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Ecos de Risos e o Calor do Batimento

O camarim do Music Bank estava um caos controlado. Cabides com roupas brilhantes, maquiadores correndo com pincéis e o som abafado de outros grupos ensaiando nos corredores criavam a sinfonia típica de um dia de comeback. No centro de tudo, sentados no chão em um canto menos movimentado, Ara e Yeonjun dividiam um pacote de salgadinhos e uma piada que ninguém mais entenderia.

— Eu estou te falando, Junie — Ara disse, tentando não rir com a boca cheia —, se o Soobin-oppa continuar fazendo aquela cara de "estou tentando ser sexy mas na verdade estou pensando em pão" durante o refrão, eu vou ter um colapso em rede nacional.

Yeonjun soltou uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás.

— Não seja cruel! Ele treinou aquela expressão no espelho por três horas. Ele chama de "o olhar do deserto".

— Deserto de carboidratos, só se for — ela rebateu, dando um empurrão de leve no ombro dele.

Quem olhasse de longe veria apenas dois idols da mesma empresa, melhores amigos de longa data, sendo o que sempre foram: caóticos e inseparáveis. Essa era a armadura perfeita. O público, os fãs e até alguns staffs mais distraídos compravam a narrativa da "amizade pura" porque a essência deles não tinha mudado. Mesmo que na noite anterior tivessem compartilhado beijos desesperados e promessas sussurradas sob lençóis, ali, sob a luz fluorescente, eles ainda eram os mesmos dois jovens que competiam para ver quem fazia a careta mais feia.

— Você tem um pouco de farelo bem aqui — Yeonjun disse, a voz suavizando por um milésimo de segundo.

Em vez de um gesto romântico de filme, ele simplesmente deu um peteleco no canto da boca dela, rindo quando ela tentou morder o dedo dele.

— Idiota — ela resmungou, mas seus olhos brilhavam.

Eles se amavam com uma intensidade térmica, sim. Havia uma tensão que muitas vezes parecia prestes a incendiar o palco. Mas, acima de tudo, eles gostavam de ser amigos. Gostavam de ver o crescimento um do outro, de comentar sobre as novas técnicas de dança e de serem o porto seguro onde o peso da fama não entrava. Ser namorado de Ara era incrível para Yeonjun, mas ser o melhor amigo dela era o que mantinha sua sanidade.

— Ei, pombinhos — a voz sarcástica de Sora cortou o momento.

Ela estava encostada na arara de roupas, observando-os com os braços cruzados. Sora era a personificação da confiança "quente" do Sweet Salad; ela exalava uma aura de quem sabia exatamente o poder que tinha.

— Não somos pombinhos, somos rivais de salgadinho — Ara respondeu, recuperando sua postura provocadora.

— Sei. E eu sou a fada do dente — Sora revirou os olhos. — Yeonjun, o Beomgyu está te procurando. Ele disse que precisa de ajuda com o microfone, mas acho que ele só quer uma desculpa para não ficar sozinho no corredor com o pessoal do staff.

Yeonjun se levantou, limpando as mãos na calça de couro — para o desespero de sua estilista — e ofereceu a mão para ajudar Ara a levantar.

— Te vejo no palco, "melhor amiga"? — Ele piscou.

— Se você não errar o giro, "melhor amigo" — ela retrucou.

Enquanto Yeonjun saía, Beomgyu apareceu na porta, mas ele não parecia estar com pressa. Seus olhos encontraram os de Sora, e a temperatura da sala pareceu subir alguns graus instantaneamente. A dinâmica entre os dois tinha evoluído de brigas infantis para algo muito mais perigoso. Beomgyu não era mais apenas o palhaço do grupo; ele tinha um brilho predatório e charmoso que Sora retribuía com uma audácia que deixaria qualquer um sem fôlego.

— Sora-noona — Beomgyu disse, a voz descendo um oitavo. — O fecho da minha jaqueta está travado. Você é boa com as mãos, não é?

