Wyler
O Sangue na Neve e o Calor do Abrigo
A noite em Jericho havia assumido um tom de cinza cadavérico. Wandinha caminhava pelos arredores da cidade, longe das luzes dos postes, onde a escuridão era mais honesta. Ela precisava de espaço para processar o caos que sua vida se tornara desde que Tyler Galpin reapareceu. Seus pensamentos eram como lâminas afiadas, cortando qualquer tentativa de normalidade.
Ela não percebeu a aproximação. O homem surgiu de trás de um galpão abandonado, uma figura atarracada que exalava o cheiro azedo de álcool barato e intenções cruéis. Ele não era um monstro sobrenatural, nem um Hyde, nem um excluído. Era algo que Wandinha desprezava ainda mais: um humano comum movido por impulsos primitivos e covardes.
— Olha só o que temos aqui — disse o homem, a voz arrastada e nojenta. — Uma gótica bonitinha perdida no escuro.
Wandinha parou, sua postura tornando-se instantaneamente rígida. Seus olhos negros brilharam com um desprezo letal.
— Você está cometendo um erro tático deplorável — respondeu ela, a voz fria como uma tumba. — Sugiro que retorne ao bueiro de onde rastejou antes que eu decida que preciso de um novo espécime para meus estudos de taxidermia.
O homem riu, um som seco que não chegou aos olhos injetados de sangue. Ele avançou rápido demais, impulsionado por uma audácia bêbada. Wandinha tentou alcançar a pequena adaga que escondia na bota, mas o terreno estava úmido. Antes que pudesse reagir, ele a empurrou contra a parede fria do galpão.
— Você fala demais, garotinha — ele sibilou, o rosto perto demais do dela.
Wandinha lutou com uma ferocidade silenciosa, mas o homem era pesado e estava desesperado. Em um movimento brusco, ele puxou um canivete de caça. O metal brilhou sob a luz fraca da lua. Enquanto tentava imobilizá-la, a lâmina desceu, rasgando o tecido da calça preta de Wandinha e abrindo um corte profundo em sua coxa.
A dor foi aguda, uma queimação gelada que fez sua visão oscilar por um segundo. O sangue começou a manchar o tecido negro, quente e insistente.
— Agora você vai ficar quieta — ele rosnou, a mão suja subindo para o pescoço dela.
Mas o destino, ou talvez o azar daquele homem, tinha outros planos.
Um rugido gutural, algo que não era humano nem inteiramente animal, rasgou o silêncio da noite. Antes que o agressor pudesse processar o som, um vulto de sombras e fúria o atingiu lateralmente.
Tyler Galpin não estava transformado em Hyde completamente, mas seus olhos brilhavam com aquele dourado sobrenatural e suas mãos eram garras prontas para o massacre. Ele arremessou o homem contra um contêiner de metal com uma força que quebrou ossos de forma audível.
— Toque nela de novo — Tyler sibilou, a voz saindo em um tom inumano, vibrando de um ódio puro — e eu farei você engolir cada um dos seus dentes antes de arrancar seu coração.
O homem, agora aterrorizado e sóbrio pelo choque, tentou se arrastar para longe, mas Tyler foi mais rápido. Ele o golpeou novamente, um soco que silenciou qualquer tentativa de súplica. O agressor caiu inconsciente, ou talvez pior, mas Tyler não se importou. Sua atenção voltou-se imediatamente para a figura pálida encostada na parede.
— Wandinha! — Ele correu até ela, a fúria desaparecendo para dar lugar a um pânico genuíno.
Wandinha tentou se manter de pé, mas a perna ferida cedeu. Tyler a segurou antes que ela atingisse o chão. Ele olhou para o ferimento, o sangue escorrendo pela perna dela, e sentiu uma pontada de culpa que parecia mais dolorosa do que qualquer transformação.
— Eu demorei — ele sussurrou, a voz falhando. — Eu deveria ter chegado antes. Ele cortou você...
— É apenas uma laceração — disse Wandinha, embora sua respiração estivesse curta. — Eu já sobrevivi a coisas piores.
— Não importa. Você está perdendo sangue.
Tyler a pegou nos braços com uma delicadeza que contrastava com a violência de segundos atrás. Ele sabia que não podia levá-la para Nunca Mais naquele estado, e o hospital de Jericho faria perguntas demais. Seu pai, o Xerife, tinha saído da cidade para uma conferência em outra jurisdição por alguns dias. Sua casa era o único lugar seguro.
Ele caminhou pelas sombras, evitando as ruas principais, até chegar à residência dos Galpin. Entrou pela porta dos fundos e subiu as escadas, levando-a diretamente para o quarto dele.
— Tyler, eu posso andar — protestou ela fracamente, embora estivesse encostando a cabeça no ombro dele mais do que gostaria de admitir.
