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World Cup

Lágrimas e Titânio

O vapor ainda embaçava o espelho do banheiro, mas Vinícius não tinha coragem de limpá-lo para encarar o próprio reflexo. Ele se sentia pequeno. A camisa da seleção de 2018, desbotada e três números maior que o seu tamanho atual, pesava como se fosse feita de chumbo. Ele se arrastou até a cama de casal do hotel em Nova Jersey, deixando o corpo cair sobre o edredom branco impecável. Estava apenas de cueca e com aquela camisa velha, os pés descalços e o cabelo úmido pingando ocasionalmente no travesseiro.

A eliminação precoce, antes mesmo das quartas de final, era uma ferida que não parava de sangrar. Ele conseguia ouvir, em sua mente, o eco das críticas, os gritos da torcida norueguesa e o silêncio fúnebre do vestiário brasileiro. Ele era o 7. O herdeiro. A esperança. E agora, era apenas um rapaz de vinte e poucos anos chorando escondido em um quarto de hotel luxuoso, sentindo o gosto salgado do fracasso.

O celular na cabeceira da cama vibrou, quebrando o silêncio opressor. Vini não precisava olhar para saber quem era. O visor brilhava com o nome que ocupava 90% dos seus pensamentos e 100% das suas preocupações: Kylian.

Ele respirou fundo, tentando limpar a garganta para não parecer tão vulnerável, mas a tentativa foi vã. Quando deslizou o dedo para atender, a primeira coisa que saiu de sua boca não foi uma saudação, mas um desabafo carregado de amargura e cansaço.

— Antes que você comece com o seu plano de logística, ou com as suas ordens, ou com esse tom de quem ganhou o mundo enquanto eu perdi tudo... — Vini interrompeu, a voz falhando no final. — Você podia, pelo menos uma vez na vida, fingir ser um namorado preocupado. Podia ter um pouco de compaixão e consolar o seu namorado que está destruído porque o sonho dele acabou hoje. Dá para ser humano por cinco minutos, Kylian?

Do outro lado da linha, o silêncio foi imediato. Vinícius esperava uma retaliação rápida, um comentário sarcástico sobre como o "futebol é para os fortes" ou uma ordem direta para ele parar de chorar e entrar logo no carro que o esperava lá embaixo. Mas o que veio foi apenas o som da respiração pesada do francês.

— Vinícius... — A voz de Kylian soou mais baixa do que o normal, desprovida daquela arrogância cortante que ele exibia para a imprensa.

— Eu não quero ouvir que o carro está na porta — Vini continuou, as lágrimas voltando a cair sem controle, molhando a gola da camisa velha. — Eu não quero ouvir que eu joguei bem e os outros não. Eu só queria que o Brasil estivesse classificado. Eu queria estar feliz. E eu estou aqui, sozinho, me sentindo um lixo, e você só sabe me cobrar como se eu fosse uma propriedade sua.

Kylian Mbappé era um homem de gelo e ambição. Ele era obcecado por controle, por vitórias e, acima de tudo, por Vinícius. Sua paixão pelo brasileiro era algo que beirava o doentio às vezes; um fogo que consumia tudo ao redor. Mas ouvir o soluço abafado de Vini, sentir a dor crua através das ondas de rádio, fez algo estalar dentro do peito do francês. O instinto de posse, que geralmente era agressivo, transformou-se instantaneamente em um instinto protetor avassalador.

— Onde você está exatamente? — Kylian perguntou. Não era uma ordem, era uma necessidade.

— No quarto, Kylian. Onde mais eu estaria? — Vini limpou o rosto com as costas da mão, soluçando. — Eu só queria sumir.

— Escute-me bem — a voz de Kylian agora era firme, mas estranhamente doce, um tom que ele reservava apenas para os momentos mais íntimos, entre quatro paredes. — Eu não vou te cobrar nada. Eu não vou falar de futebol. E eu não vou deixar você sozinho.

— Você tem jogo em dois dias, Kylian. Você não pode...

