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You hate me?

O Reflexo no Vidro e a Máscara Quebrada

Dois dias haviam se passado desde a tarde na sorveteria, mas para Sua, o tempo parecia ter estagnado naquela fração de segundo em que Mizi apertou sua mão. Na escola, a rotina era um ciclo implacável de aulas de álgebra, simulados e o burburinho incessante dos corredores. O grupo de amigos ocupava sua mesa cativa no pátio durante o intervalo, um território demarcado por mochilas jogadas e embalagens de doces de Ivan.

— Eu estou dizendo, Till, se você colocar mais um bottom de banda emo nessa mochila, ela vai criar vida e começar a recitar poesia depressiva no meio da aula de história — Ivan provocou, mastigando um chiclete de morango com a boca aberta.

— Pelo menos minha mochila tem personalidade, ao contrário do seu cérebro, que é só vácuo e açúcar — Till retrucou, sem desviar os olhos do papel onde tentava finalizar um esboço rápido. Seus dedos estavam manchados de grafite, e o cabelo cinza parecia ainda mais caótico sob a luz forte do meio-dia.

Luka estava sentado ao lado de Hyuna, fingindo revisar algumas anotações de biologia, embora sua atenção estivesse totalmente voltada para o modo como Hyuna gesticulava enquanto contava sobre um novo jogo que estava jogando.

— E aí o boss final simplesmente resetou a barra de vida! — Hyuna exclamou, indignada. — Luka, você que entende de lógica, me explica como isso é justo.

— Bem... — Luka ajeitou os óculos, aproveitando a chance de falar com ela. — Jogos do tipo *souls-like* são projetados para punir a hybris do jogador. É uma questão de padrão e paciência, Hyuna. Se você quiser, eu posso te ajudar a mapear os movimentos dele hoje à noite.

Hyuna sorriu, dando um tapinha amigável no ombro dele.

— Você é um gênio, Luka!

Mizi, sentada entre Sua e Hyuna, observava a interação com um sorriso divertido. Seus olhos amarelos brilhavam, refletindo a vivacidade de sempre. Ela parecia alheia ao fato de que, a poucos metros dali, um grupo de garotos do terceiro ano B sussurrava e empurrava um deles em sua direção.

Sua, como sempre, notou primeiro. Ela sentiu o estômago contrair. A melancolia que a acompanhava era como uma névoa densa, e ver mais um pretendente se aproximar de Mizi era como ver a mesma cena de um filme de terror repetida à exaustão.

O garoto, um jogador de basquete chamado Leo, aproximou-se da mesa com um sorriso que ele claramente achava ser irresistível.

— Oi, Mizi — disse ele, ignorando o restante do grupo como se fossem apenas parte da mobília. — Eu estava pensando... Vai ter aquela festa na casa do diretor de esportes na sexta. Eu tenho um lugar vago no meu carro. O que você acha de ir comigo?

Mizi suspirou, um som quase imperceptível, mas que Sua captou perfeitamente. O sorriso de Mizi não vacilou, mas seus olhos perderam um pouco do brilho.

— Poxa, Leo, obrigada pelo convite — Mizi começou, usando aquele tom de voz gentil que ela reservava para as rejeições educadas. — Mas eu já combinei de passar a noite com o pessoal aqui. Sabe como é, último ano, queremos aproveitar cada...

— Ah, qual é, Mizi? — Leo interrompeu, cruzando os braços. — Você sempre diz não. Todo mundo sabe que você não sai com ninguém da escola. Qual é o problema? Você é areia demais pro caminhão de todo mundo ou só está esperando um príncipe encantado que não existe?

O clima na mesa pesou instantaneamente. Till parou de desenhar, os olhos verdes faiscando de irritação. Ivan parou de mascar o chiclete, e Luka fechou o caderno.

— Escuta aqui, ô projeto de armário — Till começou a se levantar —, ela já disse não. Precisa de um desenho ou quer que eu soletre?

Antes que a briga escalasse, uma voz nova, fria e melodiosa, cortou o ar como uma lâmina de gelo.

— É fascinante como a audácia masculina cega a percepção básica, não é?

Todos se viraram. Caminhando lentamente em direção à mesa estava uma garota que parecia ter saído de um conto de fadas de inverno. Vianna, do segundo ano. Ela era pálida, quase etérea, com cabelos brancos que caíam em ondas perfeitas sobre os ombros e cílios da mesma cor que emolduravam olhos azuis cristalinos. Ela era pequena, mas sua presença preenchia o espaço de forma esmagadora.

Leo franziu a testa, confuso.

— O quê? Quem é você?

Vianna parou ao lado de Mizi, ignorando Leo completamente. Ela olhou para a garota de cabelos rosa com uma intensidade que fez Sua prender a respiração.

— Você gasta tanto tempo e saliva tentando entender o porquê dela recusar cada convite, cada tentativa medíocre de romance — Vianna disse, sua voz ganhando um tom de autoridade calma. — Mas a resposta está escrita em cada gesto dela, em cada olhar de desinteresse que ela lança para vocês. Não é óbvio?

