Wandinha x Tyler
O Labirinto das Sombras e o Eco do Desejo
A escuridão da caverna não era do tipo que Wandinha Addams apreciava. Não era o breu aveludado de um túmulo ou o silêncio reconfortante de um necrotério; era uma escuridão úmida, opressiva e barulhenta, preenchida pelo som gotejante de estalactites e pela respiração pesada de Tyler Galpin ao seu lado. O desmoronamento causado pela armadilha final da Ordem do Sangue Puro fora eficiente. Eles estavam selados em uma câmara de calcário, a quilômetros de qualquer civilização, com oxigênio limitado e uma tensão que ameaçava explodir antes mesmo que o ar acabasse.
— Ótimo — murmurou Wandinha, tateando a parede de pedra fria. — Se eu fosse escolher um lugar para morrer, esperava que fosse algo com mais valor arquitetônico e menos cheiro de morcego atropelado.
— Pelo menos você tem companhia — rebateu Tyler. Ele estava sentado no chão, tentando recuperar o fôlego. O esforço para segurar as pedras enquanto Wandinha passava quase o fizera se transformar, e agora ele lutava para manter o Hyde sob controle. — Embora eu saiba que você prefira a solidão de uma cripta.
Wandinha não respondeu. Ela sentiu uma pontada familiar em seu abdômen. Não era apenas a dor do impacto; era o latejar que a perseguia desde que acordara naquela manhã no apartamento de Tyler. E, conforme o silêncio da caverna se aprofundava, as barreiras de sua mente, geralmente impenetráveis, começaram a ceder.
O agente amnésico estava perdendo o efeito.
Um flash súbito atravessou sua visão. Não era uma imagem da batalha, mas o brilho da lua refletido no suor das costas de Tyler. O som do vento lá fora substituído por um gemido baixo que ela reconheceu, com um choque elétrico, como sendo seu.
Wandinha estacou. Suas mãos, apoiadas na pedra, tremeram imperceptivelmente.
— Wandinha? — Tyler se levantou, percebendo a rigidez súbita dela. — Você está ferida?
— Estou perfeitamente bem — disse ela, a voz saindo mais afiada do que o pretendido. — Apenas calculando quanto tempo levaremos para morrer por asfixia se você continuar gastando oxigênio com perguntas inúteis.
Mas as imagens continuavam vindo. Como um filme de terror em preto e branco sendo projetado contra as paredes da caverna, Wandinha viu a si mesma — ou melhor, sentiu a si mesma. Sentiu as mãos grandes de Tyler em sua cintura, puxando-a com uma urgência que ela nunca permitira a ninguém. Lembrou-se do calor da pele dele contra a sua, um contraste violento que parecia derreter o gelo que ela cultivara por anos.
— Você também está vendo? — a voz de Tyler soou rouca, quase um sussurro.
Ela virou-se para ele. Mesmo na penumbra, os olhos de Tyler brilhavam com uma intensidade diferente. Ele não estava olhando para a saída bloqueada. Ele estava olhando para ela, e Wandinha soube que ele também estava recuperando os fragmentos daquela noite.
— Fragmentos irrelevantes de uma perda de julgamento induzida por substâncias — declarou ela, embora seu coração estivesse batendo contra as costelas como um prisioneiro tentando escapar.
— Não foi só a bebida, Wandinha — disse Tyler, dando um passo à frente. O espaço confinado da caverna tornava a presença dele inevitável. — Eu lembro do jeito que você me olhou. Não era o olhar de quem estava drogada. Era... era você. Sem as tranças, sem as defesas.
— A memória é uma narradora não confiável — rebateu ela, recuando até que suas costas batessem na parede fria. — Especialmente quando misturada com traumas e adrenalina.
— Eu lembro de como você arranhou meus ombros — continuou ele, a voz baixando de tom, tornando-se perigosamente íntima. — E lembro que você não disse para eu parar. Nem uma vez. Na verdade, você pediu para eu não parar.
