Voltar ao resumo

Water

O Veneno Silencioso da Inveja e o Sorriso da Borboleta

A rotina no Quartel-General dos Caçadores de Onis raramente mudava, mas para Giyu Tomioka, o mundo parecia ter adquirido cores e texturas novas desde aquela noite na cabana. Ele ainda era o mesmo homem de poucas palavras e expressão gélida, mas havia um calor residual em seu peito que não se apagava, uma lembrança constante do toque áspero e, ao mesmo tempo, zeloso de Sanemi Shinazugawa.

No entanto, a paz de Giyu foi abruptamente interrompida durante uma tarde ensolarada nos jardins da Mansão Borboleta. Ele e Sanemi haviam acabado de retornar de um relatório e pararam para descansar perto do lago. Foi quando uma jovem caçadora de rank inferior, carregando algumas bandejas de suprimentos médicos, parou diante deles.

Ela não era uma Hashira, mas tinha uma vivacidade que parecia brilhar sob o sol. Seus olhos se fixaram em Sanemi, ignorando completamente a presença de Giyu.

— Shinazugawa-sama! — exclamou a garota, as bochechas coradas. — Eu ouvi dizer que o senhor derrotou um oni de elite nas montanhas sozinho! O senhor é realmente tão incrível quanto dizem as histórias.

Sanemi, que normalmente responderia com um rosnado ou um insulto para que ela saísse do caminho, apenas cruzou os braços, um sorriso de lado — aquele sorriso presunçoso que Giyu conhecia bem — surgindo em seus lábios.

— É, não foi nada demais — respondeu Sanemi, a voz menos agressiva do que o normal. — Aquele maldito mal teve tempo de piscar.

— O senhor é tão corajoso... — a garota continuou, aproximando-se um passo, quase tocando o braço cicatrizado de Sanemi. — Eu adoraria se o senhor pudesse me dar algumas dicas de treinamento algum dia. Eu me sinto muito mais segura sabendo que alguém como o senhor protege o esquadrão.

Giyu, que estava sentado em uma pedra próxima, sentiu algo estranho. Não era uma dor física, como um corte de nichirin, mas era um desconforto agudo que subia pelo seu estômago e apertava sua garganta. Ele observou a mão da garota perto de Sanemi e sentiu uma vontade súbita de desembainhar sua espada, não para atacar, mas para criar uma barreira.

Sanemi soltou uma risada curta, claramente gostando da atenção, embora Giyu soubesse que o Hashira do Vento era péssimo em entender segundas intenções quando se tratava de admiração feminina.

— Talvez — disse Sanemi. — Se você não for uma molenga, eu posso te ensinar a não morrer no primeiro minuto de luta.

A garota riu, um som cristalino que irritou Giyu profundamente. Ela se despediu com uma reverência exagerada e um olhar prolongado para Sanemi antes de se afastar.

Giyu continuou em silêncio, mas sua aura parecia ter ficado dez graus mais fria.

— Que foi, Tomioka? — Sanemi perguntou, virando-se para ele com uma expressão confusa. — Por que você está com essa cara de quem comeu limão mofado?

— Nada — respondeu Giyu, levantando-se abruptamente. — Tenho coisas a fazer.

— Ei! — Sanemi gritou enquanto Giyu se afastava a passos largos. — O que deu em você, seu imbecil?

Giyu não respondeu. Ele caminhou apressadamente pelos corredores da Mansão Borboleta, tentando entender o que estava sentindo. Era um veneno. Um veneno silencioso que fazia seu sangue ferver e sua mente girar em círculos. Ele se sentia... insuficiente? Ou talvez apenas irritado? Ele não sabia o nome para aquilo.

Incapaz de lidar com o turbilhão interno sozinho, ele acabou parando diante da porta do escritório de Shinobu Kocho. Se havia alguém que entendia de venenos e de sentimentos humanos complexos — mesmo que ela os escondesse atrás de um sorriso falso —, era ela.

Giyu bateu na porta, um som seco e hesitante.

— Entre — a voz melodiosa de Shinobu ecoou de dentro.

