You hate me?
O Labirinto de Vidro e a Sedução do Caos
A notícia se espalhou pelos corredores da escola como um rastro de pólvora em um campo seco. Ninguém sabia exatamente quem havia dado o primeiro passo — se fora o ego ferido de Leo, se fora a própria Vianna comentando com alguém, ou se as paredes daquele colégio tinham ouvidos para segredos tão suculentos. O fato era que, na manhã seguinte, a aura de "garota hétero inalcançável" de Mizi havia sido oficialmente demolida.
E o resultado foi o caos absoluto.
Se antes Mizi já era o centro das atenções, agora ela parecia um ímã que atraía não apenas os olhares curiosos de sempre, mas uma onda de garotas que, até então, mantinham distância por medo da rejeição óbvia. O corredor do terceiro ano parecia um desfile de moda e intenções ocultas.
— Mizi, você viu o que postaram no fórum da escola? — Ivan perguntou, enfiando um punhado de balinhas de canela na boca enquanto tentava desviar de um grupo de meninas do segundo ano que cercavam o armário deles. — Eles estão fazendo uma enquete sobre quem vai ser a primeira a conseguir um encontro com você.
— Eu vou quebrar o celular de quem fez isso — Till resmungou, encostado nos armários com os braços cruzados. Ele parecia mais irritado do que o normal, se é que isso era possível. Seus olhos verdes disparavam raios para qualquer um que se aproximasse demais.
Mizi, por sua vez, parecia genuinamente atordoada. Ela estava encostada no armário, segurando seus livros contra o peito, enquanto três garotas diferentes tentavam puxar assunto ao mesmo tempo.
— Gente, eu... eu agradeço os elogios, de verdade — Mizi dizia, o sorriso gentil começando a vacilar sob a pressão. — Mas eu realmente preciso ir para a aula agora. Podemos conversar depois?
— Depois quando, Mizi? — uma das garotas perguntou, enrolando uma mecha de cabelo no dedo. — Pode ser no intervalo?
— É, eu prometo que converso com cada uma de vocês depois! — Mizi exclamou, aproveitando uma brecha entre as mochilas para escapar. — Vejo vocês por aí!
Ela não esperou resposta. Mizi disparou pelo corredor, dobrando esquinas com uma agilidade que deixaria qualquer atleta com inveja. Seu destino era o único lugar onde o barulho e o assédio raramente conseguiam penetrar: a biblioteca.
O silêncio do lugar a recebeu como um abraço gelado. Mizi respirou fundo, sentindo o cheiro de papel velho e poeira. Ela caminhou entre as estantes de literatura clássica, seus passos abafados pelo carpete gasto, até encontrar o que procurava.
Sentada na última mesa, quase escondida por uma pilha de livros de poesia, estava Sua.
A garota de cabelos pretos curtos nem levantou os olhos quando Mizi se sentou à sua frente. Sua parecia fundida à cadeira, uma extensão da própria melancolia da biblioteca.
— Fugindo dos seus fãs? — Sua perguntou, a voz baixa e monocórdica, sem tirar os olhos das páginas de seu livro.
— Você não faz ideia, Sua — Mizi suspirou, deitando a cabeça sobre os braços cruzados na mesa. — É como se eu tivesse virado uma espécie de troféu novo. É exaustivo.
Sua finalmente fechou o livro e olhou para a amiga. Seus olhos roxos estavam opacos, mas havia uma faísca de preocupação neles.
— Você sempre foi o troféu, Mizi. Só mudaram os competidores.
— Mas eu não quero ser um troféu — Mizi murmurou, olhando para Sua. — Eu só queria ser eu mesma. Ontem, quando a Vianna falou aquilo... foi como se um peso tivesse saído das minhas costas, mas agora parece que colocaram dez novos no lugar.
As duas ficaram em silêncio por um tempo. O único som era o tique-taque do relógio na parede e o som distante de páginas sendo viradas.
— Pelo menos agora você não precisa mais fingir — Sua disse, mexendo nervosamente na franja. — Deve ser bom ser tão... desejada.
Mizi franziu a testa, sentando-se ereta.
— Desejada pela imagem que as pessoas fazem de mim, Sua. Ninguém ali realmente me conhece. Elas gostam do rosa do meu cabelo, do jeito que eu sorrio... mas elas não sabem do que eu gosto de verdade.
Mizi inclinou-se para frente, observando a expressão fechada de Sua.
— Sabe, às vezes eu invejo você — Mizi confessou.
