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Wasteland

O Silêncio dos Engrenagens Quebradas

O ar no covil de Jinx parecia ter esfriado. Sem o som frenético de ferramentas batendo contra metal ou as risadas maníacas que costumavam ecoar pelas vigas de ferro, o lugar se tornara uma catedral de sucata. Ekko permanecia imóvel, sentado ao lado do colchão improvisado onde Jinx agora mergulhava em um sono profundo e pesado.

Ele observava o rosto dela. Sem a máscara de caos que ela costumava usar, Jinx parecia assustadoramente jovem e frágil. A cintila em suas veias fazia com que sua pele tivesse um brilho pálido, quase translúcido, e o rosa de suas pálpebras fechadas era um lembrete constante de que a garota que ele conhecia fora alterada em um nível celular. Mas ele não sentia repulsa. Ele sentia uma ternura melancólica que doía mais do que qualquer ferimento de batalha.

Seu olhar caiu novamente sobre a mão esquerda dela. O dedo de ferro, com aquela carinha feliz desenhada de forma tosca, parecia observar Ekko de volta. Ele não sabia como ela o perdera, mas conhecendo a vida que ela levava, era um milagre que ela ainda estivesse inteira. Ele estendeu a mão, hesitando por um segundo antes de tocar suavemente a borda do metal frio da prótese.

— Você sempre teve um senso de humor estranho — sussurrou ele para o vazio, um meio sorriso triste surgindo em seus lábios.

O tempo passou de uma forma estranha. Sem o tique-taque de seu relógio ou a pressão de liderar os Incendiários, Ekko se permitiu apenas existir naquele espaço com ela. Ele examinou os arredores com mais cuidado agora. Havia desenhos de uma criança pequena espalhados por algumas paredes — traços que não pertenciam ao estilo caótico de Jinx. Eram desenhos de uma menina com cabelos escuros. Isha. O nome que ela gritara antes de apagar.

Quem quer que fosse essa criança, ela fora importante o suficiente para quebrar as últimas defesas de Jinx. E agora, ela não estava aqui.

Ekko sentiu um peso no estômago. Ele sabia o que era perder a família. Ele sabia o que era ver o mundo desmoronar e não ter ninguém para segurar os estilhaços. Ele olhou para Jinx e percebeu que, por mais que ele tivesse sofrido, ela sempre parecia estar em um epicentro de dor muito mais violento.

De repente, Jinx se mexeu. Um gemido baixo escapou de seus lábios e seu corpo se contraiu, como se estivesse lutando contra um inimigo invisível em seus sonhos.

— Não... — ela murmurou, a voz rouca e carregada de pavor. — Isha... volta... o ciclo... eu vou estragar tudo...

Ekko se inclinou para frente, colocando uma mão firme, mas gentil, no ombro dela.

— Calma. Você está segura. Eu estou aqui.

Ela não acordou, mas o toque pareceu ancorá-la. O tremor diminuiu e ela voltou a cair naquela inconsciência profunda que só o esgotamento total pode proporcionar. Ekko suspirou, recostando a cabeça contra a parede fria. Ele sabia que não podia ficar ali para sempre. Seu povo precisava dele. Mas como ele poderia deixá-la? Como poderia abandoná-la naquele estado, cercada por fantasmas e bombas falhas?

As horas se arrastaram. O brilho esverdeado de Zaun que entrava pelas frestas do teto mudou de intensidade, indicando que o ciclo de luz da cidade subterrânea estava avançando. Ekko sentia seus próprios olhos pesarem. Ele não dormia bem há muito tempo, sempre alerta, sempre pronto para voltar o relógio se algo desse errado. Mas ali, com o Z-Drive descarregado e o silêncio de Jinx como única companhia, ele sentiu que podia baixar a guarda por um momento.

Ele acabou cochilando, uma mão ainda próxima à dela.

Quando acordou, o covil estava mergulhado em uma penumbra mais densa. Ele sentiu um movimento súbito e seus instintos de guerreiro o fizeram despertar instantaneamente. Jinx estava sentada, os olhos rosa arregalados, a respiração ofegante. Ela olhava para as próprias mãos como se não as reconhecesse.

— Ekko? — A voz dela era um estalo seco no silêncio.

— Estou aqui — respondeu ele prontamente, movendo-se para que ela pudesse vê-lo claramente. — Você dormiu por quase dez horas.

