Voltar ao resumo

World Cup

O Altar do Rei e o Refúgio do Anjo

A luz pálida do amanhecer em Nova Jersey filtrava-se pelas frestas da cortina de veludo, riscando o tapete do quarto de hotel com linhas douradas e frias. Kylian Mbappé estava acordado há algum tempo. O silêncio da manhã era quebrado apenas pelo som suave da respiração de Vinícius e pelo zumbido distante do ar-condicionado. Para o mundo, Kylian era o titã, o jogador inabalável, o capitão que carregava as esperanças de uma França sedenta por mais um título mundial. Mas ali, naquela penumbra, ele era apenas um homem que não conseguia desviar o olhar do tesouro que protegia em seus braços.

Vinícius estava profundamente adormecido, com o corpo pesado de exaustão emocional. Ele estava encolhido contra o peito de Kylian, uma das mãos agarrada possessivamente ao tecido da camisa de treino da França que Kylian vestia. O rosto do brasileiro, geralmente tão expressivo e vibrante, estava sereno, embora as pálpebras ainda estivessem levemente inchadas, um lembrete silencioso das lágrimas que haviam banhado aquele mesmo travesseiro na noite anterior.

Kylian passou a ponta dos dedos, com uma leveza quase reverente, pelos cachos curtos de Vini. Ver seu brasileiro naquele estado de vulnerabilidade absoluta despertava nele algo que ia além do amor; era uma obsessão protetora, um instinto primitivo de cercar, defender e destruir qualquer ameaça que ousasse se aproximar.

— Você não vai mais ficar sozinho, mon ange — sussurrou Kylian, a voz rouca pelo sono, as palavras se perdendo no topo da cabeça de Vini.

Kylian já tinha traçado cada passo do que viria a seguir. Ele não era apenas um jogador; ele era um estrategista, dentro e fora de campo. Ele sabia que o Brasil estava em pedras, e que a imprensa brasileira — e mundial — já estava afiando as garras para encontrar um culpado. Vinícius, sendo a estrela maior, seria o alvo principal. Mas Kylian não permitiria. Ele transformaria seu próprio brilho em um escudo.

Ele esticou o braço com cuidado para pegar o celular na mesa de cabeceira, mantendo Vini colado ao seu corpo. Havia dezenas de mensagens.

— Kylian, onde você está? O ônibus para o treino sai em duas horas — era uma mensagem de Griezmann.

Kylian digitou rapidamente, com a frieza de quem toma decisões executivas: "Estou com o Vinícius. Ele fica comigo no hotel da seleção francesa a partir de hoje. Avise ao Deschamps. Se houver algum problema, ele sabe onde me encontrar."

Ele sabia que Didier Deschamps não protestaria. O treinador conhecia a personalidade de seu capitão e sabia que um Kylian focado e emocionalmente satisfeito era uma arma letal. Além disso, a presença de Vini não era estranha para o grupo. Os jogadores franceses respeitavam o brasileiro, e muitos eram seus amigos.

Outra mensagem era de sua mãe, Fayza Lamari. "Como ele está, meu filho? Diga ao Vini que mandei um beijo e que estamos todos aqui por ele."

Kylian sorriu minimamente. Sua família adorava Vinícius. Eles viam o que Kylian via: a luz pura que o brasileiro emanava, a alegria que, embora estivesse ofuscada agora, era a única coisa capaz de domar o temperamento difícil do francês.

— Ele está dormindo agora, maman — respondeu Kylian. — Vou cuidar para que ninguém o incomode.

Vini se mexeu nos braços dele, soltando um suspiro baixo e manhoso, apertando ainda mais a camisa de Kylian entre os dedos. Os olhos castanhos se abriram devagar, piscando contra a claridade suave. Por um segundo, a confusão nublou o olhar de Vinícius, até que ele sentiu o calor do corpo de Kylian e a firmeza dos braços que o envolviam.

— Ky? — A voz de Vini saiu pequena, arranhada pelo choro da noite anterior.

— Bom dia, mon chéri — Kylian inclinou-se e beijou a testa dele, demorando-se ali. — Como você se sente?

Vini enterrou o rosto no pescoço de Kylian, respirando fundo. O cheiro do namorado era a única coisa que parecia manter o mundo no lugar.

