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World Cup

O Escudo de Azul e a Doçura do Caos

O corredor do hotel da seleção francesa estava estranhamente silencioso quando Kylian caminhou em direção à sua suíte. O treino tinha sido intenso, uma descarga de adrenalina necessária para aliviar a tensão que acumulava desde o momento em que vira o rosto inchado de Vinícius naquela manhã. Seus músculos latejavam, mas sua mente estava focada em apenas uma coisa: a porta à sua frente. Ele não se importava com as táticas de Deschamps, com a análise do próximo adversário ou com as mensagens incessantes em seu grupo de amigos. Sua única métrica de sucesso para aquele dia era o estado de espírito do brasileiro que ele mantinha sob sua guarda.

Ao abrir a porta, o som de explosões cinematográficas e uma trilha sonora épica preencheram seus ouvidos. A suíte estava na penumbra, iluminada apenas pelo brilho vibrante da enorme TV de LED. No sofá, quase desaparecendo entre as almofadas de veludo, estava Vinícius.

Kylian parou por um momento, apenas observando. Vini estava concentrado em um filme de super-heróis, um daqueles blockbusters onde o mundo estava sempre prestes a acabar, mas o herói sempre encontrava uma saída. Sobre a mesinha de centro, um pote de sorvete de baunilha com calda de chocolate já estava pela metade, e uma colher descansava esquecida ali perto.

Mas o que fez o coração de Kylian falhar uma batida foi o que Vini estava vestindo. O brasileiro havia se livrado daquela camisa velha e desbotada de 2018. Agora, ele usava uma camisa de jogo da França — uma das favoritas de Kylian, de uma coleção antiga, que Vini "sequestrara" do armário do namorado meses atrás. O tecido azul escuro ficava enorme nele, as mangas caindo pelos ombros, mas o contraste com a pele de Vini era de uma beleza que Kylian achava quase ofensiva.

— Você está assistindo a isso de novo? — perguntou Kylian, sua voz saindo mais suave do que ele pretendia, quebrando o silêncio carregado de ficção da sala.

Vini deu um pulinho, o susto fazendo-o derrubar uma almofada. Ele virou o rosto rapidamente, e o brilho da TV refletiu em seus olhos, que pareciam muito mais vivos do que algumas horas atrás. Assim que percebeu quem era, um sorriso pequeno, mas genuíno, surgiu em seus lábios.

— Eles estão salvando o mundo, Ky. Eu precisava de algo onde as pessoas ganhassem no final — disse Vini, a voz ainda um pouco rouca, mas sem o peso da derrota absoluta.

Vini não esperou que Kylian se aproximasse. Ele estendeu os braços em um gesto mudo, um pedido de proximidade que o francês nunca, em toda a sua vida, seria capaz de negar.

Kylian caminhou até o sofá, ignorando o cansaço do próprio corpo. Ele se inclinou e, com uma facilidade que demonstrava o quanto ele conhecia cada curva do peso de Vini, pegou o namorado no colo. Vini imediatamente entrelaçou as pernas ao redor da cintura de Kylian e escondeu o rosto em seu pescoço, suspirando de alívio.

— Você está suado — murmurou Vini, mas não fez menção de se soltar. Pelo contrário, apertou o abraço.

— Acabei de sair do campo — respondeu Kylian, sentando-se no sofá com Vini ainda em seu colo, como se ele fosse a coisa mais preciosa e frágil do mundo. — Eu disse que voltaria logo.

— O Cama veio aqui — contou Vini, afastando o rosto apenas o suficiente para olhar para Kylian. — Ele trouxe o sorvete. Disse que você deu ordens expressas para que eu não ficasse com fome. Você é um ditador, sabia?

Kylian deu um sorriso de lado, aquele sorriso de triunfo que costumava irritar seus adversários, mas que para Vini era um sinal de segurança.

— Eu sou o capitão. E o capitão cuida do que é dele. O sorvete ajudou?

— Ajudou — admitiu Vini, deslizando as mãos pelos ombros largos de Kylian. — Mas a camisa ajudou mais. Ela tem o seu cheiro. Me fez sentir como se você estivesse aqui o tempo todo, mesmo quando estava chutando bolas lá fora.

Kylian sentiu aquela onda familiar de possessividade aquecer seu peito. Ver Vini com as cores da França, especificamente com as *suas* cores, era uma afirmação visual de que, naquele momento, o resto do mundo não importava. O Brasil podia ter caído, a torcida podia estar em fúria, mas ali, dentro daquela camisa azul, Vinícius pertencia a ele.

— Ela fica melhor em você do que em mim — mentiu Kylian, embora no fundo achasse que qualquer coisa ficava melhor em Vini. — Como está a cabeça?

Vini suspirou, o olhar se perdendo por um momento na tela da TV, onde o herói estava triunfando sobre o vilão.

— Dói menos. Ainda é estranho não estar na concentração com os meninos. O Gabriel me mandou uma mensagem dizendo que o Haaland já o levou para um restaurante isolado. O Endrick disse que o Lamine não para de comprar coisas para ele. Acho que todos nós fomos... "resgatados".

— Vocês foram protegidos — corrigiu Kylian, a voz ficando mais séria. — O mundo do futebol é cruel com quem perde, Vini. Especialmente com quem é grande como você. Eu não ia deixar você ser o banquete dos abutres.

— Eu sei — Vini acariciou a nuca de Kylian, os dedos brincando com os fios curtos de cabelo. — Mas você sabe que amanhã eu vou ter que aparecer. Eu não posso ficar escondido na sua suíte para sempre, Ky.

