Wyler 1
O Labirinto das Cicatrizes e a Teoria do Caos
O som rítmico das teclas da máquina de escrever de Wandinha parou abruptamente. O silêncio que se seguiu no quarto da Academia Nevermore era tão espesso que Mãozinha, que estava ocupado polindo as próprias unhas com uma lixa de esmeralda, parou o que estava fazendo e olhou para ela, inclinando-se de forma interrogativa. Wandinha não desviou os olhos da folha de papel, onde a tinta fresca formava palavras que a maioria das pessoas consideraria um manifesto de insanidade.
— Não me olhe assim, Mãozinha — disse ela, a voz fria e cortante como o vento de inverno que uivava do lado de fora. — A curiosidade é um vício que pode levar à amputação indesejada.
Mãozinha gesticulou freneticamente, apontando para a mancha de sangue seco que ainda decorava a gola da camisa de Wandinha, um detalhe que ela se recusara a esconder sob seu suéter habitual.
— É uma marca de propriedade, não uma ferida de guerra — explicou ela, levantando-se com uma rigidez que traía o desconforto latejante em seu ventre. — Tyler Galpin provou ser um espécime muito mais complexo do que eu inicialmente cataloguei. Ele não é apenas um hospedeiro para o Hyde; ele é um campo de batalha. E eu acabei de fincar minha bandeira no centro do conflito.
Ela caminhou até a janela, observando os jardins enevoados de Nevermore. Ao longe, o contorno da floresta parecia uma boca aberta, pronta para engolir qualquer um que ousasse desvendar seus segredos. Wandinha sentia a presença de Tyler mesmo à distância, uma vibração sombria que ressoava com sua própria natureza.
— Ele pensa que me quebrou — continuou ela, falando mais para si mesma do que para a mão articulada. — Ele não entende que os Addams prosperam na fragmentação. Cada cicatriz é uma nova linha em um mapa que leva a um poder que os "normais" jamais ousariam imaginar.
Mãozinha fez um sinal rápido, sugerindo que o Xerife Galpin estava circulando pela cidade com uma expressão de quem estava prestes a explodir.
— O Xerife é um homem limitado pela lei e pelo luto — disse Wandinha, um sorriso quase imperceptível surgindo em seus lábios. — Ele procura um filho que já não existe, enquanto ignora o monstro que eu ajudei a forjar. Ele é uma variável irrelevante no meu cálculo final.
De repente, um estalo seco veio da sacada. Wandinha não se virou; ela sabia exatamente quem era pelo som da respiração pesada e pelo cheiro de chuva e terra que o acompanhava. Tyler saltou para dentro do quarto, movendo-se com uma agilidade que era puramente inumana. Ele estava pálido, os olhos grandes e ansiosos, fixos nela com uma intensidade que beirava a adoração religiosa.
— Wandinha — disse ele, a voz rouca. — Eu não consegui ficar longe. O Hyde... ele não para de chamar por você. É como se ele estivesse faminto, mas não de carne.
Wandinha virou-se lentamente, cruzando os braços sobre o peito. Ela observou Tyler, notando como ele parecia maior, mais imponente, como se a aceitação de sua natureza estivesse finalmente alterando sua fisiologia.
— A fome do Hyde é apenas um reflexo da sua própria carência, Tyler — disse ela, aproximando-se dele até que o calor de seu corpo pudesse ser sentido através de suas roupas. — Você passou tanto tempo sendo controlado por Laurel que esqueceu como é ter um propósito próprio. Eu apenas forneci a direção.
— Você forneceu muito mais do que isso — Tyler deu um passo à frente, sua mão tremendo ao alcançar o rosto dela, mas ele parou a milímetros de tocar sua pele, temendo a própria força. — Ontem à noite... eu senti coisas que eu nem sabia que eram possíveis. Não foi apenas a dor, ou o sangue. Foi a sensação de que, pela primeira vez, eu não estava sozinho no escuro.
— Você nunca está sozinho no escuro quando se caminha comigo, Tyler. Eu sou a escuridão — afirmou ela, pegando a mão dele e pressionando-a contra sua bochecha fria. — Mas não confunda minha aliança com piedade. Eu não salvei você por bondade. Eu salvei você porque você é a única criatura neste vale de lágrimas que é capaz de olhar para o abismo sem piscar.
Tyler fechou os olhos, soltando um suspiro de alívio que pareceu drenar toda a tensão de seu corpo.
— O que você quer que eu faça agora? — perguntou ele. — O Xerife está começando a fazer perguntas que eu não posso responder. Ele encontrou os restos daquela coisa na mina. Ele sabe que não foi um animal comum.
