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A Dama de Tarth

O Eco do Mar e o Silêncio do Sangue

O banquete nas falésias de Tarth atingira seu ápice. O cheiro de javali assado e vinho apimentado misturava-se à maresia, e a música das harpas e tambores tentava, em vão, competir com o rugido constante das ondas contra as rochas. Brienne sentia o peso do manto verde-água sobre seus ombros, uma carícia de seda que parecia protegê-la de todos os olhares de desdém que sofrera na vida. Ao seu lado, Lucian Velaryon era uma visão de calma absoluta, bebendo seu vinho com a elegância de um predador que acabara de conquistar seu território.

No entanto, o clima mudou quando os lordes menores e os cavaleiros de Tarth, liderados por um Sor veterano cujas bochechas estavam rubras pelo excesso de bebida, levantaram-se subitamente. Um coro de risadas rudes e assobios começou a ecoar pelo salão improvisado sob as estrelas.

— Está na hora! — gritou o cavaleiro, batendo a caneca de metal na mesa de madeira. — O sol já se pôs e a lua está alta! É hora de levar os noivos para o ninho!

Brienne sentiu o sangue fugir de seu rosto, apenas para retornar em uma onda de calor que fez suas sardas parecerem brasas vivas. Ela sabia o que aquilo significava. A cerimônia de condução. Uma tradição westerosi onde os convidados despiam os noivos à força enquanto os carregavam até o quarto de núpcias, entre piadas obscenas e toques indesejados. Para Brienne, que passara a vida tentando proteger seu corpo de olhares de escárnio, a ideia de ser despida por uma multidão bêbada era pior do que qualquer campo de batalha. Seus dedos se fecharam em torno da borda da mesa, os nós das mãos ficando brancos.

Lucian, por outro lado, não ficou vermelho. Ele ficou lívido. Sua pele, já pálida como marfim, pareceu ganhar uma tonalidade de mármore gélido. Seus olhos rosados, que momentos antes brilhavam com uma ternura rara para Brienne, estreitaram-se em fendas perigosas. Quando os primeiros homens começaram a se aproximar, com as mãos estendidas para agarrar a túnica de Brienne e o manto de Lucian, o Senhor das Marés reagiu com a precisão de uma mola de aço.

Sua mão direita desceu instintivamente para o lado esquerdo do quadril, buscando o punho de safira de sua espada, *Clamor das Marés*. O estalo seco de seus dedos encontrando apenas o tecido da túnica de banquete foi o único som que ele emitiu. Lucian levantou-se em um movimento tão fluido e rápido que as cadeiras próximas quase tombaram.

— O que pensam que estão fazendo? — A voz de Lucian não foi um grito. Foi um sussurro sibilante, carregado com a autoridade de quem comanda frotas e decide quem vive ou morre nos Degraus.

Os homens pararam, confusos. O cavaleiro bêbado riu, tentando levar a situação na brincadeira.

— É a tradição, Milorde! A condução! Temos que garantir que o Cavalo Marinho encontre o caminho para a Safira! Vamos lá, rapazes, peguem a Lady! Ela é grande, vamos precisar de dez de nós!

Lucian deu um passo à frente, colocando-se entre a multidão e Brienne. Sua presença parecia irradiar um calor febril, quase insuportável para quem estava perto.

— Se um único dedo de vocês tocar o manto dela — disse Lucian, cada palavra caindo como uma sentença de morte —, eu farei questão de que esse dedo, e o braço ao qual ele pertence, sejam servidos como isca para os caranguejos de Derivamarca antes do amanhecer.

Vaelor, que estava a poucos metros dali, já estava de pé. Sua mão não estava vazia; ele segurava um punhal de osso de baleia que parecia ter surgido do nada. Os marinheiros Velaryon, espalhados pelo banquete, levantaram-se como uma única sombra negra, os rostos fechados e as mãos em suas facas de cinto. O desconforto era mútuo; para os homens do mar, aquela tradição parecia um ataque coordenado, uma falta de respeito que beirava a traição.

Lorde Selwyn Tarth levantou-se apressadamente, as mãos espalmadas em um gesto de paz, o rosto transparecendo uma agonia silenciosa.

