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A Era do Dragão Branco

O Crepúsculo dos Deuses e o Amanhecer dos Renegados

A imensidão do Mar Estreito sob a luz do amanhecer não era azul, mas de um tom de violeta profundo que parecia refletir a alma dos Targaryen. No dorso de Vhagar, o mundo parecia pequeno, uma tapeçaria de conflitos insignificantes que eles haviam deixado para trás. Lucerys sentia o peito de Aemond contra suas costas, uma presença sólida e rítmica que o ancorava enquanto Arrax voava um pouco mais abaixo, mantendo o ritmo com batidas de asas constantes, embora cansadas.

Eles haviam voado durante toda a noite, escapando não apenas da tempestade física de Ponta Tempestade, mas do turbilhão político que ameaçava consumi-los. A adrenalina que antes sustentava Luke começava a dissipar, dando lugar a uma exaustão que pesava em suas pálpebras, mas ele não se permitia fechar os olhos. Cada vez que o fazia, via o rosto de sua mãe, Rhaenyra, e a expressão de desespero que ela certamente teria ao descobrir que seu filho do meio desaparecera.

Aemond pareceu sentir a mudança na tensão do corpo de Luke. Ele apertou o braço em volta da cintura do ômega, puxando-o para mais perto do calor de seu próprio corpo, protegendo-o do vento gélido da altitude.

— Não olhe para trás, Lucerys — sussurrou Aemond, sua voz rouca e próxima ao ouvido de Luke, vibrando através do couro de sua montaria. — O que deixamos para trás é cinza e poeira. O que temos à frente é nosso.

— Eu sei — respondeu Luke, sua voz quase sumindo no rugido do vento. — Mas o peso do que abandonamos... eu sinto como se tivesse arrancado um pedaço do meu próprio coração.

Aemond inclinou a cabeça, encostando a bochecha nos cachos úmidos de Luke.

— O coração dói porque está vivo. Em Porto Real, ele teria sido transformado em pedra ou arrancado por um carrasco. Escolha esta dor, Luke. É a dor da liberdade.

Eles continuaram o voo até que o sol estivesse alto no céu, tingindo as nuvens de ouro. Aemond guiou Vhagar para baixo quando avistaram uma pequena ilha rochosa, pouco mais que um dente de pedra emergindo das águas, longe das rotas comerciais habituais. Era um lugar de parada para pescadores de Essos, mas naquela manhã, parecia deserto.

Quando os pés de Lucerys tocaram a areia grossa e salgada, suas pernas fraquejaram. Aemond saltou da sela com a agilidade de um predador e o amparou antes que ele caísse.

— Me solte, eu consigo ficar de pé — protestou Luke, embora não fizesse nenhum esforço real para se afastar.

— Você está exausto, passarinho — disse Aemond, o tom rude suavizado por uma preocupação que ele só mostrava a Luke. — E Arrax precisa descansar. Ele é valente, mas é jovem.

Luke olhou para seu dragão perolado, que agora se aninhava na areia a alguns metros de distância de Vhagar. A diferença de tamanho era cômica, mas havia uma paz estranha em ver as duas feras compartilhando o mesmo pedaço de terra sem a intenção de se matarem.

— O que faremos agora? — perguntou Lucerys, sentando-se em um tronco trazido pela maré. — Não podemos simplesmente desaparecer. Alguém verá os dragões. Vhagar não é exatamente algo que se possa esconder sob uma capa.

Aemond sentou-se ao lado dele, retirando as luvas de montaria. Suas mãos estavam marcadas pelas rédeas, a pele viva e avermelhada.

— Em Essos, dragões são raros, mas não desconhecidos. Há mercenários, príncipes mercadores e magos que dariam tudo por uma fração do poder que temos. Mas eles também temem o fogo. Seguiremos para Pentos primeiro. Tenho contatos lá que não devem lealdade nem ao meu avô, nem à sua mãe.

— Contatos? — Luke arqueou uma sobrancelha. — Você planejou isso, Aemond? Mesmo antes de Ponta Tempestade?

Aemond olhou para o horizonte, o olho safira brilhando com uma intensidade melancólica.

