Why you hate me ?
O Eco do Silêncio e o Gosto do Fel
O intervalo do almoço na Escola Anakt sempre tinha o mesmo som: uma mistura de rock vindo dos fones de Till, as risadas altas de Hyuna e o barulho constante de cadeiras sendo arrastadas. Mas, para Sua, o som predominante era a voz de Ivan, que parecia ter o dom de transformar oxigênio em veneno.
— Você viu a cara dela quando vestiu o casaco? — Ivan sussurrou, inclinando-se sobre a mesa de Sua enquanto mastigava um chiclete de uva. — Ela realmente acha que tem um "admirador secreto" heróico. Mal sabe ela que é só a minha irmãzinha patética, agindo como uma empregada doméstica apaixonada.
Sua não desviou os olhos do livro, embora as letras estivessem dançando diante de sua visão devido à raiva contida.
— Cala a boca, Ivan.
— Ou o quê? Vai chorar? — Ele deu um peteleco na orelha dela, um gesto infantil que carregava uma crueldade adulta. — Você é patética, Sua. Passa os dias tratando a garota como lixo para esconder que morreria para que ela te olhasse por cinco segundos. Você acha que essa frieza te protege, mas só faz a Mizi ter pena de você. Ou melhor, nem pena. Ela só te acha insuportável.
— Eu disse para calar a boca — Sua repetiu, a voz falhando levemente.
— Ela nunca vai te amar. Ela é a "garota de ouro". Ela quer um príncipe, ou pelo menos alguém que não tenha a personalidade de um iceberg derretendo. Você está perdendo seu tempo e o dela.
Ivan se afastou com um sorriso satisfeito quando viu o resto do grupo se aproximar. Mizi vinha na frente, radiante como sempre, com o casaco azul-claro amarrado na cintura. Ela se sentou à mesa com uma energia que parecia iluminar até os cantos mais escuros da cafeteria.
— Gente, eu estava pensando... — Mizi começou, os olhos dourados brilhando. — O festival cultural está chegando e o clube de música quer que a gente faça uma apresentação em conjunto. O que vocês acham? Seria incrível ter todos nós no palco!
— Eu topo! — Hyuna exclamou, batendo na mesa. — Luka pode cuidar da iluminação, o Till na guitarra, e você e a Sua poderiam fazer um dueto de abertura! As vozes de vocês combinam perfeitamente.
O coração de Sua deu um solavanco. Cantar com Mizi? Sentir a vibração da voz dela tão perto, dividir o mesmo microfone, o mesmo ar? Era o seu maior sonho e o seu pior pesadelo.
— Seria perfeito, não seria, Sua? — Mizi perguntou, virando-se para ela com um sorriso esperançoso, aquele sorriso que sempre desarmava qualquer um.
Sua sentiu o olhar de Ivan queimando em sua nuca. "Patética", a voz dele ecoou em sua mente. "Ela só te acha insuportável". O medo de ser exposta, de deixar transparecer o quanto desejava aquilo, transformou-se em uma armadura de gelo instantânea.
— Não — disse Sua, a voz curta e cortante como uma lâmina. — Eu não tenho tempo para essas bobagens sentimentais. Procure outra pessoa para passar vergonha com você.
O silêncio caiu sobre a mesa como um balde de água fria. Até Till parou de mexer no celular. Mizi piscou, o sorriso vacilando, mas ela ainda tentou manter a leveza.
— Ah, qual é, Sua? Não precisa ser nada profissional. É só por diversão, entre amigos...
— Nós não somos amigas, Mizi — Sua interrompeu, fechando o livro com um estrondo que fez Hyuna pular. — Nós apenas frequentamos o mesmo círculo porque o meu irmão é seu melhor amigo. Pare de forçar uma intimidade que não existe. É irritante.
Mizi sentiu algo estalar dentro de si. Durante anos, ela aceitou os monossílabos, os olhares evitados e a frieza. Ela sempre achou que Sua era apenas "estranha" ou "tímida", mas aquele desprezo gratuito, na frente de todos, foi o limite. A paciência de Mizi, geralmente infinita, evaporou.
— Qual é o seu problema?! — Mizi gritou, levantando-se tão rápido que sua cadeira caiu para trás. — Sério, Sua, o que caralhos eu fiz para você?
Sua também se levantou, embora fosse bem mais baixa. Seu rosto estava pálido, mas seus olhos roxos brilhavam com uma fúria defensiva.
— Você não fez nada, Mizi! Esse é o ponto! Você é apenas... essa coisa barulhenta, carente e egocêntrica que acha que todo mundo tem que girar ao seu redor só porque é bonitinha!
— Egocêntrica?! — Mizi soltou uma risada amarga, os olhos dourados marejados de puro ódio. — Eu passo anos tentando te incluir, tentando ser legal, tentando entender por que você me trata como um lixo, e você me chama de egocêntrica?
— Ninguém pediu sua simpatia! — Sua rebateu, a voz subindo de tom. — Eu não suporto o jeito que você fala, o jeito que você dorme na aula, o jeito que você age como se o mundo fosse um mar de rosas. Você é fútil, Mizi. Você é irritante e eu não aguento mais ter que olhar para a sua cara todo santo dia!
Mizi sentiu uma pontada de dor no peito, mas a raiva era maior. Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Sua.
