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Wyler

O Eco de um Grito Silencioso

A estrada de terra que levava para longe daquele motel decadente estava envolta em uma névoa que parecia ter sido encomendada pela própria Wandinha. O frio cortante era um bálsamo para sua pele, que ainda parecia carregar o calor febril do toque de Tyler. Ela caminhava com passos firmes, a coluna tão reta que parecia prestes a quebrar, mas por dentro, seu cérebro operava em uma velocidade que faria uma centrífuga parecer lenta.

Ela precisava de lógica. De ordem. De um inventário forense do desastre.

— Primeiro — murmurou para si mesma, o hálito formando uma pequena nuvem branca —, a ingestão de etanol de procedência duvidosa comprometeu as sinapses do lobo frontal. Segundo, o isolamento social prolongado criou uma vulnerabilidade emocional atípica. Terceiro...

Ela parou abruptamente no meio da estrada. A terceira razão era a mais difícil de admitir, mesmo em um monólogo interno. O terceiro motivo era que, quando Tyler a tocou, ela não sentiu a repulsa que sentia pelo resto da humanidade. Ela sentira uma familiaridade sombria, como se duas peças de um quebra-cabeça de um necrotério finalmente tivessem se encaixado.

— Patético — sibilou ela, retomando a caminhada.

Jericho estava acordando. As luzes da cafeteria Weathervane brilhavam ao longe, um farol de mediocridade que ela costumava frequentar. Wandinha sentiu uma pontada de náusea que não tinha nada a ver com a ressaca. Ela precisava de um plano. Tyler Galpin não era apenas um erro; ele era uma ponta solta. E Wandinha Addams não deixava pontas soltas, a menos que estivessem enroladas no pescoço de alguém.

Enquanto se aproximava dos limites da cidade, uma silhueta familiar emergiu das sombras de um carvalho antigo. Não era Tyler. Era algo muito menor, mais pálido e consideravelmente mais articulado.

Mão saltou do topo de uma cerca de pedra, gesticulando freneticamente. Os dedos se moviam com uma mistura de ansiedade e o que Wandinha só podia descrever como sarcasmo gestual.

— Onde eu estava? — Wandinha traduziu os movimentos com um olhar gélido. — Estava ocupada realizando uma pesquisa de campo sobre a anatomia dos monstros. Não me olhe assim, Mão. Seus dedos estão tremendo, o que indica que você passou a noite espionando ou escondido em algum lugar úmido. Espero que seja a segunda opção.

Mão fez um gesto rápido, simulando alguém bebendo e depois unindo as "mãos" em um coração, que logo foi partido ao meio.

— Se você completar esse gesto, eu vou usar você para testar a nova guilhotina que encomendei para o Pugsley — ameaçou ela.

Mão encolheu-se, mas logo apontou para a direção da floresta. Ele queria que ela voltasse para Nunca Mais. A diretora substituta e o conselho escolar já deviam estar enviando buscas. O desaparecimento de Wandinha Addams por uma noite inteira era o tipo de evento que gerava pânico em pessoas comuns e esperança em seus inimigos.

— Eu não vou voltar para o dormitório como uma fugitiva arrependida — disse ela, ajustando a mochila que carregava. — Eu vou voltar como quem acabou de sobreviver a uma tentativa de assassinato. O que, tecnicamente, acontece todas as manhãs quando acordo.

Ela começou a subir a trilha em direção à escola, mas seu corpo a traía. Cada músculo parecia ecoar a noite anterior. Ela se lembrou da sensação das mãos de Tyler em sua cintura, da maneira como a escuridão dele parecia reconhecer a dela. Ele tinha razão em uma coisa: ela não queria um herói. Heróis eram previsíveis, tediosos e cheios de uma luz que lhe causava enxaqueca. Tyler era um abismo. E Wandinha sempre teve uma inclinação perigosa para o salto livre.

Ao chegar aos portões de ferro de Nunca Mais, ela viu a movimentação. Enid Sinclair estava na entrada, seu casaco rosa choque sendo a única coisa visível através da névoa. A lobisomem parecia ter passado a noite em claro.

— Wandinha! — O grito de Enid ecoou pelo pátio, atraindo olhares de gárgulas e alunos curiosos. Ela correu na direção da amiga, parando a poucos centímetros de um abraço que sabia que seria punido com violência. — Onde você estava? Eu quase chamei a polícia, o corpo de bombeiros e o Ghostface!

— Sua lista de contatos de emergência é lamentável, Enid — respondeu Wandinha, sem alterar a expressão. — Eu saí para uma caminhada meditativa e me perdi na contemplação da entropia universal.

