Wyler
O Labirinto de Vapor e Segredos
A noite em Jericho não era apenas escura; era cúmplice. Wandinha Addams deslizava pelas sombras da calçada com a fluidez de uma mancha de tinta sobre o papel. O vento uivava entre as casas de madeira, mas ela mal sentia o frio. Sua mente, normalmente um palácio de lógica fria e cálculos precisos, estava sendo invadida por um ruído estático persistente. A rosa negra que Tyler deixara em sua janela agora repousava em um vaso de cristal em seu quarto, mas o cheiro de terra e perigo parecia ter se impregnado em suas narinas.
Ela não deveria estar ali. Invadir a residência do Xerife Galpin era um risco desnecessário, uma falha tática que seu tio Fester classificaria como "imprudência deliciosa". Mas Wandinha precisava de respostas. Precisava entender se o que sentira naquela cama de motel fora uma anomalia química ou se Tyler havia, de fato, encontrado uma fresta em sua armadura de granito.
A casa do xerife estava silenciosa, exceto pelo zumbido baixo do refrigerador que escapava pela janela da cozinha. Wandinha sabia que o Xerife Galpin estava em casa; a viatura estava estacionada na entrada, o motor ainda estalando enquanto esfriava. Ele estava em alerta máximo desde a fuga de Tyler, o que tornava a presença de Tyler ali, naquela casa, o lugar mais improvável e, portanto, o mais seguro para um Hyde manipulador se esconder.
Ela escalou a trepadeira lateral com a agilidade de uma aranha. Seus dedos encontraram apoio nas frestas do tijolo até que ela alcançou a janela do segundo andar. O quarto de Tyler. Ela forçou a trava com uma lâmina fina que carregava na manga e deslizou para dentro, caindo sem fazer um único som sobre o tapete gasto.
O quarto cheirava a ele. Uma mistura de sabão barato, pó de café e algo mais profundo, algo que lembrava a floresta após uma tempestade. Wandinha começou a vasculhar as gavetas, procurando por qualquer indício de seus próximos passos, quando o som de passos pesados ecoou no corredor.
— Tyler? Você está aí dentro, garoto? — A voz do xerife atravessou a porta de madeira, carregada de cansaço e uma suspeita latente.
Wandinha congelou. Seus olhos vasculharam o ambiente. Não havia armários grandes o suficiente, e a cama era baixa demais. O som da maçaneta girando foi o gatilho. Ela não pensou; agiu por puro instinto de sobrevivência. A porta lateral, que levava ao banheiro conjugado, estava entreaberta. Ela se lançou para dentro e fechou a porta silenciosamente no exato momento em que o xerife entrava no quarto.
O banheiro estava mergulhado em um vapor denso e quente. O som da água caindo era ensurdecedor naquele espaço pequeno. Wandinha ouviu o xerife caminhando pelo quarto, resmungando algo sobre luzes acesas e janelas abertas. Se ele decidisse entrar ali, ela estaria encurralada.
Sem muitas opções, ela deslizou para trás da cortina de plástico do box, buscando o canto mais escuro. Mas, ao atravessar a barreira de vapor, ela não encontrou apenas azulejos frios.
Ela colidiu diretamente com um peito nu, quente e úmido.
Wandinha soltou um arquejo silencioso, seus olhos se arregalando ao dar de cara com Tyler Galpin. Ele estava sob o jato de água, o cabelo castanho colado ao rosto, a água escorrendo pelas cicatrizes em seus ombros. O choque nos olhos dele foi imediato, um reflexo do dela.
— Wandinha? — O nome começou a escapar dos lábios dele em um sussurro confuso, mas Tyler não teve tempo de terminar.
Com uma rapidez letal, Wandinha pressionou a palma da mão contra a boca dele, empurrando-o contra a parede de azulejos. A proximidade era absoluta. A água quente caía sobre ambos, encharcando o uniforme preto dela instantaneamente e colando o tecido à sua pele.
— Silêncio — sibilou ela, os olhos fixos nos dele. — Seu pai está do outro lado da porta.
Tyler parou de resistir imediatamente. Seus olhos, que segundos antes brilhavam com a surpresa do susto, suavizaram-se para algo mais sombrio e divertido. Ele sentiu o calor da mão de Wandinha, o contraste da pele fria dela com a temperatura da água. Ele não tentou afastar a mão dela; em vez disso, ele a envolveu pelo pulso, mantendo-a ali, enquanto um sorriso lento começava a se formar por baixo dos dedos dela.
Do outro lado da porta, a voz do xerife soou novamente, abafada pelo ruído da água.
— Tyler? Eu sei que o chuveiro está ligado. Não demore. Temos muito o que conversar se você quer que eu continue te escondendo aqui.
O silêncio no box era carregado de uma eletricidade que fazia os pelos da nuca de Wandinha se arrepiarem. Ela podia sentir a respiração de Tyler contra a palma de sua mão, quente e rítmica. O vapor tornava tudo turvo, criando uma bolha de intimidade forçada que cheirava a perigo e desejo reprimido.
Tyler moveu a cabeça levemente, beijando a palma da mão dela antes de sussurrar contra sua pele, aproveitando que o som da água mascarava sua voz:
— Você gosta mesmo de entradas dramáticas, não é?
Wandinha não retirou a mão, mas apertou os dedos contra a mandíbula dele, um aviso silencioso.