Ao entrar, Giyu encontrou a Hashira do Inseto organizando frascos de vidro. Ela ergueu os olhos e, ao ver quem era, seu sorriso se alargou de uma forma levemente provocativa.

— Ora, ora... Tomioka-san. Que visita inesperada. Você finalmente decidiu vir tratar sua falta de amigos ou apenas se perdeu no caminho para o lago?

Giyu não reagiu à provocação. Ele se sentou no banco de madeira, mantendo a postura rígida.

— Shinobu — ele começou, a voz monótona, mas com uma nota de urgência que ela captou imediatamente. — Eu acho que estou doente.

Shinobu parou o que estava fazendo e inclinou a cabeça, os olhos violetas brilhando com curiosidade.

— Doente? Você não parece ter febre. Quais são os sintomas?

— Meu estômago dói quando vejo certas pessoas falando com o Sanemi — explicou Giyu, olhando para as próprias mãos. — Sinto um aperto na garganta e uma vontade de pedir para que elas sumam. É um tipo novo de veneno de oni? Alguma técnica de manipulação de sangue?

O silêncio que se seguiu no escritório foi quebrado apenas pelo som de um frasco sendo colocado na mesa. Shinobu piscou, processando a informação, e então soltou uma risada curta e genuína, escondendo a boca com a mão.

— Ah, Tomioka-san... — disse ela, recuperando o fôlego. — Você é realmente uma criatura fascinante. Você não está sob o efeito de uma técnica de sangue.

— Então o que é? — ele perguntou, genuinamente preocupado. — É grave?

— Depende do ponto de vista — Shinobu aproximou-se, sentando-se à frente dele. — O que você está sentindo chama-se ciúme. É uma emoção humana muito comum, especialmente quando se está em um relacionamento... tão peculiar quanto o que você tem com o Shinazugawa-san.

Giyu franziu a testa. A palavra soava estranha em sua mente.

— Ciúme? Eu não tenho motivos para ter ciúme. Sanemi disse que gosta de mim.

— Sim, ele disse — Shinobu concordou, divertindo-se com a inocência dele. — Mas o ciúme não é racional, Tomioka-san. É o medo de perder o que é importante para você, ou a irritação de ver outra pessoa cobiçando o que você considera seu. Aquela garota de mais cedo... ela estava flertando com ele, não estava?

Giyu assentiu lentamente.

— Ela disse que ele era incrível. E tocou no braço dele.

— E você odiou isso, não foi? — Shinobu cutucou, o sorriso tornando-se mais afiado. — Você queria que ela soubesse que o Shinazugawa-san não está disponível para dar "dicas de treinamento" para qualquer uma.

— Eu queria que ela fosse embora — admitiu Giyu, a voz baixa. — Mas Sanemi parecia estar gostando. Ele sorriu para ela.

— Bem, o Shinazugawa-san tem o ego do tamanho de uma montanha — Shinobu deu de ombros. — Ele provavelmente nem percebeu que ela estava dando em cima dele, ele apenas gosta de ser admirado. Mas para você, isso pareceu uma ameaça.

Giyu ficou em silêncio por um longo tempo, absorvendo a explicação. Ciúme. Era um sentimento feio, ele pensou. Era barulhento e perturbador, o oposto da calma que ele tentava cultivar na Respiração da Água.

— Como eu faço isso parar? — ele perguntou finalmente. — Existe um antídoto?

— O antídoto para o ciúme é a comunicação, algo que você e o Shinazugawa-san evitam como se fosse uma praga — Shinobu levantou-se e voltou aos seus frascos. — Você deveria dizer a ele como se sentiu. Ou, melhor ainda, você deveria marcar seu território de uma forma que ele entenda.

Giyu inclinou a cabeça, confuso.

— Marcar meu território?

Shinobu soltou um suspiro dramático.

— Tomioka-san, você é um Hashira! Use sua presença. Não deixe que os outros esqueçam com quem o Sanemi passa as noites dele. Se alguém se aproximar demais, mostre que você está lá. Não precisa dizer nada, apenas... seja você mesmo, mas ao lado dele.

Giyu levantou-se, sentindo-se um pouco mais esclarecido, embora ainda desconfortável.

