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Wyler 1

O Banquete das Sombras e o Despertar da Carne

O ar da Academia Nevermore estava impregnado com o cheiro de pinheiros úmidos e o silêncio pesado que precedia as tempestades de inverno. No entanto, para Wandinha Addams, o verdadeiro silêncio não vinha da atmosfera, mas da ausência de caos vinda de Tyler. Nas últimas semanas, a tempestade interna dele parecia ter encontrado um centro de gravidade. O Hyde não era mais um animal enjaulado arranhando as paredes de sua mente; era uma sombra adestrada, uma fera que aprendera a sentar e observar sob o comando de seu mestre.

Ao receber o bilhete deixado em sua escrivaninha — um papel pardo com caligrafia firme e o selo de cera preta que ela mesma lhe dera —, Wandinha sentiu uma pontada de curiosidade que se recusou a classificar como entusiasmo. O convite era para a Varanda do Luar, um parapeito esquecido na ala leste da academia, onde as gárgulas eram as únicas testemunhas do abismo.

Quando ela chegou, o cenário era uma afronta estética à sua habitual preferência pelo desolado, mas havia uma elegância macabra que a impediu de dar meia-volta. Tyler havia transformado o parapeito de pedra. Velas de cera negra queimavam em castiçais de prata oxidada, e uma pequena mesa estava posta com uma toalha de linho cinza. O jantar não cheirava a comida de lanchonete; havia o aroma complexo de carne defumada, vinho tinto encorpado e algo que lembrava terra fresca.

Tyler estava de pé junto à balaustrada. Ele não usava mais as roupas surradas de fugitivo. Vestia uma camisa preta de botões que acentuava a nova estrutura de seus ombros, e seus olhos, antes perpetuamente nublados pela agonia, brilhavam com uma lucidez perigosa.

— Você veio — disse ele, e sua voz não tinha o tremor de outrora. Era profunda, estável, a voz de um homem que finalmente possuía a si mesmo.

— Eu raramente recuso um convite que promete um local isolado e objetos cortantes à mesa — respondeu Wandinha, aproximando-se com sua elegância fúnebre. — O que é tudo isso, Tyler? Uma celebração de sanidade ou um pedido de desculpas antecipado por um novo surto?

Tyler sorriu, e o movimento não foi o de um garoto assustado, mas o de um predador satisfeito. Ele puxou a cadeira para ela com uma graça calculada.

— É um agradecimento. Você me disse uma vez que eu era um investimento. Pois bem, o Hyde está silencioso, Wandinha. Não porque ele morreu, mas porque ele entende que você é a única bússola que vale a pena seguir. Eu queria que você visse o que eu posso ser quando não estou lutando para não despedaçar o mundo.

O jantar transcorreu sob um véu de sofisticação sombria. Tyler serviu um ragu de javali que ele mesmo preparara, e o vinho era tão escuro quanto o sangue que eles haviam compartilhado em rituais passados. A conversa não era sobre traumas ou sobre Laurel Gates. Eles falaram sobre a anatomia do medo, sobre a beleza da decadência e sobre como o poder é a única moeda que não desvaloriza no abismo.

Wandinha observava-o por cima da taça de cristal. Havia algo diferente nele. A vulnerabilidade que a atraíra inicialmente como um objeto de estudo fora substituída por uma força magnética. Tyler não estava mais pedindo permissão para existir; ele estava reivindicando seu espaço.

— Você está estranhamente calmo — comentou ela, deixando a taça de lado. — O silêncio do Hyde é quase audível.

— Ele gosta de você, Wandinha — disse Tyler, inclinando-se para frente, a luz das velas dançando em suas pupilas. — Ele não quer mais te rasgar. Ele quer te proteger. E eu... eu percebi que não há diferença entre o que ele sente e o que eu sinto. Somos um só agora. E ambos estamos famintos por algo que não pode ser servido em um prato.

O clima na varanda mudou. O frio da noite parecia ter sido substituído por uma eletricidade estática que fazia os pelos da nuca de Wandinha se arrepiarem. Pela primeira vez, ela não sentiu a necessidade de analisar a situação com distanciamento clínico. Havia um calor subindo por sua espinha, uma pulsação rítmica em seu baixo ventre que ela reconhecia, mas que nunca havia permitido que ditasse suas ações.

