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a dama e o vagabundo

O Labirinto de Vidro e a Batida do Caos

A luz do sol que entrava pelas cortinas de seda do meu quarto na mansão parecia um insulto. Eram apenas sete da manhã, e o despertador no meu iPhone — um toque suave de piano que meu pai escolhera para ser "relaxante" — soava como uma martelada na minha cabeça. Eu ainda sentia o cheiro do cigarro do Janjão no meu cabelo e o toque das mãos dele na minha cintura, uma memória que contrastava violentamente com a brancura estéril dos meus lençóis de mil fios.

Levantei-me com a preguiça de quem preferia estar em qualquer lugar, menos ali. Fui até o espelho. Meus olhos castanhos-mel estavam levemente inchados, mas nada que um bom corretivo e algumas camadas de rímel não resolvessem. Enquanto eu aplicava a maquiagem, ouvi batidas leves na porta.

— Hanna, querida? — Era a voz de Madalena, a governanta que estava na família desde antes de eu nascer. — Seu pai pediu para avisar que o café será servido em dez minutos. Ele quer conversar com você e o Júnior antes de vocês irem para o colégio.

— Obrigada, Mada! Já estou descendo — respondi, forçando aquela voz de "menina exemplar" que já saía no automático.

Terminei de me arrumar. O uniforme do colégio de elite — saia xadrez, camisa social branca e o blazer com o brasão dos Almeida Campos — parecia uma armadura. Uma armadura que me protegia, mas que também me sufocava. Coloquei meus anéis de prata, os mesmos que Janjão gostava de rodar nos meus dedos enquanto me beijava, e desci as escadas de mármore.

Na sala de jantar, o Dr. José Ricardo já estava posicionado na cabeceira, lendo o jornal econômico. Júnior estava à mesa, com um ar de quem não dormira bem, provavelmente remoendo alguma das suas crises existenciais sobre a "responsabilidade social" da nossa família.

— Bom dia, família — disse eu, sentando-me e servindo-me de uma fatia de mamão, como se fosse a coisa mais deliciosa do mundo.

— Bom dia, Hanna — meu pai respondeu, baixando o jornal e me dando aquele olhar de aprovação que eu tanto manipulava. — Fico feliz em ver que acordou disposta. Ontem, depois que voltamos do orfanato, notei que você estava um pouco pálida.

— Foi só o cansaço do estudo, papai — menti, dando um gole no suco de laranja. — Mas ver as meninas me deu uma energia nova. Elas são tão inspiradoras.

Júnior soltou um suspiro audível ao meu lado. Ele sempre foi o "consciente" da família, o que o tornava um alvo fácil para o meu desprezo secreto.

— É bom que você se interesse, Hanna — disse Júnior, olhando-me com certa desconfiança. — O Raio de Luz precisa de alguém que realmente se importe com o futuro daquelas crianças, não apenas com a imagem da fundação.

— E por que você acha que eu não me importo, Júnior? — perguntei, arqueando uma sobrancelha, fazendo-me de ofendida. — Eu passo tardes inteiras lá. Eu ouço os problemas delas.

— Eu sei, eu sei — ele disse, levantando as mãos em sinal de rendição. — Só acho que você é... muito perfeita às vezes. Parece que nada te abala.

— Isso se chama equilíbrio, Júnior — meu pai interveio, encerrando o assunto. — Algo que você deveria aprender. Mas o motivo de eu ter chamado vocês é que decidi organizar um evento beneficente no jardim da mansão na próxima semana. Um chá da tarde para os principais doadores do orfanato. E quero que vocês dois, mas especialmente você, Hanna, sejam os anfitriões mirins. Quero as órfãs aqui também, para que os doadores vejam o "fruto" do seu investimento.

Senti um nó no estômago. Trazer aquelas pivetes para dentro da minha casa? Ver a Tati correndo pelos tapetes persas e a Mili tentando agir como se pertencesse a este mundo? Era o meu pior pesadelo. Mas, externamente, meu rosto se iluminou com um sorriso radiante.

— Ah, papai! Que ideia maravilhosa! — exclamei, batendo palmas levemente. — Vai ser um dia inesquecível para elas. Imagine a alegria daquelas meninas conhecendo a mansão!

— Sabia que podia contar com você, minha filha — disse ele, voltando ao jornal.

O resto do café passou em um borrão. Assim que o motorista me deixou na frente do colégio, meu humor mudou. Eu não entrei. Esperei o carro dobrar a esquina e caminhei rapidamente para dois quarteirões de distância, onde a moto do Janjão já estava estacionada sob a sombra de uma árvore. Ele estava fumando, com a jaqueta de couro aberta e o olhar fixo no nada.