Sora arqueou uma sobrancelha, um sorriso lento e perverso surgindo em seus lábios. Ela caminhou até ele, ignorando completamente o fato de Ara ainda estar ali.

— Sou ótima, Beomgyu. Mas você tem certeza de que quer que eu mexa nisso aqui? Posso acabar apertando demais.

— Eu corro o risco — ele murmurou, inclinando-se para frente.

Ara pigarreou alto, sentindo-se uma vela de proporções épicas.

— Eu ainda estou aqui, sabiam? Se vocês forem se engalfinhar, usem o depósito de limpeza como pessoas civilizadas.

Sora nem se deu ao trabalho de olhar para trás, apenas acenou com a mão enquanto puxava Beomgyu pelo braço para fora do camarim.

— Cuide da sua vida, Ara! — Sora gritou antes de desaparecer.

Ara suspirou, balançando a cabeça. O Sweet Salad e o TXT estavam se tornando um ninho de sentimentos mal resolvidos e tensões latentes. Ela caminhou até o espelho para retocar o batom, mas parou ao ver Nari e Huening Kai no fundo da sala.

Eles eram o oposto de Sora e Beomgyu. Não havia chamas ou provocações ácidas. Nari estava sentada com um fone de ouvido em uma orelha, e Kai segurava a outra extremidade do fio, com a cabeça inclinada na direção dela. Eles estavam em silêncio, apenas ouvindo a mesma música, compartilhando um mundo que parecia feito de algodão e luz de lua.

— Essa parte do violino... — Nari sussurrou, fechando os olhos. — Parece o jeito que o vento sopra no inverno em Jeju.

— Eu sinto o mesmo — Kai respondeu, a voz doce e profunda. — É uma melancolia bonita. Como se a música soubesse algo que a gente ainda não sabe explicar.

Ele olhou para ela com uma ternura tão pura que Ara sentiu um aperto no peito. Era óbvio que para eles, a amizade já tinha se transformado em algo mais profundo, algo que nenhum dos dois tinha coragem de nomear ainda por medo de quebrar a delicadeza do momento. Era um romance indie em meio ao caos do pop.

— Vocês dois são tão fofos que me dão cárie — Ara brincou, aproximando-se.

Nari abriu os olhos e sorriu, as bochechas ficando levemente rosadas.

— A gente só está ouvindo a demo da nova música do Kai, Ara.

— Sei. E eu e o Yeonjun só estamos discutindo a teoria da relatividade — Ara deu uma piscadinha. — Kai, cuida bem da nossa vocalista principal. Ela é sensível, mas se você magoar ela, eu te ensino a dançar break de um jeito bem doloroso.

Kai riu, aquele som cristalino que sempre acalmava a todos.

— Eu nunca faria isso, Ara-noona. A Nari-noona é... especial.

A chamada para o palco ecoou pelos alto-falantes. Era hora.

Nos bastidores, antes das cortinas subirem, a tensão profissional tomou conta. Sweet Salad e TXT se alinharam. Yeonjun se posicionou ao lado de Ara. No escuro, ele buscou a mão dela e deu um aperto rápido — um código secreto para "estou aqui".

— Pronta para brilhar? — ele sussurrou.

— Pronta para te ofuscar — ela respondeu no mesmo tom.

A performance de "Satellite Hearts" foi impecável. Para o público, a química era apenas o resultado de um treinamento exaustivo e de uma amizade de anos. Eles riam um para o outro durante as transições, faziam caretas rápidas quando as câmeras não estavam neles e mantinham a energia lá no alto. Era a perfeição da camuflagem: a verdade estava escondida à vista de todos, protegida pela amizade que era o alicerce de tudo.

Quando a música terminou e os aplausos estouraram, eles fizeram a reverência final. No fundo do palco, enquanto as luzes diminuíam, Yeonjun passou o braço pelos ombros de Ara, guiando-a para fora.

— Você quase caiu naquele giro final — ele provocou, voltando ao seu modo "melhor amigo" instantaneamente.

