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World Cup

O Cerco dos Predadores

O som que ecoava pelo corredor do hotel não era mais apenas o de passos pesados; era o som de uma autoridade que não aceitava trincos ou cartões magnéticos como impedimento. Dentro do quarto, o ar parecia ter ficado mais rarefeito. Vini olhou para Gabriel, que estava pálido, e para Endrick, que parecia estar tentando se fundir com o estofado do puff.

— Eles não podem entrar, Vini. Eles não podem — repetia Endrick, os olhos fixos na maçaneta que começou a girar lentamente, testando a resistência da trava de segurança.

— Endrick, o Lamine tem dezessete anos e a audácia de um veterano de guerra. O Haaland tem a força de um touro e o Kylian... bem, o Kylian provavelmente comprou o hotel enquanto estávamos no telefone — Vini respondeu, tentando manter a voz firme, embora suas mãos denunciassem o nervosismo.

Um estalo seco ecoou. Não foi a porta sendo arrombada, mas sim o som de uma chave mestra sendo inserida. Alguém na recepção claramente não tinha resistido ao charme — ou ao talão de cheques — dos atacantes europeus.

A porta se abriu com uma lentidão teatral. O primeiro a passar foi Erling Haaland. Ele parecia ainda maior sob a luz fluorescente do corredor, vestindo um conjunto de moletom que mal continha seus ombros largos. Seus olhos azuis escanearam o quarto até pousarem em Gabriel Magalhães.

— Achei você, pequeno zagueiro — disse Haaland, com um sorriso que era puro instinto predatório. — Você achou mesmo que um pedaço de madeira ia me manter longe?

Gabriel se levantou, tentando recuperar a postura de defensor da Premier League, mas recuou um passo quando Erling cruzou a soleira.

— Erling, a gente tinha um trato! Espaço pessoal durante a competição! — Gabriel tentou argumentar, mas sua voz saiu um oitavo acima do normal.

— O trato expirou no momento em que você parou de responder minhas mensagens — rebateu o norueguês, fechando a porta atrás de si, mas não antes que duas outras figuras entrassem.

Lamine Yamal entrou logo em seguida, com as mãos nos bolsos da calça de treino e um sorriso travesso no rosto. Ele ignorou Vini e Gabriel, caminhando direto para onde Endrick estava encolhido.

— *Hola, mi amor* — disse Lamine, inclinando-se sobre o brasileiro. — Por que você está escondido? Eu vi o seu jogo. Você correu tanto em campo, mas agora parece que esqueceu como usar as pernas para vir me ver.

Endrick soltou um gemido baixo, cobrindo o rosto com as mãos.

— Lamine, você é um bebê, deveria estar na cama — resmungou Endrick, sem coragem de olhar para o espanhol.

— Um bebê que vai te levar para jantar e garantir que você não esqueça quem manda nessa relação — Lamine sussurrou, alto o suficiente para Vini ouvir e sentir um calafrio solidário.

Mas o verdadeiro peso da tensão se materializou quando a última figura entrou. Kylian Mbappé não estava sorrindo. Ele estava com aquela expressão gélida, a mesma que usava antes de bater um pênalti decisivo. Ele não olhou para os lados. Seus olhos estavam cravados em Vinícius.

— Saiam — disse Kylian, a voz baixa e cortante.

Haaland riu, passando um braço possessivo pelo pescoço de Gabriel, que parecia estar aceitando seu destino.

— Vamos, Gabriel. Temos muito o que conversar sobre a sua "fuga". Eu reservei uma mesa em um lugar onde ninguém vai nos interromper. Especialmente não o seu celular.

— Erling, espera... — Gabriel tentou dizer, mas foi arrastado para fora com uma facilidade desconcertante.

Lamine deu um tapinha no ombro de Endrick.

— Vamos, *chaval*. O trem não espera, e eu tenho planos para nós em Madrid que não envolvem esconderijos em hotéis.

Endrick olhou para Vini, buscando um último fio de esperança, mas Vini estava paralisado pelo olhar de Kylian. O mais jovem dos brasileiros suspirou e se levantou, seguindo Lamine para fora do quarto como um condenado a caminho do cadafalso, mas com um brilho de resignação nos olhos que dizia que, talvez, a punição não fosse de todo ruim.