— E aí, princesa? — ele disse, jogando o cigarro fora assim que me viu. — Pronta pra matar aula?

— Mais do que pronta — respondi, subindo na garupa e abraçando sua cintura com força. — Meu pai quer transformar a mansão em uma filial do orfanato na semana que vem. Preciso de uma dose pesada de realidade antes que eu enlouqueça e jogue um bule de chá na cabeça da Mili.

Janjão riu, o som vibrando contra as minhas costas. Ele deu partida na moto e saímos em alta velocidade, deixando para trás o mundo de etiquetas e obrigações. Fomos para o nosso esconderijo habitual: um galpão abandonado perto da antiga linha de trem, onde a turma se reunia.

Lá, o ambiente era exatamente o que eu precisava. O cheiro de pneu queimado, o som de um rádio de pilha tocando rap nacional e as risadas altas de Janos e do resto do grupo.

— Olha só quem chegou! — gritou Janos, levantando uma lata de cerveja em saudação. — A dona do pedaço e o seu segurança particular.

— Cala a boca, Janos — eu disse, rindo e sentando em um sofá velho cujas molas já tinham desistido de lutar. — Me dá um gole disso.

Passei a manhã ali, sendo a Hanna que ninguém na mansão conhecia. Bebemos, rimos de piadas sujas e planejamos pequenas rebeldias. Janjão estava ao meu lado, o braço passado pelo meu pescoço, possessivo e relaxado.

— Então o velho quer fazer uma festa pras órfãs? — Janjão perguntou, brincando com uma mecha do meu cabelo preto.

— Um chá beneficente — corrigi, com desgosto. — Ele quer que elas desfilem como se fossem bichinhos de estimação treinados.

— A gente devia aparecer lá — sugeriu Janos, com um brilho malicioso nos olhos. — Imagina a cara do Dr. José Ricardo quando a turma do Janjão entrasse pelo portão principal.

— Nem brinca com isso — eu disse, embora uma parte de mim adorasse a ideia do caos. — Se o meu pai descobre que eu ando com vocês, ele me manda pra um internato na Suíça antes que eu possa dizer "herança".

— Ele não vai descobrir — Janjão sussurrou no meu ouvido, sua voz enviando arrepios pela minha espinha. — Mas a gente pode dar um jeito de tornar esse chá... interessante.

Ficamos ali até o início da tarde. Eu sabia que precisava voltar para a escola a tempo de ser pega pelo motorista, ou a farsa começaria a desmoronar. Janjão me levou de volta, parando a moto no mesmo lugar de antes.

— Te vejo amanhã? — perguntei, ajeitando a saia do uniforme que estava amassada.

— Sempre, princesa — ele respondeu, dando-me um beijo que tinha gosto de cerveja e liberdade.

Voltei para a escola e esperei pelo carro. O trajeto de volta para a mansão foi silencioso. Assim que cheguei, Madalena me informou que eu tinha "visitas" no jardim de inverno. Estranhei, pois não esperava ninguém.

Ao entrar no cômodo envidraçado, meu coração quase parou. Lá estavam elas: Mili e Pata. Estavam sentadas desconfortavelmente nas poltronas de veludo, sendo servidas com suco por uma das empregadas.

— Hanna! — Mili levantou-se com aquele sorriso irritantemente doce. — Desculpe vir sem avisar, mas a Diretoria disse que seu pai autorizou que viéssemos para planejar o evento da semana que vem. Ela disse que você seria a coordenadora das atividades das crianças.

Eu senti uma veia pulsar na minha testa. Forcei o músculo do rosto a se contrair em um sorriso.

— Que surpresa maravilhosa, meninas! — disse eu, aproximando-me. — Eu não sabia que viriam hoje, senão teria preparado algo especial.

Pata não se levantou. Ela me observava com aqueles olhos escuros que pareciam ler através da minha pele. Ela pegou um biscoito fino da bandeja e mordeu, sem tirar os olhos de mim.

— Casa legal, Hanna — disse Pata, o tom de voz carregado de um sarcasmo que só eu conseguia identificar. — É bem diferente do orfanato. Tem espaço de sobra.

— É uma casa antiga, Pata — respondi, mantendo a calma. — Tem suas qualidades, mas o que importa é o calor humano, não é, Mili?

— Com certeza! — Mili concordou, sempre pronta para ver o lado bom de tudo. — Nós trouxemos algumas ideias de músicas e apresentações que as meninas podem fazer para os doadores.

— Ah, eu adoraria ver — eu disse, sentando-me na frente delas.