— Eu não caí, eu fiz um movimento interpretativo de vanguarda — ela rebateu, rindo e batendo na cintura dele. — Você que quase esqueceu de entrar no tempo da ponte porque estava olhando para o meu decote.

— Calúnia! Eu estava olhando para a coreografia. O fato de o seu figurino ser... interessante... é apenas um bônus técnico.

Eles continuaram a briga de mentira até chegarem à área de descanso, onde o resto dos grupos se reunia. Sora e Beomgyu chegaram logo depois, ambos com os cabelos levemente mais bagunçados do que quando saíram e com sorrisos de quem tinha ganhado na loteria.

— O que aconteceu com a sua jaqueta, Beomgyu? — Soobin perguntou, arqueando uma sobrancelha. — O fecho parece ainda mais torto.

— Problemas técnicos, líder — Beomgyu respondeu, lançando um olhar cúmplice para Sora, que apenas limpava o canto da boca com uma indiferença ensaiada.

— Problemas técnicos muito interessantes — Sora completou, piscando para Ara.

Nari e Kai vieram por último, caminhando devagar, ainda envoltos na aura de tranquilidade deles. Eles não disseram nada, mas o jeito como Kai segurava a garrafa de água de Nari e como ela se inclinava levemente na direção dele dizia tudo.

Naquela noite, após voltarem para a HYBE para o monitoramento, Ara e Yeonjun conseguiram um momento de paz no terraço do prédio. O vento frio de Seul soprava, mas eles estavam aquecidos por seus casacos e pela presença um do outro.

— Sabe o que eu estava pensando? — Ara disse, olhando para as luzes da cidade.

— No quanto eu sou um dançarino melhor que você? — Yeonjun chutou, sentando-se no banco de cimento.

— Não, convencido. Eu estava pensando que, mesmo se a gente não estivesse namorando... mesmo se a gente nunca tivesse voltado... eu ainda ia querer estar exatamente aqui, rindo de você.

Yeonjun ficou sério por um momento. Ele puxou Ara para sentar entre suas pernas, envolvendo-a em um abraço por trás, protegendo-a do vento.

— Eu também. O romance é ótimo, Ara. O "quente" é maravilhoso. Mas ter alguém que entende as minhas piadas estúpidas e que me xinga quando eu sou um idiota... isso é o que eu não posso perder.

Ara relaxou contra o peito dele, sentindo o batimento constante de Yeonjun.

— A gente é bom nisso, não é? — ela murmurou. — Em ser a gente mesmo.

— Somos os melhores — ele concordou, beijando o topo da cabeça dela. — Por isso ninguém desconfia. Eles acham que namorados precisam ser sérios e dramáticos o tempo todo. Eles não sabem que o segredo é ser um caos em dupla.

— Um caos em dupla — ela repetiu, sorrindo. — Gostei disso.

— Ara?

— Oi?

— Eu ainda acho que o seu movimento interpretativo de vanguarda foi um erro de equilíbrio.

Ara se virou nos braços dele, pegando uma das almofadas que estavam no banco e batendo na cara dele.

— Eu te odeio, Choi Yeonjun!

— Me ama tanto que fica assustada, você quer dizer — ele riu, segurando os pulsos dela e puxando-a para um beijo que começou com risadas e terminou com o silêncio confortável de quem finalmente encontrou seu lugar no mundo.

Lá embaixo, a vida de idols continuava. Beomgyu e Sora provavelmente estavam em algum canto escuro trocando provocações que queimavam mais que o sol. Kai e Nari talvez estivessem trocando playlists de músicas que falavam o que eles ainda não ousavam dizer. Mas ali no terraço, Ara e Yeonjun provavam que o maior disfarce para um grande amor não é o segredo, mas a amizade que o torna invencível.

Eles eram satélites, sim. Mas satélites que, além de orbitarem o mesmo planeta, adoravam rir do brilho um do outro enquanto ninguém estava olhando.