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A Dama de Tarth

O Orvalho da Lua e o Calor das Cinzas

A luz da manhã em Derivamarca era de um cinza perolado, filtrada pela névoa salina que subia do Mar Estreito e se agarrava às janelas de Maré Alta. Dentro dos aposentos senhoriais, o silêncio era profundo, quebrado apenas pelo estalar ocasional de uma brasa na lareira e pelo som da respiração ritmada de Brienne.

Ela estava sentada, encostada na cabeceira de madeira escura, com os lençóis de seda verde-água cobrindo-a apenas até a cintura. Seus ombros largos, marcados por sardas que agora pareciam constelações sob a luz fraca, estavam nus. Brienne sentia cada músculo de seu corpo vibrar com uma consciência nova, uma eletricidade residual que a fazia sentir-se mais viva do que em qualquer campo de treinamento.

A noite havia sido uma revelação. Lucian não a possuíra como um senhor toma uma propriedade; ele a convidara para uma exploração. Brienne fechou os olhos por um momento, lembrando-se da sensação de estar montada sobre os quadris dele, sentindo a firmeza dos músculos de Lucian e a suavidade inesperada de suas mãos de escriba. Ele a deixara guiar o ritmo, permitindo que ela descobrisse as próprias vontades, transformando o que ela temia ser um dever desajeitado em uma dança de poder e entrega.

A porta lateral se abriu suavemente. Lucian retornou, vestindo apenas uma calça de linho fino que pendia baixa em seus quadris. Ele carregava uma caneca de cerâmica, de onde subia um vapor delicadamente perfumado.

— Beba — disse ele, a voz ainda rouca pelo sono e pelo esforço da noite, estendendo a caneca para ela.

Brienne aceitou o recipiente, sentindo o calor do barro contra as palmas de suas mãos calejadas. O cheiro era suave, floral e levemente terroso. A infusão tinha uma cor âmbar profunda, bonita sob a luz da manhã.

— O que é? — perguntou ela, levando a caneca aos lábios, mas parando antes de beber.

— Chá da lua — ele respondeu honestamente, sentando-se na beira da cama, observando-a com aqueles olhos rosados que pareciam ler cada pensamento em sua mente.

Brienne sentiu um sobressalto. Ela afastou os lábios da borda da caneca, o vapor quente da bebida atingindo seu rosto como um aviso. Em Tarth, ela ouvira as criadas sussurrarem sobre essa mistura — o chá que as damas tomavam para evitar as consequências das noites de prazer, o chá que impedia que a semente de um homem desse frutos.

Uma pontada dolorida, aguda como a ponta de um punhal, atingiu-lhe o peito. Ela olhou para a bebida e depois para o marido, sentindo a velha insegurança, aquela sombra que a perseguia desde a infância, retornar com força total.

— Não quer herdeiros? — A pergunta saiu pequena, carregada de uma tristeza que ela não conseguiu ocultar. — O senhor se casou comigo, mas... não deseja que eu carregue seu nome?

Ela pensou em sua própria aparência, na sua altura excessiva, na força que muitos nobres consideravam uma deformidade. Talvez, pensou Brienne com um nó na garganta, Lucian a desejasse na cama, mas temesse que seus filhos herdassem sua "feiura" ou sua estrutura gigantesca. Talvez ele quisesse o prazer da guerreira, mas a descendência de uma lady mais delicada que ele pudesse encontrar no futuro.

Lucian percebeu a mudança instantânea no humor dela. Ele não se afastou; em vez disso, moveu-se com aquela graça felina que lhe era peculiar e ajoelhou-se no tapete de pele, entre as pernas de Brienne. Ele inclinou a cabeça para a frente, encostando a bochecha pálida e macia no joelho dela, em um gesto de submissão e carinho que a deixou sem fôlego.

— Achei que gostaria de esperar um ou dois anos... minha Safira — sussurrou ele, a voz vibrando contra a pele dela.

Brienne piscou, confusa.

— Esperar? Mas... o senhor é um Lorde. Precisa de um herdeiro para Derivamarca. Sua linhagem é antiga, Lucian.

— Minha linhagem sobreviveu a séculos de fogo e sangue, Brienne. Ela pode esperar um pouco mais — disse ele, levantando a cabeça para olhá-la nos olhos. — Eu vi como você olha para sua espada. Eu vi o brilho em seus olhos quando falamos sobre as frotas e sobre as batalhas que ainda virão nos Degraus.

