Voltar ao resumo

World Cup

O Furacão e a Miragem

Vinte minutos. Esse foi o tempo exato que o "bunker" dos jogadores brasileiros levou para cair por terra sob a eficiência implacável dos atacantes europeus. Enquanto Gabriel Magalhães era praticamente carregado por um Haaland que parecia estar escolhendo qual parte do zagueiro morder primeiro, e Endrick era levado por um Lamine Yamal que não parava de falar sobre os pontos turísticos de Madri que eles visitariam "em breve", Vinícius se via em uma situação consideravelmente mais tensa.

Kylian Mbappé não estava apenas possessivo; ele estava em modo de operação militar. Ele segurava a mão de Vini com uma firmeza que beirava a algema, seus dedos entrelaçados de uma forma que deixava claro: o brasileiro não iria a lugar nenhum que não fosse o raio de visão do francês.

— Kylian, por favor, me escuta um segundo — Vini tentou, enquanto eram escoltados por dois seguranças particulares em direção aos elevadores privativos do hotel. — A França joga em três dias. Você tem treino, tem coletiva, tem foco! Eu ficar no seu hotel vai ser uma distração. A imprensa vai descobrir, a federação francesa vai surtar...

Kylian parou subitamente em frente às portas de aço inox do elevador. Ele se virou para Vini, o rosto a poucos centímetros do dele. A mão livre subiu, os dedos longos e fortes agarrando o queixo de Vinícius com uma autoridade que fez o peito do brasileiro arder.

— *Écoute-moi bien, Vinícius* — a voz de Kylian saiu baixa, rouca, o sotaque francês pesando em cada sílaba como uma promessa perigosa. — Eu não me importo com a imprensa. Eu não me importo com a federação. O que eu me importo é que eu passei as últimas setenta e duas horas vendo o seu nome em manchetes ridículas com aquela mulher. Você acha que eu vou te deixar aqui, sozinho, vulnerável a "coincidências" enquanto eu estou em outra cidade?

— Não foi nada, Kylian! Eu já te disse... — Vini tentou protestar, mas o aperto no seu queixo se intensificou levemente, não o suficiente para machucar, mas o suficiente para calá-lo.

— Você não vai ganhar essa discussão — sentenciou Kylian, os olhos escuros brilhando com uma chama que misturava desejo e uma fúria controlada. — Você vai para o meu hotel. Você vai dormir na minha cama. E se eu tiver que te trancar no quarto para garantir que ninguém mais encoste em você, eu farei isso com um sorriso no rosto. *Compris?*

Vini engoliu em seco, sentindo o calor subir pelo pescoço. Era impossível lutar contra aquela intensidade.

— *Compris* — murmurou ele, derrotado, mas com o coração batendo em um ritmo frenético que não tinha nada a ver com medo.

As portas do elevador se abriram no saguão principal. O plano era simples: cruzar o lobby rapidamente, entrar no SUV blindado com vidros escuros e desaparecer na noite em direção ao quartel-general da seleção francesa. Kylian manteve o passo firme, quase arrastando Vini, que tentava manter a cabeça baixa, escondida sob o capuz do seu moletom.

Tudo parecia estar sob controle, até que o destino decidiu que a Copa do Mundo de Vinícius Júnior não tinha tido drama suficiente.

— Vini! Vinícius! Graças a Deus te encontrei!

A voz era aguda, projetada e terrivelmente familiar. Vini sentiu o sangue congelar nas veias. Ele olhou para o lado, por cima do ombro de Kylian, e viu a cabeleira loira inconfundível. Virgínia Fonseca estava ali, no meio do saguão, cercada por alguns assessores e segurando um celular como se fosse uma extensão do próprio braço. Ela parecia estar procurando por ele, provavelmente para esclarecer a polêmica — ou, pior, para criar mais conteúdo sobre o assunto.

Kylian sentiu a hesitação de Vini e parou. Ele seguiu o olhar do namorado e, no momento em que seus olhos pousaram na mulher que tinha sido o motivo de sua fúria nos últimos dias, o ambiente pareceu cair dez graus de temperatura. O maxilar de Mbappé travou de tal forma que Vini achou que os dentes do francês iriam quebrar.

— É ela? — Kylian perguntou, a voz agora tão fria que parecia vir do fundo de uma geleira.

— Kylian, não! — Vini entrou em pânico. Ele conhecia aquele olhar. Se Kylian Mbappé confrontasse Virgínia no meio de um lobby de hotel lotado de jornalistas, a carreira de ambos, a paz da seleção francesa e a integridade física de Vini estariam arruinadas.

Virgínia começou a caminhar na direção deles, ainda sem perceber quem era o homem de costas ao lado de Vini.

— Vinícius, a gente precisa gravar aquele vídeo desmentindo... — ela começou a dizer, aumentando o passo.

Vini não pensou. O instinto de sobrevivência falou mais alto.

— Corre, Kylian! — Vini gritou, mas em vez de correr, ele simplesmente empurrou o namorado com toda a força que tinha.