Sua soltou uma risada seca, quase um suspiro.
— Me inveja? Por quê? Eu sou a garota invisível, Mizi. Eu sou a sombra que ninguém nota enquanto você brilha.
— Isso não é verdade — Mizi rebateu, a voz ganhando um tom sério. — Você tem uma calma que eu nunca vou ter. Você lê coisas profundas, você entende o mundo de um jeito que eu não consigo. E você é... você é linda, Sua. De um jeito que não precisa de holofotes.
Sua sentiu o rosto esquentar instantaneamente. Ela baixou o olhar, tentando se esconder atrás da pilha de livros.
— Não precisa mentir para me consolar, Mizi. Eu sei como eu sou. Eu sou pálida demais, baixa demais, melancólica demais... eu não sou o tipo de pessoa que as pessoas olham duas vezes.
— Então as pessoas são cegas — Mizi disse, esticando a mão sobre a mesa e tocando a ponta dos dedos de Sua. — Você tem esses olhos roxos que parecem galáxias escondidas. E seu cabelo curto... combina tanto com o formato do seu rosto. Se você tivesse um pouco mais de autoconfiança, Sua, você teria metade da escola aos seus pés também. Mas eu prefiro que não tenha, assim você continua sendo meu segredo favorito.
O coração de Sua deu um salto violento. "Meu segredo favorito". As palavras ecoavam em sua mente como um mantra proibido. Ela queria acreditar, queria gritar que Mizi era o sol que ela orbitava há anos, mas o medo de que aquilo fosse apenas a bondade natural de Mizi a mantinha em silêncio.
— Você fala essas coisas porque é minha amiga — Sua murmurou.
— Eu falo essas coisas porque são verdade — Mizi sorriu, e desta vez o sorriso era apenas para Sua, sem a máscara de sedução que ela usava para o resto do mundo. — Você é incrível, Sua. Nunca deixe ninguém, nem você mesma, dizer o contrário.
O sinal para o intervalo tocou, quebrando o momento. Mizi se levantou, mas antes de sair, apertou a mão de Sua uma última vez.
— Vamos? O pessoal deve estar nos esperando.
Quando chegaram ao pátio, o grupo já estava reunido na mesa de sempre. Ivan estava tentando roubar as batatas fritas de Luka, que estava distraído demais olhando para Hyuna. Till desenhava furiosamente em seu caderno, parecendo querer furar o papel.
— Olha só quem sobreviveu à horda — Hyuna brincou quando as duas se aproximaram. — Mizi, você está sendo mais procurada que gabarito de vestibular.
— Nem me fale — Mizi disse, sentando-se e tentando relaxar.
A conversa fluía normalmente, até que um movimento perto da entrada do refeitório chamou a atenção de todos. Vianna estava passando, caminhando com sua elegância sobrenatural. Ao lado dela, estava uma garota chamada Lexy, conhecida por ser uma das mais populares do segundo ano. Vianna parecia estar ignorando o mundo, mas Lexy estava rindo de algo que ela dissera.
Mizi viu a cena e, por um momento, algo mudou em seu olhar. O brilho amigável e "gente boa" desapareceu, dando lugar a uma intensidade predatória que ninguém no grupo jamais vira.
— Eu já volto — Mizi disse, a voz subitamente mais baixa.
Ela se levantou e caminhou na direção de Vianna e Lexy. O grupo assistiu, paralisado.
— O que ela vai fazer? — Till perguntou, o grafite do seu lápis quebrando sob a pressão.
Mizi não apenas se aproximou; ela interceptou o caminho das duas. Mas ela não parou em frente a Vianna. Ela parou em frente a Lexy.
A postura de Mizi mudou completamente. Seus ombros relaxaram, mas seu corpo parecia ocupar mais espaço. Ela inclinou a cabeça levemente para o lado, e seus olhos amarelos, geralmente tão abertos e convidativos, estreitaram-se, focando em Lexy com uma concentração absoluta.
— Oi, Lexy — Mizi disse. Sua voz não era mais a de uma líder de torcida animada. Estava rouca, calma e carregada de uma autoconfiança que beirava o perigo.
Lexy parou, o riso morrendo nos lábios enquanto ela encarava Mizi.
— Oi, Mizi... eu não sabia que você...
— Você não sabia muita coisa sobre mim, não é? — Mizi interrompeu, dando um passo para dentro do espaço pessoal de Lexy. Ela era um pouco mais alta que a outra garota, o que lhe permitia olhar de cima, uma posição de poder puramente instintiva.