— Eu sempre soube que este dia chegaria, Lucerys. Desde que você me deu esta marca no rosto, eu soube que nossas vidas estavam entrelaçadas de uma forma que a política nunca permitiria. Eu estudei mapas, guardei ouro em lugares que ninguém procuraria. Eu não ia deixar o destino decidir quando eu perderia você de novo.

Lucerys sentiu um nó na garganta. Ele sempre vira Aemond como o agressor, o tio ressentido que buscava vingança. Ver agora a profundidade da premeditação de Aemond para protegê-los o deixava sem fôlego.

— Você desistiu de tudo por mim — sussurrou Luke. — Sua posição, sua reivindicação, sua família.

— Eu não desisti de nada que realmente importasse — rebateu Aemond, segurando o queixo de Luke e forçando-o a olhar em seus olhos. — O Trono de Ferro é uma cadeira de espadas que corta quem nela senta. Eu prefiro o céu. Eu prefiro você.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som das ondas e pelo ronco rítmico de Vhagar ao fundo. Lucerys inclinou-se para frente, selando seus lábios com os de Aemond em um beijo que sabia a sal e promessa. Ali, naquela ilha esquecida, eles não eram príncipes. Eram apenas um alfa e um ômega que haviam desafiado o mundo.

No entanto, a paz durou pouco. Enquanto o sol começava sua descida, um ponto negro surgiu no horizonte norte. No início, parecia apenas um pássaro, mas o modo como cortava o ar e a velocidade com que se aproximava indicavam algo muito mais perigoso.

Aemond levantou-se num salto, a mão voando para o punho de sua espada.

— Um corvo? — perguntou Luke, levantando-se também.

— Não — disse Aemond, os olhos semicerrados. — É pequeno demais para ser um dragão, mas rápido demais para ser um pássaro comum.

À medida que a silhueta se aproximava, Luke sentiu um frio na espinha. Não era um dragão, mas um mensageiro alado de uma espécie diferente. Um falcão de caça, treinado com perfeição, carregando uma pequena cápsula de metal em sua pata. O animal circulou a ilha e, com uma precisão assustadora, mergulhou em direção a Lucerys, pousando em seu braço estendido.

Luke tremeu ao reconhecer o brasão gravado na cápsula: o selo pessoal de Daemon Targaryen, seu padrasto.

— Como ele nos achou? — sussurrou Luke, retirando o pequeno pergaminho com mãos trêmulas.

Aemond aproximou-se, a tensão emanando dele como calor de uma fornalha.

— Daemon é um rastro de sangue e astúcia. Ele conhece os céus melhor que qualquer um de nós. O que diz a carta?

Lucerys desenrolou o papel. Havia apenas uma frase, escrita com a caligrafia elegante e afiada de Daemon:

"O sangue chama pelo sangue, e o fogo não pode ser escondido. Se vocês buscam a liberdade, não parem em Pentos. Sigam para as Ruínas de Valíria. Ninguém os seguirá até lá. Sua mãe acredita que você está morto, Lucerys. Mantenha essa mentira se quiser viver."

Luke deixou o papel cair na areia. As lágrimas que ele vinha segurando finalmente transbordaram.

— Ela acha que eu morri — disse ele, a voz quebrada. — Ela está sofrendo agora, Aemond. Ela deve estar destruída.

Aemond pegou o papel e o leu, seus lábios se apertando em uma linha fina.

— Daemon está nos dando uma chance. Ele sabe que a guerra começou o momento em que Vhagar mergulhou em Ponta Tempestade. Se ele contar a verdade, Rhaenyra exigirá seu retorno, e os Verdes exigirão minha cabeça. Ao deixar que ela acredite na sua morte, ele nos dá o anonimato.

— É cruel — soluçou Luke. — É a coisa mais cruel que ele poderia fazer por ela.

— É a única forma de nos manter seguros — disse Aemond, envolvendo Luke em um abraço protetor. — Daemon entende o sacrifício. Ele sabe que, para o mundo, nós precisamos deixar de existir para que possamos começar a viver.

