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Ecos entre Batidas e Segredos

A manhã seguinte ao pequeno "incidente culinário" no dormitório do Sweet Salad trouxe consigo uma luz de inverno pálida e o som persistente de notificações de mensagens. Ara estava enterrada sob três camadas de edredom, tentando ignorar o fato de que o mundo real exigia sua presença na sala de prática da HYBE em menos de uma hora.

O cheiro de café passado começou a invadir o quarto, seguido pelo som de passos leves. A porta se abriu com um rangido suave e Sora entrou, segurando uma caneca de cerâmica preta. Ela se sentou na beirada da cama de Ara com a elegância de um gato e a paciência de um interrogador profissional.

— Acorda, Bela Adormecida. Ou devo dizer, "Bela que incendeia cozinhas"? — Sora deu um gole no café, observando o monte de cobertas se mexer.

— Vai embora, Sora. Eu estou em coma induzido — a voz de Ara saiu abafada, mas carregada de sua habitual ironia.

— O seu "coma" tem nome, sobrenome e ombros que ocupam dois assentos no ônibus da empresa — Sora rebateu, puxando o edredom com força. — O grupo inteiro está na sala, a Yuna está tentando convencer a Nari de que não, o Yeonjun não vai ser demitido por queimar um tomate, e o Beomgyu mandou três fotos de vocês dois saindo do quarto ontem à noite no grupo secreto que ele criou.

Ara sentou-se num solavanco, o cabelo escuro em um ninho de pássaros glorioso.

— Ele fez o quê? Aquele pirralho... eu vou arrancar as cordas da guitarra dele!

— Relaxa. O grupo é só entre nós e os meninos do TXT. Ele chama "Operação: Como Não Deixar a Ara e o Yeonjun Serem Presos pela Staff" — Sora riu, levantando-se. — Anda, toma banho. Temos ensaio de "Satellite Hearts" com eles hoje. E se você agir como uma adolescente apaixonada na frente do coreógrafo, eu mesma te entrego para o Bang PD.

Ara bufou, mas o sorriso que tentava esconder floresceu em seus lábios. Ela se levantou, sentindo o corpo leve. A noite anterior tinha sido um divisor de águas. Não havia mais a barreira da "amizade forçada". Eles eram deles, e o mundo, embora perigoso, parecia menor diante daquela certeza.

***

A sala de prática 4 da HYBE estava gelada, mas o clima esquentou no momento em que os dois grupos se encontraram. O Sweet Salad estava terminando o aquecimento quando o TXT entrou.

Yeonjun foi o último a passar pela porta. Ele usava calças de moletom cinza e uma regata branca que deixava seus braços definidos e as veias dos antebraços em evidência — o resultado óbvio de horas extras na academia e ensaios exaustivos. Seus olhos percorreram a sala imediatamente até encontrarem Ara.

Ele não sorriu abertamente, mas a inclinação de sua cabeça e o brilho intenso em seu olhar foram o suficiente. Ara, fiel ao seu estilo caótico, simplesmente mostrou a língua para ele antes de voltar a fazer um espacate perfeito.

— Muito bem, pessoal! — gritou o coreógrafo, batendo palmas. — Vamos passar a transição da ponte de "Satellite Hearts". Ara, Yeonjun, para o centro. Lembrem-se: a música é sobre atração gravitacional. Vocês tentam fugir, mas o corpo de vocês não obedece. Quero tensão. Quero drama.

Os dois se posicionaram. A música começou com um sintetizador melancólico e profundo.

Ara focou. Quando ela dançava, a menina brincalhona e provocadora desaparecia, dando lugar a uma performer cuja intensidade era quase palpável. Ela se moveu em direção a Yeonjun, seus corpos se cruzando em movimentos fluidos e precisos.

Em um momento da coreografia, Yeonjun precisava segurá-la pela cintura e girá-la enquanto ela se inclinava para trás. O toque dele foi firme, quente, e por um segundo, o profissionalismo de Ara vacilou. Ela sentiu a palma da mão dele contra sua pele, através do tecido fino de seu top, e o perfume dele — aquele cheiro de sândalo e esforço — a atingiu em cheio.

Quando ele a trouxe de volta para o eixo, seus rostos ficaram a centímetros de distância. A respiração de Yeonjun estava pesada, e ele a olhou não como um colega de trabalho, mas como o homem que, horas antes, a segurava sob os lençóis.