Enid estreitou os olhos, aproximando-se para farejar o ar. Wandinha sentiu um lampejo de pânico. O olfato de um lobisomem era uma ferramenta de investigação invasiva.

— Você cheira a... — Enid franziu o nariz, tentando identificar o odor — ...café barato, pinho e algo que parece... Tyler?

O silêncio que se seguiu foi tão denso que poderia ser cortado com um machado. Mão, estrategicamente posicionado no ombro de Wandinha, cobriu o que seria o "rosto" em um gesto de desespero.

— O olfato canino é frequentemente confundido por poluentes ambientais — disse Wandinha, sua voz uma lâmina de gelo. — Eu estive perto do reservatório. O vento sopra de Jericho. É natural que o cheiro daquela cidade medíocre se prenda às minhas vestes.

— Wandinha, você está péssima — insistiu Enid, a preocupação superando a suspeita. — Suas tranças estão desfeitas. Você nunca deixa suas tranças desfeitas. E você está pálida... bem, mais pálida que o normal. Você parece um fantasma que viu outro fantasma.

— Eu tive uma noite produtiva — cortou Wandinha, começando a caminhar em direção ao prédio principal. — Agora, se me dá licença, preciso de um banho de água gelada e de três horas de silêncio absoluto para planejar meu próximo homicídio.

— Espera! — Enid a seguiu. — O Xerife Galpin esteve aqui. Ele disse que o Tyler fugiu da custódia durante a transferência. Ele está por aí, Wandinha. Ele é perigoso.

Wandinha parou no primeiro degrau da escadaria de pedra. Ela não se virou.

— Eu sei exatamente o quão perigoso ele é, Enid. E eu garanto a você: o monstro não é o que as pessoas deveriam temer. Elas deveriam temer quem o desperta.

Ela subiu para o quarto, trancando a porta e deixando Enid e o resto do mundo colorido para trás. O banho frio não ajudou a apagar as memórias. A água escorria por suas costas, e ela podia jurar que sentia as marcas que Tyler deixara ali — não marcas de violência, mas de uma posse que ela não havia autorizado, mas que também não havia rejeitado.

Ao sair do banho, ela se vestiu com seu uniforme habitual. O preto era seu escudo. Enquanto trançava o cabelo diante do espelho, seus dedos pararam por um segundo. Ela viu, no reflexo da janela atrás dela, um movimento na orla da floresta.

Um vulto alto, parado entre as árvores.

Ela não precisava de telescópios para saber quem era. Tyler estava lá, observando-a. Ele não estava se escondendo; era um desafio. Um lembrete de que o que aconteceu no quarto de motel não foi um final, mas um prólogo sangrento.

Wandinha terminou a trança com um nó apertado. Ela caminhou até a janela e abriu o vidro. O ar da floresta entrou, trazendo consigo o cheiro de terra úmida.

— Você é persistente — sussurrou ela para o vazio, sabendo que, de alguma forma, ele ouviria.

— Eu sou o que você me fez ser — a voz dele pareceu flutuar no vento, ou talvez fosse apenas a imaginação de Wandinha pregando peças em sua mente analítica.

Ela fechou a janela e pegou sua máquina de escrever. O som das teclas batendo contra o papel era a única música que ela tolerava.

*Capítulo 21: A Anatomia do Erro.*

*Existem erros que são cometidos por ignorância, e existem erros que são cometidos por uma sede insaciável pelo abismo. Na noite passada, eu não apenas olhei para o abismo; eu o convidei para tomar um drink e depois dividi o travesseiro com ele. A questão que permanece não é como punir o culpado, mas como sobreviver à percepção de que o culpado e a vítima são, na verdade, cúmplices em uma dança de destruição mútua.*

Wandinha parou de digitar. O papel estava em branco. Ela não tinha escrito uma única palavra. Suas mãos estavam paradas sobre as teclas, imóveis.

Pela primeira vez em sua vida, a escritora de mistérios não tinha as respostas. Ela se levantou e foi até sua escrivaninha, abrindo uma gaveta secreta. Lá, escondido sob um frasco de veneno de beladona, estava o lenço que Tyler usara para limpar o sangue de seu rosto meses atrás. Ela o pegou, sentindo a textura do tecido.

— Se isso for um jogo de manipulação — disse ela para o quarto vazio —, eu vou ganhar. Se isso for amor, eu vou enterrá-lo em uma cova rasa.

Mão saltou sobre a mesa, batendo os dedos com urgência. Ele apontava para a porta. Alguém estava batendo.

— Wandinha? — Era a voz de Xavier Thorpe. — Eu ouvi que você voltou. Precisamos conversar sobre as visões que tive. Tyler está por perto. Eu o vi nos meus desenhos. Ele está... ele está mudando.

