Why you hate me ?
O Peso da Verdade e o Gelo de Vidro
O ar na sala de aula do 3º ano estava tão denso que parecia possível cortá-lo com uma régua. O silêncio que se seguia à briga do dia anterior não era pacífico; era carregado, uma corda esticada ao máximo prestes a arrebentar. Mizi estava sentada em sua mesa, os olhos dourados fixos em um ponto qualquer da lousa, mas sua mente estava longe. Ela sentia o peso do olhar de todos, mas, principalmente, sentia o vazio vindo do canto onde Sua se escondia atrás de um livro novo.
A paz precária foi quebrada quando o garoto loiro do dia anterior — cujo nome Mizi ainda não se dera ao trabalho de decorar — aproximou-se da mesa dela com um sorriso que tentava ser encorajador, mas soava apenas oportuno.
— Ei, Mizi. Você parece melhor hoje — disse ele, falando em um tom desnecessariamente alto, garantindo que todos na sala, especialmente Sua, ouvissem. — Sinceramente, todo mundo comentou como você foi paciente ontem. Aquela garota é um caso perdido, não é? Grossa, esquisita... parece que ela sente prazer em ser infeliz e arrastar os outros junto.
Mizi sentiu um aperto no estômago. Ela ainda estava magoada, furiosa até, mas ouvir um estranho insultar Sua daquela forma trouxe um gosto amargo à sua boca. Antes que ela pudesse reagir, no entanto, um estrondo veio da mesa ao lado.
Hyuna se levantou, batendo as palmas das mãos na madeira. Seus olhos azuis, geralmente divertidos, agora faíscavam.
— Escuta aqui, garoto. Quem você pensa que é para falar assim da minha amiga? — Hyuna rosnou, cruzando os braços.
O menino recuou um passo, mas tentou manter a pose, olhando para Mizi em busca de apoio.
— Eu só estou dizendo a verdade! A Sua tratou a Mizi como lixo na frente de todo mundo. A Mizi não fez nada, ela é perfeita, e a Sua é só uma...
— A Sua é nossa amiga desde o 8º ano — Hyuna interrompeu, a voz firme. — Ela tem os problemas dela, mas você não tem o direito de abrir essa boca para falar dela como se a conhecesse. some daqui antes que eu perca a paciência.
— Mas a Mizi concorda comigo! — o garoto insistiu, desesperado. — Não é, Mizi? Ela te humilhou!
Mizi sentiu a cabeça latejar. O som das vozes, o julgamento, a tensão acumulada... tudo parecia demais. Ela sentiu os fios rosa de seu cabelo pinicarem seu pescoço. De repente, o ódio que sentia de Sua se misturou com uma exaustão profunda de ser sempre o centro das atenções, de ser a "garota perfeita" que todos queriam defender ou possuir.
— Calem a boca... — Mizi murmurou, as mãos subindo para o cabelo. Ela apertou os fios entre os dedos, puxando de leve, sentindo a dor física para tentar abafar a mental. — Por favor, calem a boca!
O silêncio voltou instantaneamente, mas era um silêncio desconfortável. Mizi tirou as mãos da cabeça e as apoiou na mesa, deitando o rosto sobre os braços logo em seguida. Ela não queria ver Hyuna, não queria ver o garoto e, acima de tudo, não queria ver a expressão de Sua. Ela fechou os olhos, fingindo dormir, deixando que o mundo ao redor se tornasse apenas um borrão de ruídos abafados.
No canto da sala, Sua não baixou o livro. Mas suas mãos tremiam tanto que as páginas faziam um barulho suave de papel sendo amassado. Ela ouviu tudo. Ouviu a defesa de Hyuna e, principalmente, ouviu o desespero na voz de Mizi. O peito de Sua doía tanto que ela mal conseguia processar o oxigênio. "Ela me odeia", pensou Sua. "E agora todos me odeiam por causa dela".