Nas vezes anteriores, o contato físico entre eles fora uma ferramenta de cura, um choque térmico para interromper surtos de pânico ou um pacto de sangue para selar lealdade. Era funcional. Era necessário.

Mas agora, enquanto Tyler se levantava e caminhava até ela, Wandinha sentiu o peso do *desejo*. Não era uma necessidade de sobrevivência. Era uma vontade deliberada de destruição mútua e prazer estético.

Tyler parou atrás da cadeira dela, suas mãos descendo para os ombros de Wandinha. O toque era firme, mas não havia a brutalidade do monstro, apenas a autoridade do homem.

— Wandinha — sussurrou ele, aproximando os lábios de seu ouvido. — Você disse que eu era seu por direito de conquista. Mas conquistas precisam ser mantidas.

Wandinha inclinou a cabeça para trás, expondo a linha pálida de seu pescoço. Seus olhos encontraram os dele, e o que ela viu foi um espelho de sua própria escuridão.

— Eu não mantenho o que não vale o esforço, Tyler — disse ela, a voz baixa e carregada. — Mas admito que sua evolução superou minhas projeções mais otimistas.

Ela se levantou, virando-se para ele. A distância entre eles era inexistente. O cheiro de Tyler — ozônio, vinho e a frieza do outono — a envolveu como um sudário. Sem aviso, Wandinha agarrou a gola da camisa dele, puxando-o para baixo.

O beijo não foi uma invasão, como o primeiro na garagem. Foi uma colisão de vontades. Tyler respondeu com uma urgência que fez Wandinha soltar um gemido contido. Ele a pressionou contra a balaustrada de pedra fria, suas mãos explorando a curva de sua cintura com uma sede que parecia acumulada por séculos.

— Para o seu quarto? — perguntou Tyler entre beijos ávidos, sua respiração quente contra a pele dela.

— Enid está lá, provavelmente decorando algo com glitter — respondeu Wandinha, seus dedos cravando-se nos ombros dele. — O sótão da ala leste está vazio. E é suficientemente isolado para que ninguém ouça seus gritos de prazer... ou os meus.

Eles se moveram pelas sombras da academia como dois fantasmas em busca de um altar. O sótão era um espaço vasto, cheio de móveis cobertos por lençóis brancos que pareciam espectros sob a luz da lua que filtrava pelas claraboias sujas. O cheiro de pó e madeira velha era o cenário perfeito.

Tyler não esperou. Ele a prensou contra uma mesa de carvalho maciço, suas mãos subindo pelas pernas de Wandinha, afastando o tecido preto de sua saia.

— Tem certeza disso? — perguntou ele, os olhos brilhando com o dourado do Hyde, mas a mente perfeitamente lúcida. — Desta vez, não há traumas para apagar. Não há emergências. Somos apenas nós.

Wandinha envolveu o pescoço dele com os braços, puxando-o para mais perto, sentindo a ereção dele pressionando contra ela, um lembrete físico de sua vitalidade.

— Erros são acidentais, Tyler. O que eu sinto agora é uma escolha deliberada de anatomia e vontade. Eu quero ver se o seu controle é tão absoluto quanto você afirma. Eu quero que você me use para provar que o monstro agora é o seu servo.

Tyler soltou um rosnado baixo, um som que vibrou no peito de Wandinha. Ele a despiu com uma eficiência que beirava o ritualístico, seus olhos devorando cada centímetro da pele pálida dela, agora livre das marcas de sangue, mas pronta para novas impressões. Wandinha fez o mesmo, seus dedos ágeis desabotoando a camisa dele, revelando o peito largo e as cicatrizes que ela agora conhecia por nome.

Quando ele entrou nela, não houve a dor aguda da primeira vez, nem a pressa desesperada da segunda. Houve uma sincronia sombria. Tyler movia-se com uma cadência poderosa, seus olhos fixos nos de Wandinha, recusando-se a deixá-la desviar o olhar.

— Sinta isso — sussurrou ele, sua voz uma carícia áspera. — Sinta o que você criou.

