Why you hate me ?
O Labirinto de Vidro e a Máscara Quebrada
O silêncio que se seguiu no quarto de Mizi era denso, quase palpável. Sua estava deitada de lado, o corpo ainda vibrando levemente, os lençóis de seda agora uma confusão de dobras úmidas sob sua pele. Ela observava a silhueta de Mizi, que se levantara para buscar um copo de água, movendo-se com uma elegância predatória que parecia não ter fim. O contraste entre a Mizi "popular e simpática" da escola e a mulher que acabara de dominá-la com uma intensidade quase cruel era algo que Sua ainda tentava processar.
— Beba — disse Mizi, sentando-se novamente na beirada da cama e estendendo o copo. — Você está pálida demais, até para os seus padrões.
Sua sentou-se devagar, sentindo cada músculo protestar. Ela aceitou o copo, as mãos ainda trêmulas. A água gelada ajudou a trazer um pouco de clareza para sua mente nublada.
— Por que você faz isso? — perguntou Sua, a voz mal passando de um sussurro.
— Isso o quê? — Mizi inclinou a cabeça, um sorriso de canto brincando em seus lábios. — Te dar água?
— Não... — Sua olhou para as marcas arroxeadas em seus próprios pulsos e coxas. — Essa mudança. Na escola, você age como se eu fosse um incômodo, uma sombra amarga. E aqui... aqui você me consome. Você gosta de me ver assim? Quebrada sob você?
Mizi esticou a mão e segurou o queixo de Sua, forçando-a a encontrar seus olhos dourados. Não havia zombaria ali agora, apenas uma honestidade cortante.
— Eu gosto de ver a verdadeira Sua — afirmou Mizi. — Na escola, você usa aquela máscara de indiferença para se proteger de mim, do Ivan, de si mesma. Mas aqui, quando eu te aperto, quando eu te comando... a máscara racha. E o que sai de dentro é a única coisa real que eu encontrei naquele colégio de plástico.
Sua fechou os olhos, sentindo o polegar de Mizi acariciar seu lábio inferior.
— O Ivan... ele vai perceber — disse Sua, o medo subitamente voltando. — Ele é seu melhor amigo. Ele conhece cada expressão sua, Mizi. Se ele desconfiar que estamos... que eu estou aqui...
— O Ivan só vê o que ele quer ver — interrompeu Mizi, a voz endurecendo ao mencionar o nome do amigo. — Ele quer ver você sofrendo porque isso valida a visão de mundo cínica dele. E ele quer me ver como a "garota perfeita" porque isso o faz sentir que tem o melhor troféu da escola ao lado dele. Ele não é um gênio, Sua. Ele é apenas um manipulador que se acha mais esperto do que realmente é.
Sua suspirou, encostando a testa no ombro de Mizi. O cheiro de morangos e suor era inebriante.
— Ele me disse que você sentiria nojo de mim. Ele me disse que, se eu algum dia encostasse em você, você me olharia como se eu fosse um erro da natureza.
Mizi soltou uma risada seca, uma vibração que Sua sentiu contra sua própria pele.
— Pois diga ao seu irmão, na próxima vez que ele abrir a boca, que o "erro da natureza" é a única coisa que me faz sentir viva.
O restante da noite passou em um estado de vigília compartilhada. Elas não dormiram muito. Mizi alternava entre momentos de uma doçura quase dolorosa, onde cobria Sua de beijos suaves, e lampejos daquela dominância possessiva que fazia Sua estremecer.
Quando o sol começou a pintar o horizonte de um laranja pálido, a realidade bateu à porta.
— Você precisa ir — disse Mizi, levantando-se e começando a se vestir com uma eficiência fria. — O Ivan costuma acordar cedo para correr. Se você não estiver na casa da Hyuna quando ele ligar ou passar por lá, o teatro acaba antes do segundo ato.
Sua vestiu suas roupas em silêncio. O uniforme escolar parecia pesado, uma armadura que ela não queria mais usar. Ao terminar de abotoar a camisa, ela sentiu as mãos de Mizi em seus ombros, virando-a.
— Lembre-se, Sua — disse Mizi, os olhos fixos nos dela. — Hoje, no refeitório, eu vou ser a Mizi que você odeia. E você vai ser a Sua que não me suporta. Se você hesitar, se você me olhar com esses olhos de adoração por mais de um segundo, tudo desmorona. Você consegue fazer isso?
— Eu venho fazendo isso há quatro anos, Mizi — respondeu Sua, um lampejo de sua antiga frieza retornando. — Eu sou uma profissional em fingir que não te amo.
Mizi sorriu, um brilho de orgulho nos olhos.
— Ótimo. Agora vá.
O trajeto até a casa de Hyuna foi um borrão. Sua chegou a tempo de encontrar Hyuna e Luka na cozinha, ambos com caras de sono e cabelos bagunçados. Hyuna, ao ver Sua entrar pela porta dos fundos, abriu um sorriso conspiratório que quase fez Sua recuar.
— Ora, ora... olha quem chegou — cantarolou Hyuna, balançando uma espátula. — E então? O "estudo" foi produtivo?