— Deixe que ele pergunte — respondeu Wandinha, afastando-se e caminhando de volta para sua mesa. — O mistério é o pão de cada dia de Jericho. Enquanto eles se ocupam com as sombras nas cavernas, nós nos ocuparemos com o que está sob o solo desta escola. Joseph Crackstone não foi o único mal que tentou purgar esta terra. Há raízes mais profundas, Tyler. Raízes que exigem o sangue de um Hyde para serem despertadas.
Tyler franziu a testa, a confusão nublando seus olhos dourados.
— Você está falando de magia? Eu pensei que você confiasse apenas na lógica e no necrotério.
— A magia é apenas uma ciência que ainda não foi devidamente dissecada — explicou ela, pegando um livro antigo de capa de couro humano de sua estante secreta. — Minha ancestral, Goody Addams, deixou avisos sobre um eclipse que não ocorre no céu, mas na alma. Um momento em que as barreiras entre os mundos se tornam tão finas quanto papel de seda. E esse momento está se aproximando.
Mãozinha saltou sobre o livro, gesticulando um aviso sobre o perigo de mexer com rituais de sangue.
— O perigo é o tempero da existência, Mãozinha — retrucou Wandinha. — Tyler, eu preciso que você volte para a garagem. Mas desta vez, não para se esconder. Eu quero que você comece a coletar certos componentes para mim.
— Que componentes? — Tyler perguntou, aproximando-se para olhar as ilustrações macabras no livro.
— Erva-moura, cinzas de um salgueiro atingido por um raio e... o veneno de uma criatura que habita o fundo do lago — disse ela, seus olhos brilhando com uma antecipação sombria. — O Hyde será capaz de mergulhar onde nenhum humano ou sereia ousaria ir.
Tyler assentiu, a lealdade brilhando em seu olhar. Ele parecia ter aceitado seu papel como o executor de Wandinha, o braço armado de sua mente brilhante e perversa.
— Eu farei o que você pedir — disse ele. — Mas com uma condição.
Wandinha ergueu uma sobrancelha, surpresa com a audácia.
— Condições são para negociações comerciais, Tyler. Não para pactos de sangue. Mas prossiga. Estou curiosa para ouvir sua exigência.
— Eu quero que você pare de se esconder atrás dessa máscara de analista — disse ele, dando um passo final que eliminou qualquer distância entre eles. — Eu vi você ontem à noite. Eu vi a lágrima. Eu senti o tremor. Você pode dizer que foi biologia, mas nós dois sabemos que foi algo mais. Eu quero a Wandinha que sangra comigo, não apenas a que me estuda.
Wandinha ficou em silêncio por um longo tempo. O relógio de carrilhão no corredor bateu as doze badaladas da meia-noite, um som lúgubre que parecia selar o momento.
— Você é muito mais perigoso do que eu imaginei, Tyler Galpin — sussurrou ela, e pela primeira vez, não havia frieza em sua voz, mas uma aceitação pesada. — Você quer a verdade? A verdade é que eu nunca senti nada tão intenso quanto a dor que você me causou. E eu odeio o fato de que eu quero sentir isso de novo.
Tyler sorriu, um sorriso que era metade homem, metade monstro. Ele inclinou-se e beijou a testa dela, um gesto de uma ternura perturbadora.
— Então estamos condenados, Wandinha. Juntos.
— Condenação é apenas uma palavra para um destino inevitável — disse ela, empurrando-o gentilmente em direção à sacada. — Agora vá. O amanhecer trará olhos curiosos, e eu tenho uma reputação de misantropia a manter.
Tyler desapareceu nas sombras da noite com a mesma facilidade com que entrara. Wandinha ficou sozinha no quarto, o cheiro dele ainda impregnado no ar. Ela olhou para a mancha de sangue em sua camisa e, com um movimento deliberado, passou o dedo sobre ela, sentindo a textura seca.
— Mãozinha — disse ela, sem se virar. — Prepare meu kit de dissecação. Amanhã, começaremos a busca pelo coração do lago.
Mãozinha fez um sinal de "OK", mas seus dedos tremiam levemente. Ele conhecia Wandinha desde que ela era uma criança que decapitava bonecas, mas nunca a vira assim. Ela não estava apenas investigando um mistério; ela estava se tornando o mistério.
Na manhã seguinte, a Academia Nevermore acordou com uma notícia perturbadora. O Xerife Galpin havia encontrado o corpo de um dos "normais" de Jericho perto da entrada da escola. O corpo não estava apenas dilacerado; ele estava arranjado de uma forma ritualística, cercado por flores de lírio murchas e pétalas de rosa negra.
Wandinha ouviu a notícia enquanto tomava seu café preto na cafeteria, cercada pelo burburinho de alunos apavorados. Enid estava sentada à sua frente, as cores vibrantes de seu suéter parecendo uma ofensa visual ao humor de Wandinha.