Passamos a hora seguinte discutindo detalhes tediantes. Mili falava sobre coreografias e letras de músicas sobre amizade e esperança, enquanto eu fingia anotar tudo em um caderno caro. Por dentro, eu estava gritando. Pata, por outro lado, mal falava. Ela apenas observava a decoração, os quadros caros e, ocasionalmente, fixava o olhar em mim de um jeito que me deixava desconfortável.

— Hanna — disse Pata, de repente, interrompendo uma explicação de Mili sobre um número de dança. — Esse anel que você está usando... é bem bonito. Parece prata de verdade.

Olhei para o anel. Era um que Janjão me dera, com um desenho de uma caveira estilizada, que eu esquecera de tirar antes de entrar em casa. Meu sangue gelou.

— Ah, este? — disse eu, tentando manter a voz estável. — É uma peça de família. Uma relíquia antiga que minha mãe me deixou.

— Estranho — comentou Pata, inclinando a cabeça. — Eu vi um quase igual na mão de um cara que estava em uma moto hoje cedo, perto da escola. Um cara de jaqueta de couro.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Mili olhou de Pata para mim, confusa.

— Pata, não seja boba — disse Mili, rindo. — Onde a Hanna encontraria alguém assim? Ela estava na escola o dia todo.

— É, Pata — eu disse, estreitando os olhos e deixando um pouco da minha verdadeira natureza transparecer no tom de voz. — Você deve estar vendo coisas. O sol da caminhada até aqui deve ter afetado sua visão.

Pata deu um sorriso de canto, um sorriso que dizia que ela sabia que eu estava mentindo.

— É, deve ser isso mesmo — ela respondeu, voltando a beber seu suco. — O sol faz a gente ver miragens.

Quando elas finalmente foram embora, eu me trancou no quarto e joguei o caderno de anotações contra a parede. Aquela garota era um perigo. Ela era inteligente demais e observadora demais. Se ela começasse a ligar os pontos, minha vida de luxo estaria em risco.

Peguei meu tablet e liguei para o Janjão por uma chamada de vídeo criptografada.

— A Pata esteve aqui — eu disse, assim que ele atendeu.

— A órfã rebelde? O que ela queria? — Janjão perguntou, deitado em sua cama, sem camisa.

— Ela me viu com você hoje, Janjão. Ou pelo menos viu o anel. Ela está desconfiada.

Janjão soltou uma risada sombria.

— Deixa ela desconfiar, Hanna. O que ela vai fazer? Contar pro seu pai? Quem ele vai acreditar? Na filha perfeita ou em uma órfã de rua que vive arrumando confusão?

— Você não entende — eu disse, andando de um lado para o outro. — Meu pai preza pela imagem acima de tudo. Se houver um pingo de dúvida, ele vai investigar.

— Então a gente dá um motivo pra ela ficar calada — Janjão disse, o olhar tornando-se frio. — No dia desse chá beneficente, a gente faz o nosso movimento. Se ela quer brincar de detetive, a gente mostra pra ela o que acontece com quem se mete com a nossa turma.

— O que você está planejando? — perguntei, sentindo uma mistura de medo e excitação.

— Você vai ver, princesa. Apenas continue sendo a boa menina. Deixa que do caos, eu cuido.

Desliguei a chamada e me joguei na cama. A semana seguinte seria um jogo de xadrez perigoso. De um lado, o mundo de cristal do meu pai e as órfãs carentes. Do outro, o asfalto quente e a fumaça da turma do Janjão. E eu estava exatamente no meio, equilibrando-me na linha tênue entre a herdeira e a rebelde.

Eu olhei para o teto, imaginando a mansão cheia de gente rica e crianças barulhentas. Eu odiava cada uma delas. Odiava a Mili por sua bondade cega, odiava a Tati por sua carência sufocante e odiava a Pata por sua percepção afiada. Mas, acima de tudo, eu amava o poder que eu tinha sobre todas elas. Elas não sabiam quem eu era de verdade. Elas me viam como um anjo, enquanto eu planejava a queda do próprio paraíso que elas tanto desejavam.

— Que comece o show — sussurrei para o quarto vazio, sentindo o gosto amargo e doce da traição nos meus lábios.

Naquela noite, eu não consegui dormir. Cada barulho na mansão parecia o passo de alguém vindo me desmascarar. Mas quando o sol finalmente começou a nascer, eu já estava pronta. Coloquei minha máscara, ajustei meu sorriso e me preparei para o dia. Afinal, eu era uma Almeida Campos. E os Almeida Campos sempre ganham, não importa o quão sujo seja o jogo.