Luka levantou os olhos do seu livro de física, ajustando os óculos.
— Você está com olheiras, Sua. E... isso é uma marca no seu pescoço? — perguntou ele, com sua calma analítica habitual.
Sua instintivamente puxou a gola da camisa para cima, sentindo o sangue subir ao rosto.
— Eu bati na quina de uma prateleira de livros — mentiu Sua, a voz saindo mais firme do que esperava. — E sim, estudamos muito. Eu mal dormi.
Hyuna soltou uma gargalhada alta, aproximando-se e dando um tapinha no ombro de Sua.
— Sei, sei. A "prateleira de livros" deve ser muito talentosa. Não se preocupe, amiga, seu segredo está guardado comigo. Mas você precisa de corretivo antes de irmos para a aula, ou o Ivan vai ter um enfarto.
— Falando no diabo — murmurou Luka, apontando para a janela.
O carro de Ivan estacionou em frente à casa. Sua sentiu o estômago dar um nó. Ela correu para o banheiro de hóspedes, aplicando camadas generosas de maquiagem sobre as marcas que Mizi deixara. Ao se olhar no espelho, ela viu a "Sua" de sempre: pálida, melancólica, com os olhos roxos escondendo segredos abissais.
— Vamos? — chamou Ivan, entrando na casa sem bater, a arrogância habitual estampada no rosto. — Temos aula de história no primeiro tempo e eu não pretendo chegar atrasado por causa de fofocas de garotas.
Ele olhou para Sua, analisando-a de cima a baixo. Sua sustentou o olhar, mantendo a expressão neutra que treinara por anos.
— O que foi? — perguntou ela, a voz carregada de gelo.
— Nada — Ivan deu de ombros, pegando uma torrada da mesa de Hyuna. — Você só parece mais... irritante que o normal hoje. Deve ser o excesso de tempo com a Hyuna. Vamos logo.
A manhã na escola foi torturante. Sua sentia o peso do segredo em cada passo. No corredor, ela viu Mizi cercada por um grupo de garotos do segundo ano, rindo e jogando o cabelo rosa para trás. Por um breve momento, os olhos de Mizi encontraram os de Sua. Não houve reconhecimento, apenas o brilho de um desprezo bem ensaiado.
— Ei, Sua! — gritou Mizi, alto o suficiente para que todos ouvissem. — Cuidado por onde anda, você quase esbarrou na minha bolsa. Já é invisível o suficiente, não precisa tentar se fundir com as paredes.
Os garotos ao redor riram. Sua parou, apertando os livros contra o peito.
— E você não precisa gritar para provar que existe, Mizi — rebateu Sua, a voz cortante como uma navalha. — O mundo já sofre o suficiente com a sua mediocridade sem precisar do volume alto.
Mizi fez uma careta de indignação fingida, enquanto o grupo se afastava comentando como a "irmã do Ivan era maluca".
O clímax da tensão, no entanto, ocorreu no refeitório. O grupo estava reunido na mesa de sempre. Till estava de mau humor, reclamando de uma corda quebrada em sua guitarra, enquanto Ivan o provocava impiedosamente, roubando batatas fritas de seu prato.
— Você é um desastre, Till — dizia Ivan, rindo. — Se tocasse metade do que reclama, talvez a Mizi desse uma chance para você.
Till ficou vermelho, olhando para Mizi, que estava sentada ao lado de Hyuna, parecendo distraída.
— Cala a boca, Ivan — resmungou Till. — Eu não preciso dos seus conselhos amorosos.
— Mas precisa de alguém que te ensine a tocar — retrucou Ivan, virando-se para a irmã. — E você, Sua? Continua lendo esse livro de poemas depressivos? Por que não tenta socializar? A Mizi estava dizendo que você parece um fantasma que esqueceu de ir embora.
Mizi olhou para Sua, um sorriso de escárnio nos lábios.
— Eu só disse a verdade, Ivan. A Sua é tão... sem brilho. Às vezes eu me pergunto como vocês podem ser parentes. Você é tão cheio de vida, e ela parece que está constantemente ensaiando para o próprio funeral.
Sua sentiu uma onda de fúria misturada com um desejo doentio. A crueldade de Mizi em público era o combustível para a paixão que queimava no privado.
— Talvez eu prefira o silêncio do funeral ao barulho vazio da sua existência, Mizi — disse Sua, levantando-se da mesa. — Com licença. Perdi o apetite.
Ela caminhou em direção à saída do refeitório, sentindo os olhos de todos em suas costas. Ela sabia que Ivan estava sorrindo, satisfeito por ver a discórdia que ele tanto incentivava. O que ele não sabia era que, sob a gola alta do uniforme de Sua, o "gelo" estava derretido e marcado pelos dentes da garota que ele chamava de melhor amiga.
Sua foi para o jardim dos fundos, um lugar raramente frequentado pelos alunos. Ela se sentou sob uma árvore antiga, tentando acalmar a respiração.
— Você foi ótima — disse uma voz atrás dela.
Sua não precisou se virar para saber quem era. Mizi apareceu, deslizando para o lado dela, escondida pelo tronco grosso da árvore.
