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Wyler 1

O Eco do Abismo e a Tinta do Destino

A manhã em Jericho não trouxe a luz purificadora que os poetas costumam descrever; trouxe apenas uma névoa cinzenta e persistente que se infiltrava pelas frestas da garagem, carregando o cheiro de terra úmida e segredos mal enterrados. Wandinha acordou antes que o sol pudesse sequer ser uma promessa no horizonte. Ela estava imóvel, os olhos fixos no teto descascado, sentindo o peso do braço de Tyler sobre sua cintura.

Era uma sensação estranha. O calor humano geralmente a repelia como um ímã de polaridade idêntica, mas ali, naquele vácuo de tempo entre o trauma e a realidade, ela permitiu que a sensação permanecesse por mais alguns segundos. O corpo dela ainda protestava com uma rigidez surda, um eco físico da noite anterior, mas sua mente já estava operando com a precisão de uma guilhotina bem afiada.

Ela se moveu com a cautela de um espectro, deslizando para fora da cama sem acordá-lo. Tyler dormia com uma expressão que ela raramente via: paz. Não era a paz dos inocentes, pois ele jamais voltaria a sê-lo, mas a paz dos exaustos que finalmente depuseram as armas contra si mesmos.

Wandinha vestiu suas roupas pretas, cada botão fechado com uma finalidade quase marcial. Ela recuperou sua bolsa e seu inseparável caderno de notas. Havia muito o que processar, e a escrita era a única forma de dissecação que ela permitia a si mesma sem o uso de um bisturi real.

— Você já está indo embora? — A voz de Tyler era um sussurro rouco, vindo do fundo das sombras da cama.

Wandinha não se virou imediatamente. Ela terminou de ajustar suas tranças, sentindo o olhar dele queimando em suas costas.

— A permanência prolongada em cenas de crime ou de catarses emocionais tende a diluir a importância do evento — respondeu ela, finalmente virando-se para encará-lo. — Além disso, tenho um romance para terminar e um mistério que não se resolverá por meio de dormitórios improvisados.

Tyler sentou-se, os lençóis caindo para revelar as cicatrizes que agora, na mente de Wandinha, não eram mais marcas de horror, mas coordenadas de um mapa que ela havia ajudado a redesenhar. Ele passou a mão pelo cabelo bagunçado, um sorriso triste e enviesado surgindo em seus lábios.

— Você é impossível, sabia? — Ele se levantou, caminhando até ela com uma graça predatória que ainda retinha o rastro da vulnerabilidade da noite passada. — Acabamos de passar por... aquilo tudo... e você volta a falar como se estivéssemos discutindo o clima.

— O que "passamos" foi um procedimento necessário para a sua estabilidade psíquica — disse ela, embora um brilho quase imperceptível em seus olhos escuros a traísse. — Não espere que eu comece a bordar nossos nomes em lenços de seda.

Tyler parou a poucos centímetros dela. Ele não tentou tocá-la, respeitando a barreira invisível que ela erguera novamente, mas seus olhos procuraram os dela com uma intensidade que faria qualquer outra pessoa desviar o olhar.

— Eu sei o que foi, Wandinha. E sei o que você fez por mim. Laurel... ela não é mais o primeiro pensamento quando eu fecho os olhos. É você. Sempre vai ser você.

— Uma obsessão por outra — comentou ela, secamente. — Pelo menos a minha não envolve rituais de ressurreição de peregrinos genocidas.

— É mais do que isso e você sabe — Tyler deu um passo à frente, diminuindo o espaço. — O Hyde está calmo. Pela primeira vez em meses, ele não está arranhando as paredes da minha mente tentando sair. Ele reconhece você. Como... algo que ele não quer destruir.

Wandinha sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com o frio da garagem. A ideia de ter domado, ou ao menos estabelecido um pacto de não agressão com o monstro dentro dele, era fascinante de um ponto de vista científico e perturbador de um ponto de vista pessoal.

— Mantenha-o assim — ordenou ela. — Não tenho interesse em um aliado que perde o controle em momentos inoportunos. Agora, preciso voltar para Nevermore antes que Enid comece a organizar grupos de busca ou, pior, a chorar sobre minhas almofadas pretas.

— Eu te levo — ofereceu Tyler, já procurando por sua camisa.

— Não. — A negativa de Wandinha foi instantânea. — O mistério sobre o seu paradeiro e a sua natureza ainda é uma moeda valiosa que pretendo gastar com cautela. Se nos virem juntos agora, a narrativa escapará do meu controle. E eu detesto histórias com furos no roteiro.

