Water
O Brilho da Extravagância e a Fúria do Vento
A mansão de Sanemi Shinazugawa era um lugar de disciplina rígida e silêncio cortante, mas naquela tarde, o ar parecia carregar uma eletricidade estática que nada tinha a ver com o clima. Sanemi estava encostado em um pilar de madeira, observando o pátio de treinamento com os olhos semicerrados e a mandíbula tão apertada que seus dentes rangiam.
A poucos metros dali, Giyu Tomioka estava tendo uma conversa. E não era com qualquer pessoa. Ele estava diante de Tengen Uzui, o Hashira do Som, um homem que exalava uma confiança barulhenta e uma extravagância que Sanemi sempre achou irritante. Mas o que estava fazendo o sangue do Hashira do Vento ferver não era o brilho das joias de Uzui ou sua altura imponente; era a expressão no rosto de Giyu.
Tomioka estava ouvindo algo que Uzui dizia, e seus lábios — aqueles lábios que Sanemi considerava sua propriedade exclusiva — estavam curvados em um sorriso pequeno, mas genuíno. Giyu raramente sorria, e ver aquele lampejo de alegria direcionado a outro homem era como levar um soco direto no estômago.
— — Veja bem, Tomioka! — a voz de Uzui ecoou pelo pátio, vibrante e cheia de si. — Você precisa colocar um pouco mais de brilho na sua vida! Se você continuar com essa cara de enterro, as pessoas nunca vão notar o quanto você pode ser extravagante por baixo desse haori sem graça.
Tomioka soltou uma risada curta, um som suave que fez os pelos da nuca de Sanemi se arrepiarem de ódio.
— — Eu não acho que preciso de joias, Uzui-san — disse Giyu, os olhos azuis brilhando com uma diversão que ele raramente mostrava a Sanemi. — Mas admito que sua perspectiva é... interessante.
— — Interessante? É brilhante! — Uzui deu um tapinha amigável e pesado no ombro de Giyu, apertando o tecido do uniforme. — Da próxima vez que formos à cidade, eu vou te mostrar os melhores lugares. Minhas esposas iam adorar te dar umas dicas de estilo.
Sanemi não aguentou mais. Ele se impulsionou para longe do pilar, seus passos pesados ecoando no chão de pedra enquanto ele atravessava o pátio como um furacão prestes a tocar o solo.
— — Já chega dessa conversa fiada! — rosnou Sanemi, parando entre os dois e lançando um olhar assassino para Uzui. — Tomioka tem trabalho a fazer, e você tem esposas demais para ficar perdendo tempo com o namorado dos outros, Uzui!
Uzui ergueu uma sobrancelha, um sorriso provocador surgindo em seu rosto pintado.
— — Ora, Shinazugawa! Que entrada pouco extravagante. Está com medo de que eu roube o brilho do seu precioso Tomioka? Ele estava apenas começando a se soltar.
— — Ele não precisa se soltar com você — Sanemi agarrou o pulso de Giyu com uma força desnecessária. — Vamos embora, Giyu. Agora.
Tomioka piscou, a expressão de diversão desaparecendo instantaneamente, substituída por sua máscara habitual de confusão.
— — Mas Sanemi, nós ainda não terminamos de discutir as rotas de patrulha...
— — Eu disse agora! — Sanemi praticamente o arrastou para longe, deixando Uzui para trás, que apenas soltou uma risada sonora e extravagante que perseguiu os dois até entrarem nos corredores da mansão.
Durante todo o caminho de volta para os aposentos privados, Sanemi não disse uma única palavra. Sua respiração era pesada e suas cicatrizes pareciam pulsar com a raiva contida. Giyu o seguia em silêncio, tentando entender o que havia causado aquela explosão súbita. Para Tomioka, conversar com Uzui tinha sido apenas uma interação social comum, algo que ele estava tentando praticar para ser um Hashira melhor.
