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A Dama de Tarth

O Rugido das Marés e o Trono de Madeira Flutuante

A viagem de Tarth até Derivamarca foi um prelúdio de como seria a nova vida de Brienne: uma mistura de liberdade absoluta e uma intensidade que ela mal conseguia processar. No convés do navio capitânia, ela não era uma passageira escondida em uma cabine; Lucian insistia que ela ficasse ao seu lado, aprendendo os nomes das cordas, o peso do leme e a linguagem secreta das correntes marítimas.

Quando a ilha de Derivamarca finalmente surgiu no horizonte, Brienne sentiu um aperto no peito que não era de medo, mas de expectativa. A ilha se erguia das águas escuras e profundas como a cabeça de um tubarão gigante emergindo para respirar. Era uma visão imponente, rochosa e selvagem, muito diferente das colinas suaves e águas turquesas de Tarth. Aqui, o mar era um senhor severo, e o castelo de Maré Alta, com suas torres de pedra clara que pareciam feitas de sal e osso, dominava a paisagem.

— Ali está — disse Lucian, aproximando-se por trás dela e repousando as mãos quentes sobre os ombros de Brienne. — O Trono de Madeira Flutuante nos espera.

— É... assustador — confessou Brienne, observando a espuma branca das ondas quebrando violentamente contra os rochedos negros na base da ilha.

— O mar não é para os fracos, Brienne — respondeu Lucian, sua voz vibrando com um orgulho ancestral. — Mas ele protege os seus. E agora, ele é seu também.

À medida que o navio manobrava para entrar no porto de Casco, Brienne percebeu que a recepção seria monumental. A areia da praia, surpreendentemente clara em contraste com as águas escuras, estava coberta por uma multidão. Centenas de pessoas — marinheiros de pele curtida pelo sol, mulheres com redes de pesca nos ombros, artesãos e soldados — aguardavam o retorno de seu Lorde.

Quando a prancha foi baixada, Lucian estendeu a mão para Brienne. Ele não a conduziu como uma boneca de porcelana, mas com a firmeza de quem apresenta uma igual. Brienne, vestindo sua armadura de couro e o manto verde-água da Casa Velaryon, caminhou com a coluna ereta, embora sentisse o peso de mil olhos sobre si.

Ela esperava ouvir os risos. Esperava os sussurros sobre sua altura, sobre seus ombros largos ou sua falta de delicadeza. Mas, conforme avançavam pela multidão, o que encontrou foi um silêncio reverente, seguido por saudações vigorosas.

— Vida longa ao Lorde Lucian! Vida longa à Senhora de Maré Alta! — gritavam os homens, batendo os punhos no peito.

No final do corredor humano, à espera na entrada da subida para o castelo, estava um pequeno grupo de dignitários. Entre eles, destacava-se uma figura que Brienne não esperava encontrar em um lugar que Lucian descrevera como tão distante das normas da Fé: uma Septa.

No entanto, ela não se parecia em nada com a Septa Roelle. Esta era uma mulher pequena, tão enrugada que seu rosto lembrava o mapa de uma costa antiga, com olhos que brilhavam com uma inteligência afiada e nenhum pingo de julgamento.

Lucian sorriu ao vê-la e, para surpresa de Brienne, inclinou-se para beijar a mão murcha da velha mulher.

— Septa Maryam — disse ele, com um carinho que Brienne raramente vira ele direcionar a alguém além de Vaelor. — Sobreviveu à minha ausência?

— Eu sobrevivi a dois de seus antepassados, Lucian — respondeu a velha com uma voz que lembrava o som de conchas se batendo. — Não seria um pirata ou uma viagem a Tarth que me levaria para o Pai antes da hora.

Os olhos de Maryam então se voltaram para Brienne. Ela a estudou de cima a baixo, não com o desdém de quem procura falhas estéticas, mas com a precisão de um mestre de obras avaliando a fundação de uma fortaleza. Brienne sentiu-se enrijecer, esperando o comentário cortante sobre sua aparência "pouco feminina".

Em vez disso, Maryam soltou um som de satisfação, um pequeno estalido com a língua.

— Finalmente — murmurou a Septa, aproximando-se de Brienne. Ela estendeu a mão e deu um tapinha firme no quadril de Brienne. — Bons quadris. Largos e fortes. Quadris feitos para herdeiros que não quebrarão ao nascer. E ombros que podem carregar o peso de um castelo enquanto esse menino aqui está no mar brincando de ser tubarão.

Brienne piscou, totalmente desarmada. O rosto dela esquentou, mas desta vez não foi por vergonha.

— Eu... obrigada, Septa — gaguejou ela.

— Não me agradeça, menina — disse Maryam, dando um sorriso que revelava poucos dentes, mas muita astúcia. — O sangue Velaryon é quente e difícil. Lucian precisava de uma rocha, não de uma flor que o vento leva. Você é uma Tarth; o mar e a safira sempre se deram bem.

Lucian soltou uma gargalhada e envolveu a cintura de Brienne com o braço.