— Eu posso tudo quando se trata de você — Kylian o interrompeu, e Vini quase podia ver o brilho intenso nos olhos castanhos do namorado. — Fique exatamente onde você está. Não abra a porta para ninguém que não seja eu.

Vini franziu a testa, confuso.

— Como assim você? Você está no acampamento da França, a quilômetros daqui.

— Eu estava no carro vindo te buscar para te levar ao meu hotel — Kylian confessou. — Mas mudei de ideia. Eu vou entrar nesse seu hotel de merda e vou ficar aí com você. Se a imprensa ver, que vejam. Se o Deschamps reclamar, que reclame. Ninguém deixa o meu Vini nesse estado.

Vini sentiu um frio na barriga. O lado maníaco de Kylian era assustador, mas havia um conforto perverso em saber que o homem mais poderoso do futebol mundial estava disposto a quebrar todas as regras apenas para segurá-lo nos braços.

— Kylian, você vai criar um escândalo... — Vini murmurou, mas já sentia o choro diminuir, substituído por uma expectativa ansiosa.

— Deixe que o mundo queime, mon chéri. Eu chego em dez minutos.

A ligação caiu. Vini ficou encarando o teto, o coração batendo rápido. Ele se levantou, caminhou até o espelho e tentou ajeitar um pouco o rosto inchado. Ele ainda parecia um desastre, mas o peso da derrota parecia um pouco mais leve agora que ele sabia que Kylian estava vindo.

Exatamente nove minutos depois, houve uma batida firme e rítmica na porta. Vini caminhou lentamente, abriu a trava e, antes que pudesse dizer qualquer coisa, foi envolvido por um par de braços fortes e o cheiro familiar de perfume caro e determinação.

Kylian entrou no quarto como um furacão, chutando a porta para fechar atrás de si. Ele ainda usava o agasalho da seleção francesa, mas seu foco era total em Vinícius. Ele segurou o rosto do brasileiro com as duas mãos, os polegares acariciando as bochechas úmidas.

— Olhe para mim — ordenou Kylian, sua voz vibrando de uma intensidade que fez as pernas de Vini tremerem.

Vini levantou os olhos, encontrando o olhar sombrio e apaixonado do francês.

— Você chorou muito — constatou Kylian, e havia uma pontada de fúria em sua voz, não contra Vini, mas contra o mundo que ousou entristecer o que era seu. — Eu odeio ver você assim. Dói mais do que qualquer derrota minha.

— Eu falhei, Ky — Vini sussurrou, a voz quebrando novamente. — Todo mundo esperava que eu...

— Shh — Kylian o calou, pressionando a testa contra a dele. — Você não falhou. Você é o melhor jogador do mundo, com ou sem essa taça. E quem disser o contrário vai ter que se ver comigo.

Vini soltou uma risada ranhosa, sentindo o calor do corpo de Kylian contra o seu.

— Você é um maníaco. Você vai se meter em problemas por estar aqui.

— Eu sou um maníaco por você — Kylian corrigiu, deslizando as mãos para a cintura de Vini, puxando-o para mais perto, sentindo a pele nua do brasileiro sob a camisa velha. — E eu não ligo para problemas. Eu ligo para o fato de que meu namorado está sofrendo e eu não estava aqui para impedir.

Kylian o conduziu de volta para a cama, sentando-se e puxando Vini para o seu colo. O contraste era gritante: o francês em seu uniforme oficial, impecável e vitorioso, e o brasileiro em trajes menores, vulnerável e com o coração partido. Mas, naquele momento, as hierarquias do futebol não importavam.

— Você está usando essa camisa velha de novo — comentou Kylian, apertando o tecido entre os dedos. — Eu já te dei tantas roupas melhores.

— É a minha camisa da sorte — Vini fungou, escondendo o rosto no pescoço de Kylian. — Claramente não funcionou hoje.

— Ela é horrível — Kylian murmurou, mas seus lábios encontraram o ombro de Vini em um beijo terno. — Mas eu amo como você fica nela. Você fica com cara de quem precisa ser cuidado. E eu vou cuidar de você, Vinícius. Vou cuidar tanto que você vai esquecer que o resto do mundo existe.