Tyler assentiu, compreendendo a lógica pragmática da garota Addams. Ele a acompanhou até a porta pesada da garagem. Antes que ela saísse para a névoa, ele segurou seu pulso de leve.

— Wandinha... o que somos agora?

Ela olhou para a mão dele, depois para o rosto ansioso do rapaz que era, simultaneamente, seu maior erro e sua descoberta mais intrigante.

— Somos uma anomalia — declarou ela. — Um par de sombras que se encontraram no escuro e decidiram que a solidão era menos interessante do que o caos compartilhado. Não procure rótulos, Tyler. Eles são para arquivos de necrotério.

Com isso, ela se soltou e caminhou para a floresta, desaparecendo na bruma como se nunca tivesse estado ali.

O caminho de volta para a Academia Nevermore foi feito em um silêncio absoluto, interrompido apenas pelo estalar de galhos sob suas botas. Wandinha processava as informações. O sangue que manchara o lençol de Tyler já havia secado em sua pele, mas a sensação de sua própria transformação interna era latente. Ela sempre se considerara uma observadora da morte, uma amante do macabro que mantinha o mundo a uma distância segura de seu coração de pedra. No entanto, ao se entregar àquela experiência com Tyler, ela havia cruzado uma linha que nem mesmo suas visões poderiam ter previsto.

Ao chegar ao seu dormitório, a janela estava aberta, permitindo que o ar frio dissipasse o cheiro excessivamente doce dos perfumes de Enid. A lobisomem ainda dormia, enrolada em um casulo de mantas coloridas que Wandinha achava ofensivas à vista.

Wandinha sentou-se diante de sua máquina de escrever. O metal frio sob seus dedos era um conforto familiar. Ela inseriu uma folha de papel em branco e começou a digitar.

*“O monstro não é aquele que se transforma sob a lua, nem aquele que rasga a carne com garras. O verdadeiro monstro é a memória que se recusa a morrer, o trauma que se alimenta do presente como um parasita insaciável. Para derrotá-lo, é necessário um sacrifício de sangue. Às vezes, o próprio. Às vezes, o de outrem.”*

Ela parou. O som das teclas ecoava no quarto vazio. Ela pensou na mancha escarlate no lençol cinza. Pensou na forma como Tyler a olhara na banheira — não como um monstro olha para uma presa, mas como um náufrago olha para a terra firme.

— Você está acordada cedo — a voz de Enid, abafada pelo sono, veio do outro lado do quarto. — Ou você nem dormiu aqui?

Wandinha não se virou. O ritmo de sua digitação não falhou.

— O sono é uma interrupção irritante para uma mente produtiva, Enid. Você deveria saber disso, considerando o tempo que gasta sonhando com influenciadores digitais inúteis.

Enid sentou-se, esfregando os olhos e bocejando.

— Credo, Wandinha. Você está mais... afiada do que o normal hoje. Aconteceu alguma coisa? Você encontrou alguma pista sobre aquele novo mistério que você está investigando em segredo?

Wandinha parou de digitar. Ela sentiu o leve latejar em seu ventre, uma lembrança física da noite anterior.

— Encontrei mais do que pistas, Enid. Encontrei a confirmação de que certas feridas só podem ser fechadas se forem cauterizadas com fogo.

Enid franziu o cenho, confusa, mas desistiu de tentar decifrar as metáforas mórbidas da colega de quarto.

— Bem, desde que você não coloque fogo no quarto, por mim tudo bem. Vou tomar banho. Temos aula de Botânica Sombria em uma hora.

Quando Enid entrou no banheiro, Wandinha permitiu-se um momento de introspecção. Ela abriu a gaveta de sua escrivaninha e retirou um pequeno frasco de tinta preta. Com uma pena, ela desenhou um pequeno círculo no canto do papel onde escrevia seu romance. Dentro do círculo, uma letra "T" estilizada, quase como uma marca de propriedade.

Ela sabia que o jogo com Tyler Galpin era perigoso. Ele era instável, uma arma carregada que poderia disparar a qualquer momento em sua direção. Mas Wandinha Addams nunca fora atraída pela segurança. Ela era atraída pelo abismo. E agora que ela havia mergulhado nele e voltado, ela sabia que o abismo também tinha um rosto. E um nome.