Wandinha sentiu o rosto queimar, uma sensação que ela detestava. Outro flash a atingiu: o momento em que a boca dele encontrou a dela, não com a hesitação do primeiro beijo na Catavento, mas com a fome de dois predadores que finalmente reconheceram que pertenciam um ao outro. Ela lembrou-se da sensação de abandono, de como o controle — sua posse mais preciosa — fora entregue voluntariamente a ele naquela cama bagunçada.
— Foi um erro tático — disse ela, tentando recuperar sua máscara de indiferença. — Uma anomalia biológica causada pela proximidade da morte.
— Pare de tentar transformar isso em uma autópsia! — Tyler exclamou, batendo a mão na parede ao lado da cabeça dela. Ele não estava sendo agressivo, estava sendo desesperado. — Foi a primeira vez que eu me senti humano em meses. Com você. E eu lembro de tudo agora. Lembro do cheiro da sua pele, do som da sua respiração... e lembro que não foi apenas físico.
Wandinha olhou para cima, encontrando os olhos dele. A escuridão da caverna parecia se fechar em torno deles, transformando o local em uma extensão daquele quarto de barcos.
— O que você quer que eu diga, Tyler? — perguntou ela, a voz baixa e letal. — Que eu apreciei a experiência? Que a forma como você me tocou desfez décadas de isolamento emocional em questão de horas? Que eu me sinto... vulnerável?
— Eu quero que você admita que sentiu algo — disse ele. — Porque eu senti. Eu sinto agora.
Wandinha suspirou, um som que carregava o peso de mil segredos.
— Eu senti — admitiu ela, as palavras saindo como se estivessem sendo arrancadas com um fórceps. — Foi... devastador. E é por isso que não pode se repetir. Eu não sou uma criatura feita para a luz, Tyler. E você é um monstro que ainda não aprendeu a domar a própria sombra. O que fizemos foi perigoso em mais níveis do que eu posso contar.
Tyler inclinou a cabeça, a testa encostada na pedra acima dela. O silêncio voltou a reinar, mas agora era preenchido pela eletricidade residual daquela confissão. No entanto, a expressão dele mudou subitamente. O brilho romântico e melancólico foi substituído por uma clareza súbita e aterrorizante.
Ele se afastou dela, os olhos arregalados, as mãos subindo para a cabeça.
— Tyler? — Wandinha franziu a testa. — Se você vai ter outra crise de ansiedade, tente não desmaiar em cima de mim.
— Wandinha... — ele começou, a voz trêmula. — A noite passada. A gente... a gente estava no meio de um caos. A gente mal conseguia ficar de pé.
— Sim, já estabelecemos que fomos imprudentes — disse ela, impaciente.
— Não, você não está entendendo — ele se virou para ela, o rosto pálido. — Eu lembrei de uma coisa. De um detalhe.
Wandinha sentiu um frio na espinha que não tinha nada a ver com a temperatura da caverna.
— Que detalhe?
Tyler engoliu em seco, olhando para o ventre dela e depois de volta para seus olhos.
— A gente não usou nada, Wandinha. Camisinha, proteção... nada. Eu estava tão fora de mim, e você... a gente simplesmente não parou para pensar.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até o som das gotas d'água pareceu parar. Wandinha Addams, a mestre do controle, a observadora que nunca deixava escapar um detalhe, sentiu o mundo girar. Sua mente, sempre tão rápida em calcular probabilidades de morte e desastre, agora processava uma probabilidade biológica que ela nunca permitira entrar em seus planos.
— Você tem certeza? — perguntou ela, sua voz soando estranha aos seus próprios ouvidos.
— Tenho — disse Tyler, a voz falhando. — Eu lembro de procurar, de pensar por um segundo que deveria parar, mas você me puxou de volta e... eu simplesmente esqueci o mundo.
Wandinha encostou-se na parede, as pernas subitamente pesadas. Ela pensou na dor que sentira ao acordar. Pensou na conexão de sangue e escuridão que já os unia e na possibilidade de algo novo, algo impensável, ter sido criado a partir daquele caos.
— Isso é... — ela começou, mas a palavra "desastroso" morreu em sua garganta.