Ele estendeu a mão e tocou delicadamente o rosto dela, o polegar traçando a linha de sua mandíbula.

— Se você engravidar agora, o mundo vai tentar trancá-la em uma torre novamente. Vão dizer que você deve bordar e esperar enquanto eu navego. Vão usar seu ventre como uma desculpa para tirar a espada de suas mãos.

Brienne sentiu o coração falhar uma batida. Ela nunca tinha pensado por esse ângulo. Todos os seus pretendentes anteriores falavam de filhos como se fossem a única utilidade que ela poderia ter — uma maneira de compensar sua falta de beleza.

— Eu não me casei com você para ter uma reprodutora, Brienne de Tarth — continuou Lucian, os olhos rosados brilhando com uma intensidade febril. — Eu me casei com você porque queria uma parceira. Queria uma Capitã para minhas frotas, uma guerreira que pudesse lutar ao meu lado. Quero que você conheça o mar, que comande homens, que sinta o peso do aço valiriano em uma batalha real antes de ter que carregar o peso de uma criança.

Ele deu um sorriso curto, quase triste.

— O chá não é porque eu não quero seus filhos. É porque eu quero você. Inteira. Livre. Por um tempo, quero que sejamos apenas nós dois contra o mundo, sem que o dever de um herdeiro a acorrente antes que você possa sequer abrir suas asas.

Brienne sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, mas desta vez não eram de vergonha. Era uma sensação avassaladora de ser compreendida, de ser vista não como um meio para um fim, mas como uma pessoa com desejos e capacidades próprias.

— O senhor... realmente quer que eu lute? — perguntou ela, a voz embargada. — Mesmo que os outros lordes riam? Mesmo que digam que o Senhor das Marés é governado por uma mulher armada?

Lucian soltou uma risada sombria e beijou o joelho dela.

— Deixe que digam. Quando eles virem você no convés de um navio de guerra, com o manto Velaryon voando ao vento e sua espada atravessando quem ousar nos desafiar, ninguém estará rindo. Eles estarão tremendo.

Ele pegou a caneca das mãos dela e a levou novamente aos lábios de Brienne.

— Beba, se for isso que você quer. Se você me disser agora que prefere o berço à espada, eu jogarei este chá pela janela e começaremos a construir nosso legado hoje mesmo. Mas o poder de escolha é seu, Brienne. Sempre será seu.

Brienne olhou para o chá e depois para o marido. Ela viu nele não apenas o homem bonito e enigmático de Valíria, mas um aliado, um protetor de sua alma. Ela levou a caneca aos lábios e bebeu o líquido morno e amargo até o fim.

Quando terminou, Lucian pegou a caneca vazia e a colocou de lado. Ele subiu na cama novamente, envolvendo-a em seus braços quentes, puxando-a para que ela se deitasse sobre o peito dele.

— Obrigado — sussurrou ele no ouvido dela.

— Pelo quê? — perguntou ela, sentindo-se segura no abraço dele.

— Por confiar em mim. Eu sei que o mundo foi cruel com você, Brienne. Eu sei que lhe ensinaram a esperar o pior de cada homem. Mas eu não sou como eles.

— Eu sei disso agora — respondeu ela, fechando os olhos e ouvindo o som do mar lá fora, misturado ao bater do coração de Lucian.

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, apenas aproveitando a presença um do outro. O sol subia mais alto, dissipando a névoa de Derivamarca.

— Vaelor disse que o navio capitânia precisa de uma inspeção hoje — comentou Lucian, passando os dedos pelos cabelos curtos e dourados de Brienne. — Ele acha que a vela principal precisa de reparos.

Brienne levantou a cabeça, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios.

— Ele só diz isso porque quer me ver tentando subir no mastro. Ele ainda não aceitou que eu o venci no pátio de armas.

Lucian riu, um som claro e feliz.

— Provavelmente. Mas você vai?

— Vou — disse ela com determinação, sentando-se e procurando por suas roupas de couro. — Se eu vou ser a Senhora de Maré Alta, preciso saber se meus navios estão em ordem.

Lucian observou-a se vestir, admirando a força de seus movimentos e a confiança que começava a florescer nela.

— Brienne? — chamou ele quando ela estava prestes a calçar as botas.

— Sim, Milorde?

— Daqui a um ano, ou dois, quando as tempestades nos Degraus estiverem calmas e você já tiver gravado seu nome no aço... — Ele fez uma pausa, e Brienne viu uma vulnerabilidade rara em seu olhar. — Eu adoraria ter uma filha com seus olhos azuis e sua coragem. Ou um filho que herde sua honra.