O grupo de amigos trocou olhares confusos. Ivan sussurrou para Till:

— Do que ela está falando?

Vianna deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Mizi. Ela estendeu a mão e, com uma delicadeza calculada, tocou o queixo de Mizi, levantando o rosto dela para que seus olhos se cruzassem.

— Ela não está esperando um príncipe — Vianna declarou, olhando para Leo por cima do ombro, mas mantendo a mão no queixo de Mizi. — Ela recusa vocês porque o que vocês oferecem nunca será o que ela deseja. Mizi é lésbica. E eu tenho absoluta certeza disso.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Era como se o som de toda a escola tivesse sido silenciado por um feitiço.

Leo soltou uma risada nervosa, olhando para os lados.

— O quê? Tá viajando, garota? A Mizi? Não viaja. Ela tem cara de ser a garota mais hétero dessa escola. Olha para ela!

Ivan, que raramente ficava sem palavras, soltou um riso curto.

— É, Vianna, acho que você se confundiu. A Mizi é... bem, ela é a Mizi. Ela só é exigente.

Till assentiu, embora parecesse desconfortável. Luka e Hyuna permaneciam em silêncio, observando a cena com cautela. Sua, no entanto, sentia o coração martelar contra as costelas. Ela olhava para Mizi, esperando a negação costumeira, a risada leve que diria "imagina, que ideia!".

Mas Mizi não riu.

Vianna, ainda segurando o queixo de Mizi, inclinou-se levemente. Seus olhos azuis brilhavam com uma astúcia predatória, mas suave.

— As pessoas veem apenas o que a superfície permite — Vianna murmurou, a voz baixa o suficiente para ser um segredo, mas alta o suficiente para que todos na mesa ouvissem. — Mas eu vejo o fogo que você esconde sob essa doçura toda. Você é muito bonita para perder tempo com quem não entende a complexidade do seu brilho, Mizi.

Vianna deu um sorriso de canto, um flerte passivo, mas carregado de uma confiança que ninguém ali jamais ousara ter com a "deusa" da escola.

— Se algum dia você se cansar de dar desculpas para garotos que não conseguem te enxergar de verdade... você sabe onde me encontrar.

O que aconteceu em seguida foi o que ninguém — nem mesmo Sua, que a observava há quatro anos — imaginou ser possível.

Mizi, a garota que sempre tinha uma resposta pronta, que sempre mantinha o controle da situação com um sorriso sedutor e inabalável, sentiu o sangue subir ao rosto. Um rubor rosado, profundo e inegável, espalhou-se por suas bochechas. Ela desviou o olhar dos olhos azuis de Vianna, fixando-o em um ponto qualquer na mesa, enquanto uma mecha de seu cabelo rosa caía sobre o rosto.

Ela não negou. Ela não riu. Ela apenas... corou.

Vianna soltou o queixo dela, deu um aceno leve com a cabeça para o grupo atônito e saiu caminhando com a mesma elegância gélida com que chegara.

Leo, sentindo-se humilhado e confuso, resmungou algo sobre "garotas esquisitas" e se retirou rapidamente.

Na mesa, o silêncio era ensurdecedor.

Ivan foi o primeiro a quebrar o transe. Sua boca estava literalmente aberta.

— Mizi... — ele começou, a voz falhando. — Aquilo... aquilo foi... o quê?

Till olhava para Mizi com uma expressão de choque puro. Era como se o chão sob seus pés tivesse desaparecido. Ele sempre soube que Mizi era inalcançável, mas a ideia de que ela poderia habitar um universo de desejos onde ele sequer tinha um passaporte era um golpe que ele não sabia como processar.

Hyuna arqueou as sobrancelhas, trocando um olhar rápido com Luka, que parecia estar recalculando toda a sua compreensão da dinâmica social do grupo.

Sua, por outro lado, sentia-se como se tivesse sido atingida por um raio. O mundo ao seu redor parecia estar se desintegrando e se reconstruindo em uma nova configuração. Mizi... lésbica? A possibilidade que Sua sempre descartou como um sonho impossível, um delírio de sua própria mente apaixonada, havia sido jogada sobre a mesa por uma estranha de cabelos brancos.

E a reação de Mizi... aquele rubor...

— Mizi? — a voz de Sua saiu baixa, trêmula.

Mizi finalmente levantou a cabeça. O rubor ainda estava lá, mas ela tentava recuperar a compostura. Ela passou a mão pelo cabelo, soltando uma risada nervosa que não soava nem um pouco como a sua risada habitual.

— Uau — disse Mizi, a voz um pouco mais aguda que o normal. — Aquela garota é... intensa, não é?

— Mizi — Hyuna disse, inclinando-se para frente, a expressão séria, mas curiosa. — Ela disse aquilo com muita certeza. E você... você não disse que ela estava errada.