— Agora não, Wandinha — ele disse, colocando-a cuidadosamente sobre a cama.
Ele foi até o armário de primeiros socorros e voltou com gaze, antisséptico e toalhas limpas. Com as mãos ainda levemente trêmulas, ele limpou o ferimento. O corte era longo, mas não precisaria de pontos se fosse bem cuidado.
— Você precisa se limpar — observou ele, olhando para as roupas dela, sujas de terra e sangue. — E a ferida precisa ser lavada adequadamente antes que eu coloque o curativo.
— Eu consigo fazer isso sozinha — afirmou ela, tentando se levantar, mas uma careta de dor traiu sua fraqueza.
— Você não consegue nem ficar de pé, Wandinha. Meu pai não está aqui. Não tem ninguém para nos incomodar.
Tyler a ajudou a chegar até o banheiro. Ele preparou a banheira, deixando a água morna correr. O vapor começou a embaçar o espelho, criando uma atmosfera de isolamento.
— Eu vou te ajudar — ele disse, com uma seriedade que não aceitava discussões. — Não é hora para o seu orgulho Addams.
Com uma paciência infinita, Tyler ajudou Wandinha a se despir de suas roupas manchadas. Não havia nada de sedutor naquele momento; era um ato de cuidado cru e silencioso. Ele a ajudou a entrar na banheira, segurando seu braço para que ela não escorregasse.
Wandinha sentou-se na água morna, sentindo o alívio imediato na musculatura tensa. Tyler pegou uma esponja e começou a lavar os ombros dela, evitando olhar diretamente para a nudez dela, mantendo o foco em limpá-la com suavidade.
— Por que você faz isso? — perguntou ela, a voz baixa, quase um sussurro no meio do vapor.
— Porque eu não suporto a ideia de você quebrada — ele respondeu, parando o movimento da esponja por um segundo. — Especialmente se for por culpa de alguém que não sou eu.
Wandinha olhou para ele. Tyler parecia exausto, as sombras sob seus olhos revelando o peso de sua própria natureza.
— Você me salvou — disse ela, como se a palavra fosse estranha em sua boca.
— Eu tentei — ele corrigiu.
Após o banho, Tyler a secou com uma toalha felpuda e a ajudou a vestir uma de suas camisetas de dormir — uma peça cinza de algodão que ficava enorme nela, batendo no meio de suas coxas. Ele a carregou de volta para a cama e terminou o curativo em sua perna com precisão cirúrgica.
— Fique aqui — ele ordenou. — Vou preparar algo para você comer.
Wandinha observou-o sair. O quarto dele era simples, um contraste gritante com a opulência gótica de seu dormitório, mas havia algo ali que a fazia se sentir estranhamente protegida.
Algum tempo depois, o cheiro de comida começou a subir pelas escadas. Tyler voltou trazendo uma bandeja com uma sopa de legumes quente e algumas torradas.
— Eu não sou um chef premiado, mas isso vai ajudar a recuperar suas energias — disse ele, colocando a bandeja sobre o colo dela.
Wandinha comeu em silêncio. A comida estava surpreendentemente boa, quente e reconfortante. Tyler sentou-se na beira da cama, observando-a, o olhar fixo nela como se temesse que ela fosse desaparecer se ele piscasse.
— Você deveria dormir — sugeriu ele quando ela terminou. — Eu vou ficar no sofá lá embaixo.
Wandinha olhou para a cama larga e depois para Tyler. A vulnerabilidade da noite, a dor do ferimento e a proximidade dele criaram um curto-circuito em suas defesas habituais.
— O sofá é desconfortável — disse ela, sem olhar para ele. — E eu detesto o silêncio de casas vazias. Fique.
Tyler hesitou, surpreso com o convite implícito.
— Tem certeza?
— Eu raramente mudo de ideia, Tyler. Não me faça me arrepender.
Ele apagou a luz principal, deixando apenas o brilho suave de um abajur de canto. Deitou-se ao lado dela, por cima das cobertas, mantendo uma distância respeitosa. Mas, no escuro, Wandinha buscou a mão dele.
Seus dedos se entrelaçaram. A mão de Tyler era quente e áspera, a mão de Wandinha era fria e pequena.
— Se você contar ao Xavier ou à Enid que eu deixei você me dar banho, eu juro que o próximo corte será no seu pescoço — ela murmurou, já sentindo o peso do sono.
Tyler soltou um riso baixo, apertando levemente a mão dela.
— Seu segredo está a salvo comigo, Wandinha.
Enquanto a respiração dela se tornava lenta e rítmica, Tyler ficou acordado por um longo tempo, guardando o sono da única pessoa que via o monstro dentro dele e, de alguma forma, decidira que ele valia a pena. Ali, naquela casa comum em uma cidade comum, dois seres extraordinariamente perigosos encontraram uma paz momentânea que o resto do mundo jamais entenderia.