me fez sentir algo que eu desprezo: vulnerabilidade. Você profanou a única coisa que eu mantinha intacta — minha autonomia.

Wandinha aproximou-se dele com uma rapidez predatória. Tyler não recuou, mas seus olhos mostravam um medo que não era do monstro, mas da perda.

— Você se aproveitou da situação — sibilou ela. — Você sabia que estávamos drogados, sabia que eu não estava em meu juízo perfeito, e mesmo assim você... você me tocou.

— Eu não me aproveitei! — gritou Tyler, a voz embargada. — Eu estava tão perdido quanto você! Eu te amo, Wandinha!

O som de um tapa estalou no ar, ecoando pelas paredes de madeira. Wandinha o atingiu com tanta força que o rosto de Tyler virou para o lado, e uma marca vermelha começou a surgir instantaneamente em sua bochecha.

— Não use essa palavra comigo — disse ela, a voz trêmula de ódio. — Nunca mais.

Tyler levou a mão ao rosto, mas não para revidar. Seus ombros começaram a tremer. Ele cambaleou para trás e caiu sentado no sofá velho, a respiração tornando-se curta e ruidosa. A crise de ansiedade o atingiu como um trem descarrilado.

— Eu... eu não... — ele engasgou, as mãos agarrando o próprio peito. — Você não entende... Wandinha, por favor... me escuta...

Wandinha permaneceu de pé, os braços cruzados, observando-o sofrer com uma indiferença que era sua armadura preferida. Mas as palavras que saíram da boca de Tyler em seguida perfuraram até o seu coração de pedra.

— Você acha que eu me sinto poderoso? — Tyler soluçou, as lágrimas começando a descer sem controle. — Você acha que eu gostei de como as coisas aconteceram? Wandinha... a Laurel... ela não apenas me transformou no Hyde. Ela roubou tudo.

Ele enterrou o rosto nas mãos, o choro tornando-se um lamento gutural que parecia vir das profundezas de sua alma.

— Ela roubou a única coisa que era só minha. Antes de você... antes daquela noite que a gente não lembra... eu nunca tinha estado com ninguém. Eu era virgem, Wandinha. E ela tirou isso de mim à força, como parte do "treinamento" para me ligar a ela.

Wandinha congelou. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelos soluços violentos de Tyler.

— Ela me usou de todas as formas que um ser humano pode usar outro — continuou ele, a voz saindo em um sussurro quebrado. — Ela dizia que eu era o bicho de estimação dela, que meu corpo pertencia ao Hyde e o Hyde pertencia a ela. Eu me sentia sujo... eu me sinto sujo todos os dias!

Ele olhou para ela, e Wandinha viu uma devastação que nenhuma tortura física poderia replicar.

— Aquela noite com você... mesmo que a gente não lembre dos detalhes... foi a primeira vez que eu senti que meu corpo era meu de novo. Que eu estava entregando algo para alguém que eu realmente queria, e não porque eu estava sendo obrigado por um gatilho mental ou por medo. Eu não me aproveitei de você, Wandinha. Eu estava tentando me salvar através de você.

Tyler voltou a chorar, um choro desolado, de uma criança perdida em um corpo de monstro. Ele se encolheu no sofá, parecendo pequeno, quebrado e irremediavelmente humano.

— Eu sinto nojo de mim mesmo — soluçou ele. — Cada vez que eu fecho os olhos, eu sinto as mãos dela. Eu sinto o cheiro dela. Eu achei que, se a gente tivesse um filho, talvez... talvez essa parte de mim fosse lavada. Talvez eu pudesse ser algo além de uma arma usada e descartada. Mas eu sou apenas isso. Um lixo que sobrou da Laurel Gates.

Wandinha sentiu um peso no estômago que não tinha nada a ver com o teste negativo. Ela olhou para a marca do seu tapa no rosto dele e, pela primeira vez na vida, sentiu o gosto amargo do arrependimento. Ela sempre se orgulhou de ser uma torturadora, de infligir dor, mas ver Tyler desmoronar daquela forma não lhe dava prazer. Era como observar a destruição de uma obra de arte que ela, secretamente, admirava.

Ela caminhou lentamente até o sofá e sentou-se ao lado dele, mas sem tocá-lo.

— Eu não sabia — disse ela, sua voz perdendo o gume e tornando-se apenas... silenciosa.