Jinx levou a mão à cabeça, as unhas curtas cravando-se no couro cabeludo por um instante antes de ela soltar um suspiro trêmulo. Ela olhou para ele, e por um segundo, a confusão em seus olhos deu lugar a uma lembrança dolorosa.

— Você não foi embora — constatou ela. Não era uma pergunta, era uma observação carregada de uma estranheza quase infantil.

— Eu disse que não ia — afirmou Ekko. — Como você está se sentindo?

Jinx soltou uma risada curta e sem vida, desviando o olhar para o dedo de ferro em sua mão esquerda. Ela começou a girar a prótese distraidamente, o metal rangendo levemente.

— Eu me sinto... como se um exaustor tivesse sugado tudo de dentro de mim e deixado só a poeira. — Ela olhou para o teto, as tranças curtas emoldurando seu rosto pálido. — Por que você ainda está aqui, Garoto-Prodígio? A gema está ali no canto. Pega ela e vai embora. Salva o seu mundinho perfeito lá em cima da árvore.

— Eu não vim pela gema, Jinx. Já te disse isso.

— Então veio pelo quê? — Ela se virou para ele com uma intensidade repentina, o brilho rosa de seus olhos oscilando. — Pela Powder? Ela morreu, Ekko! Ela morreu naquela ponte, ou talvez antes disso, quando o Vander morreu, ou quando a Vi...

— Eu não vim pela Powder — interrompeu ele, mantendo a voz calma e firme. — Eu vim por você. Pela pessoa que está na minha frente agora.

Jinx estacou. Seus lábios tremeram por um segundo, mas ela os apertou em uma linha fina. Ela odiava quando ele fazia isso. Odiava quando ele agia como se ela ainda tivesse algum valor, como se ela não fosse apenas uma sucessão de erros e explosões.

— Você é louco — sussurrou ela. — Mais louco do que eu.

— Talvez — admitiu ele com um leve dar de ombros. — Mas em Zaun, quem não é?

Ela olhou para o dedo de ferro novamente.

— Você nem perguntou — disse ela, a voz ficando pequena. — Sobre o dedo. Ou sobre o cabelo. Ou sobre... nada.

Ekko se aproximou um pouco mais, sentando-se de pernas cruzadas à frente dela, respeitando o espaço, mas recusando-se a se afastar.

— Eu não preciso perguntar. Eu sei que dói. E eu sei que cada cicatriz que você tem conta uma história que eu provavelmente não gostaria de ouvir, mas que eu ouviria se você quisesse contar.

Jinx abraçou os próprios joelhos, encolhendo-se.

— Ela se foi, Ekko. A Isha. Ela tentou me salvar... de mim mesma. E agora ela é só... fumaça. Como todo mundo.

Ekko sentiu um aperto no peito. Ele estendeu a mão e, desta vez, Jinx não recuou quando ele tocou seus dedos ensanguentados e marcados pelos próprios cortes.

— Eu sinto muito — disse ele, e a sinceridade em sua voz fez com que Jinx fechasse os olhos com força. — Eu não conheci a Isha, mas se ela tentou te salvar, é porque ela viu o que eu vejo. Que você vale a pena.

— Eu sou um desastre, Ekko! — explodiu ela, embora sem a energia de antes. — Tudo o que eu toco quebra! Eu tentei ajudar o Silco, e eu o matei! Eu tentei ajudar a Vi, e ela me odeia! Eu sou a Jinx! Eu trago azar!

— Então vamos ser azarados juntos — respondeu ele sem hesitar. — Porque eu também perdi tudo. Eu vi meus amigos morrerem, vi meu mentor ser levado pela cintila, vi a cidade que eu amo ser destruída pela ganância de Piltover. Se você é um desastre, eu sou o que sobrou depois que o relógio parou.

Jinx abriu os olhos e o encarou. Havia algo diferente no olhar de Ekko. Não era pena. Era reconhecimento. Era o olhar de alguém que também carregava o peso de um mundo quebrado nos ombros.

Lentamente, como se estivesse testando se ele era real, Jinx estendeu a mão esquerda e tocou o rosto dele, bem em cima de onde a marca da ampulheta costumava estar. O metal frio do dedo de ferro contrastou com a pele quente de Ekko.