— Parece que um trator passou por cima de mim — confessou Vini, a voz abafada. — Eu tive um sonho... eu sonhei que ainda estávamos no jogo, que eu fazia aquele gol e a gente passava. Aí eu acordei e lembrei que é real. A gente está fora.

Kylian apertou o abraço, sentindo o tremor leve no corpo do brasileiro.

— O Brasil está fora, mas você não está sozinho — disse Kylian, com uma autoridade que não admitia contestação. — Eu já resolvi tudo. Você vem comigo para o hotel da França. Suas malas serão trazidas para lá em uma hora.

Vini se afastou um pouco, olhando para Kylian com os olhos arregalados.

— O quê? Ky, eu não posso fazer isso. O que as pessoas vão dizer? O Brasil acabou de ser eliminado e eu vou me enfiar no hotel da seleção que pode ser campeã? Vão me crucificar! Vão dizer que eu não ligo para o meu país.

Kylian segurou o queixo de Vini, forçando-o a manter o contato visual. O olhar do francês era intenso, quase predatório.

— Deixe que falem. Deixe que escrevam o que quiserem. Eu sou o capitão daquela seleção e eu decido quem entra no meu espaço. Se alguém ousar falar algo sobre o seu compromisso com o Brasil, eu mesmo farei questão de lembrar ao mundo que você foi o único que tentou algo naqueles jogos. Você foi o melhor, Vini. Não ouse carregar a culpa de um time inteiro.

— Mas a imprensa... — Vini começou, mas foi silenciado por um beijo rápido e firme.

— A imprensa é um circo, e eu sou o dono do espetáculo — afirmou Kylian. — Eu já preparei um comunicado com a minha equipe de relações públicas. Vamos dizer que você está sob meus cuidados pessoais por motivos de segurança e bem-estar. Ninguém vai tocar em você, Vinícius. Eu não vou deixar.

Vini suspirou, sentindo uma mistura de alívio e temor. A possessividade de Kylian era uma força da natureza. Às vezes, era sufocante, mas hoje, era a única coisa que o impedia de desmoronar completamente.

— Meus pais... — murmurou Vini. — Eu preciso falar com eles.

— Eles já sabem — disse Kylian, acariciando a bochecha dele. — Eu falei com seu irmão mais cedo. Eles estão de acordo. Todos querem você seguro, e todos sabem que o lugar mais seguro do mundo para você é ao meu lado.

Vini deu um sorriso triste, o primeiro do dia.

— Você é um maníaco por controle, sabia?

— Eu sou um maníaco por você — corrigiu Kylian, sem um pingo de hesitação. — Agora, levante-se. Vou pedir o café da manhã e depois vamos para o nosso novo refúgio.

Enquanto Vini se arrastava para o banheiro, Kylian observou cada movimento dele. Ele notou a forma como o brasileiro ainda parecia carregar o peso do mundo nos ombros. O instinto protetor de Kylian rugia dentro dele. Ele sabia que, assim que cruzassem a porta do hotel, os paparazzi estariam lá. Ele sabia que as redes sociais explodiriam com fotos de Vinícius Júnior entrando no território francês.

Mas Kylian Mbappé não tinha medo do caos. Ele prosperava no caos.

Duas horas depois, o carro blindado de Kylian estava parado na entrada lateral do hotel. Seguranças particulares formavam um corredor humano. Kylian saiu primeiro, usando óculos escuros e uma expressão gélida que dizia claramente "não se aproximem". Logo atrás, quase escondido sob um capuz e protegida pelo braço de Kylian ao redor de seus ombros, estava Vinícius.

Os flashes eram incessantes. Gritos de jornalistas em várias línguas cortavam o ar.

— Vinícius, uma palavra sobre a eliminação!

— Mbappé, é verdade que ele vai ficar com a seleção francesa?

Kylian não parou. Ele sequer olhou para os lados. Ele apenas apertou Vini contra si, guiando-o para dentro do veículo com uma eficiência militar. Assim que a porta se fechou e o som do mundo exterior foi abafado pelo isolamento acústico, Vini soltou o fôlego que nem sabia que estava segurando.