Mais tarde naquele dia, enquanto caminhava pelos corredores de pedra de Nevermore, ela sentiu uma presença atrás de si. Não era a presença pesada de um perseguidor, mas algo mais sutil. Ela parou diante de uma das gárgulas do pátio interno.

— Você é péssimo em ser discreto, Mãozinha — disse ela, sem olhar para trás.

O apêndice saltou de trás de uma coluna, gesticulando freneticamente em sua linguagem de sinais rápida e nervosa.

— Sim, eu sei que estive fora a noite toda — respondeu ela ao gesto dele. — E não, não perdi minha bússola moral. Eu apenas a recalibrei.

Mãozinha fez um sinal interrogativo, as pontas dos dedos batendo no chão de forma rítmica.

— O que aconteceu na garagem fica na garagem — continuou ela, a voz fria como gelo. — Se você contar uma palavra para meu pai ou, pior ainda, para minha mãe, eu juro que encontrarei um frasco de formaldeído e transformarei você em uma peça de museu permanente.

Mãozinha encolheu-se, fazendo um sinal de "promessa" sobre onde estaria seu coração, se ele tivesse um.

Wandinha continuou seu caminho, mas sua mente voltou para Tyler. Ela se perguntou quanto tempo levaria para que a calmaria do Hyde fosse quebrada pela necessidade de caos. E, mais importante, ela se perguntou se, quando esse momento chegasse, ela estaria pronta para ser a mão que seguraria a coleira ou a lâmina que cortaria o pescoço.

A verdade era que ela não se importava com o resultado. O processo era o que a fascinava. A destruição de Laurel Gates fora apenas o prólogo. O que ela e Tyler haviam iniciado naquela garagem era o primeiro capítulo de uma história muito mais sombria, escrita em sangue e selada com a frieza de um beijo Addams.

Ao entrar na sala de aula, ela viu Xavier Thorpe observando-a de longe. Ele parecia notar algo diferente nela — uma aura de finalidade, talvez, ou o fato de que ela não parecia mais estar procurando por algo, mas sim que já o havia encontrado. Wandinha ignorou-o. Xavier era um artista que pintava pesadelos; ela era a pessoa que os vivia.

Ela sentou-se em seu lugar habitual, abrindo o livro de botânica em uma página que descrevia as propriedades da *Aconitum*, a erva-lobo. Era uma planta bela, mas letal. Como o que ela sentia. Como o que ele era.

— A dor é um batismo — sussurrou ela para si mesma, lembrando-se de suas próprias palavras para Tyler.

Ela pegou sua caneta e, na margem do livro, escreveu uma única frase, quase invisível para quem não estivesse procurando:

*“O monstro foi reivindicado. A sombra agora tem uma âncora.”*

Jericho poderia continuar seu simulacro de normalidade. Nevermore poderia continuar fingindo que era um refúgio seguro para os excluídos. Mas Wandinha sabia a verdade que jazia sob a superfície. Ela havia tocado o coração do Hyde e não fora consumida. Ela o havia moldado à sua imagem, transformando um instrumento de abuso em um aliado de conquista.

A guerra contra o mundo comum e contra aqueles que ousavam subestimar os Addams estava longe de terminar. Mas agora, ela tinha uma peça no tabuleiro que ninguém mais possuía. Uma peça que sangrava por ela, que mataria por ela e que, no silêncio de uma noite de chuva, havia se tornado parte dela.

Wandinha sorriu. Foi um sorriso curto, afiado e perigoso. O tipo de sorriso que geralmente precedia um desastre ou uma obra-prima. E, para ela, não havia diferença entre os dois.

A aula começou, mas a mente de Wandinha já estava planejando o próximo encontro. Não seria em uma garagem úmida, nem sob o peso de traumas passados. Seria no campo de batalha que eles chamavam de vida, onde as regras eram escritas pelos fortes e os fracos eram apenas notas de rodapé.

Ela olhou pela janela, observando os corvos que circulavam as torres da academia. Eles eram os mensageiros da morte, mas para Wandinha, eram apenas velhos amigos. E, lá embaixo, na orla da floresta, ela teve a impressão de ver um vulto alto e familiar observando as janelas da escola.

Ela não acenou. Ela não precisava. O vínculo fora forjado no altar da realidade, e nada — nem a morte, nem a loucura, nem o destino — poderia desfazê-lo agora. O capítulo da dor havia sido encerrado; o capítulo do poder estava apenas começando.