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World Cup

O Instinto do Predador

O silêncio do quarto era agora preenchido apenas pelo som rítmico da respiração de Kylian e pelo murmúrio baixo de sua voz ao telefone. Vini estava completamente entregue, o corpo mole e pesado sobre o do namorado. Ele se encolhia contra Kylian, o rosto enterrado no vão entre o pescoço e o ombro do francês, onde o cheiro de colônia cara se misturava ao calor natural da pele dele. Era um refúgio sensorial, um lugar onde o barulho do mundo — as críticas, os memes de eliminação, a pressão da CBF — não conseguia penetrar.

Kylian não o largara por um segundo sequer. Mesmo quando precisou se afastar minimamente para se livrar do casaco pesado da seleção francesa, que parecia uma armadura de vitórias em contraste com a vulnerabilidade de Vini, ele manteve uma mão firme na cintura do brasileiro. Quando se sentou na cama, puxou Vinícius para o seu colo com uma possessividade que não admitia resistência. As coxas de Vini se abriram imediatamente, acomodando-se ao redor do quadril largo de Kylian, um encaixe perfeito que eles já conheciam de cor.

— Oui, Ethan... Je suis occupé. Non, ne demande pas — Kylian falava em francês, a voz vibrando contra o peito de Vini. — Diga à mamãe que estou bem. Eu ligo amanhã. Sim, ele está comigo. Au revoir.

Vini sentiu um aperto suave em sua coxa. Kylian desligou o celular e o jogou em algum lugar sobre os lençóis, voltando toda a sua atenção para o homem em seu colo. O francês tinha tudo: o talento geracional, o contrato astronômico, o respeito temeroso dos adversários e uma família que era seu alicerce. Fayza, Wilfried, Ethan... uma estrutura sólida, rica e unida. E ali, no meio daquele império, estava Vini, sentindo-se como um náufrago que acabara de ser resgatado por um navio de guerra.

Uma memória súbita cruzou a mente de Vini, fazendo-o soltar uma risadinha anasalada contra a pele de Kylian. Ele lembrou de uma madrugada na Granja Comary, meses atrás, quando Endrick, com aquela curiosidade caótica de quem tem dezoito anos e tempo demais na internet, começou a ler para ele e Gabriel Magalhães sobre um tal de "Universo ABO".

— Do que você está rindo? — perguntou Kylian, os dedos longos traçando padrões circulares nas costas de Vini, subindo pela coluna e descendo até o cóccix, como se estivesse mapeando seu território.

— Nada... — Vini murmurou, a voz abafada pelo pescoço do namorado. — Só lembrei de umas histórias absurdas que o Endrick leu pra mim. Coisa de internet. Alfas, ômegas... lobos.

Kylian inclinou a cabeça para trás para conseguir olhar nos olhos de Vini. Sua expressão era uma mistura de confusão e aquela intensidade predatória que nunca o abandonava de verdade.

— Lobos? — Kylian arqueou uma sobrancelha. — O garoto está passando tempo demais nas redes sociais.

— Ele disse que, nessas histórias, os Alfas são protetores, possessivos e... bem, meio maníacos com quem eles amam — Vini explicou, sentindo o rosto esquentar, mas sem conseguir parar de sorrir. — Eu estava pensando que você parece um lobo agora. Me escondendo do resto da alcateia, rosnando para quem chega perto.

Kylian não riu. Em vez disso, seus olhos escureceram, e ele apertou o abraço, colando ainda mais os corpos.

— Se isso significa que eu não deixo ninguém encostar no que é meu, então o garoto tem razão — disse Kylian, a voz descendo uma oitava. — Eu não sou um lobo, Vinícius. Eu sou apenas um homem que sabe exatamente o valor do que tem nos braços. E eu não aceito que nada te machuque. Nem um zagueiro, nem a imprensa, nem a sua própria tristeza.

Vini esticou o pescoço, olhando para o rosto esculpido de Kylian. A iluminação meia-luz do quarto de hotel ressaltava os traços fortes do francês.

— Eu também seria um Alfa, sabe? — provocou Vini, tentando recuperar um pouco da sua marra habitual. — No campo, eu não abaixo a cabeça pra ninguém. Eu sou o 7 do Brasil, Kylian.