— Você ouviu, Wandinha? — perguntou Enid, a voz tremendo de medo. — Dizem que o monstro voltou. E que desta vez ele está deixando mensagens.
— Mensagens são apenas formas baratas de comunicação para quem não tem coragem de agir diretamente — respondeu Wandinha, mantendo os olhos fixos em seu jornal. — Mas devo admitir que a escolha das flores demonstra um gosto estético apurado.
— Como você pode ser tão fria? — Enid exclamou, horrorizada. — Alguém morreu!
— Pessoas morrem todos os dias, Enid. É a única coisa verdadeiramente democrática no mundo — disse Wandinha, levantando-se. — Se me der licença, tenho uma consulta com o destino no fundo do lago.
Ela saiu da cafeteria sob os olhares de desconfiança de seus colegas. Xavier Thorpe a interceptou no corredor, sua expressão carregada de uma preocupação que Wandinha considerava irritante.
— Wandinha, espera! — disse ele, segurando-a pelo braço. — Eu tive outro sonho. Foi horrível. Eu vi você... mas não era você. Suas mãos estavam cobertas de sangue, e você estava sorrindo. E havia um monstro atrás de você, como se fosse sua sombra.
Wandinha soltou-se do aperto dele com um movimento brusco.
— Seus sonhos são apenas o subproduto de uma mente artística subdesenvolvida e de uma dieta pobre em ferro, Xavier — disse ela. — Se você quer desenhar sombras, desenhe as suas. As minhas já têm dono.
Ela continuou caminhando, sentindo o peso do livro em sua bolsa. O plano estava em movimento. Tyler já devia estar no lago, esperando pelo sinal. O eclipse da alma não era apenas uma lenda; era uma promessa de poder que exigia uma entrega total.
Ao chegar à margem do lago, o nevoeiro estava tão espesso que parecia uma parede sólida. Tyler emergiu da água, seu corpo brilhando sob a luz pálida, segurando um frasco de vidro que continha uma substância escura e viscosa.
— Eu consegui — disse ele, ofegante. — A criatura não foi fácil de convencer, mas o Hyde tem uma forma muito persuasiva de pedir favores.
Wandinha pegou o frasco, observando o conteúdo com fascinação.
— Perfeito. Agora, o próximo passo exige algo que você pode achar... desconfortável.
— Depois de ontem à noite, Wandinha, eu não acho que exista algo que possa me desconfortar — disse Tyler, aproximando-se dela.
— Veremos — respondeu ela, retirando uma pequena adaga de prata de sua bota. — O ritual exige que o veneno seja misturado ao sangue de quem controla o monstro. E como eu reivindiquei você...
Ela estendeu a mão pálida, oferecendo a palma para a lâmina. Tyler hesitou, o horror cruzando seu rosto por um breve segundo.
— Você quer que eu te corte?
— Eu quero que você me batize, Tyler. Da mesma forma que eu fiz com você — disse ela, seus olhos fixos nos dele, desafiando-o a recuar. — Se você quer ser minha âncora, precisa estar disposto a sentir o peso da corrente.
Tyler pegou a adaga, sua mão tremendo levemente. Ele olhou para a palma de Wandinha, depois para o rosto dela, onde a determinação brilhava como uma chama negra. Com um movimento rápido e preciso, ele traçou uma linha escarlate na pele dela.
Wandinha não emitiu um som. Ela observou o sangue escorrer e misturar-se ao veneno no frasco, criando uma reação química que fez o vidro aquecer instantaneamente.
— Agora — sussurrou ela, entregando o frasco de volta para ele. — Beba.
Tyler olhou para a mistura, sabendo que aquilo mudaria tudo. Não haveria mais volta. Ele não seria mais apenas um Hyde; ele seria algo novo, algo forjado pela vontade de Wandinha Addams. Ele levou o frasco aos lábios e bebeu o conteúdo de um só gole.
O grito que saiu de sua garganta não era humano. O Hyde emergiu instantaneamente, mas não era a fera descontrolada de antes. Ele era maior, mais escuro, com olhos que agora brilhavam com uma inteligência fria e calculista. Ele olhou para Wandinha e, em vez de atacar, ele se ajoelhou diante dela, inclinando a cabeça em um gesto de submissão absoluta.
Wandinha sorriu, um sorriso de vitória pura e sombria. Ela estendeu a mão e tocou a cabeça do monstro, sentindo o poder vibrar através de seus dedos.
— Finalmente — disse ela. — Agora, o mundo conhecerá o verdadeiro significado da palavra terror.
O eclipse começara. E no silêncio do lago, sob o nevoeiro de Jericho, uma nova dinastia de sombras acabara de nascer. Wandinha e seu Hyde, unidos pelo sangue, pela dor e por uma ambição que não conhecia limites, estavam prontos para reescrever a história com a tinta do destino.