Brienne sentiu um calor no peito que nada tinha a ver com a temperatura de Lucian. Ela caminhou até ele, inclinou-se e beijou-o com uma doçura que a surpreendeu.

— Eles terão a sua beleza e o seu fogo, Lucian. E serão os herdeiros mais temidos de Westeros.

Ele sorriu, puxando-a para um último beijo rápido antes que ela se afastasse.

— Vá então, Capitã. O mar está esperando.

Brienne saiu dos aposentos com um passo firme, a capa verde-água balançando atrás dela. Ao caminhar pelos corredores de Maré Alta, ela não se encolheu quando cruzou com os guardas ou com a Septa Maryam. Ela os cumprimentou com a cabeça, recebendo em troca o respeito que Lucian lhe garantira.

No porto de Casco, o movimento era frenético. O cheiro de peixe, alcatrão e sal preenchia o ar. Vaelor estava no convés da *Fúria de Prata*, gritando ordens para um grupo de marinheiros que pareciam mais interessados em uma briga de taberna do que em consertar velas.

Ao ver Brienne se aproximando, Vaelor parou de gritar e abriu um sorriso largo.

— Ora, se não é a minha Lady favorita! — gritou ele, pulando do navio para o cais com uma agilidade impressionante. — Lucian ainda está dormindo ou você finalmente o nocauteou?

— Ele está cuidando de assuntos do castelo, Vaelor — respondeu Brienne, ignorando a provocação com uma dignidade que fez o bastardo rir. — Eu vim inspecionar a vela principal. Ouvi dizer que seus homens estão ficando preguiçosos.

— Preguiçosos? — Vaelor fingiu indignação. — Eles estão apenas aterrorizados. Correm boatos de que você quebrou a cama de carvalho do Lorde. Eles acham que, se você fizer um movimento brusco no convés, o navio afunda.

Brienne sentiu o rosto esquentar, mas não recuou. Ela deu um passo à frente, ficando cara a cara com Vaelor.

— Se o navio afundar, será porque o mestre de armas não soube treinar seus homens para manter o equilíbrio. Vamos, Vaelor. Suba comigo. Quero ver o estado do cordame.

Vaelor olhou para ela, o sarcasmo morrendo em seus olhos para dar lugar a uma admiração genuína.

— Como desejar, Milady. Ou devo dizer... Capitã?

— Brienne serve perfeitamente — disse ela, começando a subir a rede de cordas com uma agilidade que deixou os marinheiros ao redor boquiabertos.

Lá do alto do mastro, Brienne olhou para o horizonte. O mar de Derivamarca estendia-se à sua frente, vasto, indomável e cheio de possibilidades. Ela não era mais a "Brienne, a Bela" que servia de piada nos salões de Porto Real. Ela era a mulher que o mar escolhera, a guerreira que o fogo de Valíria reconhecera como igual.

Horas mais tarde, quando o sol começou a baixar e as sombras se alongaram sobre o porto, Lucian apareceu no cais. Ele não chamou por ela; apenas ficou parado, observando-a enquanto ela explicava a um marinheiro jovem a melhor maneira de amarrar um nó de recife.

Quando Brienne finalmente desceu, suada e com as mãos sujas de alcatrão, Lucian estava esperando com uma toalha de linho e um olhar de orgulho que valia mais do que qualquer coroa.

— O navio está pronto? — perguntou ele.

— Quase — respondeu Brienne, aceitando a toalha para limpar o rosto. — Vaelor precisa de mais disciplina, mas os homens são bons. Eles só precisam saber quem manda.

— E agora eles sabem — disse Lucian, colocando o braço sobre os ombros dela enquanto caminhavam de volta para o castelo.

Naquela noite, não houve chá da lua. Houve apenas o descanso dos guerreiros e a promessa silenciosa de que, em algum lugar no futuro, haveria tempo para berços e herdeiros. Mas, por enquanto, o mundo pertencia à Pérola e à Safira, e o Mar Estreito tremia diante da união que ninguém ousara prever.

Enquanto Brienne adormecia nos braços de Lucian, ela percebeu que a verdadeira beleza não estava no reflexo de um espelho, mas na liberdade de ser exatamente quem ela nasceu para ser: uma mulher de Tarth, uma Senhora de Derivamarca e, acima de tudo, uma guerreira que encontrara seu lugar entre o fogo e o mar.