A Dama de Tarth
O Sangue do Mar e as Raízes da Ilha
O pátio de armas de Tarth estava envolto em um silêncio reverente, interrompido apenas pelo som rítmico de respirações pesadas e o choque seco de madeira contra madeira. Vaelor, o veterano de mil abordagens e o homem que Lucian chamava de irmão, estava descobrindo, da maneira mais dolorosa possível, que subestimar uma mulher de Tarth era um erro que nem mesmo a experiência no mar poderia compensar.
Brienne movia-se com uma economia de movimentos que beirava a perfeição. Ela não era apenas forte; ela era uma força da natureza que aprendera a canalizar sua altura e peso em cada golpe. Vaelor tentou uma finta rápida, um movimento que geralmente desarmava piratas em segundos, mas Brienne apenas girou o corpo, deixando a espada dele passar pelo ar vazio, e contra-atacou com um golpe de ombro que o fez cambalear.
— Você é rápido, Vaelor — disse ela, a voz firme e sem fôlego —, mas luta como se estivesse em um convés balançando. Aqui, o chão é firme. Você não precisa compensar o movimento das ondas.
— Menos conversa, Lady Safira — rosnou Vaelor com um sorriso selvagem, recuperando o equilíbrio —, e mais luta!
Ele avançou com uma série de golpes rápidos, mas Brienne os bloqueou com uma facilidade irritante. Com um movimento fluido de rotação, ela enganchou a guarda de sua espada de madeira na dele e, com uma torção poderosa do pulso, arrancou a arma da mão de Vaelor. Antes que ele pudesse reagir, o pé de Brienne atingiu a parte de trás de seu joelho, e o grande guerreiro de Derivamarca caiu de cara na poeira do pátio.
Brienne parou sobre ele, a ponta da espada de madeira tocando levemente a nuca do homem caído.
— Rendido? — perguntou ela, um brilho de satisfação iluminando seus olhos azuis.
Vaelor cuspiu um pouco de terra e rolou de costas, rindo alto enquanto olhava para o céu de Tarth.
— Por todos os deuses que eu não sigo... você é um monstro, mulher! — Ele aceitou a mão que ela estendeu e foi içado do chão como se não pesasse nada. — Lucian, se você não se casar com ela, eu me caso! Ela quase me quebrou ao meio!
Lorde Selwyn, que observava tudo ao lado de Lucian, soltou um suspiro de alívio e orgulho que não conseguiu esconder. Ele se virou para o futuro genro, que observava Brienne com uma expressão de triunfo silencioso, como se tivesse acabado de descobrir um continente novo e inexplorado.
— Ela é... impressionante, não é? — comentou Selwyn, limpando o suor da testa. — Mas diga-me, Lorde Lucian, enquanto observamos esse espetáculo... para quais deuses os Velaryon rezam hoje em dia? A Septa Roelle está convencida de que vocês são adoradores de demônios marinhos, e eu, como pai, gostaria de saber onde minha filha passará suas orações.
Lucian demorou um pouco para responder. Ele observava Brienne limpar o suor da testa com o antebraço, um gesto que ele parecia achar mais fascinante do que qualquer dança de corte.
— Ainda mantemos um represeiro em Derivamarca, Lorde Selwyn — respondeu Lucian, sua voz ganhando um tom de reverência antiga. — Os Velaryon podem ter vindo de Valíria, mas as raízes de nosso lar se aprofundaram no solo do Norte muito antes da Rebelião. Rezamos para os Deuses Antigos, para o vento e para o mar.
Um sorriso mesquinho e quase cruel enfeitou os lábios do jovem lorde enquanto ele olhava na direção das torres onde a Septa provavelmente se escondia.
— A Septa tem sorte que a velha árvore era grande demais para conseguirmos trazê-la em um vaso. Caso contrário, ela teria que encarar rostos esculpidos em casca branca em vez de sete estátuas de mármore.
