a dama e o vagabundo
Sombras sob a Auréola
A manhã de sábado nasceu sem o peso do despertador ou das obrigações escolares. No calendário da mansão Almeida Campos, era um dia "livre", o que significava que meu pai, imerso em suas planilhas e reuniões de diretoria, me daria a corda necessária para eu me enforcar — ou, no meu caso, para eu fugir para onde a vida realmente pulsava. José Ricardo confiava na minha aura de perfeição; ele acreditava que sua herdeira estava ocupada demais sendo adorável para causar qualquer problema.
— Papai — eu disse, enquanto ele tomava seu café preto no escritório —, a Rita me convidou para passar o final de semana na casa dela. Sabe como ela é zelosa, quer que eu ajude com alguns preparativos para o grupo de jovens da igreja.
Ele tirou os olhos dos papéis e me lançou um olhar benevolente. A menção à Rita era meu trunfo. Rita tinha dezenove anos, era filha de um antigo associado da família e, nos últimos tempos, havia se tornado o exemplo máximo de virtude cristã. Meu pai a via como a influência perfeita para me manter longe das "más companhias" que ele nem sonhava que eu já liderava.
— A Rita é uma moça de princípios, Hanna. Fico feliz que você cultive essa amizade. Pode ir, peça para o motorista te levar.
— Não precisa, papai. Ela vai passar aqui perto com o irmão e me pega na esquina. Não quero incomodar o seu motorista no final de semana.
— Sempre tão atenciosa — ele murmurou, voltando ao trabalho.
Deixei a mansão com uma mochila nas costas e um sorriso cínico nos lábios. Assim que dobrei a esquina e me certifiquei de que ninguém da casa me observava, mudei o passo. O destino não era nenhuma reunião de jovens, mas sim o refúgio seguro nos braços do perigo.
Cheguei à casa do Janjão e entrei como se o lugar fosse meu. A mãe dele, Sônia, acenou da cozinha com uma caneca de café na mão, e eu subi direto para o quarto. Janjão estava jogado na cama, o peito nu subindo e descendo num ritmo lento, os olhos fixos no teto. Quando me viu, um sorriso de lado, aquele que sempre me desarmava, surgiu em seu rosto.
— Achei que o Dr. José Ricardo ia te trancar na torre hoje — ele brincou, esticando o braço para que eu me aproximasse.
— Ele acha que eu sou uma princesa, Janjão. Mas princesas também sabem pular o muro — respondi, fechando a porta atrás de mim.
Eu precisava me livrar daquela "fantasia" de menina rica. Tirei o vestido comportado e vesti uma saia rodada branca, leve, e uma blusa preta larga que eu tinha deixado lá na última vez. Joguei-me ao lado dele na cama, sentindo o calor do seu corpo.
— Como está a vida de herdeira? — ele perguntou, passando a mão pelo meu cabelo longo.
— Um tédio insuportável. Se eu ouvir a palavra "filantropia" ou "orfanato" mais uma vez, acho que vou ter um surto. Aquelas órfãs... Janjão, você não tem ideia. A Mili age como se fosse a dona da verdade, e a Pata fica me vigiando como se fosse um cão de guarda. É exaustivo fingir que eu me importo se elas ganharam sapatos novos ou se a comida está boa.
— Você é uma ótima atriz, Hanna. Às vezes até eu me pergunto se essa doçura toda não é real.
— Só é real quando estou aqui — sussurrei, encostando minha cabeça em seu ombro. — Lá fora, tudo é vidro. Aqui, eu posso quebrar as coisas se eu quiser.
Passamos o resto da tarde em um casulo de ócio. Ligamos o tablet e colocamos para assistir "A Fuga das Galinhas: A Ameaça dos Nuggets". Era irônico assistir a um filme sobre fugas e rebeldia enquanto eu mesma vivia uma vida clandestina. Comentamos as cenas, rimos das piadas bobas e, por algumas horas, fomos apenas dois adolescentes comuns, longe das sombras do Raio de Luz ou das pressões da mansão.
Quando o relógio marcou meia-noite, o clima mudou. O silêncio da casa foi quebrado pelo toque do celular do Janjão. Era um dos amigos da vila.
— Festa na Vila Áurea? — Janjão perguntou para o telefone, seus olhos brilhando para mim. — É, a gente vai. Prepara o estoque que a gente tá chegando.
Ele desligou e me olhou com desafio.
— E aí, princesa? Quer ver como a gente se diverte de verdade ou vai dormir cedo pra orar com a Rita?
— Engraçadinho — eu ri, levantando-me da cama. — Me dá dez minutos.
Fui para o espelho. Eu precisava de uma transformação. Tirei a saia branca e vesti uma de couro preta, bem justa na cintura e mais solta nas coxas. Por cima, coloquei uma regata preta fina e, por cima dela, uma blusa branca transparente com um desenho de dragão chinês em vermelho e preto. Dava para ver as alças da regata por baixo, um visual que gritava rebeldia. Calcei meus coturnos pretos pesados e carreguei a maquiagem nos olhos, deixando o olhar predatório.
— Agora sim — Janjão disse, aparecendo atrás de mim, já vestido com sua jaqueta de couro e calça escura. — Essa é a Hanna que eu conheço.
Saímos escondidos, o motor da moto rugindo na noite silenciosa. A Vila Áurea era um labirinto de luzes coloridas, música alta e o cheiro característico de asfalto quente e festa de rua. Assim que chegamos, o som do funk e do trap dominava o ambiente. Fomos direto para um grupo que se aglomerava perto de um carro com o porta-malas aberto, transformado em uma parede de alto-falantes.