Assim que entraram no quarto e Sanemi bateu a porta de correr com uma violência que fez as paredes tremerem, Giyu finalmente falou.
— — Por que você está tão irritado? — perguntou Tomioka, a voz calma contrastando com o caos que emanava do outro. — Uzui-san estava apenas sendo amigável.
— — Amigável? — Sanemi virou-se, os olhos injetados de sangue. — Aquele pavão estava te tocando, Giyu! E você... você estava sorrindo para ele! Você nunca sorri para mim daquele jeito!
Giyu franziu a testa, genuinamente surpreso.
— — Eu sorrio para você, Sanemi. Mas você está sempre gritando ou treinando. Uzui-san contou uma piada sobre o Rengoku. Foi engraçado.
— — Eu não dou a mínima se foi engraçado! — Sanemi avançou, encurralando Giyu contra a parede de shoji. Ele colocou as mãos de cada lado da cabeça de Tomioka, prendendo-o. — Você é meu, entendeu? Meu. Eu não quero você sorrindo para outros caras, e eu certamente não quero aquele idiota colocando as mãos em você.
Tomioka olhou nos olhos de Sanemi e, pela primeira vez, viu algo além da raiva. Viu uma insegurança profunda, um medo possessivo que ele não sabia que o Hashira do Vento carregava.
— — Você está com ciúmes — afirmou Giyu, como se estivesse descobrindo uma nova espécie de oni. — De novo.
— — Estou furioso! — corrigiu Sanemi, aproximando o rosto do dele até que suas pontas de nariz se tocassem. — E eu vou garantir que você não esqueça a quem pertence esta noite.
Antes que Giyu pudesse processar a ameaça, Sanemi o atacou com um beijo que não tinha nada de gentil. Era uma colisão de dentes e línguas, um beijo carregado de uma fome agressiva. Sanemi queria apagar qualquer rastro da conversa com Uzui, queria substituir a risada de Giyu por gemidos que só ele poderia provocar.
As mãos de Sanemi desceram para o uniforme de Giyu, desfazendo os botões com uma pressa febril. Ele empurrou o haori de padrões divididos para fora dos ombros de Tomioka, deixando-o cair no chão como uma pele descartada.
— — Sanemi... — Giyu tentou falar, mas o som foi abafado quando Sanemi desceu os beijos para seu pescoço, mordendo a pele sensível logo acima da clavícula.
— — Fica quieto, Giyu — rosnou Sanemi contra a pele pálida. — Apenas sente o que eu vou te fazer.
Sanemi derrubou Giyu sobre o futon, cobrindo o corpo dele com o seu. A diferença de temperatura era gritante; a pele de Sanemi sempre parecia queimar, enquanto a de Giyu era fresca como a água de um riacho. O Hashira do Vento começou a marcar o corpo de Tomioka, deixando trilhas de marcas avermelhadas e roxas por onde passava, como se estivesse escrevendo seu nome na pele do outro.
Giyu arqueou as costas, as mãos agarrando os lençóis com força. A intensidade de Sanemi era avassaladora, mas havia algo naquilo que o fazia se sentir estranhamente seguro. Era a prova física de que, apesar de toda a sua frieza e isolamento, alguém o desejava com uma ferocidade incontrolável.
— — Você é meu — Sanemi repetiu, a voz agora um sussurro rouco e perigoso enquanto ele se livrava do resto de suas roupas. — Diz isso.
Tomioka olhou para cima, os olhos azuis agora nublados pelo desejo e pela submissão voluntária.
— — Eu sou seu, Sanemi — disse Giyu, a voz trêmula. — Sempre fui.
Ouvir aquelas palavras vindas de Giyu foi o estopim para Sanemi. Ele se moveu com uma urgência que beirava o desespero, querendo fundir seus corpos de uma forma que ninguém mais pudesse intervir. Cada movimento era carregado de uma possessividade bruta. Sanemi não era um homem de delicadezas, e naquela noite, ele queria que Giyu sentisse cada grama de seu poder e de sua paixão.