Kylian começou a distribuir beijos lentos pelo rosto de Vini, limpando o rastro das lágrimas com os lábios. Era uma possessividade diferente; não era a de quem quer exibir um troféu, mas a de quem quer proteger um tesouro.

— O que vai acontecer agora? — perguntou Vini, fechando os olhos e se entregando ao carinho.

— Agora — disse Kylian, a voz tornando-se mais profunda e possessiva —, eu vou pedir o jantar mais caro deste hotel. Vou te obrigar a comer. Depois, vou te dar um banho quente e te colocar para dormir. E amanhã, quando você acordar, o mundo ainda vai estar cobrando coisas de você, mas você vai estar comigo. E ninguém toca no que é meu.

Vini sentiu um arrepio. Ele sabia que a obsessão de Kylian era um território perigoso, mas naquela noite, era o único refúgio que ele tinha.

— Você não vai embora para o seu treino? — Vini perguntou, embora não quisesse a resposta.

— Eu só saio daqui quando você estiver sorrindo de novo — Kylian declarou, deitando-se na cama e puxando Vini para cima de si, prendendo-o com as pernas. — E se eu tiver que faltar à final da Copa para garantir que você está bem, eu falto.

— Você está mentindo — Vini riu baixo, sentindo o peso do corpo de Kylian como uma âncora que o impedia de flutuar na tristeza.

— Tente me testar — desafiou o francês, os olhos brilhando com aquela centelha de loucura que Vini conhecia tão bem. — Você é a minha única prioridade, Vinícius. O futebol é apenas o palco onde eu mostro para todo mundo o quão sortudo eu sou por ter você.

Kylian o beijou então. Não foi um beijo de celebração, nem um beijo puramente sexual. Foi um beijo de posse, de consolo e de uma promessa silenciosa. Ele explorou a boca de Vini com uma lentidão torturante, como se estivesse reivindicando cada centímetro de sua alma, afastando a dor da derrota com a força de sua própria vontade.

Quando se separaram, Vini estava sem fôlego, o rosto corado e os olhos um pouco mais brilhantes.

— Melhor? — perguntou Kylian, um sorriso convencido começando a aparecer em seus lábios.

— Um pouco — admitiu Vini, passando os braços pelo pescoço do francês. — Mas você ainda é um namorado terrível na maior parte do tempo.

— Eu sou o melhor namorado que você poderia ter — Kylian rebateu, voltando ao seu tom arrogante habitual, mas sem soltar o abraço. — Porque eu sou o único que consegue lidar com você. E o único que vai te dar tudo o que você quiser para parar de chorar. Quer um jatinho para as Maldivas amanhã? Quer que eu compre o Real Madrid e te dê de presente?

Vini riu, desta vez de verdade.

— Eu só quero que você fique aqui. Só isso.

Kylian relaxou o corpo, acomodando Vini em seus braços como se ele fosse a coisa mais frágil e preciosa do universo.

— Isso é a única coisa que você não precisa pedir — sussurrou o francês. — Eu nunca vou a lugar nenhum sem você, mon chéri.

Enquanto o silêncio voltava ao quarto, desta vez preenchido pelo som de duas respirações em sincronia, Vinícius sentiu que, talvez, a eliminação não fosse o fim do mundo. O Brasil estava fora, a camisa 7 pesava, e a imprensa seria cruel. Mas ali, naquele quarto, sob o olhar obsessivo e protetor de Kylian Mbappé, ele estava seguro. Ele era amado de uma forma intensa, avassaladora e levemente insana. E, por enquanto, isso era o suficiente para curar qualquer ferida.

Lá fora, o mundo continuava a girar, a Copa continuava a acontecer, e os outros jogadores brasileiros lidavam com seus próprios sequestradores emocionais. Mas para Vini e Kylian, o tempo havia parado. O rei da França tinha encontrado seu príncipe brasileiro chorando, e ele não descansaria até que o mundo inteiro soubesse que, mesmo na derrota, Vinícius Júnior era o único que reinava em seu coração de titânio.