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a dama e o vagabundo

Sombras da Mansão e o Gosto da Mentira

O sol da manhã entrou pelas frestas da janela do quarto do Janjão, cortando a penumbra e me lembrando de que o tempo de ser eu mesma estava expirando. Eu sentia o peso do corpo dele sobre o meu peito, um calor reconfortante que eu queria carregar comigo para dentro daquela mansão gelada. Janjão ainda dormia profundamente, o rosto relaxado, sem aquela expressão de marra que ele usava para intimidar os outros na rua.

Eu o afastei com cuidado, sentindo um calafrio quando o contato da pele se perdeu. Levantei-me e comecei a catar minhas roupas espalhadas pelo chão. O pijama de renda foi guardado no fundo da mochila, escondido sob os livros de literatura e matemática. Vesti o uniforme da escola — a saia plissada, a camisa social branca impecável — e prendi o cabelo naquele rabo de cavalo perfeito que meu pai tanto admirava. No espelho do banheiro, retoquei a maquiagem leve. A Hanna "boazinha" estava de volta, pronta para a performance.

— Já vai, princesa? — A voz do Janjão soou rouca, vinda da cama. Ele estava sentado, coçando a cabeça, com os olhos pequenos de sono.

— O motorista passa na frente da escola em trinta minutos, Janjão — respondi, aproximando-me para dar um selinho rápido nele. — Se eu não estiver lá, o Dr. José Ricardo manda a cavalaria atrás de mim.

— Odeio esse teatro que você tem que fazer — ele resmungou, puxando-me pela cintura para um último abraço. — Um dia você não vai mais precisar voltar pra lá.

— Eu sei. Mas por enquanto, esse teatro é o que paga os nossos luxos, lembra? — Pisquei para ele, dei um tapa de leve no seu rosto e saí do quarto.

A mãe dele estava na cozinha, tomando um café forte. Ela me lançou um olhar cúmplice e um sorriso que dizia que ela sabia exatamente como tinha sido a nossa noite.

— Juízo, menina. E se aquele velho te encher o saco, já sabe: aqui é sua casa — disse ela, batendo a mão na mesa de fórmica.

— Obrigada, Sônia. Você é a melhor — respondi, saindo apressada.

O trajeto até a mansão foi feito no banco de trás do carro preto, com o motorista mantendo o silêncio fúnebre de sempre. Quando os portões automáticos se abriram, senti aquela pressão familiar no peito. A Mansão Almeida Campos era linda, luxuosa, mas tinha o frescor de um mausoléu. Entrei pela porta da frente, mantendo o sorriso doce que eu treinava desde os cinco anos.

— Hanna? É você, querida? — A voz do meu pai ecoou do escritório.

— Sim, papai! — respondi, caminhando até a porta entreaberta.

José Ricardo estava sentado atrás da sua imensa mesa de carvalho, cercado por papéis e pastas que decidiam o destino de centenas de funcionários e, claro, das órfãs. Ele tirou os óculos e me olhou com orgulho.

— Como foi o grupo de estudos na casa da sua amiga? — perguntou ele, acreditando piamente na mentira que eu inventara na noite anterior.

— Foi ótimo, papai. A Maria Eduarda é muito inteligente, conseguimos avançar bastante em química — menti, sem piscar. — Mas estou um pouco cansada. Vou subir para descansar um pouco antes do almoço.

— Espere um momento — ele disse, levantando-se. — Eu estava pensando... hoje à tarde vou fazer uma visita ao Orfanato Raio de Luz. Gostaria que você me acompanhasse. As crianças sentem sua falta, e é bom que você comece a se envolver mais com a administração de lá. Afinal, aquilo será seu um dia.

Senti uma onda de náusea. O cheiro de Janjão ainda estava na minha pele, e a ideia de trocar o abraço dele pelo olhar carente daquelas crianças me dava vontade de gritar. Mas eu apenas sorri, o sorriso mais angelical que consegui produzir.

— Claro, papai. Será um prazer. Eu adoro aquelas meninas, elas são tão... puras.

— É por isso que eu te amo, Hanna. Você tem um coração de ouro, igual ao da sua mãe.

Se ele soubesse o que eu realmente pensava daquele "coração de ouro", ele teria um infarto ali mesmo. Saí do escritório e subi as escadas, sentindo o peso da falsidade em cada degrau. No meu quarto, joguei a mochila no chão e me tranquei. Precisava de um banho urgente para tirar o cheiro de liberdade e colocar o perfume de lavanda que as "boas meninas" usam.

À tarde, o carro nos deixou em frente ao casarão do orfanato. Assim que descemos, a gritaria começou.

— Hanna! A Hanna chegou! — gritou a pequena Tati, correndo em minha direção.