— Eu vim para te matar, não para tomar banho com você — sussurrou ela, embora a convicção em sua voz estivesse perigosamente abalada pela proximidade dos corpos.
— Engraçado — respondeu Tyler, a voz vibrando contra a mão dela —, você parece estar fazendo um trabalho péssimo em me assassinar. Suas mãos estão tremendo, Wandinha. É o frio ou é outra coisa?
— É a vontade de arrancar sua laringe — rebateu ela, embora soubesse que ele tinha razão. Seu coração batia contra as costelas como um pássaro enjaulado.
O xerife parecia ter desistido por enquanto. O som de seus passos se afastando e da porta do quarto sendo fechada trouxe um alívio momentâneo, mas a tensão dentro do box só aumentou. Wandinha finalmente soltou a boca de Tyler, mas não se afastou. Não havia para onde ir.
Tyler se inclinou para frente, deixando a água escorrer entre eles. Ele era muito mais alto, e a maneira como ele a olhava — com aquela mistura de vulnerabilidade simulada e predação real — era o que a tornava mais perigosa.
— Você veio porque não consegue parar de pensar na outra noite — afirmou ele, não como uma pergunta, mas como uma constatação. — Você sentiu falta do monstro.
— Eu senti falta da lógica — disse Wandinha, forçando sua voz a manter a neutralidade gélida. — O que aconteceu foi um erro de cálculo. Eu vim para garantir que você não use isso como uma arma contra mim.
— Uma arma? — Tyler soltou um riso baixo, rouco. Ele estendeu a mão, afastando uma mecha de cabelo molhado do rosto dela. — Wandinha, eu sou o Hyde. Eu poderia te quebrar em duas se quisesse. Mas na outra noite... você foi a única que me fez sentir que eu não precisava me esconder.
— Não tente me manipular com sentimentalismo barato, Tyler. Eu conheço o seu jogo. Eu inventei a maioria das regras.
— Então por que você ainda está aqui? — Ele deu um passo à frente, diminuindo o pouco espaço que restava. — A porta está livre. Você poderia ter saído enquanto meu pai falava. Mas você escolheu ficar aqui. Comigo.
Wandinha sentiu a parede de azulejos contra suas costas. A água quente estava começando a esfriar, mas o calor que emanava de Tyler era sufocante. Ela olhou para a cicatriz no peito dele, uma marca da transformação, e sentiu uma vontade súbita e violenta de tocá-la.
— Você é uma praga, Tyler Galpin — disse ela, a voz quase sumindo.
— E você é o veneno que eu bebo com prazer — retrucou ele.
Ele se aproximou mais, o nariz roçando o dela. O vapor ao redor deles parecia isolá-los do resto do mundo, de Nunca Mais, do xerife, das mortes e das mentiras. Naquele momento, no box do chuveiro, eles eram apenas dois seres quebrados tentando encontrar um encaixe nas arestas um do outro.
— Se você contar a alguém sobre isso... — começou Wandinha, mas foi interrompida.
— Você vai me dissecar. Eu sei — Tyler sorriu, mas desta vez não havia malícia, apenas um reconhecimento sombrio. — Mas admita, Wandinha. Você nunca se sentiu tão viva quanto agora, escondida no chuveiro do inimigo, com a mão no coração do monstro que deveria odiar.
Wandinha não admitiu. Ela não precisava. Em vez disso, ela fez algo que desafiava toda a sua natureza cautelosa. Ela agarrou a nuca dele, puxando-o para baixo, e o beijou com uma ferocidade que era metade desejo e metade declaração de guerra.
O beijo tinha o gosto de água e urgência. Tyler respondeu com a mesma intensidade, suas mãos encontrando a cintura dela e levantando-a para que suas pernas se envolvessem em seu quadril. O uniforme molhado de Wandinha era uma barreira irritante, mas a sensação da pele dele contra a dela era o único foco que restava.
— Você é louca — sussurrou Tyler entre beijos, a respiração curta.
— Eu sou uma Addams — corrigiu ela, mordendo o lábio inferior dele com força suficiente para tirar sangue. — Loucura é o nosso estado natural.
Eles ficaram ali, sob a água que agora caía fria, esquecidos do xerife no quarto ao lado e do caos que os esperava lá fora. Naquele labirinto de vapor, Wandinha percebeu que não tinha ido ali para obter respostas ou para matá-lo. Ela tinha ido para confirmar que, no escuro, ela e Tyler falavam a mesma língua.
— Vá embora — disse ela finalmente, afastando-se dele com um esforço hercúleo de vontade. — Antes que eu mude de ideia e realmente use a lâmina que escondi na bota.
Tyler encostou a testa na dela, os olhos brilhando com uma satisfação triunfante.
— Eu estarei esperando, Wandinha. Sempre na floresta. Sempre nas sombras.
Ela deslizou para fora do box, ignorando o estado deplorável de suas roupas. Com a precisão de um fantasma, ela saiu pelo banheiro, atravessou o quarto de Tyler e saltou pela janela para a noite fria de Jericho.
Enquanto caminhava de volta para Nunca Mais, a água escorrendo de suas tranças, Wandinha Addams sabia que tinha cruzado uma linha da qual não havia retorno. Ela não era mais apenas a investigadora; ela era parte do mistério. E, pela primeira vez em sua vida, ela não tinha pressa nenhuma de resolvê-lo.
Pois, no final das contas, o que é um monstro senão alguém que cansou de fingir que era humano? E Wandinha nunca se sentira tão pouco humana quanto naquele momento.