Selwyn piscou em pura confusão e surpresa. O conceito de uma casa valiriana seguindo os Deuses Antigos era tão estranho quanto um dragão nadando, mas havia algo na convicção de Lucian que tornava qualquer questionamento fútil.
— Entendo — murmurou Selwyn. — Bem, contanto que os deuses, antigos ou novos, protejam minha filha, eu não farei objeções.
No dia seguinte, o castelo de Tarth mergulhou em um caos organizado. Vaelor, agora devidamente recuperado da surra que levara, estava encarregado de supervisionar a decoração do altar na Ponta da Safira. Ele segurava dois estandartes nas mãos, olhando para eles com uma ruga profunda se formando em sua testa.
Em uma mão, o brasão dos Tarth: o quartelado de rosa e azul com os dois sóis e as duas luas. Na outra, o cavalo-marinho de prata sobre o campo verde-água dos Velaryon.
— Como diabos vamos misturar isso? — resmungou Vaelor para um dos marinheiros. — Rosa, azul e verde-água? Parece o café da manhã de um pirata bêbado em Tyrosh. Se eu pendurar isso de qualquer jeito, Lucian vai me jogar do penhasco por ofender o senso estético dele.
— Tente sobrepor o cavalo-marinho entre os sóis — sugeriu Brienne, aproximando-se silenciosamente por trás dele. Ela já estava trocando suas roupas de treino por algo mais formal, embora ainda resistisse aos vestidos pesados. — O mar sempre esteve sob o sol e a lua em Tarth. Faz sentido.
Vaelor olhou para os estandartes e depois para ela, sorrindo.
— Você tem o instinto de um capitão, Lady Brienne. O mar sob o sol... sim, isso vai funcionar.
Enquanto os preparativos avançavam, o ar em Tarth parecia carregar uma eletricidade estática. Marinheiros de Derivamarca misturavam-se com os guardas da ilha, trocando histórias de batalhas e canções de marujo. Lucian, por sua vez, passava horas revisando mapas e documentos, mas seus olhos sempre buscavam a janela que dava para o pátio, esperando ver um vislumbre da mulher que mudara o curso de sua viagem.
Então, o dia do casamento chegou.
O altar fora montado no ponto mais alto das falésias, onde o vento soprava com força e o som das ondas quebrando lá embaixo servia como música de fundo. Não havia teto, apenas o céu infinito de um azul profundo.
Lorde Selwyn caminhava ao lado de Brienne, sentindo o braço dela firme sob o seu. Ele olhou para a filha e, pela primeira vez, não viu a "donzela desajeitada" que o mundo tentara lhe impor. Brienne usava um vestido de seda azul-safira, mas não era um modelo que restringia seus movimentos. O corpete era reforçado com couro trabalhado em fios de prata, e seus ombros largos estavam cobertos por uma capa leve que flutuava com o vento. Seu cabelo curto fora penteado e adornado com pequenas contas de prata que Lucian lhe dera.
Ela estava radiante. Não da maneira delicada de uma rosa do Jardim de Cima, mas como uma espada recém-forjada brilhando sob a forja.
— Você está linda, Brienne — sussurrou Selwyn, sua voz embargada. — Eu sinceramente... eu não achei que veria este dia. Não com um homem que olhasse para você desta forma.
Ele indicou com a cabeça para o final do caminho de pedras brancas. Lucian Velaryon estava lá, esperando. Ele vestia uma túnica de veludo verde-mar que parecia mudar de cor conforme a luz, e seus cabelos perolados estavam soltos, voando como um estandarte de guerra ao vento.
O olhar de Lucian era algo que Selwyn nunca esqueceria. Não era o olhar de um lorde cumprindo um dever político. Era o olhar de um homem vendo uma miragem de água depois de dias perdido nos desertos de Dorne. Era uma fome, uma admiração e uma promessa, tudo misturado em um brilho rosado e intenso.
Quando Selwyn entregou a mão de Brienne a Lucian, ele sentiu o calor quase febril da pele do jovem lorde.
