WorldCup
O Santuário de Marfim e Obsidiana
O silêncio que se seguiu ao caos dos lençóis era denso, quase palpável. O único som no quarto era a respiração errática de Vinícius, que aos poucos se estabilizava em um ritmo pesado e profundo, o som de um homem cujo corpo havia finalmente desistido de lutar contra a exaustão. A luz azulada do amanhecer começava a lutar contra as cortinas blackout, criando uma atmosfera de aquário dentro da suíte luxuosa.
Kylian não se moveu. Ele permanecia ali, o peso de seu corpo distribuído com um cuidado possessivo sobre o de Vini. Suas pernas ainda estavam entrelaçadas, e o francês sentia cada batida do coração do brasileiro contra o seu próprio peito. Ele havia contado cada espasmo, cada grito abafado contra o travesseiro, cada um dos dez orgasmos que ele arrancara de Vinícius como se estivesse cobrando uma dívida de guerra.
Ele ainda estava enterrado dentro dele, uma conexão física que ele se recusava a romper, como se o ato de se separar pudesse permitir que Vini escapasse para algum lugar onde Kylian não pudesse alcançá-lo.
Com um movimento lento, Kylian apoiou o peso nos antebraços para observar o rosto do namorado. Vinícius parecia mais jovem quando dormia. A tensão das expectativas da torcida brasileira, a dor da eliminação e a irritação com as crises de ciúmes de Kylian haviam desaparecido, dando lugar a uma expressão de paz vulnerável. Suas pálpebras tremiam levemente, um sinal de que o sono era profundo.
— Mon ange... — sussurrou Kylian, a voz apenas um fio de som.
Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que poucos no mundo do futebol acreditariam que ele possuía, afastou um cacho úmido de suor da testa de Vini. O contraste era gritante: a pele escura de Vinícius contra os lençóis brancos, e a mão de Kylian, firme e marcante, segurando-o como se ele fosse a joia mais preciosa e perigosa do mundo.
Kylian sabia que era difícil. Ele não era cego para a própria natureza. Ele sabia que sua intensidade assustava, que seu controle sufocava e que sua possessividade era, muitas vezes, uma muralha que impedia Vini de respirar. Mas, enquanto observava o peito de Vinícius subir e descer, o craque francês sentiu aquela pontada familiar no peito — uma mistura de adoração e medo. O medo de que, se ele afrouxasse o aperto por um segundo sequer, o mundo levaria Vinícius embora.
Os tabloides com as notícias falsas sobre Virgínia ainda queimavam em sua mente como ácido. Ele sabia que era mentira, sua lógica dizia que Vini jamais faria algo assim, mas a simples visão do nome de Vinícius ligado ao de outra pessoa, a ideia de outros olhos cobiçando o que era dele, despertava um monstro que Kylian mal conseguia domar.
— Eles não entendem — murmurou Kylian para o vazio do quarto. — Eles acham que eu sou louco. Talvez eu seja. Mas eles não sabem como é ter o sol nas mãos e saber que ele pode se pôr a qualquer momento.
Ele baixou a guarda. Ali, no escuro, sem câmeras, sem patrocinadores e sem a pressão de ser o herdeiro do trono do futebol mundial, Kylian Mbappé era apenas um homem perdidamente, loucamente apaixonado. Ele se inclinou e pressionou um beijo suave na ponta do nariz de Vini, sentindo o calor da pele dele.
Vinícius soltou um resmungo baixinho no sono e tentou se encolher, o que fez Kylian apertar os braços ao redor de sua cintura, puxando-o para ainda mais perto.
— Não... — Vini murmurou, entre o sonho e a realidade. — Kylian... chega...
— Shhh... durma, pequeno — respondeu Kylian, sua voz suavizando em um tom que ele reservava apenas para aqueles momentos. — Eu te tenho. Você está seguro.
Kylian finalmente se retirou, um movimento lento que arrancou um suspiro trêmulo de Vini, e se deitou de lado, puxando o corpo do brasileiro para que as costas dele ficassem coladas ao seu peito. Ele o envolveu como uma concha, protegendo-o do mundo exterior.
Enquanto o sono começava a reclamar sua mente também, os pensamentos de Kylian vagaram para os "aliados" de Vini. Ele sabia que Gabriel e Endrick estavam tentando ajudar o namorado a fugir, a encontrar um momento de respiro. Ele soltou uma risada nasalada. Haaland e Lamine Yamal eram predadores de uma linhagem semelhante à dele. Não havia fuga para o que era destinado.
— Você pode tentar correr, Vinícius — pensou ele, fechando os olhos e enterrando o rosto na nuca do brasileiro, inalando o cheiro de suor, sexo e daquele perfume cítrico que ele tanto amava. — Mas eu sempre vou ser o seu ponto final.
A Copa continuaria. O mundo continuaria girando e exigindo que eles fossem deuses em campo. Mas ali, naquele santuário de lençóis bagunçados e promessas silenciosas, Kylian decidiu que o troféu mais importante já estava em seus braços. E ele morreria antes de deixar qualquer um — fosse um torcedor, uma influenciadora ou o próprio destino — tirar isso dele.
O sol finalmente venceu a batalha contra o horizonte, iluminando o quarto, mas Kylian não se importou. Ele apenas fechou os olhos, segurando Vinícius como se o amanhã dependesse exclusivamente daquele abraço. Se o mundo achava que ele era maluco, que achasse. Para Kylian, a loucura era o único preço justo para amar Vinícius Júnior.