A porta se fechou, deixando Vinícius e Kylian sozinhos. O silêncio que se seguiu era denso, carregado de nove meses de um relacionamento intenso e da irritação acumulada de Mbappé nos últimos dias.

— Então — começou Vini, tentando quebrar o gelo —, você veio até aqui só para me dar um susto?

Kylian caminhou calmamente até ele. Cada passo parecia calculado. Ele parou a poucos centímetros de Vini, forçando o brasileiro a inclinar a cabeça para trás para manter o contato visual.

— Eu vim até aqui porque meu namorado decidiu que era uma boa ideia ignorar minhas chamadas e deixar que o mundo inteiro comentasse sobre ele e uma mulher que ele "mal conhece" — Kylian disse, a voz subindo de tom pela primeira vez. — Você tem ideia do quanto eu tive que me segurar para não pegar um voo no meio da noite anterior ao meu jogo?

— Kylian, você sabe que o jornalismo de fofoca no Brasil é louco — defendeu-se Vini, sentindo o calor emanar do corpo do francês. — Eu não fiz nada. Eu só quero paz depois de termos sido eliminados.

Kylian reduziu a distância restante, segurando o queixo de Vini com uma mão firme, mas não agressiva. O polegar dele acariciou o lábio inferior do brasileiro, um gesto que era ao mesmo tempo uma carícia e uma marcação de território.

— Paz? Você não terá paz comigo, Vinícius. Você sabe disso desde o primeiro dia. Você me pertence, assim como eu pertenço a você. Mas quando eu vejo o seu nome ligado ao de outra pessoa, eu perco a razão.

— Você é um idiota possessivo — Vini murmurou, embora seu corpo estivesse traindo sua resistência, inclinando-se involuntariamente para mais perto de Kylian.

— Eu sou o seu idiota possessivo — corrigiu Kylian, aproximando o rosto do ouvido de Vini. — E agora que o Brasil está fora, você não tem mais desculpas. Você vai comigo para Paris.

— O quê? Não! Eu tenho que voltar com a delegação, tenho compromissos...

— Eu já resolvi — interrompeu Kylian, com uma arrogância que só ele conseguia sustentar. — Falei com quem precisava falar. Você vai ter um "problema logístico" e vai precisar de um transporte privado. Meu jato está esperando.

Vini arregalou os olhos.

— Você é maluco! Você não pode simplesmente sequestrar um jogador da seleção brasileira!

— Eu não estou sequestrando. Estou resgatando — Kylian sorriu, e desta vez havia um brilho de desejo genuíno em seus olhos. — E você vai me agradecer por isso. Mas primeiro... precisamos resolver essa história da Virgínia. E eu garanto que você não vai pensar em outro nome que não seja o meu pelas próximas quarenta e oito horas.

Vini sentiu seus joelhos fraquejarem. Ele sabia o que aquilo significava. Kylian no modo "vencedor" era imparável, mas Kylian no modo "ciumento" era uma força da natureza que deixava marcas — físicas e emocionais.

— Eu odeio o quanto eu gosto disso — confessou Vini em um sussurro, fechando os olhos quando os lábios de Kylian finalmente encontraram os seus em um beijo que misturava saudade, raiva e uma possessividade avassaladora.

Enquanto isso, em algum lugar no corredor, o som de Gabriel tentando explicar a Haaland que "precisava de espaço" e as risadas de Lamine provocando Endrick ecoavam, provando que a seleção brasileira podia ter perdido a Copa, mas seus jogadores tinham batalhas muito mais intensas e particulares para lutar.

Vini se deixou levar, sentindo as mãos de Kylian descendo por suas costas com uma autoridade que não aceitava contestação. Ele sabia que a viagem para Paris seria longa, exaustiva e que, provavelmente, ele teria que inventar uma lesão muscular muito criativa para explicar por que não conseguiria treinar na semana seguinte.

— *Mon petit brésilien* — sussurrou Kylian entre os beijos —, você não faz ideia do que eu planejei para você.

Vini só conseguiu suspirar. Realmente, os estrangeiros eram todos malucos. Mas, enquanto era erguido nos braços do francês e levado em direção à cama, ele decidiu que a sanidade era superestimada. Se fosse para ser o troféu de Kylian Mbappé, ele seria o troféu mais bem guardado do mundo.