— Lorde Lucian! Por favor! — Selwyn olhou para os convidados e depois para o genro, amaldiçoando mentalmente os séculos de tradições bárbaras que ninguém se dera ao trabalho de explicar aos isolados Velaryon. — É apenas um costume de Westeros. Uma brincadeira... para dar sorte aos noivos e fertilidade à união. Não há malícia, eu lhe asseguro.

— Malícia? — Lucian virou o rosto para Selwyn, as tranças de seda perolada tilintando suavemente. — Vocês chamam isso de sorte? Tentar despir minha esposa diante de estranhos bêbados? Em Derivamarca, tratamos as mulheres da nossa casa como tesouros, não como gado de feira.

Ele voltou-se para a multidão, que agora recuava diante da fúria contida do jovem de olhos rosados.

— Eu não sou um lorde de terra firme que se diverte com humilhações públicas — continuou Lucian. — Eu sou o sangue da Antiga Valíria. E o sangue de Brienne agora é o meu. Se vocês buscam entretenimento, sugiro que olhem para as chamas das fogueiras, pois é a única coisa que verão queimar esta noite além do meu bom senso se não se sentarem agora.

Brienne, ainda sentada, sentiu uma mistura de pavor e uma gratidão tão profunda que seus olhos arderam. Ninguém nunca a defendera assim. Ninguém nunca tratara sua dignidade como algo sagrado. Ela estendeu a mão e tocou levemente o pulso de Lucian. A pele dele estava tão quente que ela sentiu o calor atravessar suas próprias mãos frias.

— Lucian — sussurrou ela. — Está tudo bem. Eles não entendem.

Lucian olhou para ela por cima do ombro. A expressão de fúria assassina suavizou-se apenas quando seus olhos encontraram os azuis dela.

— Não está tudo bem, Brienne. — Ele pegou a mão dela e a puxou para que ela se levantasse ao seu lado. — Você não é um espetáculo para os olhos de homens que não valem o chão que você pisa.

Ele olhou para Selwyn uma última vez, a polidez gélida retornando à sua voz.

— Lorde Selwyn, agradeço pela hospitalidade e pela honra de sua filha. Mas o banquete acabou para nós. Vaelor, garanta que ninguém nos siga. Se alguém tentar "ajudar" na nossa condução, considere isso um ato de guerra contra a Casa Velaryon.

Vaelor deu um sorriso curto e perigoso.

— Com prazer, capitão.

Lucian conduziu Brienne para fora do círculo de fogueiras, caminhando em direção à torre que fora preparada para eles. O silêncio que se seguiu no banquete era pesado, quebrado apenas pelo som do vento. As pessoas de Tarth observavam a figura alta de Brienne sendo guiada pelo jovem quase etéreo, percebendo que as regras de seu mundo não se aplicavam àquele casal.

Quando entraram nos aposentos, o silêncio tornou-se diferente. Era íntimo, carregado com a expectativa de dois estranhos que agora estavam ligados para sempre. O quarto estava iluminado por velas de cera de abelha e o som do mar entrava pela varanda aberta.

Brienne parou no meio do quarto, sentindo-se subitamente enorme e desajeitada novamente. Ela começou a mexer nos fechos de sua túnica de couro, mas suas mãos tremiam.

— Eu sinto muito — disse ela, a voz baixa. — Pela confusão. Eu deveria ter avisado que eles fariam isso. É o que fazem em todos os casamentos.

Lucian caminhou até ela, parando a uma distância que permitia que ela sentisse o calor que emanava dele. Ele não parecia mais o guerreiro furioso do pátio; parecia apenas um jovem de dezoito anos que carregava o peso de uma linhagem antiga.

— Você não tem que pedir desculpas pela barbárie alheia, Brienne — disse ele. — Eu não permitiria que ninguém a tocasse daquela forma. Nem hoje, nem nunca.

Ele estendeu as mãos e, com uma delicadeza que Brienne nunca esperaria de um homem, afastou as mãos dela dos fechos.

— Deixe-me — sussurrou ele.