Kylian endureceu o maxilar. A ideia de Vini enfrentando as câmeras, as perguntas capciosas e o julgamento público o irritava profundamente.

— Amanhã você estará ao meu lado. Se alguém fizer uma pergunta que você não queira responder, eu respondo por você. Se alguém te olhar torto, eu garanto que essa pessoa nunca mais terá uma credencial de imprensa na vida.

— Você não pode banir todos os jornalistas do mundo, Kylian! — Vini riu, um som que aqueceu o coração do francês mais do que qualquer gol decisivo.

— Tente me observar — desafiou Kylian. — Eu tenho recursos.

— Eu sei que tem — Vini inclinou a cabeça, encostando a testa na de Kylian. — Obrigado por isso. Por me deixar usar sua camisa, por me trazer para cá... por ser esse maníaco protetor. Eu acho que eu teria enlouquecido se tivesse ficado naquele outro hotel.

Kylian fechou os olhos, aproveitando a proximidade. O cheiro de Vini, agora misturado levemente ao do sorvete de baunilha, era o seu calmante particular.

— Eu não fiz isso por caridade, Vinícius — sussurrou Kylian, a voz carregada de uma intensidade que sempre fazia Vini estremecer. — Eu fiz porque eu não consigo respirar direito se eu souber que você está sofrendo em algum lugar onde eu não possa te tocar. Eu sou egoísta. Eu quero a sua alegria só para mim.

— Então você vai ter que trabalhar dobrado — disse Vini, roçando os lábios nos de Kylian. — Porque eu ainda estou um pouco triste.

— Eu aceito o desafio — respondeu o francês, antes de tomar os lábios de Vini em um beijo que era metade consolo e metade reivindicação.

O beijo era lento, profundo, carregado de uma promessa silenciosa. Kylian explorava a boca de Vini com uma fome contida, sentindo a resposta imediata do brasileiro. As mãos de Vini se apertaram nos ombros de Kylian, puxando-o para mais perto, querendo fundir suas peles. Naquele momento, não havia Copa do Mundo, não havia rivalidade entre nações, não havia o peso da camisa 7 ou da camisa 10. Havia apenas dois homens tentando encontrar paz no caos de suas vidas públicas.

Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Kylian olhou para Vini e viu que o brilho de tristeza nos olhos dele tinha sido substituído por algo muito mais quente e vital.

— O sorvete está derretendo — observou Kylian, olhando para a mesa, embora não tivesse a menor intenção de se levantar.

— Deixe derreter — disse Vini, voltando a se aninhar no peito de Kylian. — Eu prefiro o seu calor.

Kylian sorriu, sentindo-se o homem mais poderoso da terra. Ele pegou o controle remoto e pausou o filme de heróis. O silêncio que se seguiu não era mais opressor; era confortável, preenchido pela presença um do outro.

— Ky? — chamou Vini depois de um tempo.

— Sim?

— Você acha que a França vai ganhar?

Kylian ficou em silêncio por um momento, processando a pergunta. Ele sabia o que Vini estava sentindo. Era difícil torcer para o sucesso de outra seleção quando a sua própria tinha caído. Mas ele também sabia que Vini o amava, e que o amor dele era maior que qualquer rivalidade esportiva.

— Nós temos o melhor time — disse Kylian, com sua honestidade brutal característica. — E agora, eu tenho o melhor motivo do mundo para não aceitar nada menos que a taça. Eu vou ganhar, Vini. E eu vou colocar a medalha no seu pescoço.

Vini soltou um suspiro trêmulo.

— Eu ia adorar isso. Mas se você ganhar, vai ficar ainda mais insuportável e convencido.

— Com certeza — concordou Kylian, rindo baixo. — Mas eu serei o *seu* convencido. E você poderá dizer a todos que o campeão do mundo é o homem que te serve sorvete e te deixa roubar as camisas dele.

Vini riu, o som vibrando contra o peito de Kylian.

— É um bom argumento.

Eles ficaram ali, abraçados na suíte silenciosa, enquanto o sol terminava de se pôr sobre Nova York. Para o resto do mundo, eles eram rivais, estrelas de nações opostas, figuras públicas que pertenciam ao povo. Mas ali, sob o escudo da camisa azul e o calor do abraço de Kylian, eles eram apenas dois jovens tentando sobreviver à pressão de serem gigantes.

Kylian sabia que os próximos dias seriam difíceis. Ele teria que treinar mais forte, enfrentar a pressão da final e ainda manter Vini protegido da toxicidade externa. Mas, enquanto sentia o peso relaxado de Vini em seu colo e via o brasileiro finalmente fechar os olhos para um sono tranquilo, Kylian Mbappé sentia que já tinha vencido a batalha mais importante.

O mundo podia ter tirado o sonho do hexa de Vinícius, mas Kylian daria a ele um novo universo, um onde ele era o centro, o rei e o único dono do coração do homem mais temido do futebol.

— Durma, mon ange — sussurrou Kylian, beijando o topo da cabeça de Vini. — O Rei está de guarda.

E no silêncio da suíte, o herói da vida real não precisava de capas ou superpoderes. Ele só precisava da certeza de que, não importa o que acontecesse no campo, no final do dia, Vinícius Júnior estaria exatamente onde pertencia: em seus braços, seguro, amado e protegido por um amor que não conhecia fronteiras ou derrotas.