— Cuide dela — disse Selwyn, com a autoridade de um pai e a humildade de um homem que sabia que estava entregando seu maior tesouro.
— Com minha vida, meu aço e meu fogo — respondeu Lucian, sem desviar os olhos de Brienne.
A cerimônia foi curta e desprovida das ladainhas exaustivas da Fé dos Sete. Lucian pegou o manto de proteção — uma peça magnífica de seda verde com o cavalo-marinho bordado em fios de prata pura — e o colocou sobre os ombros de Brienne.
— Com este manto, eu a coloco sob minha proteção — declarou ele, sua voz projetando-se sobre o som do mar. — Você é a Senhora de Maré, a âncora do meu coração e a capitã da minha alma. O que é meu, é seu. Onde eu for, você irá.
Brienne sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, mas ela se recusou a deixá-las cair. Ela olhou para Lucian, para aquele homem que parecia um deus antigo e que a tratava como se ela fosse a única coisa sólida em um mundo de sombras.
— Eu aceito sua proteção e ofereço a minha — respondeu ela, a voz clara e forte. — Seu nome será o meu, e seu lar será o meu. No mar ou na terra, minha espada será sua.
Eles não trocaram apenas votos; eles trocaram uma aliança de sangue e aço. Lucian puxou Brienne para perto, e o beijo que selou a união não foi um toque tímido. Foi um beijo de marinheiro, cheio de urgência e calor, que fez Brienne sentir que estava finalmente voltando para casa, mesmo estando em uma ilha onde vivera a vida toda.
Vaelor soltou um grito de guerra que foi seguido por toda a tripulação dos navios Velaryon lá embaixo no porto. Trombetas soaram, e o som ecoou pelas cavernas de Tarth, anunciando que a Pérola e a Safira agora eram uma só.
Durante o banquete que se seguiu nas falésias, com fogueiras enormes que pareciam estrelas caídas na terra, Lucian não saiu do lado de Brienne. Ele servia o vinho dela, cortava sua carne e afastava qualquer nobre de Tarth que tentasse lançar um olhar duvidoso sobre o porte de sua nova esposa.
— Você parece pensativa, minha senhora — sussurrou Lucian, aproximando-se dela enquanto observavam a lua refletida no mar.
— Eu só... eu nunca achei que seria assim — confessou Brienne. — Eu achei que, se me casasse, seria com um homem que me toleraria por causa do meu dote. Alguém que me trancaria em uma torre e me pediria para não aparecer em público.
Lucian soltou um riso curto e sombrio.
— Então eles teriam que passar por mim primeiro. E eu garanto que não sou um homem fácil de mover. — Ele pegou a mão dela, entrelaçando seus dedos finos e quentes nos dela, calejados e fortes. — Amanhã, partiremos para Derivamarca. Você verá o Castelo de Maré alta. Verá as frotas que agora comandamos juntos. E, Brienne...
Ele parou, olhando-a com uma seriedade que a fez prender a respiração.
— Em Porto Real, eles chamam Robert Baratheon de o Usurpador ou o Rei. Mas em Derivamarca, nós lembramos de quem somos. E com você ao meu lado, eu sinto que poderíamos retomar o mundo inteiro se quiséssemos.
Brienne sorriu, sentindo uma coragem que nunca conhecera antes.
— Eu não preciso do mundo, Lucian. Eu só preciso de um lugar onde eu possa ser eu mesma.
— Você já tem esse lugar — disse ele, beijando a palma da mão dela. — Ele se chama Derivamarca. E ele está esperando pela sua Rainha.
Enquanto a festa continuava noite adentro, sob o olhar atento dos Deuses Antigos e o rugido constante do Mar Estreito, Brienne de Tarth finalmente entendeu que sua beleza não estava no que os outros viam, mas no fogo que Lucian Velaryon acendera em sua alma. O cavalo-marinho e a safira estavam unidos, e o mar nunca mais seria o mesmo.