— Ninguém sabe — Tyler limpou o rosto com a manga da camisa, mas as lágrimas continuavam a cair. — Meu pai acha que eu sou apenas um psicopata. Nevermore acha que eu sou um monstro. E você... você me odeia porque eu não sou perfeito como os seus mistérios. Mas eu sou apenas um garoto que foi destruído antes mesmo de ter a chance de começar.

Wandinha olhou para as mãos dele, que ainda tremiam. Ela pensou em todas as vezes que o chamou de manipulador, em todas as vezes que o acusou de ser um mestre dos jogos mentais. E percebeu que, embora ele fosse capaz de tudo isso, a base de tudo era um trauma tão profundo que o Hyde era, talvez, a parte menos assustadora de sua psique.

— Eu não te odeio, Tyler — disse ela, as palavras saindo com dificuldade. — Eu odeio o fato de que você consegue me desarmar. Eu odeio que a sua dor ressoe na minha de uma forma que eu não consigo explicar logicamente.

Tyler olhou para ela, os olhos vermelhos e inchados, buscando qualquer sinal de mentira.

— Você me bateu — lembrou ele, com uma risada triste.

— Você merecia — retrucou ela, mas sem a fúria de antes. — Por ser um idiota e por me fazer sentir algo tão burguês quanto a compaixão. Mas... eu sinto muito pelo que ela fez com você. Laurel Gates merecia uma morte muito mais lenta do que a que teve. Se eu soubesse, teria guardado algumas técnicas de empalamento especialmente para ela.

Tyler soltou um suspiro longo, o pânico começando a diminuir, substituído por uma exaustão absoluta.

— O que a gente faz agora? — perguntou ele. — Sem bebê. Sem amnésia. Só a gente e toda essa merda.

Wandinha olhou para a janela, onde a névoa começava a se dissipar, revelando a luz fria da manhã.

— Nós continuamos — disse ela. — Você vai aprender a viver com a sua sujeira, assim como eu vivo com a minha escuridão. E se você tentar se automutilar emocionalmente na minha frente de novo, eu vou garantir que a dor física seja real o suficiente para distraí-lo da mental.

Tyler esboçou um sorriso fraco, o primeiro que parecia tocar seus olhos em dias.

— Isso é um pedido de desculpas à moda Addams?

— É o máximo que você vai conseguir sem que eu precise me internar em um sanatório — respondeu ela.

Ela estendeu a mão e, com uma hesitação que era estranha a ela, tocou o rosto dele, exatamente onde o tapa havia deixado a marca. Tyler fechou os olhos ao toque dela, inclinando-se levemente para a palma de sua mão.

— Você não é lixo, Tyler — sussurrou ela, tão baixo que ele quase não ouviu. — Você é um Hyde. E Hydes são criaturas de transformação. O que ela fez com você foi o prelúdio. O que você faz agora... é a sua verdadeira natureza.

Tyler segurou a mão dela contra o seu rosto, e por um momento, o quarto ficou em silêncio. Não era o silêncio da caverna ou do dormitório; era um silêncio de reconhecimento mútuo. Dois seres quebrados, sentados em um sofá velho, tentando encontrar um sentido em um mundo que só lhes oferecia dor.

— Obrigado, Wandinha — disse ele.

— Não me agradeça — respondeu ela, retirando a mão e levantando-se. — Eu ainda tenho uma reputação de frieza e desdém a manter. E você tem um apartamento para limpar. Está cheirando a desespero e uísque barato aqui dentro.

Ela caminhou até a porta, mas parou antes de sair.

— E Tyler?

— Sim?

— Se você contar a alguém que eu fui "compreensiva", eu vou pessoalmente arrancar sua língua e usá-la como marcador de livro.

Tyler riu, um som que desta vez não continha tristeza.

— Segredo guardado, Wandinha.

Ela saiu para o ar fresco da manhã, com Mãozinha saltando para o seu ombro. O teste negativo estava no lixo, a crise de Tyler havia passado, e o futuro continuava tão incerto e sombrio quanto ela gostava. Mas, enquanto caminhava de volta para Nevermore, Wandinha sentiu que o labirinto de vidro em que viviam tinha agora uma saída. Ou, pelo menos, uma forma de quebrar as paredes sem se cortar tanto.

Ela ainda era Wandinha Addams. Ele ainda era o Hyde. Mas, entre o sangue e a amnésia, algo real havia sobrevivido. E isso era o mistério mais perigoso de todos.