Eu me abaixei, abrindo os braços para recebê-la, embora por dentro estivesse contando os segundos para aquele contato acabar. O cheiro de sabonete barato e suor de criança era quase insuportável.

— Oi, minha linda! Que saudade de você! — exclamei, dando um beijo na bochecha dela.

Mili, a "perfeitinha" do grupo, aproximou-se com aquele ar de responsabilidade que me dava nos nervos.

— Oi, Hanna. Que bom que você veio. As meninas estavam perguntando quando você voltaria para contar mais histórias — disse Mili, com um sorriso sincero que eu tinha vontade de apagar.

— Oi, Mili. Eu sempre tento vir, você sabe, mas a escola consome muito tempo — respondi, levantando-me e limpando discretamente a poeira da minha saia.

Meu pai conversava com a diretora, e eu fui levada para o pátio, onde as outras crianças brincavam. Pata estava sentada em um canto, observando tudo com aquele olhar desconfiado dela. Ela era a única que parecia perceber que algo não encaixava na minha doçura excessiva. Talvez fosse o instinto de quem também veio da rua.

— E aí, Hanna? — Pata perguntou, cruzando os braços. — Veio trazer mais bonecas velhas pra gente ou só veio exibir esse uniforme caro?

— Pata! Não fale assim com a Hanna — repreendeu Mili, visivelmente sem graça.

— Tudo bem, Mili. Eu entendo a Pata — eu disse, fazendo minha voz soar compreensiva e sofrida. — Eu sei que a vida não é fácil para vocês, e às vezes a gente desconta em quem só quer ajudar.

Pata soltou um som de desdém e se levantou, saindo de perto. Eu respirei fundo, mantendo a máscara.

— Não liga pra ela, Hanna. Ela está em um dia ruim — explicou Cris, aproximando-se com um álbum de fotos. — Vem ver os desenhos que a gente fez na aula de artes!

Passei a próxima hora fingindo interesse em desenhos de sol com carinha e árvores tortas. Por dentro, minha mente estava no quarto do Janjão, lembrando da batida do funk e do toque das mãos dele. Eu imaginava o que ele estaria fazendo agora. Provavelmente na praça com o resto da turma, planejando alguma confusão ou apenas curtindo a liberdade que eu tanto invejava.

— Hanna, você está bem? Parece distraída — comentou Mili, tocando meu ombro.

— Ah, estou sim. Só pensando em como vocês são fortes por viverem aqui com tanta alegria — respondi, forçando uma lágrima nos olhos. — Às vezes eu me sinto tão pequena perto de vocês.

— Você é maravilhosa, Hanna — disse Bia, que geralmente era a mais durona, mas que também caía na minha encenação. — Você é como uma irmã mais velha pra gente.

A ironia era quase poética. Eu, a pessoa que mais as detestava, era vista como uma santa.

Quando meu pai finalmente terminou a reunião com a diretoria, ele veio me buscar. Ele parecia satisfeito, vendo-me rodeada pelas órfãs.

— Vamos, Hanna? Temos um jantar com alguns investidores hoje à noite — disse ele.

— Claro, papai. Tchau, meninas! Prometo voltar logo com surpresas! — acenei, caminhando em direção ao portão com uma pressa que tentei disfarçar.

Assim que entrei no carro e os vidros subiram, a expressão doce sumiu do meu rosto como se nunca tivesse existido. Peguei um lenço umedecido na bolsa e limpei o lugar onde a Tati tinha me beijado.

— Elas são adoráveis, não são? — comentou meu pai, olhando pela janela.

— Sim, papai. Adoráveis — respondi, com a voz fria, pegando meu celular.

Mandei uma mensagem rápida para o Janjão: "O pesadelo do orfanato acabou por hoje. Me encontra na praça às dez? Preciso de ar puro."

A resposta veio em segundos: "Vou estar lá, gata. Traz aquele cigarro que você roubou do escritório do seu pai."

Sorri de verdade pela primeira vez no dia. O jantar com os investidores seria um tédio, mas eu suportaria. Eu suportaria qualquer coisa — as órfãs, as mentiras, o Dr. José Ricardo e a mansão — desde que, no final da noite, eu pudesse fugir para os braços do Janjão e ser a Hanna que ninguém, além dele, ousava conhecer.

À noite, o jantar foi exatamente como eu previra: homens velhos falando sobre ações, juros e filantropia barata. Eu usei um vestido azul-marinho discreto, mantive a postura ereta e respondi a todas as perguntas com a inteligência e a polidez esperadas.

— Sua filha é um encanto, José Ricardo. Uma verdadeira Almeida Campos — disse um dos investidores, um homem gordo que cheirava a charuto caro.