O sinal para o intervalo tocou tempos depois. Mizi despertou com o barulho, sentindo o rosto marcado pela pressão do braço. Ela se levantou sem falar com ninguém e saiu para o corredor, precisando de ar. Enquanto mexia em seu armário, tentando organizar livros que não precisava, sentiu a presença de Ivan.
Ele estava encostado no armário vizinho, observando o movimento com seu habitual desdém. Sua passou por eles naquele momento, de cabeça baixa, caminhando em direção ao refeitório. Ivan não perdeu a oportunidade.
— Olha só, se não é a nossa rainha do drama — Ivan disse em voz alta, um sorriso cruel nos lábios. — Conseguiu o que queria, Sua? Agora até os desconhecidos sabem o quanto você é amarga.
Sua parou por um segundo, os ombros tensos, mas não respondeu. Ela continuou andando, a imagem da solidão personificada. Mizi, fingindo estar ocupada com um cadeado, sentiu uma vontade súbita de socar Ivan, mas a mágoa por Sua ainda era grande demais para que ela interferisse.
Mais tarde, o grupo se reuniu na mesa de sempre do refeitório. O clima era sufocante. Till cutucava a comida com desgosto, Luka olhava para o tablet com uma expressão mais séria que o comum, e Hyuna parecia estar prestes a explodir de ansiedade com o silêncio. Mizi e Sua estavam em extremidades opostas da mesa, evitando qualquer contato visual.
— Certo, chega! — Hyuna exclamou, batendo na mesa e fazendo todos pularem. — Eu não aguento mais esse velório. Amanhã é sábado. Meus pais viajaram e eu vou dar uma festa. Só nós seis. Na minha casa.
— Eu passo — disse Till, sem olhar para cima.
— Nem pensar — Luka murmurou.
— Eu não perguntei quem quer ir, eu estou avisando que vocês vão — Hyuna disse, apontando o dedo para cada um. — Luka, você vai para garantir que a gente não queime a casa. Sua, você vai porque precisa sair desse quarto escuro que você chama de alma. Nós vamos beber, ouvir música e agir como adolescentes normais por uma noite.
— Eu não bebo, Hyuna — Sua disse, a voz seca.
— Vai beber suco, então. Mas vai estar lá. E você também, Mizi.
Mizi deu de ombros, sem muita energia.
— Tanto faz. Pode ser.
— Ótimo! — Hyuna tentou sorrir, mas o assunto logo voltou para o território perigoso. — Vai ser bom para a Mizi relaxar. Afinal, com metade da escola tentando sair com ela, deve ser cansativo.
— É verdade — Ivan comentou, pegando um doce. — Aquele loiro de hoje de manhã é o quê? O centésimo este mês? Por que você não dá uma chance para um desses caras, Mizi? Aquele capitão do time de basquete é bonitão, e o nerd do clube de xadrez é rico.
Mizi sentiu a irritação subir como uma maré. O assunto "namorados da Mizi" era a pauta favorita de todos há anos. Todos projetavam nela a fantasia da namorada ideal, da garota que só precisava do "cara certo" para ser feliz. Ela olhou para o lado e viu Sua. A garota de cabelos pretos estava com os olhos fixos na mesa, a expressão de gelo escondendo a tempestade interna.
— Eu já disse que não estou interessada, Ivan — Mizi respondeu, tentando manter a calma.
— Ah, qual é! — Hyuna riu. — Até eu admito que tem uns gatinhos atrás de você. Você é muito exigente. O que você está procurando, afinal? Um príncipe encantado em um cavalo branco?
— Talvez ela esteja esperando o Till tomar coragem — provocou Ivan, fazendo Till engasgar com o refrigerante e ficar vermelho até as orelhas.
— Não é isso! — Till exclamou, limpando a boca. — Eu... eu só acho que a Mizi merece alguém que... que...
Mizi olhou para os amigos. Olhou para Hyuna, que sorria esperando uma fofoca; para Till, que a olhava com uma adoração que a fazia se sentir culpada; e para Sua, que parecia estar sofrendo em silêncio absoluto. Ela estava exausta. Exausta de esconder, exausta das expectativas, exausta de ser a "hétero perfeita" que todos amavam.