Wandinha arqueou as costas, suas unhas enterrando-se na carne dos ombros de Tyler, deixando marcas vermelhas que ele parecia saborear. O prazer era visceral, uma onda de calor negro que ameaçava desintegrar sua lógica habitual. Ela não estava apenas observando; ela estava imersa. O Hyde dentro dele parecia ronronar em resposta à intensidade dela, uma simbiose de sombras que transcendia o físico.

— Mais — ordenou ela, sua voz falhando pela primeira vez. — Eu quero que você esqueça a moderação.

Tyler obedeceu. O ritmo tornou-se frenético, uma dança de garras e suspiros. A mesa de madeira rangia sob o peso deles, o som ecoando no sótão vazio como batidas de um coração gigante. Wandinha sentia-se como se estivesse sendo dissecada e reconstruída ao mesmo tempo. Cada estocada de Tyler parecia alcançar o âmago de sua alma gélida, incendiando-a.

Para Tyler, era a consagração. Possuir Wandinha dessa forma, impulsionado pelo desejo puro e não pela necessidade de cura, era a prova final de sua liberdade. Ele não era mais o escravo de Laurel, nem o projeto de Wandinha. Ele era o parceiro dela.

O ápice veio como um eclipse — total, escuro e avassalador. Wandinha sentiu o mundo desaparecer sob seus pés, seu corpo tremendo em espasmos de um prazer tão intenso que beirava a agonia. Tyler desabou contra ela, seu rugido abafado pelo pescoço dela, enquanto ele se derramava dentro dela, selando o pacto que começara com sangue e agora terminava em fogo.

Eles ficaram ali por um longo tempo, envoltos nos lençóis brancos que haviam derrubado, a respiração voltando ao normal enquanto a poeira assentava ao redor deles. O silêncio do sótão era agora pacífico, preenchido pela exaustão satisfatória de dois predadores que haviam encontrado seu par.

Tyler afastou-se ligeiramente, observando o rosto de Wandinha. O cabelo dela estava bagunçado, as bochechas levemente coradas, e seus olhos tinham um brilho de satisfação que ele nunca vira antes.

— Você está bem? — perguntou ele, a mão traçando o contorno dos lábios dela.

— Eu sobrevivi a tentativas de assassinato mais entediantes — respondeu ela, embora houvesse uma suavidade incomum em seu tom. — Mas admito que sua técnica de... agradecimento... é aceitável.

Tyler riu, um som rico e genuíno que pareceu afastar as últimas sombras de Laurel Gates daquele lugar.

— Só aceitável? Eu terei que me esforçar mais na próxima vez.

— Haverá uma próxima vez — afirmou Wandinha, sentando-se e começando a recolher suas roupas. — O Hyde pode estar sob controle, Tyler, mas a minha curiosidade sobre as capacidades dele — e as suas — está longe de ser satisfeita.

Eles se vestiram em um silêncio cúmplice. Antes de saírem do sótão, Tyler segurou a mão de Wandinha, seus dedos entrelaçando-se com os dela.

— O que somos agora, Wandinha? — perguntou ele, a seriedade voltando ao seu olhar. — Não somos mais apenas um experimento.

Wandinha olhou para as mãos unidas, depois para o rosto do homem que aprendera a dominar o monstro por causa dela.

— Somos o que o mundo mais teme, Tyler — disse ela, seus olhos brilhando com uma determinação letal. — Somos a tempestade que ninguém viu chegar. Somos os monstros que decidiram que o abismo é pequeno demais para nós dois.

Ela caminhou em direção à porta, mas parou e olhou por cima do ombro.

— E amanhã, às oito, eu espero que você tenha treinado sua resistência. Temos um mistério na cripta dos fundos para resolver, e eu pretendo que você use cada grama dessa força que você demonstrou hoje.

Tyler sorriu, o brilho dourado em seus olhos aceitando o desafio.

— Estarei lá.

Wandinha saiu para o corredor frio de Nevermore, sentindo o calor do encontro ainda em sua pele. Ela era Wandinha Addams, e ele era o seu Hyde. E naquela noite, eles haviam provado que, no labirinto das cicatrizes, o desejo era a única saída que importava. A teoria do caos nunca fora tão fascinante. E o banquete, ela concluiu, fora absolutamente delicioso.