— Olha quem apareceu! — gritou Doni, um dos amigos do Janjão, batendo na mão dele. — E trouxe a primeira-dama!
— E aí, galera — eu disse, já pegando um copo que me ofereceram. O líquido queimou a garganta, mas o efeito foi imediato: a adrenalina subiu, apagando qualquer rastro da Hanna Almeida Campos.
No meio da multidão, avistei uma figura familiar, mas totalmente fora de contexto. Rita estava lá. Ela usava roupas discretas, um semblante calmo que contrastava com a loucura ao redor. Estava acompanhada de Doni e Nando, seus amigos de longa data. Rita agora fazia parte da igreja, era a "santinha" do grupo, mas ali, ninguém a julgava por seu passado ou presente.
Aproximei-me dela, equilibrando meu copo e rindo.
— Rita! Olha só você, em meio aos pecadores — brinquei, abraçando-a.
Rita riu, um riso genuíno.
— Alguém tem que vigiar esses dois — disse ela, apontando para Doni e Nando. — E você, Hanna? Seu pai acha mesmo que estamos estudando a Bíblia agora?
— Ele tem certeza disso — respondi, pegando meu celular para filmar a cena. Janjão estava logo atrás, conversando com os meninos, rindo de alguma piada interna. — Eu tenho muita sorte de você ser crente agora, Rita. Meu pai confia cegamente em você. Ele acha que estou em boas mãos, protegida de todo o mal do mundo.
Rita deu um sorriso pretensioso, ajeitando a postura com uma ponta de exibicionismo.
— E você está, não está? — ela disse, piscando para mim. — Eu sou a melhor cobertura que você poderia ter. Ninguém desconfia de uma ovelha do senhor.
— Você é uma gênia — eu disse, filmando Janjão enquanto ele gesticulava, a luz dos refletores da festa batendo em seu rosto. — Olha só pra ele. Meu pai teria um infarto se visse o tipo de "estudo bíblico" que a gente faz.
— Ele é diferente perto do seu pai, né? — Janjão comentou, aproximando-se e passando o braço pela minha cintura, olhando para a tela do meu celular onde o vídeo rodava. — Você vira outra pessoa. É assustador o quanto você consegue mentir sem tremer a voz.
— É um dom, Janjão — respondi, bebendo mais um gole. — Ou talvez seja apenas o instinto de sobrevivência. Naquele mundo de porcelana, se você não for perfeita, você é lixo. Aqui, eu posso ser o que eu quiser.
— E o que você quer ser hoje, Hanna? — Nando perguntou, entrando na conversa.
— Hoje? Hoje eu quero esquecer que existe um orfanato cheio de crianças carentes e um pai que acha que eu sou uma boneca — declarei, levantando o copo. — Hoje eu sou apenas a garota do Janjão.
A noite seguiu em um turbilhão de batidas graves e conversas paralelas. Rita, apesar da sua nova fase religiosa, não era uma companhia chata. Ela contava histórias de como conseguia manipular as expectativas dos anciãos da igreja, e nós ríamos da hipocrisia que permeava todos os níveis da sociedade, desde a alta cúpula da mansão até os bancos da paróquia.
— Sabe, Hanna — disse Rita, num momento em que a música baixou um pouco —, às vezes eu sinto falta da adrenalina. Mas ter o poder da confiança é muito melhor. As pessoas te contam segredos, te dão chaves de portas que nunca abririam para o Janjão, por exemplo.
— Exatamente — eu concordei. — É por isso que eu nunca vou deixar de ser a "Hanna boazinha" para o meu pai. Enquanto ele achar que eu sou o anjo dele, eu terei o controle de tudo. Inclusive do futuro daquelas órfãs.
— Você é fria, garota — comentou Doni, impressionado. — Eu gosto disso.
— Não é frieza, Doni. É inteligência — Janjão interveio, puxando-me para mais perto e me dando um beijo rápido. — Ela sabe o que quer. E ela quer o mundo, mas do jeito dela.
Ficamos ali até as primeiras luzes do amanhecer começarem a ameaçar o céu. O cansaço começou a bater, misturado com o resto de álcool no sangue. Rita se despediu, dizendo que precisava estar na igreja cedo para não levantar suspeitas.
— Não esquece, Hanna — disse ela, antes de sair. — Se seu pai perguntar, estudamos as epístolas de Paulo até tarde.
— Pode deixar, mestra — respondi, rindo.
Janjão e eu voltamos para a moto. O vento frio da madrugada batia no meu rosto, limpando um pouco da névoa da festa. Quando chegamos de volta ao quarto dele, a casa ainda estava silenciosa. Sônia provavelmente tinha chegado e ido direto dormir.
Nós nos jogamos na cama, ainda com as roupas da festa. O sol agora já filtrava pelas cortinas, mas eu não me importava.
— Foi uma boa noite — Janjão murmurou, fechando os olhos.
— Foi a melhor — respondi, aninhando-me nele. — Mas amanhã... amanhã a máscara volta.
— Aproveita o agora, Hanna. O amanhã é problema do Dr. José Ricardo.
Fechei os olhos, sentindo o cheiro de couro e cigarro que agora impregnava minha blusa branca. Eu era Hanna Almeida Campos, a filha perfeita, a futura administradora de um orfanato, a luz dos olhos de um pai poderoso. Mas ali, naquele quarto desordenado, eu era apenas a verdade que ninguém queria ver. E a verdade era muito mais divertida do que qualquer mentira de porcelana.