— Você está profissional demais hoje — ele sussurrou, tão baixo que só ela ouviu, enquanto a música fazia uma pausa dramática.

— E você está suado demais — ela retrucou, o canto da boca subindo em um desafio. — Foca na dança, Choi.

— Estou focando no meu mundo inteiro, Ara — ele respondeu, antes de girá-la novamente para a próxima sequência.

No canto da sala, os outros integrantes assistiam com níveis variados de entretenimento. Beomgyu estava sentado ao lado de Sora, ambos com expressões idênticas de "eu sei o que vocês fizeram no verão passado".

— Se eles chegarem mais perto, vão fundir os átomos — comentou Beomgyu, cutucando Sora com o cotovelo.

— Pela primeira vez na vida, eu concordo com você — Sora suspirou, fingindo tédio. — A Ara é péssima em esconder as coisas. Olha como ela tenta não sorrir quando ele toca o ombro dela. Patético. E adorável. Mas principalmente patético.

— Você só diz isso porque não quer admitir que gosta quando eu te provoco assim também — Beomgyu lançou um olhar de soslaio, um sorriso ladino brincando em seu rosto.

Sora virou o rosto lentamente para ele, os olhos semicerrados.

— Beomgyu, se você tentar qualquer movimento de "atração gravitacional" comigo, eu garanto que a única coisa que vai entrar em órbita é a sua cabeça depois que eu te chutar.

— Viu? — Beomgyu riu, sem se abalar. — Tensão romântica pura.

Enquanto isso, Kai e Nari estavam em seu próprio mundo, dividindo um par de fones de ouvido e discutindo a letra da música.

— Eu acho que a ponte devia ser mais suave, sabe? — Nari disse, os olhos brilhando. — Como um sussurro que você não quer que ninguém ouça.

— Exatamente — Kai concordou, oferecendo a ela um pedaço de chocolate que ele tinha escondido no bolso. — Como o jeito que o Yeonjun-hyung olha para a Ara-noona quando ele acha que ninguém está vendo.

***

O ensaio terminou três horas depois. O suor escorria pelos rostos de todos, e o cansaço começava a pesar. O coreógrafo os liberou para uma pausa de quinze minutos.

Ara caminhou até o canto da sala para pegar sua garrafa de água, mas sentiu uma mão envolver seu pulso. Yeonjun a puxou para trás de um dos divisores acústicos móveis que ficavam no fundo da sala, longe da visão direta das câmeras e dos outros.

— Ei! — Ela exclamou, mas foi silenciada quando ele a prensou levemente contra a parede fria.

— "Assistente de cozinha fracassado", é? — Ele perguntou, os olhos escuros e cheios de uma diversão perigosa.

Ara riu, tentando recuperar o fôlego.

— Foi a melhor definição que encontrei para alguém que queima molho de tomate pré-pronto, Junie.

— Eu deveria te punir por me desrespeitar na frente dos meus dongsaengs — ele murmurou, aproximando o rosto do pescoço dela. O calor que emanava dele era quase insuportável, mas Ara não queria se afastar.

— Ah, é? E como você planeja fazer isso? — Ela desafiou, passando os braços pelos ombros dele, sentindo o suor umedecer suas mãos.

Yeonjun parou a centímetros dos lábios dela. Ele podia sentir o coração de Ara batendo freneticamente contra o peito dele. Ele amava como, apesar de toda a bravura e das piadas, ela ainda reagia a ele com aquela intensidade crua.

— Planejo te fazer admitir, sem nenhuma piada, que você adorou o jantar. Mesmo queimado.

— Nunca — ela sussurrou, fechando os olhos quando sentiu o nariz dele roçar o seu.

— Ara... — a voz dele ficou séria, carregada de uma ternura que sempre desarmava as defesas dela. — Obrigado por ontem. Por me deixar ficar. Por não fugir.

Ara abriu os olhos. A vulnerabilidade de Yeonjun era o que ela mais temia, porque a obrigava a ser vulnerável também. Ela soltou um suspiro longo, deixando a cabeça pender no ombro dele.