— Eles são loucos — disse Vini, olhando para as janelas escurecidas.

— Eles são insignificantes — respondeu Kylian, pegando a mão de Vini e entrelaçando seus dedos. — Olhe para mim, mon ange. Esqueça eles.

O trajeto até o quartel-general da França foi curto, mas o clima dentro do carro era de uma intimidade densa. Kylian não soltou a mão de Vini nem por um segundo. Quando chegaram ao hotel de luxo que servia de base para os franceses, a recepção foi diferente. Não havia flashes, apenas o respeito silencioso dos funcionários e de alguns jogadores que circulavam pelo lobby.

Eduardo Camavinga, companheiro de ambos no Real Madrid, foi o primeiro a se aproximar. Ele tinha uma expressão de genuína preocupação.

— Vini! — Cama abraçou o amigo com cuidado. — Que bom que você veio. Estamos todos com você, irmão.

Vini sorriu, sentindo o calor da amizade.

— Obrigado, Cama.

— Ele vai para a minha suíte — anunciou Kylian, e o tom não deixava margem para discussões. — Ele não sairá de lá a menos que seja comigo. Cama, se alguém da imprensa tentar se infiltrar ou se algum engraçadinho do time fizer piada sobre o Brasil, você me avisa.

Camavinga assentiu seriamente.

— Pode deixar, Capitão. Aqui ele está em solo sagrado.

Kylian conduziu Vini até o elevador. A suíte presidencial era vasta, com janelas que davam para o horizonte de Nova York, mas Vini mal olhou para a vista. Ele se sentou no sofá de couro, sentindo-se exausto novamente.

— Ky, você tem treino agora, não tem? — perguntou Vini, vendo o namorado checar o relógio.

— Tenho — admitiu Kylian, aproximando-se e ajoelhando-se entre as pernas de Vini. — Mas eu não queria te deixar.

— Eu vou ficar bem — disse Vini, acariciando o rosto de Kylian. — O Cama está aqui, e eu só vou dormir mais um pouco. Vá lá. Ganhe essa Copa, já que eu não pude.

Kylian segurou as mãos de Vini e as beijou com fervor.

— Eu vou ganhar por você. Cada gol que eu fizer será seu. Cada vitória será uma homenagem ao que você é. E quando eu levantar aquela taça, a primeira pessoa que eu vou procurar na arquibancada será você.

Vini sentiu as lágrimas ameaçarem voltar, mas desta vez eram lágrimas de uma gratidão avassaladora.

— Eu vou estar lá.

Kylian levantou-se, mas antes de sair, parou na porta.

— Vini?

— Oi?

— Eu já dei ordens à segurança e ao serviço de quarto. Ninguém entra aqui sem a minha autorização. Se você precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, ligue para o meu celular. Eu paro o treino para te atender.

Vini riu, balançando a cabeça.

— Vá logo, Kylian!

Quando a porta se fechou, o silêncio da suíte envolveu Vinícius. Ele caminhou até a janela e observou a movimentação lá embaixo. Ele sabia que o mundo estava em chamas, que seu nome estava sendo discutido em cada mesa de bar no Brasil e em cada programa de esportes na Europa. Mas ali, nas alturas, protegido pelo homem que o amava com uma intensidade quase assustadora, Vinícius Júnior finalmente sentiu que podia respirar.

Ele se deitou na cama imensa, que ainda tinha o cheiro de Kylian, e fechou os olhos. A dor da perda ainda estava lá, uma cicatriz que levaria tempo para fechar, mas ele não era mais o garoto sozinho no quarto de hotel em Nova Jersey. Ele era o anjo de Kylian Mbappé, e o Rei da França tinha deixado bem claro: ninguém tocaria em sua coroa.

Enquanto isso, no campo de treino, Kylian Mbappé corria com uma fúria renovada. Cada chute na bola era carregado com a promessa que fizera a Vini. Ele seria o escudo, o provedor e o campeão. E ai de quem se atravessasse em seu caminho. O mundo descobriria muito em breve que um Kylian apaixonado e protetor era muito mais perigoso do que qualquer adversário em campo. O circo podia continuar, mas o espetáculo agora tinha apenas um propósito: honrar o brasileiro que possuía seu coração.