— Ela é o meu maior orgulho — respondeu meu pai, brindando com sua taça de vinho.

Eu sorri para o homem, mas por baixo da mesa, meus pés balançavam impacientes. Assim que o jantar terminou e os convidados foram embora, fingi uma dor de cabeça terrível.

— Papai, acho que o dia foi muito cansativo. Vou me deitar — eu disse, fazendo uma expressão de cansaço.

— Claro, querida. Descanse. Amanhã temos muito o que fazer na fundação.

Subi para o quarto, mas não tirei a maquiagem. Esperei trinta minutos até ter certeza de que a casa estava em silêncio. Troquei o vestido por uma calça jeans justa, uma regata preta e uma jaqueta de couro. Peguei os cigarros de prata que tinha escondido na gaveta e saí pela janela, descendo pela trepadeira que eu já conhecia de cor.

A noite estava fresca, e o silêncio do bairro nobre era quase ofensivo. Caminhei algumas quadras até onde o asfalto começava a ficar mais esburacado e as luzes dos postes eram mais fracas. A praça estava deserta, exceto por uma figura encostada em uma moto sob a sombra de uma árvore frondosa.

— Demorou, princesa — disse Janjão, jogando o resto de um cigarro no chão e o apagando com a bota.

— Tive que aguentar um jantar com o "clube dos dinossauros" do meu pai — respondi, aproximando-me e sentindo o cheiro de asfalto e liberdade que emanava dele. — Mas eu trouxe o que você pediu.

Entreguei a ele a caixa de cigarros de metal. Ele abriu, pegou um e acendeu, soprando a fumaça para o alto.

— Você é um perigo, Hanna. Roubando o próprio pai... — Ele riu, puxando-me para entre suas pernas enquanto continuava sentado na moto.

— Ele tem caixas e mais caixas disso. Nem vai notar — eu disse, passando as mãos pelo pescoço dele. — E então, o que a turma está planejando?

— O Janos quer fazer um racha na avenida nova na sexta. E depois vamos para aquele galpão abandonado perto da linha do trem. Vai ter som, bebida e ninguém pra encher o saco.

— Eu vou estar lá — afirmei, sentindo a adrenalina subir só de pensar no perigo.

— E as meninas do orfanato? Como foi o dia com as suas "irmãzinhas"? — ele perguntou, com um tom de deboche.

— Insuportável. A Mili continua achando que é a salvadora do mundo e a Tati não parava de me grudar. Eu quase perdi a paciência quando a Pata começou a me encarar. Aquela garota é um problema, Janjão.

— Ela é da rua, Hanna. Ela sente o cheiro de quem não pertence ao lugar. Mas relaxa, ela nunca vai conseguir provar nada contra a "perfeita Hanna Almeida Campos".

— Eu sei. Mas às vezes eu tenho vontade de contar tudo só pra ver a cara de horror daquelas órfãs. Imagina a Mili descobrindo que a maior inspiração dela namora o líder da turma que rouba os lanches delas?

Nós dois rimos, um riso sombrio que ecoou pela praça vazia. Janjão me puxou para um beijo profundo, um beijo que tinha gosto de tabaco e rebeldia. Ali, na escuridão, eu não precisava de herança, de sobrenome ou de orfanato.

— Sabe o que eu estava pensando? — Janjão sussurrou, afastando-se apenas um pouco. — Quando você assumir aquele lugar, a gente podia usar o porão pra guardar as coisas da turma. Ninguém nunca ia desconfiar de um orfanato.

Eu olhei para ele, surpresa com a audácia da ideia, e então um sorriso lento se espalhou pelo meu rosto.

— Janjão, você é um gênio. O Orfanato Raio de Luz servindo de fachada para a nossa turma... Meu pai se reviraria no túmulo.

— E é por isso que a gente combina tanto, Hanna. Você tem o rosto de um anjo, mas a mente é toda minha.

Ficamos ali por horas, planejando um futuro onde as regras da sociedade não se aplicavam a nós. Eu era a herdeira do luxo, ele era o rei do caos, e juntos, estávamos construindo um império de mentiras que ninguém seria capaz de derrubar.

Quando voltei para a mansão, pouco antes do amanhecer, entrei pela janela com a agilidade de uma sombra. Deitei-me na cama, ainda vestida com a jaqueta de couro, e olhei para o teto. Em poucas horas, eu teria que acordar, colocar o uniforme e voltar a ser a Hanna que o mundo esperava. Mas enquanto fechava os olhos, eu sabia que a verdadeira Hanna estava bem ali, escondida sob a seda e a renda, esperando o próximo momento em que as luzes se apagassem e a máscara pudesse, enfim, cair.