— Quer saber? Você tem razão. Eu fui uma idiota de perder meu tempo com alguém como você. Você é uma garota amarga, fria e solitária que se esconde atrás desses livros porque tem medo de viver. Você é um peso morto, Sua! — Mizi cuspiu as palavras com um veneno que ninguém sabia que ela possuía. — Eu te odeio. Eu odeio o fato de ter tentado ser sua amiga. Fica aí com a sua arrogância e o seu silêncio, porque eu cansei de você. Você é desprezível!
Mizi pegou sua mochila e saiu pisando fundo, as lágrimas de raiva finalmente escapando. O refeitório inteiro estava em silêncio, observando a cena.
— Mizi, espera! — Hyuna tentou chamar, mas foi ignorada.
Um garoto da sala ao lado, um loiro que sempre observava Mizi de longe mas nunca tivera coragem de falar com ela, viu ali sua oportunidade. Ele se levantou rapidamente e seguiu Mizi pelo corredor.
— Mizi! Ei, Mizi, você está bem? — ele perguntou, alcançando-a perto dos armários. — A Sua foi realmente horrível, ninguém merece ser tratado assim...
Mizi parou, soluçando de raiva, e olhou para o garoto. Ela nem sabia o nome dele, mas a atenção dele parecia um bálsamo temporário para o ego ferido.
— Ela é uma idiota — Mizi murmurou, limpando o rosto com a manga do casaco.
— Ela é. Você é incrível, Mizi. Não deixe ela te colocar para baixo — o garoto disse, colocando uma mão hesitante no ombro dela. — Quer sair daqui? Ir tomar um sorvete ou algo assim?
Mizi olhou para trás, em direção ao refeitório, pensando em Sua. A imagem da garota pálida e fria ainda queimava em sua mente.
— Quero — Mizi respondeu, a voz dura. — Quero ir para qualquer lugar que seja longe dela.
Enquanto isso, no refeitório, Sua permanecia estática. Suas mãos tremiam tanto que ela teve que escondê-las sob a mesa. As palavras de Mizi — "Eu te odeio", "Você é desprezível" — ecoavam como marteladas em seu crânio.
— Parabéns, maninha — a voz de Ivan surgiu ao seu lado, fria e divertida. — Você finalmente conseguiu. Ela te odeia. Missão cumprida, não é? Agora você pode sofrer em paz.
Sua não disse nada. Ela apenas pegou suas coisas e saiu na direção oposta, caminhando como um zumbi até o fim das aulas.
Quando finalmente chegou em casa, o silêncio do apartamento parecia sufocante. Ela correu para o quarto e bateu a porta. Segundos depois, Ivan entrou sem bater, encostando-se no batente da porta com um pirulito na boca.
— Você foi ridícula hoje, sabe? — ele disse, observando-a. — Todo mundo viu o quanto você é instável. A Mizi saiu por aí com um cara qualquer só para esquecer que você existe. Você é uma piada, Sua. Uma piada sem graça.
— Sai do meu quarto, Ivan — Sua disse, de costas para ele.
— Estou saindo. Só queria te lembrar que o buraco que você cavou é bem fundo. Aproveite a vista aí de baixo.
Ivan saiu e fechou a porta. Sua caminhou até ela com passos trôpegos e girou a chave. O som do trinco ecoou como o fechamento de uma cela.
Ela se jogou na cama, mas a dor em seu peito era tão intensa que ela sentia dificuldade para respirar. Não era apenas tristeza; era uma agonia física, um vazio que parecia estar consumindo seus órgãos de dentro para fora.
— Eu estraguei tudo... — ela sussurrou, a voz quebrada. — Eu estraguei tudo de novo.
Ela se arrastou até o armário e puxou um moletom azul-escuro que guardava no fundo da prateleira. Não era o de Mizi, mas era um modelo idêntico que ela havia comprado meses atrás, apenas para ter algo que a lembrasse dela.
Sua abraçou o tecido contra o peito, enterrando o rosto no pano. Não tinha o cheiro de morangos e flores de Mizi; tinha apenas o cheiro de guardado e de solidão. Mas ela apertou o moletom com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos, imaginando, em um delírio de dor, que era a própria Mizi que ela estava segurando.
— Me desculpa... — ela soluçou, as lágrimas finalmente inundando o tecido. — Mizi, me desculpa... eu te amo tanto que dói... eu te amo tanto que eu não sei o que fazer...
Ela se encolheu em posição fetal no chão do quarto, abraçada ao moletom, chorando até que sua garganta ardesse e seus olhos ficassem inchados. Em sua mente, ela repetia a cena do beijo que nunca aconteceria, o toque que ela mesma havia repelido com tanta violência.
Ela imaginou Mizi agora, rindo com aquele garoto, sendo amada por alguém que não tinha medo, alguém que não era um "peso morto".
A umidade entre suas pernas, que antes era fruto de um desejo proibido, agora parecia apenas uma marca de sua própria miséria. Ela se sentia suja, patética e, acima de tudo, irremediavelmente apaixonada por alguém que, agora, tinha todos os motivos do mundo para nunca mais olhar em seu rosto.
O sol se pôs, mergulhando o quarto na escuridão, mas Sua continuou ali, agarrada ao moletom azul, sendo devorada pelo silêncio que ela mesma havia construído.