Lucerys enterrou o rosto no peito de Aemond, sentindo o peso daquela nova realidade. Ele era um fantasma. Um príncipe morto em uma guerra que mal começara.

— Valíria? — perguntou Luke depois de um tempo, recuperando a compostura. — Dizem que é um lugar amaldiçoado. Que dragões morrem lá.

— Dizem muitas coisas para manter os curiosos longe — respondeu Aemond. — Mas somos o sangue da Antiga Valíria. Se há um lugar no mundo onde as regras dos homens não se aplicam, é lá. Vhagar se lembrará do caminho. Ela é velha o suficiente para ter ouvido os ecos daquele lugar.

Eles sabiam que não podiam perder tempo. Se Daemon os encontrara, outros também poderiam. Aemond ajudou Luke a subir em Arrax, desta vez deixando que o ômega montasse seu próprio dragão. Eles precisavam de velocidade e autonomia.

— Você está pronto? — perguntou Aemond, já montado em Vhagar.

Lucerys olhou para o norte, para onde sua casa, sua mãe e seus irmãos estavam. Ele sentiu uma última pontada de saudade, um adeus silencioso soprado ao vento. Depois, ele olhou para Aemond, o alfa que havia se tornado seu mundo inteiro.

— Eu estou pronto — disse Luke, firmando as rédeas. — Vamos para casa, Aemond. Mesmo que essa casa seja feita de ruínas e sombras.

Com um comando uníssono, as duas feras levantaram voo. Arrax e Vhagar, o jovem e a anciã, o pequeno e a gigante, cortaram o céu em direção ao Sul, para além do mundo conhecido.

A viagem para Valíria levou semanas. Eles evitavam as grandes cidades, caçando para se alimentar e dormindo sob as estrelas em praias desertas. A cada dia que passava, a conexão entre eles se fortalecia. Longe das pressões da corte, Aemond tornava-se menos rude, permitindo-se rir das tentativas de Luke de pescar com as mãos ou de como ele conversava com Arrax como se o dragão fosse um irmão humano.

Por sua vez, Lucerys descobria uma força que não sabia que possuía. Ele aprendeu a navegar pelas estrelas, a ler os ventos e a confiar em seus instintos de ômega para antecipar perigos. Ele não era mais o "passarinho" de Aemond; ele era seu igual.

Certa noite, enquanto acampavam nas margens fumegantes de uma ilha vulcânica já próxima ao Mar de Fogo, Aemond sentou-se atrás de Luke, passando as mãos pelos seus cabelos, que agora estavam mais longos e selvagens.

— Você mudou — comentou Aemond. — Há um brilho nos seus olhos que não estava lá em Porto Real. Você parece... mais perigoso.

Luke sorriu, encostando a cabeça no ombro de Aemond.

— É porque eu não preciso mais me esconder. Eu não sou apenas um ômega para ser casado. Eu sou um cavaleiro de dragão que sobreviveu à fúria de Vhagar e ao desprezo do reino.

Aemond beijou a curva de seu pescoço, onde a marca de sua união — um vínculo de alma que não precisava de mordidas físicas para existir — parecia pulsar.

— Eu nunca mais vou deixar que ninguém coloque você em uma gaiola, Lucerys. Nem mesmo eu.

— Eu sei — disse Luke. — Mas agora, eu quero que você me prometa uma coisa.

— Qualquer coisa.

— Quando chegarmos a Valíria... quando encontrarmos nosso lugar... nós não seremos mais Pretos ou Verdes. Não seremos Velaryon ou Targaryen de Porto Real. Seremos apenas nós.

Aemond segurou a mão de Luke, entrelaçando seus dedos.

— Nós seremos o que quisermos ser. Os novos senhores das cinzas, se assim desejarmos.

No dia seguinte, o céu mudou. O ar tornou-se pesado com o cheiro de enxofre e uma névoa perpétua cobriu o horizonte. As águas abaixo deles ferviam em certos pontos, e o som de gritos distantes parecia ecoar nas correntes de ar. Eles haviam chegado ao Domínio de Valíria.