— Eu odeio isso — sussurrou Sua. — Odeio o jeito que ele olha para mim quando você me insulta. Ele sente prazer nisso.
— Eu sei — Mizi suspirou, sentando-se na grama e puxando um cigarro eletrônico da bolsa. — O Ivan é um sádico. Mas é esse sadismo que nos mantém seguras por enquanto. Se ele achasse que somos amigas, ele começaria a investigar. Se ele soubesse que eu te amo... ele destruiria nós duas só para provar que ele tem o controle.
— Você realmente acredita nisso? — perguntou Sua, olhando para Mizi.
— Eu conheço o Ivan desde o 8º ano, Sua. Ele não suporta perder. E ele acha que você é a "propriedade" dele para atormentar, e que eu sou a "parceira" dele para brilhar. Nós somos as peças favoritas do tabuleiro dele. Ele nunca aceitaria que as peças jogassem por conta própria.
Mizi soltou uma nuvem de vapor perfumado e olhou para o céu.
— Mas não se preocupe. O festival cultural está chegando. Vamos ter que ensaiar nosso dueto.
— O grupo vai achar estranho — ponderou Sua. — Nós duas, sozinhas, em uma sala de música por horas?
— Deixe que achem — Mizi sorriu, e dessa vez o sorriso era para Sua. — Eu vou dizer que estou fazendo isso por caridade, para ajudar a "pobre coitada" da irmã do meu melhor amigo a ter um pouco de confiança. O Ivan vai adorar a ideia. Ele vai achar que eu estou sendo uma santa.
Sua sentiu um calafrio. A inteligência manipuladora de Mizi era assustadora, mas era também o que a atraía.
— Você é perigosa, Mizi.
— E você adora isso — rebateu Mizi, aproximando-se e roubando um beijo rápido, um toque de lábios que durou apenas um segundo, mas que carregava toda a urgência da noite anterior. — Vejo você no depósito de música depois da última aula. E traga o livro de poemas. Quero que você leia para mim enquanto eu decido como vou te punir por ter me chamado de medíocre no refeitório.
Mizi levantou-se e saiu caminhando, voltando para o prédio principal com o balanço de quadril que hipnotizava metade da escola. Sua ficou ali, o coração batendo forte, sentindo-se como uma prisioneira que acabara de se apaixonar pelo carcereiro.
O dia continuou com sua monotonia habitual, mas para Sua, cada minuto era um degrau em direção à escuridão deliciosa da sala de música. Na última aula, ela mal conseguia focar no que o professor de matemática dizia. Ivan, sentado ao lado dela, cutucou seu braço com a ponta do lápis.
— O que foi agora? — sibilou Sua.
— Você está distraída — sussurrou Ivan, os olhos negros fixos nela. — Está pensando no seu "encontro" secreto de ontem? Sabe, Sua, eu andei pensando... a Hyuna é uma péssima mentirosa. Ela gaguejou quando eu perguntei o que vocês estudaram.
Sua sentiu o sangue congelar nas veias.
— Não sei do que você está falando.
— Sabe sim. Mas não se preocupe — Ivan sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. — Eu não me importo com quem você se deita, desde que não suje o nome da família. Só acho engraçado você tentar ter uma vida própria. É como ver um peixe tentando andar. Patético, mas divertido de assistir.
Sua não respondeu. Ela apenas apertou a caneta até que o plástico rangeu.
O sinal finalmente tocou. A debandada de alunos começou, mas Sua esperou que o corredor ficasse vazio. Ela caminhou até o bloco de artes, onde as salas de música ficavam isoladas. O som de um piano distante ecoava, mas o depósito de música, ao fundo do corredor, estava em silêncio.
Ela abriu a porta. O cheiro de mofo e poeira a recebeu, junto com a visão de Mizi sentada em cima de um piano de cauda coberto por um lençol cinza.
— Você demorou — disse Mizi, jogando uma chave para cima e pegando-a no ar. — Eu já estava começando a achar que o Ivan tinha te trancado no armário.
— Ele desconfia da Hyuna — disse Sua, fechando a porta e trancando-a por dentro. — Ele percebeu que ela mentiu.
Mizi saltou do piano, caminhando até Sua. Ela tirou a gravata do uniforme de Sua com um movimento lento.
— Deixe que ele desconfie. Enquanto ele estiver procurando por um garoto, ele nunca vai olhar para mim. E enquanto ele não olhar para mim, você é toda minha.
Mizi empurrou Sua contra a porta trancada, as mãos subindo para prender os pulsos da garota acima da cabeça.
— Agora — sussurrou Mizi, a voz carregada de uma promessa sombria —, me mostre o quanto você sentiu minha falta hoje enquanto eu te insultava na frente de todo mundo.
Sua fechou os olhos, entregando-se ao toque. O labirinto de vidro em que viviam era perigoso e cheio de arestas cortantes, mas ali, no escuro, cercadas por instrumentos quebrados e poeira, elas eram as únicas donas da verdade. E a verdade era que, não importa o quanto o mundo — ou Ivan — tentasse separá-las, elas estavam irremediavelmente presas uma à outra, em um ciclo de prazer, dor e um amor que florescia no solo mais improvável de todos.