Kylian soltou um riso curto, mas carregado de uma luxúria mal disfarçada. Ele levou uma das mãos ao cabelo úmido de Vini, puxando-o levemente para trás para expor a garganta do brasileiro.

— No campo, você é o que quiser, mon chéri — sussurrou Kylian contra o ouvido de Vini, fazendo-o estremecer. — Mas aqui, neste quarto, você é o meu Vini. E eu vou cuidar de você até que você esqueça como se soletra a palavra "derrota". Se você quer ser um lobo, seja. Mas eu sou o dono da floresta.

A possessividade de Kylian era quase palpável, como uma corrente elétrica que ligava os dois. Ele começou a distribuir beijos lentos e marcantes pela mandíbula de Vini, descendo para o pescoço, onde sugou a pele com força suficiente para deixar uma marca que não desapareceria tão cedo. Era um aviso para o mundo: Vinícius Júnior tinha dono, e esse dono estava disposto a enfrentar qualquer um por ele.

— Você está me marcando — Vini reclamou fracamente, embora estivesse arqueando o corpo para dar mais acesso a Kylian.

— Quero que você se olhe no espelho amanhã e lembre quem estava aqui quando você caiu — Kylian respondeu, a voz rouca. — Quero que cada pessoa que olhar para você saiba que você pertence ao homem que vai ganhar essa Copa por você.

— Você é tão convencido... — Vini suspirou, sentindo a tristeza da eliminação ser empurrada para um canto escuro de sua mente, substituída pela presença esmagadora de Kylian.

— Eu não sou convencido, eu sou realista — Kylian se afastou apenas o suficiente para encarar Vini com uma seriedade mortal. — O Brasil perdeu. Dói. Eu sei que dói. Eu vi você chorando no chuveiro. Mas eu estou aqui. E enquanto eu estiver aqui, você não precisa ser o herói de uma nação. Você só precisa ser o meu namorado. Entendeu?

Vini assentiu, sentindo uma lágrima solitária escapar, não de tristeza, mas de alívio. Era exaustivo ser o rosto do futebol brasileiro, o sucessor de Pelé e Neymar, o alvo de racismo na Espanha e de cobranças desumanas em casa. No colo de Kylian, ele era apenas Vini.

— Entendi — sussurrou o brasileiro.

— Ótimo — Kylian selou o entendimento com um beijo profundo, uma exploração que começou lenta e logo se tornou urgente.

A mão de Kylian desceu da nuca de Vini para a base de suas costas, apertando a carne firme sob a camisa velha e desbotada. O contraste entre a delicadeza do toque e a força bruta que Kylian emanava era o que sempre fascinava Vini. O francês era capaz de parar o mundo com um gesto, mas ali, ele parecia querer apenas fundir seu corpo ao de Vini.

— A comida vai chegar em breve — Kylian disse entre selinhos, a respiração quente contra os lábios de Vini. — E depois que você comer, eu vou te dar um banho. E eu não quero ouvir um único "não".

— Você adora dar ordens, não é? — Vini brincou, embora soubesse que não tinha forças — e nem vontade — para desobedecer.

— Eu adoro garantir que você receba o que merece — Kylian corrigiu. — E hoje, você merece ser adorado.

Kylian se ajeitou na cama, recostando-se na cabeceira, mas mantendo Vini em seu colo. O brasileiro acomodou a cabeça no peito do namorado, ouvindo as batidas fortes e constantes do coração do francês. Era um ritmo que trazia paz.

— Sabe, Ky... — Vini começou, a voz sonolenta. — O Endrick disse que o Lamine comprou uma joia pra ele. Algo que ele chamou de "coleira".

Kylian soltou uma risada genuína, o som vibrando no peito onde Vini estava encostado.

— Aquele garoto espanhol é mais ousado do que eu pensava. Mas ele está certo em um ponto. Quando você encontra algo tão raro quanto o que nós temos, você quer colocar uma marca. Você quer que o universo saiba que aquele tesouro já tem dono.

Vini fechou os olhos, sentindo os dedos de Kylian brincando com seus cachos.

— Você não precisa de joias para me marcar — murmurou Vini. — Você já faz isso toda vez que me olha daquele jeito no túnel antes dos jogos.

