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Ecos de Vidro e Pântanos de Neon
O silêncio no dormitório do Sweet Salad era pesado, carregado com a eletricidade residual de uma discussão que não deveria ter acontecido. No centro da sala, Ara encarava a tela apagada do seu celular, as mãos tremendo levemente. Horas antes, o que começou como uma brincadeira boba nos bastidores de um ensaio fotográfico escalou para algo feio. Yeonjun, exausto pela pressão do comeback, tinha deixado o ciúme falar mais alto quando viu Ara rindo de forma "charmosa demais" com um staff novo. Ela, por sua vez, reagira da única forma que sabia: com sarcasmo ácido, chamando-o de possessivo e imaturo.
— Eu não preciso que você me policie, Yeonjun! — ela gritara, as palavras ainda ecoando em sua mente.
— Eu não estou te policiando, Ara! Só estou cansado de ser o único que parece levar isso a sério enquanto você trata tudo como uma piada! — ele retrucara, antes de sair batendo a porta.
Agora, Ara sentia o vazio. A raiva tinha se dissipado, deixando apenas o gosto amargo do arrependimento. Ela sabia que Yeonjun estava sob um estresse imenso, e sabia que sua própria tendência de se fechar emocionalmente e usar o humor como escudo o machucava.
Enquanto isso, no corredor das escadas de emergência da HYBE, o clima era drasticamente diferente. Beomgyu estava encostado na parede fria, ofegante, enquanto Sora o encarava com um desafio mudo nos olhos escuros. Eles tinham acabado de sair de uma discussão sobre quem tinha a melhor técnica de performance, mas a tensão entre eles não era mais sobre dança.
— Você fala demais, Beomgyu — Sora disse, a voz rouca, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele.
— E você é teimosa demais, noona — ele rebateu, o sorriso travesso vacilando por um segundo enquanto ele observava a linha do pescoço dela sob as luzes de emergência. — Mas eu gosto de desafios.
— Você não saberia o que fazer com um desafio como eu se ele batesse na sua cara.
Beomgyu soltou uma risada curta e anasalada, os olhos brilhando com uma audácia que Sora raramente via.
— Quer apostar?
Antes que ela pudesse responder com algum insulto sarcástico, Beomgyu avançou. Ele não foi hesitante ou doce como Kai, nem estável como Yeonjun. Ele a puxou pela nuca, os dedos se perdendo no cabelo curto dela, e a beijou com uma fome que estava guardada há meses.
Sora soltou um arquejo de surpresa que foi rapidamente abafado pelo contato. Ela não recuou. Em vez disso, suas mãos subiram para os ombros de Beomgyu, agarrando o tecido da jaqueta dele com força. O beijo era uma batalha, uma extensão das provocações que trocavam diariamente. Era intenso, caótico e perfeitamente condizente com o que eram.
Quando se separaram, ambos estavam sem fôlego, os lábios inchados e os olhos fixos um no outro.
— Então... — Beomgyu murmurou, a testa encostada na dela — ... isso conta como uma vitória minha?
Sora sorriu, um sorriso genuíno que raramente mostrava.
— Conta como um empate, garoto. Mas se você quiser a revanche, vai ter que me pedir em namoro direito. Eu não sou do tipo que fica escondida em escadas para sempre.
Beomgyu riu, puxando-a para um abraço apertado.
— Considere feito. Mas se prepare, Sora. Eu sou um namorado terrível de lidar.
— Eu sei — ela respondeu, encostando a cabeça no peito dele. — Eu também sou.
***
Enquanto um novo casal se formava no caos, o antigo casal desmoronava no silêncio. Ara já estava na cama, tentando dormir, quando seu celular começou a vibrar violentamente na mesa de cabeceira. Eram duas da manhã.
O nome "Junie" brilhava na tela. Ela atendeu no primeiro toque.
— Yeonjun? Onde você está?
O som que veio do outro lado era uma mistura de música alta de fundo e uma respiração pesada.
— Ara-yah... — A voz dele estava arrastada, lenta, carregada de um peso que só o álcool trazia. — Eu... eu acho que estou em um lugar com luzes neon. Muitas luzes.
— Yeonjun, você bebeu? — Ara sentou-se na cama, o coração disparado. — Você nunca bebe assim. Onde estão os outros?
— O Soobin foi dormir... o Beomgyu sumiu... e eu... eu precisava apagar o incêndio, Ara. Aqui dentro — ele soltou uma risada triste que partiu o coração dela. — Por que você é tão difícil? Por que você age como se eu fosse só um detalhe no seu dia?
— Junie, por favor, me diz onde você está. Eu vou te buscar.
— Não busca não... — sussurrou ele. — Eu sou imaturo, lembra? Você disse. Eu sou o cara que estraga tudo porque te ama demais e não sabe onde colocar esse sentimento. Eu olho para você e parece que vou explodir, e você... você só faz uma piada e vira o rosto.
Ara sentiu as lágrimas escorrerem. A vulnerabilidade de Yeonjun, potencializada pela bebida, era como um espelho refletindo todas as falhas dela.