Mizi estendeu a mão e, com uma lentidão torturante, afastou uma mecha de cabelo do rosto de Lexy. Seus dedos roçaram a pele da garota, que estremeceu visivelmente.
— Eu ouvi dizer que você estava procurando por mim hoje cedo — Mizi continuou, a voz agora um sussurro sedutor que parecia vibrar no ar. — Mas você estava procurando no lugar errado. Se você realmente quer me encontrar, Lexy... você precisa olhar nos meus olhos e dizer o que quer.
Mizi não sorriu. Sua expressão era séria, quase sombria, e seus olhos pareciam devorar a resolução de Lexy. Era como se ela tivesse ligado um interruptor interno, transformando-se de "garota legal" em algo muito mais complexo e devastadoramente atraente.
Vianna, que observava tudo de braços cruzados, soltou um riso abafado, parecendo satisfeita com o que via.
Mizi deu um último olhar profundo para Lexy, um olhar que prometia coisas que a garota nem sabia que desejava, e então se afastou sem dizer mais nada.
Quando Mizi voltou para a mesa, o silêncio era absoluto. Ivan estava com um pedaço de batata frita pendurado na boca, esquecido. Till parecia ter visto um fantasma. Luka e Hyuna trocavam olhares de choque puro.
Sua sentia que não conseguia respirar. Ela nunca tinha visto aquela versão de Mizi. Era assustadora, era magnética e era absolutamente letal.
— O que... o que foi aquilo? — Ivan finalmente conseguiu falar, a voz falhando. — Mizi, você... você deu em cima dela? De verdade?
Mizi sentou-se, e tão rápido quanto havia aparecido, a aura intensa desapareceu. Ela voltou a ser a Mizi de sempre, com o sorriso brilhante e o jeito descontraído.
— Ela estava me procurando, não estava? — Mizi deu de ombros, pegando uma batata do prato de Luka. — Eu só dei o que ela queria. Honestidade.
— Honestidade? — Till explodiu, o rosto vermelho de uma mistura de raiva e confusão. — Você quase engoliu a garota com os olhos, Mizi! Você nunca agiu assim com... com ninguém!
— Talvez porque eu nunca tenha tido um motivo para agir assim antes, Till — Mizi respondeu calmamente, embora seus olhos tenham brilhado por um segundo.
— Você foi incrível — Hyuna disse, rindo e balançando a cabeça. — Eu nunca vi ninguém ficar tão sem graça quanto a Lexy. Você é perigosa, Mizi.
— Eu não sou perigosa — Mizi riu, voltando a ser a "gente boa" do grupo. — Eu só cansei de ser a garota que todo mundo acha que pode ter. De agora em diante, quem quiser algo de mim vai ter que aguentar o tranco.
Sua olhava para o prato, o coração ainda disparado. Ela se lembrou do que Mizi dissera na biblioteca minutos antes: "Você é linda, Sua... você é meu segredo favorito".
Se aquela Mizi intensa, aquela Mizi que olhava para as pessoas como se fosse consumi-las, algum dia olhasse para Sua daquele jeito... Sua tinha certeza de que simplesmente deixaria de existir.
— Você está bem, Sua? — Mizi perguntou, tocando o ombro da amiga de forma leve, o toque agora parecendo carregar toda a eletricidade do que acabara de acontecer.
— Estou — Sua mentiu, sentindo o peso do mundo em suas costas. — Só... muita coisa para processar em um dia só.
— Eu sei — Mizi sussurrou perto do ouvido dela. — Mas não se preocupa. Com você, eu sempre vou ser apenas a Mizi.
Sua fechou os olhos por um segundo. Aquela era a promessa mais doce e, ao mesmo tempo, a mais cruel que ela poderia receber. Porque, enquanto Mizi brincava com o coração da escola, o coração de Sua continuava sendo o único que ela não conseguia — ou talvez não quisesse — ver de verdade.
O intervalo terminou, mas a imagem de Mizi flertando com Lexy ficou gravada na mente de todos. A "cara de hétero" de Mizi havia caído de vez, revelando algo muito mais fascinante e perigoso por baixo. E para o grupo de amigos, a dinâmica que durava desde o 9º ano nunca mais seria a mesma. O 3º ano não era mais apenas sobre o futuro; era sobre o presente, e o presente tinha o nome de Mizi escrito em cores vibrantes e sedutoras.