Wandinha guardou o lenço e fechou a gaveta com um estalo seco.

— Entre, Xavier — disse ela, sua voz recuperando a cadência monótona e mortal. — Mas se o que você tem a dizer não envolver uma estratégia de contenção biológica ou um plano de extermínio, eu sugiro que guarde suas preocupações para o seu caderno de esboços.

Xavier entrou, parecendo exausto. Ele trazia um rolo de papel nas mãos. Quando o abriu sobre a mesa de Wandinha, ela sentiu um frio que nem mesmo a geada de Jericho conseguiria produzir.

O desenho mostrava Wandinha e Tyler. Não em uma luta, não em uma cena de horror. Eles estavam sentados em uma mesa de bar, as mãos quase se tocando, cercados por uma aura de sombras que pareciam ter vida própria.

— Eu desenhei isso ontem à noite — disse Xavier, a voz trêmula. — Eu não entendi o que significava. Parecia que a escuridão dele estava infectando você... ou que a sua estava alimentando a dele.

Wandinha observou o desenho com uma intensidade clínica. Xavier capturara exatamente a expressão que ela tentara esconder de si mesma: não era ódio. Era uma curiosidade faminta.

— A arte é subjetiva, Xavier — disse ela, sem desviar os olhos da imagem. — Muitas vezes, o artista projeta seus próprios medos no papel.

— Isso não é um medo, Wandinha. É um aviso. O Hyde não é mais apenas uma criatura sob o comando de alguém. Ele está evoluindo. E parece que você é o catalisador.

Wandinha deu as costas ao desenho, caminhando até a janela novamente. A silhueta na floresta havia desaparecido, mas a sensação de ser observada permanecia, como uma coceira sob a pele que não podia ser aliviada.

— Se eu sou o catalisador — disse ela, olhando para o horizonte cinzento —, então eu sou a única que pode controlar a reação química.

— Você não pode controlá-lo! — Xavier exclamou. — Ele matou pessoas! Ele quase matou você!

— Quase — repetiu ela. — Uma palavra que define o fracasso.

Xavier saiu do quarto, frustrado e visivelmente abalado. Wandinha permaneceu em silêncio, deixando a escuridão do entardecer preencher o ambiente. Mão se aproximou, tocando seu braço em um gesto de apoio silencioso.

— Não comece, Mão — advertiu ela. — Eu sei o que estou fazendo.

Ela pegou o desenho de Xavier e, com um movimento lento e deliberado, ateou fogo a um dos cantos usando uma vela negra. As chamas consumiram a imagem de Tyler e dela, transformando o papel em cinzas que flutuaram pelo chão.

— Ele acha que me conhece — disse ela, observando o fogo. — Ele acha que porque compartilhamos uma noite de caos, ele tem uma chave para a minha mente.

Ela se sentou em sua cama, fechando os olhos. Por um breve momento, ela permitiu que a memória do toque dele retornasse. O cheiro de café, o calor da pele, a vibração daquela risada perigosa.

— Ele esqueceu de um detalhe fundamental — sussurrou ela, enquanto o sono finalmente começava a reivindicá-la. — Eu sou uma Addams. E nós não somos vítimas dos monstros. Nós somos os monstros que os outros monstros temem.

Naquela noite, Wandinha não sonhou com assassinatos ou cemitérios. Ela sonhou com uma floresta onde as árvores eram feitas de osso e o céu era cor de sangue. E no centro daquela floresta, Tyler a esperava, não com garras, mas com um sorriso que prometia uma perdição que ela, pela primeira vez, não tinha pressa em evitar.

O jogo tinha mudado. As regras tinham sido queimadas. E enquanto Jericho dormia sob o manto da hipocrisia, dois predadores se preparavam para o próximo encontro, sabendo que, da próxima vez, o álcool não seria necessário para justificar a carnificina que se seguiria.

Wandinha acordou no meio da noite com o som de algo batendo em sua janela. Uma pequena pedra.

Ela se levantou, sem hesitar, e olhou para baixo. Tyler estava lá, envolto nas sombras, segurando uma única rosa negra — a flor favorita de Wandinha, que só crescia nos jardins mais sombrios da mansão Addams.

Ele a deixou no parapeito da janela e desapareceu na escuridão antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.

Wandinha pegou a flor. Seus dedos tocaram os espinhos, e uma única gota de sangue brotou de sua pele pálida. Ela levou o dedo aos lábios, provando o gosto metálico.

— Que comece o segundo ato — disse ela, fechando a janela com um sorriso imperceptível que teria aterrorizado qualquer pessoa normal.

Mas Tyler não era uma pessoa normal. E era exatamente por isso que Wandinha não conseguia parar de olhar para a floresta.