— Aquele jeito? — Kylian sorriu, sabendo exatamente ao que ele se referia.

— Aquele jeito de quem quer me engolir vivo — Vini confessou, o rosto corando.

— E eu vou — prometeu Kylian, inclinando-se para sussurrar no ouvido de Vini. — Mas não hoje. Hoje eu só vou te segurar. Vou ser o seu lugar seguro. Amanhã, quando você estiver mais forte, aí sim... eu vou te mostrar por que o seu amigo Endrick acha que eu sou um lobo.

Vini estremeceu, uma mistura de antecipação e conforto percorrendo seu corpo. Ele sabia que a possessividade de Kylian era um labirinto, mas era um labirinto onde ele se sentia em casa. O Brasil estava fora da Copa, o sonho do hexa tinha sido adiado, mas nos braços do francês, Vinícius Júnior descobriu que havia outros tipos de vitória.

A campainha do quarto tocou discretamente. O jantar havia chegado.

— Não se mexa — ordenou Kylian, depositando um beijo rápido no topo da cabeça de Vini antes de se levantar com uma agilidade impressionante, colocando o brasileiro sentado sobre os travesseiros com cuidado, como se ele fosse feito de cristal.

Vini observou Kylian caminhar até a porta. O francês se movia com uma confiança inabalável, os ombros largos e a postura de quem não pedia permissão para existir. Quando ele voltou, empurrando um carrinho com pratos cobertos por cloches de prata, Vini sentiu uma onda de gratidão.

— Coma — disse Kylian, servindo o prato de Vini com uma dedicação silenciosa. — Você precisa de energia.

— Pra quê? — provocou Vini, pegando o garfo. — Pra fugir de você?

Kylian parou o que estava fazendo e olhou para Vini com um sorriso predatório que fez o estômago do brasileiro dar voltas.

— Você pode tentar fugir, mon chéri. Mas você sabe que eu corro mais rápido. E eu sempre alcanço o que eu quero.

Vini sorriu, levando a primeira garfada à boca. Pela primeira vez em horas, o gosto da comida não era de cinzas. O peso em seu peito havia diminuído. Ele ainda estava triste, ainda sentia a dor da derrota, mas com Kylian ali, agindo como seu protetor, seu namorado e, sim, seu "Alfa" particular, o futuro não parecia tão sombrio.

Enquanto comiam em silêncio, ocasionalmente trocando olhares que valiam mais do que mil palavras, Vini percebeu que a obsessão de Kylian não era apenas sobre controle. Era sobre uma necessidade profunda de conexão, de pertencer a alguém tanto quanto esse alguém pertencia a ele.

— Ky? — chamou Vini, depois de terminar.

— Sim?

— Obrigado. Por vir.

Kylian deixou os talheres de lado e se aproximou, sentando-se na beira da cama e segurando a mão de Vini.

— Eu sempre vou vir, Vinícius. Não importa onde eu esteja no mundo, se você me chamar, eu venho. E se você não chamar, eu venho do mesmo jeito, porque eu sei quando você precisa de mim.

Ele puxou a mão de Vini e beijou os nós de seus dedos, um gesto de cavalheirismo que contrastava com a intensidade bruta de minutos atrás.

— Agora — continuou Kylian, levantando-se e estendendo a mão para Vini —, o banho. E depois, eu vou te abraçar até você dormir. E eu juro, Vini, que vou estar aqui quando você acordar.

Vini aceitou a mão estendida, deixando-se levar. Ele sabia que, nos próximos dias, teria que encarar o mundo, as câmeras e a decepção de milhões. Mas naquela noite, no refúgio criado por Kylian Mbappé, ele era apenas um homem amado. E isso era tudo o que importava.

Enquanto entravam no banheiro, onde o vapor já começava a subir, Vini olhou para Kylian e viu, além do jogador famoso e do namorado possessivo, o homem que o amava com uma ferocidade que o assustava e o salvava ao mesmo tempo. Ele se aconchegou mais uma vez contra o peito de Kylian, fechando os olhos e deixando que o instinto do predador o protegesse da escuridão do mundo lá fora. A alcateia de dois estava segura.