Wasteland
O Peso do Silêncio e o Sorriso de Ferro
O silêncio no covil de Jinx não era um silêncio vazio; era um silêncio denso, carregado pelo cheiro de ozônio, pólvora queimada e o suor frio de quem atingiu o limite absoluto da resistência humana. Ekko sentia o peso de Jinx contra seu peito aumentar a cada segundo. Não era apenas o peso físico de uma garota magra e desnutrida, mas o peso de uma alma que finalmente parara de lutar contra a gravidade.
Ele a segurava com uma firmeza desesperada, os dedos enterrados no tecido sujo de seu top, sentindo as costelas dela subirem e descerem em um ritmo errático. Jinx não estava apenas cansada. O modo como sua cabeça pendeu para o lado, o rosto escondido na curva do pescoço de Ekko, indicava um colapso total. Ela estava há dias sem dormir — quatro, talvez cinco, ele chutaria pelo estado das olheiras profundas que manchavam sua pele pálida.
— Jinx? — sussurrou ele, a voz falhando.
Não houve resposta. Apenas o som de uma respiração pesada e úmida. Ela apagara. O curto-circuito emocional de reencontrá-lo, somado à perda traumática de seja lá quem fosse a criança que ela mencionara, fora o golpe final.
Ekko não se moveu. Ele ficou ali, ajoelhado no metal frio, servindo de âncora para a garota que o mundo inteiro queria ver acorrentada ou morta. Ele olhou para o topo da cabeça dela, para os cabelos azuis agora curtos e desgrenhados, e sentiu uma pontada de dor. Ele não se importava se ela era a Powder de suas lembranças de infância ou a Jinx que aterrorizava Piltover. Para ele, ela era simplesmente ela — a sua pessoa. Ele sabia que chamá-la de "Powder" agora era como esfregar sal em uma ferida aberta; era negar a dor e as escolhas que a transformaram no que ela era. E ele a amava demais para machucá-la com o passado.
Com cuidado, ele começou a ajeitá-la em seus braços para levantá-la. Foi então que ele viu.
A mão esquerda dela, caída inerte sobre a coxa, estava diferente. Da última vez que se enfrentaram na ponte, ela tinha todos os dez dedos, apesar das cicatrizes. Agora, faltava o dedo do meio. No lugar da carne e do osso, havia uma prótese rudimentar de ferro, presa de forma grosseira. E, no metal frio e escuro, alguém — ou ela mesma — havia pintado uma carinha feliz simplória, com dois "X" no lugar dos olhos e um sorriso torto.
Ekko sentiu um nó na garganta. Ele não gritou, não perguntou o que tinha acontecido e não deixou o horror transparecer em seu rosto. Em Zaun, perder partes de si mesmo era o custo de estar vivo. Ele apenas aceitou. A partir daquele momento, aquela mão incompleta era parte dela, e ele cuidaria de cada centímetro daquela fragilidade metálica tanto quanto cuidaria do resto.
Ele a pegou no colo, sentindo como ela era assustadoramente leve. O brilho rosa de seus olhos, agora oculto pelas pálpebras fechadas, ainda parecia pulsar levemente sob a pele, um lembrete constante da cintila que corria em suas veias. Ele caminhou pelo covil, desviando de destroços e projetos inacabados, até encontrar um canto que parecia ser onde ela desmoronava quando o corpo não aguentava mais.
— Eu peguei você — murmurou ele, sentando-se no chão e acomodando a cabeça dela em seu colo, recusando-se a deixá-la sozinha em um colchão imundo.
Ele passou a mão pelos cabelos curtos dela, afastando os fios do rosto manchado de fuligem e lágrimas secas. As marcas de sangue ao redor das cutículas dela, onde ela claramente se ferira em momentos de crise, brilhavam sob a luz fraca do covil. Ekko pegou a mão esquerda dela, a mão com o dedo de ferro, e a segurou com delicadeza, como se fosse o cristal mais caro de Piltover.
