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Entre o Caos e o Batimento Cardíaco
O silêncio que se seguiu ao grito de Beomgyu no corredor foi preenchido apenas pelo som da respiração descompassada de Ara e pelo tique-taque suave do relógio na parede do quarto. O dormitório do Sweet Salad, que geralmente era um santuário de cores pastéis e cheiro de perfume floral, agora parecia o epicentro de uma zona de guerra diplomática.
Yeonjun ainda estava deitado sobre o peito de Ara, os ombros largos subindo e descendo enquanto ele tentava, sem sucesso, abafar o riso. A pele dele, quente e levemente úmida após os momentos intensos que compartilharam, brilhava sob a luz fraca do abajur. Ara, por outro lado, sentia o rosto arder em um tom de vermelho que faria inveja a qualquer tomate que Yeonjun tivesse tentado cortar na cozinha.
— Eles não vão embora, Junie — sussurrou ela, as mãos espalmadas contra os músculos definidos das costas dele. — O Beomgyu tem faro para o caos. Ele não vai sair daquela porta até ver a sua cara de culpado.
Yeonjun levantou o rosto, os olhos brilhando com uma mistura de adoração e travessura. Ele inclinou a cabeça, capturando o lábio inferior de Ara em um beijo rápido e estalado.
— Deixe que ele espere — murmurou ele, a voz rouca voltando a vibrar contra o pescoço dela. — Ele só está com inveja porque a Sora provavelmente deu um chute na canela dele em vez de um beijo de boa noite.
Lá fora, o som de passos e vozes abafadas continuava. Dava para ouvir a voz de Yuna, a líder do Sweet Salad, tentando colocar ordem no galinheiro.
— Beomgyu, saia da frente da porta da Ara! — Yuna ralhou, embora seu tom carregasse aquela exaustão típica de quem já sabia exatamente o que estava acontecendo. — E Soobin, por favor, leve o seu grupo de volta para o andar de cima antes que algum staff apareça no corredor.
— Mas Yuna-noona! — A voz de Beomgyu estava carregada de uma falsa indignação. — O cheiro de queimado é um risco à saúde pública! Como cidadão responsável e visual do TXT, eu exijo saber se o meu hyung favorito ainda tem todas as sobrancelhas!
Ara revirou os olhos, puxando o lençol para cobrir os ombros. Ela sentia a estrutura magra de seu corpo, com as curvas que Yeonjun tanto elogiava, perfeitamente encaixada sob o peso dele. Era um contraste que ela amava: a força bruta e estável dele contra a leveza dela.
— Eu vou matar ele — Ara declarou, embora estivesse sorrindo. — Eu vou fazer um colar de miçangas com os dentes do Beomgyu.
Yeonjun soltou uma gargalhada baixa, rolando para o lado e puxando Ara para o seu abraço. Ele a apertou contra si, sentindo a fragilidade aparente dela que escondia uma personalidade tão explosiva quanto um fogo de artifício.
— Você é tão assustadora quando quer, sabia? — Ele brincou, traçando o contorno da mandíbula dela com o polegar. — Mas agora, falando sério... o que a gente faz? Se eu sair agora, o interrogatório vai durar até o amanhecer.
Ara suspirou, fechando os olhos e aproveitando o carinho. O amadurecimento de Yeonjun era algo que ainda a pegava de surpresa. O "velho" Yeonjun teria ficado ansioso, talvez até irritado com a interrupção. O "novo" Yeonjun apenas aproveitava o momento, tratando a situação com uma calma que a ajudava a não surtar.
— A gente não faz nada — decidiu ela, abrindo um olho para encará-lo. — A gente fica aqui. Se eles entrarem, eu digo que você é um delírio coletivo causado pelo cansaço do ensaio de "Satellite Hearts".
— Um delírio bem musculoso, eu diria — ele provocou, flexionando o braço propositalmente para que ela sentisse o bíceps contra sua bochecha.
— Convencido — ela resmungou, mas não se afastou. — Mas você tem razão. Você está enorme. O que eles estão colocando na sua comida na empresa?
