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Wyler 1

O Eco da Carne e a Ironia do Monstro

A atmosfera na Academia Nevermore era de uma normalidade irritante. O som das harpas no pátio e o falatório incessante dos alunos sobre o próximo baile de outono faziam com que os ouvidos de Wandinha latejassem. Ela preferia o silêncio do necrotério ou o som de um violoncelo sendo tocado sob uma tempestade de raios. No entanto, havia um ruído novo em sua vida, um que ela não conseguia simplesmente ignorar com um olhar gélido: a presença constante e agora audaciosa de Tyler Galpin.

Eles haviam estabelecido um ponto de encontro neutro, uma cripta abandonada nos limites da floresta, onde o cheiro de mofo e a decadência eram os únicos espectadores. Wandinha estava lá, examinando um mapa antigo de Jericho, quando ouviu o estalar de galhos. Ela não precisou se virar para saber quem era. O ritmo dos passos dele, outrora hesitantes, agora possuía uma confiança predatória que a fazia apertar o cabo de sua adaga oculta.

— Você está atrasado três minutos, Tyler — disse ela, a voz monótona ocultando a leve aceleração de seu pulso. — A pontualidade é a única cortesia que aceito de seres instáveis.

Tyler emergiu das sombras, um sorriso brincando nos cantos de sua boca. Ele não parecia mais o garoto quebrado que implorava por redenção na garagem. Havia um brilho perigoso em seus olhos, uma mistura da astúcia do Hyde com algo puramente humano e, para o desgosto de Wandinha, terrivelmente sedutor.

— Eu estava apenas apreciando a vista da floresta — respondeu ele, aproximando-se o suficiente para que ela pudesse sentir o calor de seu corpo. — Mas você tem razão. Afinal, como você mesma disse... "Erros são acidentais, Wandinha. Isso é uma escolha deliberada".

Wandinha estancou. A citação de suas próprias palavras, ditas no auge da entrega física na noite anterior, atingiu-a como uma flecha de ponta envenenada. Ela se virou lentamente, seus olhos escuros fixos nos dele, tentando manter a máscara de indiferença que era sua marca registrada.

— Citar a si mesma é um sinal de narcisismo — retrucou ela. — Citar os outros é apenas falta de criatividade.

Tyler soltou uma risada baixa, um som que vibrou no ar frio da cripta. Ele se encostou em um sarcófago de pedra, cruzando os braços com uma insolência que Wandinha achou quase... estimulante.

— Ah, mas a frase foi tão poética. E o contexto? — Ele inclinou a cabeça, os cachos caindo sobre a testa. — Especialmente quando você estava desabotoando aquela camisa preta com uma "calma que beirava o ritualístico". Foi assim que você descreveu, não foi? Ou talvez tenha sido apenas a impressão que a sua autoridade me causou.

Wandinha sentiu uma onda de calor subir pelo pescoço, algo que ela prontamente atribuiu a uma possível febre súbita causada por algum patógeno local.

— Eu estava realizando uma intervenção psicológica de emergência — declarou ela, voltando sua atenção para o mapa, embora as letras parecessem dançar diante de seus olhos. — O fato de você se lembrar de detalhes técnicos apenas prova que meu método de choque térmico funcionou.

— Funcionou maravilhosamente bem — Tyler deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. Ele se inclinou sobre o ombro de Wandinha, sua voz descendo para um sussurro que roçou a orelha dela. — Especialmente a parte sobre o batismo. Como era mesmo? "A dor é apenas um sinal de que o corpo está vivo. É o batismo da realidade".

Wandinha fechou o mapa com um estalo seco. Ela se virou para ele, a ponta de sua adaga agora pressionando levemente o peito de Tyler, bem acima do coração.

— Mais uma palavra sobre aquela noite e eu vou batizar este chão com o seu sangue de Hyde — ameaçou ela, embora sua respiração estivesse menos estável do que ela gostaria.

Tyler não recuou. Pelo contrário, ele pressionou o peito contra a lâmina, desafiando-a com um olhar que misturava adoração e deboche.

— Você não faria isso. Você mesma disse que eu sou o seu "investimento". E seria um desperdício de recursos matar o único monstro que você conseguiu reivindicar "por direito de conquista".

Wandinha sentiu um leve tremor nos dedos. Ele estava usando cada palavra, cada confissão silenciosa daquela noite como uma arma contra sua armadura de gelo. Era uma tática de guerra admirável, se não fosse tão irritante.

— Você está se tornando excessivamente loquaz, Tyler. O Hyde costumava ser mais silencioso e, consequentemente, mais suportável.