— Você não precisa mais fugir — disse ele para o silêncio. — Não hoje.
Jinx se mexeu levemente no sono, um gemido baixo escapando de seus lábios. Seus dedos de carne se contraíram contra a perna de Ekko, mas ela não acordou. Ela estava em um abismo de exaustão tão profundo que nem mesmo os fantasmas que costumavam assombrá-la pareciam capazes de alcançá-la ali.
Ekko olhou para a carinha feliz no dedo de metal. Aquele pequeno detalhe dizia tudo sobre ela: a necessidade de transformar a dor em algo caótico, em uma piada que só ela entendia. Ele não conhecia Isha, não sabia quem era a criança que a fizera chorar daquela forma, mas ele via o vácuo que ela deixara.
As horas passaram. A marca da ampulheta no rosto de Ekko, que brilhava intensamente sempre que ele usava o Z-Drive para voltar no tempo e salvá-la daquela explosão, havia desaparecido completamente, deixando apenas a pele limpa e o cansaço acumulado. Ele também estava exausto. O esforço de dobrar a realidade repetidamente para garantir que ela não se matasse cobrara seu preço, mas ele não fechou os olhos. Ele vigiou cada respiração dela, cada tremor.
Em certo momento, Jinx começou a falar entre dentes, um sussurro febril que mal chegava a ser inteligível.
— ...não vai embora... por favor... o relógio... ele quebrou...
Ekko inclinou-se, aproximando o rosto do dela.
— Eu estou aqui, Jinx. O relógio parou. Nós temos todo o tempo do mundo agora.
Ela relaxou novamente, o corpo amolecendo contra o dele. Ekko sentiu uma lágrima solitária escorrer por seu próprio rosto. Ele passou anos tentando lutar contra ela, tentando pará-la, tentando entender o que a transformara naquele monstro de cabelos azuis. Mas ali, no silêncio do covil, ele percebeu que nunca houve um monstro. Houve apenas uma garota que foi quebrada tantas vezes que aprendeu a gostar do som dos estilhaços.
Ele olhou para as mãos dela novamente. O sangue seco sob as unhas, as cicatrizes de queimaduras, o dedo de ferro. Ele não queria mudá-la. Ele não queria que ela voltasse a ser a menina que chorava por medo de monstros. Ele queria que ela soubesse que, mesmo sendo o monstro, ela ainda tinha um lugar para onde voltar.
— Eu não vou te deixar — prometeu ele, a voz firme apesar do cansaço. — Não importa quantas bombas você jogue, não importa quantos dedos você perca. Eu vou estar aqui para recolher os pedaços.
O tempo em Zaun era medido pelo gotejar de canos enferrujados e pelo zumbido distante das fábricas, mas para Ekko, o tempo agora era medido pelas batidas do coração de Jinx contra sua perna. Ele sabia que, quando ela acordasse, ela poderia tentar atacá-lo, poderia rir na sua cara ou fugir para as sombras. Mas, por aquelas poucas horas de paz forçada, ela era apenas sua.
Ele acariciou o dedo de ferro, o sorriso de "X" parecendo menos uma zombaria e mais uma promessa de sobrevivência. Jinx era feita de remendos, de metal e de dor, mas ela ainda estava ali. E, enquanto ela estivesse ali, Ekko teria um motivo para continuar puxando a alavanca do seu relógio, não para voltar ao passado, mas para garantir que o futuro dela não fosse apagado.
O silêncio continuou, quebrado apenas pelo som da respiração de dois sobreviventes que, contra todas as probabilidades, haviam encontrado um momento de trégua no meio do caos. Ekko encostou a cabeça na parede de metal atrás de si, fechando os olhos por apenas um segundo, sentindo o calor dela e a frieza do dedo de ferro, e permitiu-se, pela primeira vez em anos, simplesmente respirar.