Vhagar soltou um rugido que não era de medo, mas de reconhecimento. Ela mergulhou através da névoa, e Lucerys a seguiu com Arrax. O que viram abaixo deles não era apenas destruição, mas uma beleza terrível. Torres de pedra negra que desafiavam a gravidade, rios de lava que brilhavam como veias de fogo na terra e uma vegetação estranha e exuberante que crescia entre as ruínas.

Eles pousaram no alto de uma dessas torres, uma plataforma vasta que um dia servira como poleiro para centenas de dragões. O silêncio ali era absoluto, uma paz que parecia sagrada.

Aemond desceu de Vhagar e caminhou até a borda, olhando para a vasta extensão da península destruída. Lucerys aproximou-se dele, sentindo uma energia vibrar sob seus pés, como se a própria terra estivesse viva com a magia antiga.

— Este é o fim do mundo — sussurrou Luke.

— Não — disse Aemond, virando-se para ele com um sorriso que Lucerys nunca tinha visto antes: um sorriso de pura esperança. — Este é o começo.

Eles passaram os meses seguintes explorando as ruínas, encontrando câmaras escondidas cheias de pergaminhos antigos, joias que brilhavam com luz própria e, o mais importante, uma paz que nenhum trono poderia oferecer. Eles construíram seu "ninho" em uma das torres mais altas, onde o vento soprava limpo e o calor da lava abaixo mantinha o frio afastado.

Em Westeros, a guerra rugia. A Dança dos Dragões consumia vidas e cidades. Rhaenyra chorava seu filho perdido, e Aegon II amaldiçoava o irmão traidor que desaparecera com a maior arma do reino. Mas ali, entre as sombras de Valíria, Lucerys e Aemond estavam além do alcance da ganância humana.

Uma noite, sob a luz de quatorze chamas vulcânicas que iluminavam o céu, Lucerys sentiu uma mudança em seu próprio corpo. Um calor diferente, uma plenitude que ele nunca havia sentido. Ele procurou Aemond, que estava polindo uma antiga adaga de aço valiriano.

— Aemond — chamou Luke, sua voz carregada de uma emoção nova.

O alfa levantou o olhar imediatamente, percebendo a mudança no aroma de Luke — o jasmim agora estava misturado com o cheiro de terra fértil e vida nova.

— O que foi? Você está sentindo dor?

Luke pegou a mão de Aemond e a colocou sobre seu próprio ventre. O silêncio na torre pareceu se aprofundar enquanto Aemond processava o que sentia sob a palma da mão.

— Um herdeiro — sussurrou Aemond, seus olhos se arregalando. — Nosso herdeiro.

— Um dragão nascido das cinzas — disse Luke, sorrindo através das lágrimas de alegria. — Ele nunca conhecerá a Fortaleza Vermelha. Ele nunca saberá o que é ser odiado por causa de sua linhagem. Ele será livre, Aemond. Como nós.

Aemond caiu de joelhos diante de Lucerys, encostando o rosto em seu ventre com uma reverência que ele nunca prestara a nenhum rei ou deus.

— Eu vou proteger vocês dois com cada gota do meu sangue — prometeu Aemond. — Este lugar será o reino dele. E nós seremos os reis de nada além do nosso próprio destino.

E assim, enquanto o resto do mundo se destruía em busca de poder, os dois príncipes renegados encontravam sua redenção. Eles eram os amantes proibidos que haviam escapado da morte, os cavaleiros que haviam trocado a glória pela paz.

Anos depois, os marinheiros que ousavam navegar perto demais das névoas de Valíria contariam histórias sobre três dragões que guardavam as ruínas — um gigante de bronze, um perolado e um terceiro, menor e de escamas douradas como o sol. Eles contariam sobre figuras que caminhavam entre as torres negras, vivendo como deuses em um mundo morto.

Mas para Lucerys e Aemond, eles não eram lendas. Eram apenas dois corações que, em meio ao fogo e ao sangue, tiveram a coragem de lutar por um amor que era, e sempre seria, indomável como o próprio dragão. A história de Westeros os esqueceria como traidores ou vítimas, mas as pedras de Valíria guardariam seu segredo para sempre: o segredo de que o amor, quando verdadeiro, é o único poder capaz de sobreviver ao fim do mundo.