A bela e a fera
O Crepúsculo das Violetas e a Dança da Inveja
O Shopping Crystal de Jericho era o tipo de lugar que eu costumava evitar aos sábados, mas ali estava eu, equilibrando-me em saltos que não eram exatamente práticos e ajustando as alças do meu vestido roxinho de seda. Era o tom exato de violeta que Ravena dizia combinar com a "aura de flor silvestre" que ela insistia que eu exalava. O corte era impiedoso com as minhas curvas, abraçando meu quadril e destacando o busto de um jeito que me fazia sentir como uma sobremesa perigosa.
Ao meu lado, segurando minha mão com uma delicadeza que quase me fazia sentir culpada, estava Beatriz. Eu a conheci em um aplicativo de relacionamentos na semana passada. Ela era alta, loira, usava óculos de aro fino e falava sobre astrofísica como se estivesse recitando poesia. Ela era o oposto absoluto de Ravena: solar, previsível e segura.
— Você está distraída, Karen — comentou Beatriz, parando em frente a uma vitrine de joias. — É o vestido? Ele parece um pouco... apertado. Mas você está deslumbrante.
— É só o movimento, Bia — menti, dando-lhe o meu melhor sorriso de "docinha". — Muita gente, muita energia.
Eu sabia que era mentira. Meus instintos de Addams estavam apitando. Eu sentia um frio na nuca, uma queda brusca na temperatura ambiente que não tinha nada a ver com o ar-condicionado do shopping. E então, eu a vi.
Ravena estava saindo da livraria, a poucos metros de distância. Ela não estava sozinha. Ao lado dela, pendurada em seu braço como um acessório caro, estava a tal "namorada nova". Ela era esguia, vestia tons pastéis que pareciam uma ofensa à paleta de cores de Ravena e sorria para o nada com uma vacuidade irritante.
O olhar de Ravena varreu o corredor e, no momento em que se fixou em mim, o mundo pareceu parar. Vi suas pupilas dilatarem, a cor ametista de seus olhos tornando-se tão profunda que parecia um buraco negro. Seus passos vacilaram por um segundo antes de ela retomar a postura rígida e aristocrática.
— Ora, ora — sussurrei para mim mesma.
— O que disse? — perguntou Beatriz, confusa.
— Nada, querida. Olha, ali está uma velha conhecida. Vamos dizer oi?
Eu não precisava fazer aquilo. Eu poderia ter virado as costas e sumido entre as araras de roupas, mas o sangue de Gomez Addams que corria em minhas veias clamava por um pouco de drama. Eu queria ver o gelo de Ravena rachar.
Caminhamos em direção a elas. Ravena parou, as mãos enfiadas nos bolsos de sua capa escura, a mandíbula tão tensa que eu temia que ela quebrasse um dente.
— Karen — disse ela, sua voz saindo como um sussurro de vento em um cemitério.
— Ravena — respondi, inclinando a cabeça com uma doçura açucarada. — Que coincidência encontrar você aqui.
— É, uma coincidência estatisticamente improvável — rebateu Ravena, mas seus olhos não saíam do meu decote. — Você está usando o roxo.
— Achei que combinava com o dia — sorri, sentindo o ciúme dela emanar como uma fumaça invisível. — Esta é a Beatriz. Bia, esta é a Ravena, a mãe da Dália.
Beatriz estendeu a mão, educada.
— Muito prazer, Ravena. A Karen fala muito bem da sua dedicação com a filha de vocês.
Ravena ignorou a mão estendida por um segundo a mais do que o socialmente aceitável, antes de dar um aperto de mão tão frio que vi Beatriz estremecer.
— E esta é a... — comecei, olhando para a loira ao lado de Ravena.
— Clarice — interrompeu a moça, com uma voz fininha que me deu vontade de comer limão. — Sou a namorada da Rav. Ela me contou que você é a ex. É um prazer ver que vocês são tão... civilizadas.
— Civilidade é a minha especialidade — eu disse, sentindo uma pontada de satisfação ao ver Ravena apertar o passo para o lado, tentando criar distância entre ela e Clarice.
— Nós estávamos indo tomar um café — disse Ravena, a voz ríspida. — Clarice quer comprar alguns sapatos.
— Que fascinante — comentei, fingindo interesse. — Nós também estamos de saída para um jantar. A Beatriz reservou uma mesa naquele restaurante francês novo. Sabe como é, ela adora me mimar.
Senti a energia de Ravena oscilar. Uma pequena planta decorativa em um vaso próximo começou a murchar instantaneamente. Ela estava perdendo o controle, e eu estava adorando.