— Eu tentei fugir, sabia? — confessou ela, a voz baixa. — Na minha cabeça, eu já tinha dez rotas de fuga ensaiadas. Mas aí você me olhou daquele jeito... e eu percebi que não tinha para onde ir. Porque nenhum lugar é tão bom quanto onde você está.

Yeonjun a apertou com mais força, escondendo o rosto no cabelo dela.

— Eu nunca vou te dar um motivo para querer fugir de novo. Eu prometo.

O momento foi interrompido pelo som de uma gargalhada escandalosa vinda do outro lado da sala.

— EU SABIA! — O grito de Beomgyu ecoou. — EU VI UM PÉ! EU VI O PÉ DO YEONJUN ATRÁS DO PAINEL! SOOBIN-HYUNG, ELES ESTÃO SE PEGANDO DE NOVO!

Ara se afastou de Yeonjun com um pulo, o rosto pegando fogo. Yeonjun soltou um rosnado de frustração, passando a mão pelo cabelo.

— Eu vou matar o Beomgyu — disse Yeonjun, com uma calma assustadora. — Desta vez é sério. Eu vou enterrar ele no jardim da empresa.

— Deixa ele — Ara riu, ajeitando a roupa. — Ele só está fazendo isso porque é o único jeito dele lidar com o fato de que o hyung favorito dele agora tem uma dona.

— Uma dona, é? — Yeonjun sorriu, a confiança voltando ao seu rosto. — Gostei disso.

Eles saíram de trás do painel. Beomgyu estava apontando para eles com um sorriso de orelha a orelha, enquanto Soobin tentava, sem sucesso, escondê-lo atrás de si para evitar que Yeonjun o atacasse. Yuna estava sentada no chão, massageando as têmporas.

— Podemos, por favor, terminar o ensaio sem nenhum homicídio ou declaração pública de amor? — Yuna pediu, exausta. — Eu só quero ir para casa e dormir sem cheiro de queimado no meu nariz.

— Combinado — disse Ara, caminhando até o centro da sala com uma energia renovada. — Mas só se o Beomgyu parar de agir como se tivesse cinco anos.

— Cinco anos e meio! — corrigiu Beomgyu, piscando para ela.

O ensaio prosseguiu, mas algo tinha mudado. A tensão de "Satellite Hearts" não era mais apenas uma atuação técnica. Era real. Cada olhar trocado entre Ara e Yeonjun contava uma história de dois planetas que, após anos vagando no escuro, finalmente tinham encontrado seu centro de gravidade.

Ao final do dia, enquanto o Sweet Salad se preparava para sair, Yeonjun conseguiu interceptar Ara na porta por um último segundo. Ele entregou a ela um pequeno bilhete dobrado.

— O que é isso? — ela perguntou, guardando-o no bolso do casaco.

— O menu do jantar de amanhã — ele piscou. — E desta vez, eu prometo não queimar nada. A menos que você me distraia de novo.

— Eu vou fazer o meu melhor para te distrair, Choi Yeonjun — ela provocou, saindo em direção à van do grupo.

Dentro da van, Ara abriu o bilhete. Não era um menu.

*"Às vezes eu gosto tanto de você que perco o fôlego. E eu não tenho medo nenhum disso. Durma bem, minha estrela."*

Ara sorriu, encostando a cabeça na janela gelada enquanto a van cortava as ruas iluminadas de Seul. Ela sabia que o caminho à frente seria difícil — o sigilo, a pressão, os boatos. Mas, pela primeira vez em sua vida, ela não estava apenas sobrevivendo à órbita. Ela estava aproveitando a viagem.

— Por que você está com essa cara de boba, Ara? — Riku perguntou, espiando por cima do ombro dela.

— Nada — respondeu Ara, fechando os olhos e sentindo o peso do anel de namoro sob a luva que Yeonjun tinha lhe dado. — Só estou pensando que, às vezes, o caos é exatamente o que a gente precisa para encontrar a ordem.

— Profundo — comentou Riku, voltando a jogar no celular. — Mas se o Yeonjun-oppa queimar a nossa cozinha de novo, eu vou cobrar o prejuízo de você.

Ara riu. O amor podia ser assustador, mas com Yeonjun e aquele grupo de malucos ao seu redor, ela sentia que podia enfrentar qualquer tempestade espacial. Afinal, corações de satélite nunca colidem por acaso; eles sempre sabem exatamente onde é o seu lugar.