— O Hyde está satisfeito — disse ele, a voz tornando-se subitamente séria, embora o brilho de provocação ainda estivesse lá. — Mas o homem... o homem gosta de lembrar como a garota mais fria de Nevermore gemia o meu nome como se fosse uma prece desesperada.

— Eu não gemo — corrigiu ela, os dentes cerrados. — Eu emito sinais vocais de esforço físico.

— Chame do que quiser — Tyler riu, afastando-se finalmente e sentando-se na borda da tumba. — Mas admito que a sua "curiosidade clínica" sobre o sangramento foi o ponto alto da noite. "Uma reação fisiológica esperada". Você fala como um manual de medicina forense até nos momentos mais... viscerais.

Wandinha guardou a adaga, percebendo que a violência física não a salvaria daquele constrangimento psicológico. Ela precisava mudar o foco, retomar o controle da narrativa.

— Eu esperava que a nossa... união... trouxesse clareza para a sua mente nebulosa, não que transformasse você em um bardo de quinta categoria — disse ela, caminhando em direção à saída da cripta. — Temos trabalho a fazer. Laurel Gates pode estar morta, mas os segredos que ela deixou para trás ainda infectam esta cidade.

— Claro, mestre — Tyler levantou-se, seguindo-a com a agilidade de um predador domesticado apenas pela vontade dela. — Mas antes de irmos caçar fantasmas, só uma pergunta...

Wandinha parou na entrada, a luz cinzenta da tarde emoldurando sua silhueta pequena e severa.

— O que é agora?

Tyler parou ao lado dela, olhando para a floresta, mas sua mente estava claramente em outro lugar.

— Você ainda acha que o corpo humano é "irritantemente frágil em seus processos de transição"? — Ele perguntou, repetindo a frase dela com uma precisão cruel. — Porque, para alguém frágil, você cravou as unhas nas minhas costas com uma força que quase me fez rosnar.

Wandinha não respondeu. Ela simplesmente começou a caminhar pela trilha, as tranças balançando ritmicamente. Por dentro, ela amaldiçoava cada terminação nervosa que a lembrava da textura da pele dele. Por fora, ela era a personificação da morte.

— Wandinha! — Tyler chamou, correndo para alcançá-la. — Você esqueceu de comentar a melhor parte! Sobre como eu fui "surpreendentemente cuidadoso para quem costuma rasgar troncos de árvores".

— Tyler Galpin — disse ela, sem parar de andar —, se você não calar a boca nos próximos dez segundos, eu vou pedir para o Mãozinha costurar seus lábios enquanto você dorme. E eu vou usar fio de arame farpado.

— Tudo bem, tudo bem — ele levantou as mãos em sinal de rendição, mas o sorriso em seu rosto era de vitória absoluta. — Só achei que você gostaria de saber que o "investimento" está rendendo juros emocionais.

Wandinha parou abruptamente e virou-se para ele. A distância entre os dois era mínima. Ela estendeu a mão e agarrou a gola da camisa dele, puxando-o para baixo até que seus rostos estivessem a milímetros de distância.

— Escute bem, monstro — sussurrou ela, e pela primeira vez, Tyler viu uma faísca de algo que não era apenas frieza, mas uma paixão sombria e possessiva. — Eu reivindiquei você. Isso significa que eu possuo suas memórias, seu corpo e o seu Hyde. Se eu decidir que suas palavras são um incômodo, eu as eliminarei. Mas se você continuar a usá-las para me desafiar...

— O que você vai fazer? — Tyler perguntou, a voz falhando diante da intensidade dela.

— Eu vou mostrar a você que a dor não é apenas um batismo — disse ela, um sorriso letal surgindo em seus lábios. — Pode ser também um vício.

Ela o soltou e voltou a caminhar, deixando Tyler parado na trilha, o coração batendo com uma força que ele não sentia há anos. Ele a observou se afastar, a pequena figura preta que havia conquistado o que ninguém mais conseguira: o controle total sobre o seu caos.

— Definitivamente — murmurou Tyler para si mesmo, tocando o pescoço onde a mão dela estivera —, não foi um erro. Foi a melhor escolha deliberada da minha vida.

Ele correu para alcançá-la, pronto para o próximo round de provocações, sabendo que, por trás de cada ameaça de morte e cada olhar gélido de Wandinha Addams, havia agora uma marca escarlate que pertencia apenas a eles dois, uma história escrita no silêncio de uma garagem que o mundo jamais entenderia.