— Eu não viro o rosto porque não me importo, Yeonjun — ela disse, a voz embargada. — Eu viro o rosto porque tenho medo de que, se eu olhar demais, você veja o quanto eu sou quebrada por dentro. O quanto eu preciso de você.
Houve um silêncio do outro lado, apenas o ruído branco do bar.
— Você precisa de mim? — ele perguntou, soando como o menino que ela conheceu anos atrás.
— Mais do que de ar, seu idiota. Agora, por favor, me manda a sua localização.
Dez minutos depois, Ara estava saindo furtivamente do dormitório, vestindo um casaco enorme e um boné, com o endereço de um bar privativo em Gangnam no GPS.
Quando ela chegou, encontrou Yeonjun sentado em um sofá de veludo nos fundos do estabelecimento, a cabeça baixa, brincando com a pulseira que ela lhe dera. Ele parecia tão pequeno, apesar dos músculos e da altura.
— Junie — ela chamou suavemente.
Ele levantou o rosto. Os olhos estavam vermelhos e marejados. Assim que a viu, ele tentou se levantar, mas vacilou. Ara o segurou, sentindo o calor do corpo dele e o cheiro forte de soju e perfume.
— Você veio — ele murmurou, escondendo o rosto no pescoço dela. — Você sempre vem.
— Vamos para casa, Yeonjun.
No táxi de volta para o dormitório do TXT — que Ara sabia estar vazio porque os membros tinham um evento individual ou estavam dormindo — Yeonjun não soltou a mão dela. Ele entrelaçou os dedos nos dela com uma força quase desesperada.
— Desculpa — ele disse, já um pouco mais lúcido pelo choque do ar frio. — Eu não deveria ter bebido. Eu não deveria ter gritado.
— Eu também não — Ara admitiu, encostando a cabeça no ombro dele. — Eu uso o sarcasmo para me proteger, mas eu acabo te machucando no processo. Eu vou tentar ser melhor, Junie. Eu vou tentar ser mais... aberta. Mesmo que eu fique assustada.
Yeonjun virou-se para ela, os olhos agora focados.
— Eu não quero que você seja perfeita, Ara. Só quero que você esteja lá. Comigo. Mesmo quando a gente brigar.
— Eu estou aqui. Eu sempre estive.
Ao chegarem no prédio, Ara o ajudou a subir até o dormitório. Ela o levou até a cozinha, obrigando-o a beber dois copos grandes de água.
— Você vai ter uma ressaca horrível amanhã — ela comentou, limpando uma gota de água do queixo dele.
— Valeu a pena — ele sorriu, um sorriso fraco mas verdadeiro. — Ter você aqui cuidando de mim... eu senti falta disso.
Eles se sentaram no sofá da sala do TXT, a penumbra apenas quebrada pela luz da cidade que entrava pela vidraça. Yeonjun deitou a cabeça no colo de Ara, e ela começou a passar os dedos pelos cabelos dele, um gesto que sempre o acalmava.
— Ara? — ele chamou, quase pegando no sono.
— Oi?
— O Beomgyu e a Sora... eu vi eles na escada antes de sair. Eu acho que a gente não é mais o único casal secreto da HYBE.
Ara parou os movimentos por um segundo, surpresa, mas logo riu baixo.
— Aqueles dois? O mundo vai explodir em uma semana. Eles são puro caos.
— É — Yeonjun concordou, fechando os olhos. — Mas o caos deles é barulhento. O nosso... o nosso é silencioso. Como satélites.
— Durma, Junie. Eu não vou a lugar nenhum.
Ela ficou ali, velando o sono dele, sentindo o peso da responsabilidade e do amor. A briga tinha sido um lembrete necessário de que a relação deles não era apenas feita de flores e pulseiras de miçangas, mas de duas pessoas reais tentando navegar em um mar de expectativas impossíveis.
Horas depois, quando o sol começava a pintar o céu de laranja, Ara recebeu uma mensagem no grupo do Sweet Salad. Era de Sora.
"Gente, só para avisar: se virem o Beomgyu agindo como um idiota (mais do que o normal) perto de mim, é porque ele é meu namorado agora. Não façam perguntas. Não quero sentimentalismo."
Ara sorriu para a tela, olhando para Yeonjun que ainda dormia profundamente em seu colo. Ela tirou uma foto rápida do rosto relaxado dele e mandou apenas para o privado de Yeonjun, com a legenda: "Meu caos favorito. Para sempre."
Ela sabia que a estrada seria longa. Haveria mais brigas, mais ciúmes e mais momentos em que o mundo pareceria querer separá-los. Mas enquanto ela olhava para a pulseira no pulso dele, a mesma que ele se recusara a tirar mesmo bêbado e furioso, Ara percebeu que o medo não era mais seu inimigo.
O medo era apenas o sinal de que o que eles tinham era real demais para ser perdido. E, pela primeira vez em muito tempo, Ara não sentiu vontade de fazer uma piada para disfarçar. Ela apenas se inclinou, beijou a testa de Yeonjun e permitiu-se ser, simplesmente, a mulher que o amava. Sem escudos, sem máscaras, apenas Ara e seu satélite, finalmente em paz na mesma órbita.