— Obrigado, Shinobu.

— De nada — ela respondeu, sem olhar para trás. — E Tomioka-san? Tente não matar nenhuma caçadora inocente apenas porque ela achou o Shinazugawa-san atraente. Seria muito trabalhoso limpar a papelada.

Giyu saiu da enfermaria e começou a procurar por Sanemi. Ele o encontrou perto do campo de treinamento, limpando sua espada com uma flanela. O Hashira do Vento parecia irritado, provavelmente porque Giyu o havia deixado falando sozinho mais cedo.

— Ah, você voltou! — Sanemi rosnou assim que o viu. — Pode me explicar que palhaçada foi aquela? Você saiu correndo como se eu tivesse te insultado!

Giyu parou diante dele. Ele se lembrou do que Shinobu disse sobre comunicação, mas as palavras pareciam presas em sua garganta. Em vez de falar, ele fez algo que nunca faria em público.

Ele deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Sanemi, e segurou a mão dele — a mão que a garota quase tocara.

Sanemi congelou, os olhos arregalados.

— O que você está fazendo, Giyu? Tem gente olhando!

— Deixe que olhem — disse Giyu, a voz firme, embora seu coração estivesse disparado.

Sanemi sentiu a intensidade no olhar de Tomioka e sua irritação começou a morder o pó, substituída por uma confusão genuína.

— Você está agindo de um jeito estranho desde que aquela garota veio falar comigo. Espera... — Sanemi estreitou os olhos, um sorriso malicioso começando a se formar. — Por acaso você está com ciúmes, Tomioka?

— Shinobu disse que é ciúme — respondeu Giyu com sua honestidade desarmante. — Eu não gostei dela. Eu não gostei de como ela olhou para você. E não gostei que você sorriu para ela.

Sanemi ficou em silêncio por um batimento cardíaco, processando a declaração direta. Ele sentiu o rosto esquentar, mas desta vez não foi de raiva. Ver o sempre estóico Giyu Tomioka admitindo que estava com ciúmes era algo que massageava seu ego de uma forma que mil elogios de caçadoras novatas jamais fariam.

— Você é um idiota completo — murmurou Sanemi, mas ele não soltou a mão de Giyu. Pelo contrário, entrelaçou seus dedos com força. — Aquela garota não é nada. Eu nem lembro a cor do cabelo dela.

— Era castanho — corrigiu Giyu.

— Tanto faz! — Sanemi puxou Giyu para mais perto, ignorando os olhares curiosos de alguns aprendizes que passavam por perto. — Você realmente acha que eu trocaria você por qualquer pessoa que me diga "bom trabalho"? Eu estou com você porque você é o único que consegue me aguentar, e o único que eu consigo aguentar.

Giyu sentiu o aperto no peito começar a relaxar. O veneno estava sendo neutralizado.

— Então você não vai dar dicas de treinamento para ela? — perguntou Giyu.

— Se ela aparecer na minha frente de novo, eu vou mandá-la treinar com o Himejima até ela não conseguir mais sentir as pernas — Sanemi rosnou, aproximando o rosto do de Giyu. — Satisfeito agora?

Giyu assentiu levemente, um brilho de alívio em seus olhos azuis.

— Sim.

Sanemi soltou um suspiro, metade frustrado, metade encantado com a possessividade silenciosa do outro.

— Da próxima vez que você se sentir assim, não corre para a Shinobu. Vem falar comigo. Ou melhor, me beija na frente de todo mundo. Isso resolve o problema rapidinho.

Giyu considerou a proposta.

— Beijar em público? Isso não seria contra as regras de conduta?

— Que se danem as regras! — Sanemi puxou Giyu pela nuca, encostando suas testas. — Se alguém reclamar, eu mando pro inferno.

Ali, sob o céu da tarde, Giyu Tomioka aprendeu que o ciúme era uma tempestade difícil de navegar, mas que o vento de Sanemi sempre seria capaz de dissipar as nuvens, desde que eles estivessem juntos. E, pela primeira vez, ele não se importou se o Quartel-General inteiro soubesse a quem o Hashira do Vento pertencia.