— Mimá-la? — Ravena repetiu a palavra como se fosse um insulto. — Karen não gosta de ser mimada. Ela gosta de substância.
— As pessoas mudam, Ravena — Beatriz interveio, tentando ser gentil, mas apenas jogando gasolina no fogo. — A Karen me disse que precisava de um pouco mais de leveza na vida. Alguém que não a fizesse sentir como se estivesse em um funeral perpétuo.
O silêncio que se seguiu foi pesado o suficiente para esmagar um crânio. Clarice parecia não notar a tensão, mas Ravena deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Beatriz.
— Leveza? — a voz de Ravena era um rosnado baixo. — Você acha que entende o que ela precisa porque leu o perfil dela em um aplicativo? Você não sabe nada sobre o que a faz rir às três da manhã ou o que a faz chorar quando a lua está cheia.
— Ravena, chega — eu disse, embora por dentro eu estivesse vibrando. — Não assuste a Bia. Ela não está acostumada com o seu... temperamento.
— Meu temperamento não é o problema aqui — Ravena voltou seu olhar para mim, e por um momento, a máscara caiu. Havia uma dor crua ali, misturada com uma possessividade que Clarice jamais entenderia. — O problema é esse vestido. O problema é você estar aqui, com essa... pessoa, agindo como se nós fôssemos estranhas em um shopping.
— Nós decidimos isso, lembra? — lembrei-a, a voz suavizando. — Você tem o seu café com a Clarice. Eu tenho o meu jantar francês. É assim que funciona o mundo das pessoas "normais".
— Você nunca foi normal, Karen — sussurrou ela. — E Deus me ajude, eu nunca quis que você fosse.
Clarice, finalmente percebendo que a conversa não era sobre sapatos, puxou o braço de Ravena.
— Rav, querida, estamos atrasadas. Vamos?
Ravena não se moveu. Ela continuou me encarando, e eu juro que vi uma faísca de poder violeta saltar de seus dedos para a bainha do meu vestido.
— Divirta-se no seu jantar, Karen — disse ela, as palavras saindo com esforço. — Espero que o vinho seja tão doce quanto a ilusão que você está tentando criar.
— E eu espero que os sapatos da Clarice não apertem — retruquei, mantendo o sorriso. — Nos vemos na terça para a troca da Dália?
— Na terça — confirmou ela, virando as costas de forma abrupta e arrastando Clarice consigo pelo corredor.
Beatriz soltou um suspiro longo, como se tivesse acabado de escapar de um desastre natural.
— Meu Deus, Karen. Ela é... intensa. Você tem certeza de que ela não vai me transformar em um morcego se eu te convidar para um segundo encontro?
— Ela é apenas protetora, Bia — eu disse, embora soubesse que era muito mais do que isso. — Não se preocupe. Ela morde, mas eu sou a única que tem o antídoto.
Caminhamos em direção à saída, mas não pude evitar olhar para trás uma última vez. Ravena estava parada no topo da escada rolante, Clarice falando algo em seu ouvido que ela claramente ignorava. Ravena olhava fixamente para mim, uma silhueta de sombras no meio da luz artificial do shopping.
Eu sabia que ela passaria o resto da noite odiando o restaurante francês, odiando a Beatriz e, acima de tudo, odiando o fato de que aquele vestido roxo ainda exercia sobre ela um poder que nenhuma meditação em Azarath poderia quebrar.
— Vamos, Bia — eu disse, apertando a mão da minha acompanhante. — Estou com fome de algo bem caro e sofisticado.
Enquanto nos afastávamos, eu sentia o olhar de Ravena queimando em minhas costas. O jogo de ciúmes era perigoso, mas para uma Addams de coração, não havia nada mais revigorante do que saber que, mesmo nas sombras, o fogo que tínhamos um dia ainda era capaz de incendiar o presente.
Eu era a luz dela, e ela era o meu abismo. E shoppings, namoradas loiras ou encontros de internet eram apenas obstáculos temporários em uma história que já havia sido escrita nas estrelas mais escuras do universo.
— Ela ainda te ama, não é? — perguntou Beatriz, de repente, enquanto esperávamos o elevador.
Olhei para ela, a doçura do meu rosto escondendo a complexidade do que eu sentia.
— Ravena não ama como as outras pessoas, Bia. Ela possui. Ela assombra. E, honestamente? Eu não aceitaria nada menos do que isso.
O elevador chegou, e enquanto as portas se fechavam, eu tive a certeza de que a terça-feira chegaria rápido demais. E que, quando chegasse, não haveria Clarice ou Beatriz que pudesse nos salvar do que éramos uma para a outra. O roxo do meu vestido era apenas o começo do eclipse que estava por vir.