Seus dedos longos e finos, macios como os de um escriba mas firmes como os de um marinheiro, começaram a desfazer os nós de couro com uma precisão cirúrgica. Brienne prendeu a respiração. A proximidade dele era avassaladora. Ela podia ver as veias azuladas sob a pele pálida de seu pescoço e sentir o cheiro dele — uma mistura de sândalo, sal e algo quente, como metal aquecido ao sol.

— Eu não sou como as outras damas, Lucian — disse ela, as palavras saindo em um suspiro doloroso. — Eu não tenho a pele macia ou... ou as curvas que um lorde esperaria. Eu sou feita de cicatrizes e músculos.

Lucian parou o que estava fazendo e olhou para cima. Como ela era mais alta, ele precisava inclinar levemente a cabeça. Seus olhos rosados brilharam à luz das velas, parecendo duas safiras de fogo.

— Brienne, olhe para mim. — Ele esperou até que ela encontrasse seu olhar. — Eu passei minha vida em navios feitos de madeira dura e ferro. Eu vi a beleza nas tempestades que destroem cidades e na força das ondas que moldam as montanhas. Você acha que eu quero uma boneca de pano que murcharia ao meu lado no convés?

Ele deslizou a túnica de couro pelos ombros dela, revelando a camisa de linho fina por baixo.

— Suas cicatrizes são mapas de sua coragem. Seus músculos são o testemunho de sua disciplina. Para mim, você é a criatura mais magnífica que já pisou em Tarth. E se o resto de Westeros é cego demais para ver isso, então eles merecem a escuridão em que vivem.

Ele desfez o último laço e a túnica caiu no chão com um baque surdo. Lucian então levou as mãos ao rosto de Brienne, as palmas quentes acalmando o tremor que ela sentia.

— Eu não a escolhi por dever, Brienne. Eu a escolhi porque, no momento em que a vi com aquela espada de madeira, eu soube que minha alma finalmente encontrara sua igual.

O beijo que se seguiu não foi o beijo público do altar. Foi lento, exploratório e carregado de uma promessa silenciosa. Brienne sentiu a força de Lucian enquanto ele a puxava para mais perto, o contraste entre a pele pálida dele e a dela, coberta de sardas, criando um mosaico de cores sob a luz das velas.

Enquanto a noite avançava e o som das ondas continuava a ninar a ilha, a consumação do casamento não foi um ato de submissão ou de tradição barulhenta. Foi um encontro de duas forças — o fogo de Valíria e a rocha de Tarth. Lucian a tratou como se cada centímetro de seu corpo fosse solo sagrado, explorando suas cicatrizes com uma reverência que Brienne nunca imaginara ser possível.

Naquela noite, entre lençóis de seda e o calor febril da pele de Lucian, Brienne de Tarth deixou de ser a "aberração" ou a "donzela feia". Ela tornou-se a Senhora de Maré alta, a mulher que o Fantasma do Mar reivindicara como sua.

Horas depois, quando a lua já começava a se pôr, Brienne estava deitada com a cabeça no peito de Lucian. O coração dele batia forte e estável, e a respiração dele era um sopro quente em seu cabelo.

— Lucian? — sussurrou ela.

— Sim, minha Safira?

— Eles vão falar. Em Porto Real, no Jardim de Cima... eles vão dizer que o Senhor de Derivamarca enlouqueceu por se casar com uma mulher como eu.

Lucian apertou o abraço, beijando o topo da cabeça dela.

— Que falem. Enquanto eles gastam o fôlego com fofocas, nós estaremos comandando as marés. E se algum deles ousar dizer algo em sua presença... — Ele fez uma pausa, um tom sarcástico e sombrio retornando à sua voz. — Bem, eu sempre quis saber se o sangue de um cortesão de Porto Real é tão azul quanto dizem quando se mistura à água salgada.

Brienne sorriu na escuridão, sentindo uma paz que nunca conhecera. Ela não era mais uma corda esticada prestes a quebrar. Ela era uma âncora. E, pela primeira vez em sua vida, ela não tinha medo da tempestade que o amanhã pudesse trazer, pois sabia que o fogo de Lucian estaria lá para iluminar seu caminho.

Lá fora, as fogueiras do banquete já eram apenas cinzas, mas na torre mais alta de Tarth, a união da Pérola e da Safira brilhava com uma intensidade que nenhum mar jamais conseguiria apagar.