— — Olha para mim — ordenou Sanemi enquanto eles se uniam.
Giyu obedeceu, focando nos olhos de Sanemi. Ele viu a tempestade lá dentro, o vendaval que destruía tudo em seu caminho, mas que, naquele momento, o envolvia com um calor que o fazia perder o fôlego. Os gemidos de Giyu agora preenchiam o quarto, substituindo o silêncio que Sanemi tanto odiava. Eram sons de prazer, de entrega, e Sanemi bebia cada um deles como se fossem sua única fonte de vida.
— — Sorri agora, Giyu — Sanemi provocou, o suor pingando de seu rosto enquanto ele mantinha um ritmo implacável. — Sorri para mim enquanto eu te deixo assim.
Tomioka não conseguiu sorrir; ele estava ocupado demais tentando respirar, tentando não se desintegrar sob a força de Sanemi. Suas mãos subiram para as costas de Sanemi, as unhas cravando-se nas cicatrizes antigas, criando novas marcas sobre as velhas.
Quando o ápice finalmente os atingiu, foi como uma explosão de sentidos. Sanemi rugiu contra o pescoço de Giyu, segurando-o com tanta força que Tomioka achou que suas costelas poderiam quebrar. Giyu soltou um grito abafado, seu corpo tremendo em espasmos enquanto ele se perdia na sensação de ser completamente dominado pelo homem que amava.
Minutos depois, o silêncio retornou ao quarto, mas era um silêncio diferente. Era denso, carregado com o cheiro de sexo e a exaustão de dois guerreiros que haviam encontrado sua própria forma de paz. Sanemi ainda estava sobre Giyu, o rosto enterrado na curva do ombro do moreno, sua respiração voltando ao normal lentamente.
— — Você é um idiota possessivo — murmurou Giyu, a voz fraca, mas carregada de afeto.
Sanemi levantou a cabeça, olhando para as marcas que havia deixado no corpo de Tomioka. Ele parecia satisfeito, como um predador que havia acabado de garantir seu território.
— — E você é um imbecil que não sabe quando alguém está tentando te roubar de mim — rebateu Sanemi, dando um beijo casto e surpreendentemente doce nos lábios de Giyu. — Se o Uzui chegar perto de você amanhã, eu vou garantir que ele perca o resto do brilho que ele tanto se gaba.
Giyu soltou uma risada pequena e cansada.
— — Ele só queria ser amigável, Sanemi.
— — Não me importa — Sanemi deitou-se ao lado dele, puxando-o para um abraço apertado, envolvendo-o com seus braços fortes. — De agora em diante, se você quiser sorrir, sorria para mim. Se quiser rir, ria das minhas piadas, por piores que elas sejam.
— — Você não conta piadas, Sanemi. Você apenas grita com as pessoas.
— — Então ria dos meus gritos! — Sanemi resmungou, fechando os olhos e sentindo o coração de Giyu batendo contra o seu. — Apenas... não me deixe louco desse jeito de novo. Ver você com ele... me deu vontade de cortar o mundo ao meio.
Tomioka se aconchegou mais ao peito de Sanemi, fechando os olhos também. Ele entendeu que, para um homem como Sanemi Shinazugawa, o amor não era algo suave ou tranquilo. Era uma batalha constante, um fogo que precisava ser alimentado, e uma proteção que beirava a obsessão. E, estranhamente, Giyu não mudaria isso por nada no mundo.
— — Eu não vou a lugar nenhum — prometeu Giyu antes de cair no sono.
Sanemi não respondeu, mas apertou o abraço, garantindo que, pelo menos naquela noite, o vento e a água estivessem perfeitamente entrelaçados, longe de qualquer extravagância que não fosse a deles mesmos. De manhã, ele ainda teria que lidar com Uzui e suas piadas, mas por agora, ele tinha tudo o que importava em seus braços, devidamente marcado e lembrado de a quem pertencia.