— Você está desaparecendo — sussurrou ela, referindo-se à pintura branca que sumira com o uso excessivo do Z-Drive.

— Ela volta — disse ele. — Assim como você.

Jinx soltou um suspiro longo, o corpo relaxando minimamente. Ela ainda estava exausta, ainda estava à beira de um colapso, mas a presença de Ekko era como um anestésico para a estática constante em sua mente. As vozes em sua cabeça — as vozes de Mylo e Claggor, que costumavam gritar sobre seus fracassos — pareciam estar sussurrando agora, abafadas pela batida rítmica do coração dele.

— O que a gente faz agora? — perguntou ela, a voz carregada de uma incerteza que ela raramente admitia.

— Agora? — Ekko olhou ao redor do covil desolado. — Agora a gente sai daqui.

— Para onde? Eu não tenho lugar nenhum. Os Incendiários me odeiam. Piltover quer a minha cabeça em uma bandeja. E a Vi...

— Você tem a mim — cortou ele. — E você tem a árvore. Ninguém vai te machucar lá. Eu não vou deixar.

Jinx riu, uma risada seca e sem humor.

— Você vai me levar para o seu santuário de paz e amor? Garoto-Prodígio, eu vou explodir aquele lugar em uma semana. É o que eu faço.

— Então eu vou te dar coisas para explodir que precisem ser explodidas — rebateu ele com um brilho de desafio nos olhos. — Zaun está mudando, Jinx. A guerra está vindo, queira a gente ou não. E eu prefiro ter você do meu lado do que contra mim.

Ela ficou em silêncio por um longo tempo, processando as palavras dele. A ideia de ter um lugar, de ter alguém que não esperava que ela fosse a Powder, mas que também não a temia como a Jinx, era algo que ela não sabia como lidar. Era assustador. Mais assustador do que enfrentar um exército de Pacificadores.

— Você é mesmo um idiota — disse ela finalmente, mas havia uma suavidade em seu tom que não existia antes.

— Eu sei.

Ekko se levantou e estendeu a mão para ela. Jinx olhou para a mão dele por um momento eterno. Ela pensou em Isha, pensou no sacrifício da menina, e sentiu que, talvez, a única forma de honrar esse sacrifício era não se deixar cair no abismo que estava logo ali fora.

Ela pegou a mão dele. A mão de carne e osso de Jinx, e a mão de ferro com a carinha feliz, envolveram a mão de Ekko.

— Sem promessas de que eu vou ser boazinha — avisou ela, levantando-se com dificuldade, as pernas ainda trêmulas.

— Eu não esperaria nada diferente — sorriu ele.

Enquanto caminhavam em direção à saída do covil, Ekko parou por um segundo para pegar a gema Hextech que estava jogada no chão. Ele a entregou para Jinx.

— Isso é seu.

Jinx olhou para a pequena esfera azul brilhante. Por um momento, ela viu o reflexo de tudo o que aquela gema causara. Ela a guardou em um dos bolsos de seu cinto, o metal do dedo de ferro tilintando contra a superfície da gema.

— Vamos sair daqui antes que eu mude de ideia e decida explodir esse lugar com a gente dentro — murmurou ela, começando a andar com o passo vacilante de quem ainda estava processando o fato de estar viva.

Ekko caminhou ao lado dela, mantendo um braço por perto caso ela tropeçasse, mas sem forçar o contato. Ele sabia que o caminho para a cura de Jinx seria longo, tortuoso e provavelmente cheio de recaídas violentas. Mas, enquanto eles subiam em direção à superfície, deixando para trás o cheiro de pólvora e os fantasmas do covil, ele sentiu que o relógio, pela primeira vez em muito tempo, estava marcando o início de algo novo, em vez do fim.

O vento de Zaun soprou contra eles, carregando o cheiro de metal e fumaça, mas para aqueles dois, parecia o ar mais puro que já haviam respirado. Eles eram dois pedaços quebrados de um mundo injusto, tentando encontrar uma forma de se encaixar sem cortar um ao outro.

E, no escuro da cidade baixa, o brilho rosa dos olhos de Jinx e o rastro pálido da ampulheta no rosto de Ekko eram as únicas luzes que importavam. Eles seguiram em frente, um passo de cada vez, deixando o ciclo de azar para trás, ou pelo menos, decidindo enfrentá-lo juntos.