— É um problema — completou Tyler, aproximando-se novamente, mas desta vez com uma cautela infinita. — Wandinha, se você... se houver uma consequência...
— Se houver uma consequência — interrompeu ela, recuperando um pouco de sua frieza habitual —, teremos que lidar com ela da forma Addams. Com pessimismo, determinação e, possivelmente, uma quantidade considerável de armas medievais.
Tyler soltou uma risada nervosa, que soou mais como um arquejo.
— Você não está surtando?
— Surtar é uma perda de tempo — disse ela, embora suas entranhas estivessem em revolta. — No entanto, se eu estiver carregando um híbrido de Addams e Hyde, Jericho provavelmente não sobreviverá ao primeiro trimestre.
Tyler olhou para ela com uma mistura de pavor e uma admiração que ele não conseguia esconder. Ele estendeu a mão e, desta vez, Wandinha permitiu que ele tocasse seu ventre, por cima do tecido grosso do casaco. A mão dele era grande e quente, e por um momento, a caverna pareceu menos uma prisão e mais um santuário.
— Eu não vou te deixar sozinha nessa — prometeu ele, a voz firme. — Não importa o que aconteça. Mesmo que você me odeie. Mesmo que o Hyde tente assumir o controle. Eu vou estar lá.
Wandinha olhou para a mão dele e depois para o rosto dele. A ironia da situação não lhe escapava. Ela passara a vida evitando conexões humanas, apenas para acabar presa em uma caverna com o monstro que amava, discutindo uma possível linhagem que poderia destruir o mundo.
— Se isso for verdade — disse ela, sua mão cobrindo a dele —, você terá que aprender a trocar fraldas com a mesma precisão com que rasga gargantas. Eu não aceitarei nada menos que a perfeição no cuidado com a nossa... prole das sombras.
Tyler sorriu, um sorriso real que iluminou seu rosto cansado.
— Eu posso aprender.
— Ótimo — Wandinha afastou a mão dele e voltou a focar na parede de pedras que os prendia. — Agora, saia da frente. Se eu vou ser mãe de um possível monstro, eu me recuso a deixar que ele nasça em uma caverna úmida. Mãozinha deve estar do outro lado com a dinamite a esta altura.
— Dinamite? — Tyler piscou.
Como se fosse uma resposta, um estrondo abafado ecoou do outro lado dos escombros. Poeira e pequenas pedras caíram do teto.
— Ele sempre foi exagerado quando se trata de resgates — comentou Wandinha, protegendo os olhos.
Enquanto os primeiros raios de luz começavam a penetrar através das frestas criadas pela explosão, Wandinha e Tyler permaneceram próximos. O segredo daquela noite não era mais um borrão amnésico; era uma realidade vibrante e perigosa que agora corria em suas veias.
Wandinha sabia que o futuro seria sangrento, caótico e cheio de desafios que nenhuma máquina de escrever poderia descrever. Mas, enquanto observava Tyler se preparar para ajudá-la a sair do buraco, ela sentiu que, pela primeira vez, o mistério valia a pena.
Eles saíram da caverna para o ar frio da noite de Jericho. Mãozinha estava lá, gesticulando freneticamente com um detonador na mão. Wandinha ignorou as perguntas mudas do amigo e começou a caminhar em direção a Nevermore, com Tyler ao seu lado.
O silêncio entre eles agora era diferente. Não era o silêncio do desconhecido, mas o silêncio de quem compartilha um segredo que poderia mudar o destino de todos os Excluídos.
— Wandinha? — chamou Tyler, quando as luzes da escola surgiram ao longe.
— Sim?
— Se for um menino... por favor, nada de nomes que comecem com "Pugsley".
Wandinha parou e olhou para ele com um brilho de malícia nos olhos.
— Eu estava pensando em "Lúcifer". Ou talvez "Caos".
Tyler riu, passando o braço pelos ombros dela, e Wandinha, contra todos os seus instintos de preservação, não se afastou. A noite estava apenas começando, e as sombras nunca pareceram tão promissoras.