— Eu lhe disse, Brienne. Em Derivamarca, valorizamos o que é sólido. Maryam é a única pessoa nesta ilha que ousa me dar ordens, então sugiro que você a tenha como aliada.

— Ela já é minha aliada — disse Maryam, piscando para Brienne. — Agora, entrem. O banquete de boas-vindas está pronto, e eu fiz questão de que servissem caranguejos gigantes e vinho de Tyrosh. Precisamos alimentar essa moça; ela tem muito trabalho pela frente.

O caminho até Maré Alta foi uma sucessão de maravilhas. O castelo era uma obra-prima de arquitetura valiriana, com passagens que pareciam esculpidas pelo próprio oceano. No grande salão, o Trono de Madeira Flutuante — um assento imenso feito de destroços de navios inimigos e madeira petrificada pelo sal — reinava absoluto.

Durante o jantar, Brienne percebeu que a dinâmica em Derivamarca era radicalmente diferente de qualquer outro lugar em Westeros. As mulheres falavam abertamente sobre o comércio e a pesca, os homens respeitavam a força acima do título, e Lucian era adorado não como um tirano, mas como um protetor necessário.

Vaelor sentou-se à mesa com eles, contando histórias de como Lucian quase incendiara um navio pirata em um momento de fúria silenciosa.

— Ele não gosta de admitir — dizia Vaelor, entre goles de cerveja —, mas o fogo dele é real. Eu já vi esse homem segurar uma lâmina aquecida ao rubro sem soltar um gemido.

Brienne olhou para as mãos de Lucian, que agora seguravam a sua sob a mesa. Elas eram macias, mas o calor que emanava delas era constante, uma febre que nunca baixava.

— É verdade? — perguntou ela em voz baixa. — O que dizem sobre o fogo e o seu sangue?

Lucian inclinou-se para ela, o hálito com cheiro de vinho e sal roçando seu rosto.

— O sangue de Valíria tem segredos, Brienne. Alguns dizem que somos feitos de cinzas e mar. Eu apenas sei que o frio nunca me alcança. — Ele apertou a mão dela. — E agora que tenho você, sinto que o fogo está mais vivo do que nunca.

Mais tarde, quando o banquete terminou e eles foram conduzidos aos seus aposentos — um quarto vasto com janelas que davam diretamente para o oceano aberto —, Brienne sentiu uma paz que nunca conhecera. O som das ondas batendo nas rochas de Derivamarca era como uma canção de ninar constante.

Lucian ajudou-a a retirar a armadura de couro, seus dedos movendo-se com a mesma agilidade de quando desfazia nós em uma corda de marinheiro.

— Você está silenciosa — comentou ele, depositando um beijo na curva de seu pescoço.

— Eu estava pensando na Septa Maryam — confessou Brienne, virando-se para ele. — Ela foi a primeira mulher de fé que não me olhou como se eu fosse um erro dos deuses.

— Porque aqui, Brienne, os deuses são o mar e o vento. E o mar não comete erros. Ele cria o que é necessário para a sobrevivência. — Lucian a pegou pelas mãos, levando-a para a varanda. A lua cheia refletia nas águas escuras, criando um caminho de prata que parecia levar ao fim do mundo. — Você não é um erro, Brienne de Tarth. Você é a resposta para uma oração que eu nem sabia que tinha feito.

Ele a puxou para um abraço apertado, e Brienne sentiu a força dele, a segurança de um homem que a via não como uma lady a ser protegida, mas como uma fortaleza a ser admirada.

— Amanhã — disse Lucian —, eu vou lhe mostrar as cavernas sob o castelo. Dizem que lá o som do mar conta a história de todos os Velaryon que já viveram. E, a partir de agora, a sua história será contada junto com a minha.

Brienne sorriu, sentindo o calor dele envolvê-la. Ela olhou para as águas profundas de Derivamarca e, pela primeira vez, não sentiu necessidade de se esconder ou de se desculpar por sua estatura. Ela era a Senhora de Maré Alta, a esposa do Fantasma do Mar, e seu lugar era ali, entre a rocha e o oceano.

— Eu gostaria disso — respondeu ela. — Gostaria de ouvir o que o mar tem a dizer sobre nós.

Lucian a pegou no colo, fazendo-a rir de surpresa, e a carregou de volta para dentro do quarto. A cama ali era imensa, feita de madeira escura e sólida, projetada para durar séculos.

— Vamos ver — disse ele, com um brilho travesso nos olhos rosados — se a mobília de Derivamarca é realmente tão resistente quanto eu prometi ao seu pai.

Naquela noite, sob o céu de uma ilha que parecia um tubarão pronto para a caça, a Pérola e a Safira celebraram sua união com uma paixão que fez as águas ao redor de Maré Alta parecerem ferver. Brienne de Tarth finalmente encontrara seu porto seguro, e Lucian Velaryon encontrara a única mulher capaz de ancorar sua alma errante. O destino de Westeros poderia ser incerto, mas ali, entre as sombras de Derivamarca e o calor do sangue valiriano, um novo poder estava nascendo — um poder feito de aço, mar e um amor que desafiava todas as convenções.