— Eu não estou esperando ninguém — Mizi disse, a voz subitamente clara e fria, cortando as risadas.
— Como assim? — Hyuna perguntou, confusa.
Mizi respirou fundo. Ela olhou diretamente para Ivan, que era o único que sabia, e viu um brilho de antecipação cruel em seus olhos negros. Depois, seus olhos dourados buscaram os roxos de Sua. Por um breve segundo, as duas se conectaram.
— Eu não namoro nenhum desses caras porque eu não gosto de caras — Mizi disparou. As palavras saíram rápidas, como se estivessem presas na garganta há séculos. — Eu sou lésbica.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Não era pesado ou tenso; era um vácuo. O barulho do refeitório ao redor parecia ter sido silenciado por uma redoma de vidro. Hyuna deixou o garfo cair. Till arregalou os olhos, a boca entreaberta. Luka, pela primeira vez no dia, desligou o tablet e olhou para Mizi com uma sobrancelha levantada.
Sua sentiu o mundo girar. Seus ouvidos começaram a zunir. "Lésbica?". A palavra ecoava em sua mente como um trovão. Durante anos, ela se torturou com a ideia de que Mizi era inalcançável por causa de sua orientação. Durante anos, ela acreditou nas mentiras de Ivan, nas suposições da escola, na imagem que a própria Mizi projetava.
— Você... o quê? — Hyuna gaguejou, a voz sumindo.
— Vocês ouviram — Mizi disse, agora mais calma, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas. — Eu gosto de garotas. Sempre gostei. Então, por favor, parem de tentar me arranjar namorados ou de comentar sobre como eu sou "exigente". Não tem nada a ver com exigência. Tem a ver com quem eu sou.
Ivan soltou uma risada baixa, quase inaudível, saboreando o caos que aquela revelação causaria na dinâmica do grupo.
Sua sentiu uma mistura violenta de alívio e pânico. Se Mizi gostava de garotas... então havia uma chance? Não. Ela lembrou-se das palavras de Mizi no dia anterior: "Eu te odeio". "Você é desprezível". O fato de Mizi ser lésbica não mudava o fato de que Sua tinha destruído qualquer ponte entre elas com sua própria frieza.
— Mizi... eu não fazia ideia — Till murmurou, parecendo genuinamente chocado, mas não da forma agressiva que Mizi temia. Ele parecia estar processando algo interno, uma percepção que começava a mudar sua própria visão do mundo.
— Ninguém fazia — Mizi respondeu, levantando-se. — Só o Ivan sabia. E agora vocês sabem. Vejo vocês amanhã na casa da Hyuna.
Ela saiu do refeitório sem olhar para trás, deixando o grupo em um estado de choque catatônico.
Sua continuou sentada, sentindo o peso daquela nova realidade. Ela olhou para o irmão, que a encarava com um sorriso vitorioso.
— Viu só, Sua? — Ivan sussurrou, aproximando-se do ouvido da irmã enquanto os outros ainda tentavam formular frases. — Ela gosta de garotas. E, mesmo assim, ela escolheu qualquer pessoa, menos você. Ela prefere sair com um estranho no corredor do que respirar o mesmo ar que o seu. Dói mais agora, não dói? Saber que a porta estava aberta, mas que você mesma trancou pelo lado de fora?
Sua sentiu uma lágrima solitária queimar seu rosto, mas ela a limpou rapidamente antes que alguém visse. Ela se levantou, pegou seus livros e saiu em direção à biblioteca.
O final de semana prometia ser longo. E a festa na casa de Hyuna, que antes parecia apenas uma ideia chata, agora se transformara no cenário de um confronto inevitável. Mizi tinha jogado sua verdade no mundo. Agora, cabia a Sua decidir se continuaria se escondendo atrás de seu muro de gelo ou se teria coragem de confessar que o ódio que fingia sentir era, na verdade, um amor que a estava consumindo viva.