Mizi olhou para os amigos. Ela viu o choque de Ivan, a dor contida de Till, a confusão de Luka e, finalmente, os olhos roxos e marejados de Sua.

— Eu... — Mizi começou, mas as palavras pareceram travar em sua garganta. Ela olhou para as próprias mãos. — Eu nunca disse que ela estava errada, Hyuna.

O impacto daquelas palavras foi físico. Till soltou o lápis, que rolou pela mesa e caiu no chão. Ivan engoliu o chiclete.

— Espera — Ivan exclamou, gesticulando freneticamente. — Então, todos esses anos... todos os caras que você deu fora... não era porque você era "exigente"?

Mizi deu de ombros, um gesto pequeno e vulnerável.

— Eu não gosto de rótulos, Ivan. Mas... eu nunca senti nada por nenhum deles. E aquela garota, Vianna... ela tem uma percepção assustadora.

Sua sentiu uma mistura violenta de alívio e pavor. Alívio porque o obstáculo que ela achava ser intransponível — a heterossexualidade de Mizi — acabara de ser implodido. Pavor porque agora, a competição era real. Vianna havia feito em dois minutos o que Sua não tivera coragem de fazer em quatro anos: ela havia visto Mizi. De verdade.

— Você está bem, Sua? — Mizi perguntou, voltando sua atenção para a amiga.

Sua piscou, tentando afastar as lágrimas que ameaçavam cair.

— Estou. Só estou... surpresa.

— Todos estamos — Luka comentou, tentando aliviar a tensão. — Mas, no final das contas, Mizi é a Mizi. Nada muda entre nós, certo?

— Claro que não! — Hyuna disse prontamente, embora ainda olhasse para Mizi com um novo tipo de respeito. — Só significa que agora temos que proteger a Mizi de garotas misteriosas de cabelos brancos também.

Mizi riu, e desta vez a risada foi um pouco mais genuína, embora o constrangimento ainda pairasse sobre ela.

— Eu não preciso de proteção, Hyuna. Mas obrigada.

O sinal tocou, anunciando o fim do intervalo. O grupo começou a se levantar, mas o clima era diferente. Havia uma eletricidade nova no ar, uma tensão que não existia antes.

Till saiu na frente, caminhando rápido, claramente precisando de espaço para processar o fato de que seu amor platônico não era apenas impossível por causa de sua personalidade, mas por uma questão fundamental de identidade. Ivan correu atrás dele, tentando, sem sucesso, fazer alguma piada para quebrar o gelo.

Luka e Hyuna seguiram logo atrás, conversando em voz baixa.

Sua e Mizi ficaram por último. Enquanto guardavam suas coisas, o silêncio entre elas era denso, carregado de tudo o que não havia sido dito.

— Sua — Mizi chamou, quando estavam prestes a sair do pátio.

— Sim?

Mizi parou e olhou para ela. O sol batia em seus cabelos rosa e azul, criando uma aura quase divina ao seu redor.

— Você... você também achava que eu era "super hétero"? — Mizi perguntou, um sorriso tímido e um pouco triste brincando em seus lábios.

Sua sentiu o coração apertar. Ela queria dizer a verdade. Queria dizer que passava noites em claro desejando que Mizi não fosse, mas que nunca teve coragem de acreditar que seus desejos poderiam ser realidade.

— Todo mundo achava, Mizi — Sua respondeu, a voz firme apesar do tremor interno. — Você é muito boa em esconder as coisas atrás desse brilho todo.

Mizi deu um passo para mais perto, o perfume de morango novamente envolvendo Sua.

— Talvez eu não queira mais esconder tanto — Mizi sussurrou. — Aquela garota... ela me pegou de surpresa. Foi estranho ser "vista" assim, de repente.

Sua sentiu uma pontada de ciúme, aguda e dolorida.

— Ela foi invasiva — Sua disse, o tom frio voltando a proteger suas emoções.

— Foi — Mizi concordou, mas seus olhos amarelos brilharam com algo que Sua não conseguiu identificar. — Mas foi honesto. E eu acho que eu precisava de um pouco de honestidade.

Mizi passou o braço pelos ombros de Sua, como fazia sempre, mas agora o gesto parecia ter um peso diferente. Para Sua, não era mais apenas o contato de uma amiga "gente boa". Era o contato de uma mulher que gostava de mulheres. E essa pequena mudança de perspectiva mudava tudo.

Enquanto caminhavam para a sala de aula, Sua olhou para o perfil de Mizi. A máscara de perfeição havia rachado, e o que havia por baixo era mais humano, mais confuso e, para Sua, infinitamente mais atraente.

O 3º ano havia acabado de se tornar muito mais complicado. E enquanto o sol continuava a brilhar sobre a escola, Sua sabia que o silêncio não seria mais o seu único refúgio. Agora, ela tinha um novo inimigo: a possibilidade. E a possibilidade era muito mais assustadora do que a certeza da derrota.