— Amor e dedicação — ele respondeu, voltando a ficar sério por um momento. — E a vontade de ser alguém que consiga te carregar no colo sempre que você decidir que está cansada demais para andar.
O clima no quarto mudou instantaneamente. A provocação deu lugar àquela vulnerabilidade crua que só existia entre os dois. Ara sentiu o coração apertar. Ela ainda tinha dificuldade em processar o quanto ele se importava com os pequenos detalhes agora. As luvas no inverno, as bebidas geladas no verão, o jeito como ele sempre verificava se ela estava bem alimentada... era um cuidado que ela nunca achou que merecesse.
— Junie... — Ela começou, mas a voz falhou.
— Eu sei — interrompeu ele, encostando o nariz no dela. — Você vai dizer que fica assustada com o quanto gosta de mim. Mas não precisa. Eu estou aqui para segurar o susto por você.
Um estrondo na cozinha, seguido pelo som de algo de metal caindo no chão, quebrou o momento romântico.
— AI! KAI, CUIDADO! — A voz de Nari ecoou. — Esse era o jogo de panelas novo da Yuna!
— Desculpa, Nari-noona! Eu só queria ver se o macarrão ainda era comestível! — Huening Kai respondeu, parecendo genuinamente arrependido.
Ara e Yeonjun se olharam e, simultaneamente, começaram a rir. Não era uma risada contida, mas uma gargalhada genuína que expulsou qualquer resquício de tensão romântica ou medo de serem descobertos.
— É impossível ser séria com vocês por perto — Ara disse, sentando-se na cama e procurando seu roupão. — Vamos lá. Se a gente não aparecer, eles vão acabar com o estoque de ramen do dormitório.
Yeonjun suspirou, levantando-se também. Ele vestiu a camiseta preta, que parecia ainda mais justa agora, revelando cada linha de seus treinos intensos. Ele observou Ara se levantar; ela era tão pequena comparada a ele, mas tinha uma presença que preenchia todo o ambiente.
— Você está linda — ele disse, simplesmente.
Ara parou com a mão na maçaneta, olhando para trás. Ela usava um roupão de seda por cima das roupas de baixo, os cabelos bagunçados e os lábios levemente inchados.
— E você está precisando de um banho e de uma aula de culinária — ela retrucou, recuperando sua fachada provocadora. — Mas eu aceito o elogio.
Quando abriram a porta, o cenário na sala era digno de um reality show de comédia. Beomgyu estava sentado no balcão da cozinha, balançando as pernas e comendo um salgadinho. Sora, a rapper sarcástica do Sweet Salad, estava encostada na parede com os braços cruzados, trocando olhares de puro deboche com Beomgyu. Yuna e Soobin tentavam limpar a bagunça que Yeonjun deixou no fogão, enquanto Kai e Nari dividiam um copo de suco em um canto, conversando sobre alguma playlist nova.
O silêncio caiu sobre o grupo assim que o casal apareceu.
— Ora, ora — começou Beomgyu, limpando o farelo de salgadinho da camiseta. — O fantasma do dormitório resolveu aparecer. E trouxe companhia.
— Cale a boca, Beomgyu — disse Yeonjun, caminhando até a cozinha com uma confiança que ele não tinha há dez minutos. Ele passou o braço pelos ombros de Ara, puxando-a para perto na frente de todos. — Sim, eu estava aqui. Sim, o jantar queimou. E não, eu não me arrependo de nada.
Um coro de "Uuuuuuuh!" ecoou pela sala. Sora soltou uma risadinha seca.
— Finalmente admitiu, hein, Romeu? — Ela olhou para Ara. — E você, pequena caótica? Vai continuar fingindo que ele é só seu personal trainer de beijos?
Ara sentiu a provocação de Sora e, em vez de se fechar, resolveu entrar no jogo. Ela se soltou de Yeonjun, caminhou até a geladeira, pegou uma garrafa de água e deu um gole demorado sob os olhares atentos de todos.