Kylian, pego de surpresa pela força súbita do brasileiro, tropeçou para trás. Vini não deu tempo para ele se recuperar. Ele agarrou o braço do francês e começou a empurrá-lo freneticamente pelo saguão, usando o próprio corpo como escudo para esconder o rosto de Kylian da visão da influenciadora.

— O que você está fazendo? — rosnou Kylian, tentando se soltar para encarar a "ameaça". — Eu vou acabar com isso agora! Eu vou mostrar para ela que você...

— Você não vai mostrar nada! — Vini rebateu, quase tropeçando nos próprios pés enquanto manobrava Kylian para longe do fluxo principal de pessoas. — Se você aparecer nas câmeras dela, o mundo acaba! Entra no carro, Kylian! Agora!

Eles atravessaram as portas automáticas de vidro como um furacão desgovernado. Os seguranças, confusos com a mudança repentina de ritmo, correram para abrir a porta do SUV. Vini praticamente arremessou o atacante francês para dentro do banco traseiro e mergulhou logo atrás, fechando a porta com um estrondo antes mesmo de Virgínia chegar à calçada.

— Acelera! Pelo amor de Deus, sai daqui! — Vini gritou para o motorista.

O carro arrancou com um chiado de pneus, deixando o hotel para trás. Dentro do veículo, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pela respiração ofegante de Vinícius. Ele se permitiu relaxar contra o banco de couro, fechando os olhos e agradecendo a todos os santos por terem escapado daquele desastre diplomático e amoroso.

No entanto, o alívio durou pouco. Ele sentiu o peso do olhar de Kylian sobre ele. Quando abriu os olhos, encontrou o namorado sentado de forma ereta, os braços cruzados, encarando-o com uma expressão que prometia problemas muito maiores do que uma simples fake news.

— Você me empurrou — disse Kylian. Não era uma pergunta. Era uma acusação.

— Eu salvei a sua vida! E a minha! — Vini tentou se justificar, gesticulando. — Você ia fazer uma cena, Kylian. Ela estava com o celular na mão, provavelmente em live! Você tem noção do que seria o Mbappé brigando com a Virgínia no lobby do hotel?

Kylian descruzou os braços lentamente e se inclinou na direção de Vini, invadindo seu espaço pessoal até que o brasileiro estivesse prensado contra a porta do carro.

— Você me empurrou — repetiu ele, a voz agora carregada de uma promessa sombria. — Para protegê-la de mim? Ou para me proteger da verdade?

— Para proteger nós dois, seu idiota ciumento! — Vini exclamou, embora sua voz tenha falhado no final.

Kylian soltou uma risada curta, sem humor, e passou a mão pelo pescoço de Vini, puxando-o para mais perto.

— Você acha que resolveu o problema, Vinícius? Você só o adiou. Agora, além de estar irritado com aquela história, eu estou irritado porque você me tratou como se eu fosse uma criança que precisava ser escondida.

— Eu não te tratei como criança, eu te tratei como a estrela global que não pode se envolver em barraco de internet! — Vini tentou argumentar, mas Kylian já estava perto demais, o cheiro do perfume caro do francês nublando o raciocínio do brasileiro.

— Pois saiba que a "estrela global" está muito, muito insatisfeita — Kylian sussurrou contra os lábios de Vini. — E nós temos uma viagem de duas horas até o meu hotel. Duas horas em um carro com vidros blindados e isolamento acústico.

Vini sentiu um arrepio percorrer toda a sua espinha. A possessividade de Kylian era um fardo, sim, e às vezes era assustadora. Mas, naquele momento, com a adrenalina da fuga ainda correndo em suas veias e o calor do corpo de Kylian contra o seu, Vini percebeu que não queria estar em nenhum outro lugar do mundo.

— O que você vai fazer? — perguntou Vini, em um desafio sussurrado.

Kylian sorriu, aquele sorriso predatório que fazia os defensores tremerem nos estádios mais imponentes da Europa.

— Vou garantir que, quando chegarmos ao hotel, você esteja cansado demais para sequer lembrar como se soletra o nome de qualquer outra pessoa. E depois disso... bem, depois disso a França vai ganhar a Copa, e eu vou dedicar a taça ao meu namorado, que vai estar assistindo de camarote, devidamente marcado como meu.

Vini revirou os olhos, mas não recuou quando Kylian o puxou para um beijo que selou o destino de sua semana. Ele realmente se perguntava se todos os estrangeiros eram malucos. Haaland estava provavelmente caçando Gabriel pelo hotel, Lamine devia estar tentando convencer Endrick a mudar de nacionalidade, e ele... ele estava sendo "sequestrado" pelo homem mais ambicioso da França.

— É — pensou Vini, enquanto as mãos de Kylian começavam a explorar seu corpo com uma urgência renovada —, a gente realmente tem um gosto péssimo para a paz de espírito. Mas que se dane a paz.

Lá fora, as luzes da cidade passavam como borrões. Dentro do SUV, a temperatura continuava a subir, e Vinícius Júnior finalmente aceitou que, na Copa do Mundo do amor, ele já tinha perdido o controle do jogo há muito tempo. E, honestamente? Ele mal podia esperar pelo apito final.