— Ele não é meu personal trainer — disse ela, limpando o canto da boca com as costas da mão. — Ele é o meu assistente de cozinha fracassado. Mas ele compensa em outras áreas.
O rosto de Yeonjun ficou subitamente vermelho, e o TXT explodiu em gargalhadas, enquanto as meninas do Sweet Salad trocavam olhares de choque.
— Ara! — Yuna exclamou, embora estivesse rindo. — Discrição! Lembra da palavra?
— Discrição é para quem não tem um namorado que fica bonito até com cheiro de molho de tomate queimado — Ara deu de ombros, piscando para Yeonjun.
Yeonjun balançou a cabeça, escondendo o rosto entre as mãos por um segundo antes de olhar para ela com um amor tão evidente que até o sarcástico Beomgyu ficou em silêncio por um momento.
— Eu não sei como eu aguento você — ele murmurou, aproximando-se dela novamente.
— Você aguenta porque me ama — ela respondeu, esticando-se nas pontas dos pés para sussurrar no ouvido dele: — E porque eu sou a única que sabe como fazer você ficar com essa cara de bobo.
O resto da noite foi uma mistura de caos e comunhão. Os dois grupos acabaram pedindo frango frito, espalhando-se pelo chão da sala de estar do Sweet Salad. A tensão inicial de esconder o relacionamento tinha se dissipado, substituída por uma aceitação confortável. Todos sabiam, e o fato de saberem parecia ter tirado um peso enorme dos ombros de Yeonjun.
Enquanto os outros discutiam sobre a coreografia de "Satellite Hearts" e as próximas promoções, Yeonjun e Ara estavam sentados no sofá, um pouco afastados. Ele segurava a mão dela por baixo de uma almofada, os dedos entrelaçados de um jeito que ninguém mais via.
— Você está bem? — Ele perguntou em voz baixa, observando-a.
Ara olhou para os amigos, para as integrantes que eram como suas irmãs, e depois para o homem ao seu lado. Ela pensou em como, meses atrás, eles mal conseguiam se olhar sem sentir dor. Pensou nas piadas que usava como escudo e no medo que sentia de se entregar novamente.
— Estou — disse ela, e pela primeira vez, não havia nenhuma ironia ou piada escondida. — Na verdade, eu estou ótima.
— Mesmo com o Beomgyu planejando contar para o manager amanhã? — Ele brincou.
— Se ele contar, eu conto para o Soobin que foi o Beomgyu quem quebrou o fone de ouvido caro dele na semana passada — ela respondeu prontamente.
Yeonjun riu, apertando a mão dela.
— É, você definitivamente tem tudo sob controle.
— Eu sempre tenho, Junie. Só demorei um pouco para perceber que o controle incluía deixar você entrar de novo.
Eles ficaram ali, assistindo ao caos de seus grupos, dois ídolos no topo de suas carreiras, vivendo um amor secreto que já não era tão secreto assim entre quatro paredes. A indústria podia ser cruel, os fãs podiam ser intensos e a rotina podia ser exaustiva, mas ali, naquele dormitório bagunçado com cheiro de frango frito e molho queimado, tudo parecia certo.
Ara encostou a cabeça no ombro de Yeonjun, sentindo o calor de seus músculos e a firmeza de sua presença. Ela ainda era caótica, ele ainda era o protetor estável, e a música deles ainda estava sendo escrita. Mas, pela primeira vez em muito tempo, ela não sentia necessidade de fugir.
— Às vezes eu gosto tanto de você que fico meio assustada — ela repetiu, quase em um suspiro.
— E às vezes eu gosto tanto de você que o resto do mundo parece pequeno demais — ele respondeu, beijando o topo da cabeça dela.
Lá fora, a neve começava a cair silenciosamente sobre Seul, mas dentro do dormitório, o inverno nunca pareceu tão quente. O Satellite Hearts tinha finalmente encontrado sua órbita, e desta vez, nada seria capaz de tirá-los do curso.